Sonetos de Shakespeare em Português

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I.

Dos mais belos seres, queremos mais,

De tal forma que não finde jamais a rosa da beleza,

Mas enquanto as mais maduras decrescem com o tempo,

Seus rebentos jovens possam relembrar suas memórias:

Mas tu, contratada a seus lindos olhos,

És autossuficiente na luz de tua chama com tua beleza,

E crias a fome, onde está a abundância,

Inimiga de ti mesma, tu, que és tão doce, a ti mesma tão cruel.

Hoje frescamente ornamentas o mundo,

E pareces a única capaz de anunciar a abundância da primavera,

Mas eis que dentro de teu próprio botão enterras tua essência,

E, tolinha, ocasionas um desperdício na natureza,

Tem pena do mundo, ou então isto seria egoísmo,

Consumir o quinhão que ao mundo se deve, e isto ao túmulo, e a ti mesma.

II.

Quando tiveres completado teus quarenta anos,

E cavado sulcos profundos onde agora és bela,

Essa tua juventude tão orgulhosa, que agora todos fitam maravilhados,

Será somente um resto pisoteado, a que ninguém mais se virará para ver;

Então, indagada sobre que beleza era aquela,

Que tesouro aquele de teus dias encantadores,

Dizer que se encontram afundados nos teus olhos já opacos,

Isso seria ridículo e um elogio que ninguém entenderia.

Poderias merecer mais elogios,

Caso pudesses dizer, — “Esse meu filho

Resume toda minha reputação, e com isso me desculpa,”—

Provando com sua beleza tua herança!

Isso seria te sentires renovada quando ficares velha,

E ver teu sangue quente, ao senti-lo já gelado.

III.

Olha bem teu espelho e diga que rosto fitas ali,

O momento chegou em que esse rosto devesse formar um outro;

Cujo frescor, se não o renovares agora,

Trapacearias o mundo, tornando aquela mãe que o deveria ser, uma infeliz!

Pois quem não gostaria de ser filho teu?

Ou quem é aquele que se adore tanto,

Que possa ser o túmulo da autoestima, detendo a posteridade?

Tu és o retrato de tua mãe, e ela em ti,

Relembra a linda primavera de seus melhores dias:

Dessa maneira, verás pela janela dos anos,

Tua época dourada, apesar das rugas,

Mas se viveres, lembrada para não ter posteridade,

Morre solteira, e nesse caso tua imagem morre contigo.

IV.

Adorável esbanjadora, por que desperdiças

Contigo o legado de tua beleza?

Aquilo que a natureza dá é tão-somente emprestado, não de mão beijada,

E, sendo plena, empresta só àqueles que não são pão-duros,

Então, linda egoísta, por que abusas

Dessa tua beleza, que a ti foi dada, para que a doasses?

Avara sem proveitos, por que ficas te beneficiando

De um bem tão valioso, e apesar disso não o chegas a usufruir?

Pois, negociando apenas contigo,

A tu mesma te enganas.

E, quando a natureza te der a ordem de partida,

Que ajuste de contas poderias possivelmente fazer?

A beleza que não usastes, será contigo enterrada,

Que, se usada, deixaria viver o executante do testamento.

V.

O tempo que formou gentilmente

Aquele lindo fitar que a todos encanta,

Acabará por se auto-tiranizar,

E isso infelizmente, a quem adorável é a mais bela;

Pois o tempo que nunca para, segue inexorável do verão

Ao inverno deformado, e assim o massacra;

A seiva congelada, as folhas cheias de lustro para sempre caídas,

A beleza toda coberta de neve e desolação como palavra de ordem;

E, se lá não se quedasse o verão,

Prisioneiro líquido destilado em paredes vítreas,

Estaríamos privados da beleza.

Sequer haveria ela ou sua lembrança longínqua.

Mas as flores, apesar do inverno,

Alugam somente seus espetáculos: suas substâncias subsistem docemente.

VI.

Concluindo, não permitas que a mão rota do inverno deforme

Em ti teu verão, antes que tal ocorra,

Faças, querida, uma redoma; entesoures algures

Com tudo de positivo que a beleza possui, antes que se auto-arrase.

Isso não é uma avareza hedionda,

Pois faz feliz aqueles que voluntariamente se comprometem com esse empréstimo;

Faças uma outra igual a ti,

Ou dez vezes mais feliz, na proporção de dez para um apenas,

Dez de ti seria mais felicidade que tu,

Se dez vezes te refigurasse;

Diga-me então que poder teria a Morte, se te fosses

Mas se a posteridade te deixasse viva?

Não sejas autocentrada, pois és linda demais

Para seres a conquista da Morte, que dirá de fazeres de vermes teus herdeiros.

VII.

Veja, no Oriente, quando a esplendorosa luz do sol

Levanta sua cabeça de fogo, cada olhar aqui de baixo,

Homenageia o recém-aparecido,

Servos de olhar fixo à sua majestade sagrada;

E tendo alçado à escarpada colina celeste,

Parecendo um jovem forte na meia idade,

Mas ainda os fitadores mortais lhe adoram a opulência,

Constatando sua mais que dourada peregrinação;

Mas quando do zênite, com a carruagem enfraquecendo,

Como a idade avançada, ele declina do dia,

Os olhares, dantes tão reverentes, agora se convertem,

Do seu trajeto finalizado, e se voltam a partes outras:

Assim, tu, tão bela em teu meio-dia,

Inobservada morrerás, a menos que tenhas um filho.

VIII

Por que ouves tu música tristemente?

Aquilo que doce é, com o doce não briga, a alegria puxa alegria,

Por que tu amas aquilo que não te causa alegria?

Ou por que recebes com prazer aquilo que te enfada?

Se a harmonia de sons bem combinados,

Em sonoras uniões, ofendem tua audição,

Eles só amorosamente estão a ralhar contigo, que confundes

As partes que todas unidas a ti deveriam estar.

Veja como um acorde, lindamente casado ao outro,

Bate cada qual contra o outro em harmonia mútua;

Parecendo homem, mulher e filho,

Que, todos juntos, nota bela cantam:

Cuja canção sem palavras, sendo muitas, parecendo uma só,

Entoam para ti o seguinte: “Tu, sozinha, nada serás.”

IX

Temerosa estarás de umedecer os olhos de uma viúva

E por isso te consomes em vida solitária?

Ah! Se morreres sem filho,

O mundo te lamentará, como uma solteirona;

O mundo será tua viúva, e chorará ainda,

Que não deixastes forma alguma para trás,

Quando cada viúva em particular pode manter

Através do filho, lembrança do marido.

Veja o que um pródigo produz no mundo,

Troca só seu lugar, pois o mundo aprecia isso:

Mas jogar fora a beleza finda no mundo,

E, não sendo utilizada, o que assim fizer, assim a finda.

Não há amor por outros naquele seio,

Que a si mesmo uma tal abominação comete.

X

Que vergonha! Negue que alguém ames,

Que tão negligente és contigo mesma,

Admite que muitos te amem,

Mas que tu a ninguém o fazes, é evidente;

Pois possuis um ódio assassino,

Contra ti mesmo conspirando,

Tentando tua beleza varrer do mapa,

Que preservar teria de ser teu principal interesse.

Muda teu pensamento, que eu possa mudar de ideia!

Por que o ódio teria que ficar mais ao abrigo do que o doce amor ?

Sê tal qual és, graciosa e bondosa.

Ou ao menos a ti sejas bondosa;

Faça um outro de ti mesma, por amor a mim,

Para que a beleza possa ainda sobreviver nos teus, ou em ti.

XI

Tu fenecerás, então rápido cresças Em um de ti mesma, daquilo de que partes.

E aquele sangue fresco a que destes juventude,

Podes chamar teu, quando não mais jovem fores.

Aqui residem sabedoria, beleza e crescimento:

Sem isso, loucura, idade e fenecência.

Se todos achassem o mesmo que ti, o tempo deter-se-ia,

Eis que em sessenta anos acabaria o universo.

Que aqueles não feitos como depósito pela Natureza,

Duros, horrendos e rudes, morram eles estéreis:

A quem ela mais deu, ela proveu em excesso,

Cujo dom pleno deverias abundantemente acumular:

Ela te fez como seu selo, e quis com isso dizer,

Que deverias imprimir outros, sequer deixar essa cópia morrer.

XII

Fitando o relógio, que o tempo marca,

Vendo o bravo dia naufragado na noite lúgubre;

Constatando a violeta a murchar,

E negras madeixas tingidas de branco,

Vendo majestosas árvores de folhas despidas,

Que primeiro abrigaram a manada do calor,

E aquele esplendor do verão abundante,

Transportado num caixão, com a barba branca eriçada;

Nesse momento questiono tua beleza,

Já que deves também te ir entre as ruínas do tempo,

Já que a doçura e a beleza se esvaem,

E tão rápido se vão, quanto veem outras eclodirem,

E nada há que resista à foice do tempo,

Menos a reprodução, para enfrentá-lo, quando ele consigo te levar.

XIII

Ah, se fosses de ti mesma: mas amor, o fato é que não és mais

De ti mesma, quanto aqui é onde vives:

Contra o fim implacável deves te preparar,

E tua aparência adorável a um outro dar.

Assim, essa beleza que emprestada tomastes,

Não se extinguirá: então de novo voltarias a ser,

Tu mesma novamente, depois que te fosses,

Quando teu doce fruto tua doce forma portasse.

Quem deixaria uma tão bela casa tombar decadente,

Quando o desvelo honrado a manteria,

Contra os sopros tempestuosos dos dias de inverno,

E a cólera desoladora do córrego eterno da morte.

Oh! Ninguém senão os pródigos: Caro amor, tu sabes

Que tivestes um pai; deixa o teu filho te repetir isso.

XIV

Não é das estrelas que eu tiro o meu julgamento;

E contudo talvez seja um praticante de astrologia,

Mas não para falar da sorte boa ou má,

De pestes, fomes, ou tipos de estação:

Nem posso eu ler o destino,

Determinando a cada qual seu quinhão,

Ou prognosticar aos príncipes se tudo irá correr bem,

Predizendo o que vislumbro nos céus:

Mas dos teus olhos meu conhecimento tiro,

E (estrelas constantes), neles posso enxergar tal arte,

Como a verdade e a beleza florescerão juntos,

Se de te guardares só para ti te convertesses:

Ou então isso eu prognostico de ti,

Que o teu fim será o término e a catacumba da verdade e da beleza.

XV

Quando considero tudo que cresce,

E permanece perfeito somente um pouco,

Que esse universo todo mostra só espetáculos,

Cuja secreta influência das estrelas comentam,

Quando percebo que os homens como as plantas aumentam,

Vivificados e controlados pelo mesmo céu;

Na sua seiva jovem se gabando, no ápice declinando,

E usam seu bravo estado só de memória;

Então essa ideia de mutabilidade

Te coloca tão plena de juventude ante meu olhar,

Onde o tempo cheio de desperdício debate com a decadência,

Para transmutar teu dia de juventude em noite nefasta;

E, guerreando com o Tempo, por amor a ti,

Enquanto ele tira de ti, eu te inscrevo nova.

XVI

Mas por que não és mais eficiente

Ao guerrear livremente esse tirano sangrento, o Tempo?

E te fortalecer em tua decadência,

Com meios mais potentes do que minhas áridas rimas são capazes?

Agora estás no apogeu;

E muitos jardins lindos, ainda não totalmente conhecidos,

Agradecidamente portariam teus montes de flores vivas,

Muito mais adequadamente que a sua cópia esboçada:

Assim em linhas de vida deverias viver

Que isso, o lápis do Tempo, ou minha caneta aprendiz,

Nem em valor intrínseco, nem por fora belo,

Podem te dar vida aos olhos dos homens;

Te revelar em nada te alteraria;

E é tu que tens de viver, desenhada por teus próprios doces talentos naturais.

XVII

Quem crerá nos meus versos no futuro,

Plenos que estão todos de teus altos merecimentos?

Apesar de bem o saberem os céus, serem só um túmulo

Que oculta mais tua vida, e não revela sequer a metade do que vales.

Se transmitir pudesse eu a beleza dos teus olhos,

E em números nunca dantes vistos, chegar a enumerar todas as tuas graças,

As épocas vindouras diriam por certo, como mente este poeta,

Tais coisas celestiais jamais foram propriedade de rostos terrenos.

Assim os meus papéis, amarelados com o tempo,

Seriam muito zombados, como velhos mais cheios de lábia que verdade;

E tudo que te é devido, chamado de loucura de poeta,

E o metro forçado de algum delírio antigo:

Mas se algum filho teu vivesse então,

Viverias duas vezes;— tanto nele, quanto nos meus versos.

XVIII

Deveria te equiparar a um dia de verão?

És tanto mais adorável quanto mais disposta:

Os ventos rudes fazem tombar as flores em maio,

E a duração do verão é breve:

Às vezes o tempo é quente demais,

E outras vezes os seus dias dourados se vão,

E todo o belo do belo às vezes se esvai,

Por acaso, ou porque muda a natureza, sempre,

Mas o teu verão eterno não decairá,

Nem perderá possessão daquela beleza que tua é;

Nem a morte se vangloriará que andas debaixo de sua sombra,

Quando em linhas eternas ao tempo tu assomas;

Enquanto puderem os homens respirar, ou vistas ver,

Enquanto durar isso, e isso te der a vida.

XIX

Tempo devorador, cega um pouco tuas garras de leão,

E faça a terra engolir a sua própria doce criação;

Arranca os dentes afiados das mandíbulas selvagens do tigre;

E queima o fênix longevo em seu próprio sangue;

Faças estações alegres e tristes, enquanto voas embora,

E faça o que bem entenderes, Tempo de pés ligeiros,

Para o mundo de uma maneira geral, e para todas as tuas doçuras evanescentes,

Mas uma coisa, um crime hediondo, eu te proíbo terminantemente:

Ó, não insculpas com tuas horas a testa linda de minha amada,

Nem desenhes ali linhas com tua caneta antiga;

Ela em sua carreira imaculada permitas,

Para um padrão de beleza aos homens que se sucedem.

E contudo, faças o teu horror, Tempo velho: apesar de tua maldade,

Meu amor para sempre viverá, fresco e jovem em versos meus.

XX.

Um rosto de mulher, com a própria mão da natureza insculpida,

Tem tu, a dona absoluta de minha paixão;

Um doce coração de mulher, mas não comumente dotada

Da mudança fútil, como é costume das falsas mulheres;

Um olho mais brilhante que os delas, menos falso em reviravoltas,

Dourando cada objeto onde repousa;

Um homem em tonalidades, controlando todas as tonalidades,

Que rouba os olhos dos homens, e as almas femininas espanta.

E quanto a ser mulher, foste tu a primeira criada;

Até que a Natureza, quando te fazia, encantada ficou,

E além disso realizar, a mim de ti derrotou,

Pois acrescentou uma coisa à minha simplicidade.

Mas já que ela te escolheu para o prazer das mulheres,

Meu seja o teu amor, e o uso do teu amor de seu tesouro.

XXI

Assim, comigo se passa diferente, não como aquela musa,

Motivada a versificar por uma beleza pintada;

Que os próprios céus, para mais ornamento usa,

E que com todo belo ensaia o seu belo;

Complementando tudo com uma bombástica comparação,

Com o sol, a lua, com a terra e as ricas joias do mar.

Com as primeiras flores da primavera e todas as coisas exóticas

Que os ares do céu nesse domo enorme abarcam.

Ó, que eu, verdadeiro no amor, com a verdade somente escreva

E então, creia-me, meu amor é tão lindo,

Quanto qualquer outra criança nascida de mãe, apesar de não tão brilhante

Quanto aquelas velas douradas afixadas no firmamento celeste;

Que eles falem mais do que seria natural falar;

Eu não elogiarei, para igual a eles não me mostrar.

XXII

Meu espelho não me persuadirá de que sou idoso,

Enquanto constatar que tu e a juventude são um;

Mas quando em ti as rugas do tempo eu perceber,

Então que venha logo a morte a me expiar os dias.

Pois toda aquela beleza que te reveste,

É tão somente o que encapa meu coração,

Que em ti vive, como o teu em mim;

Não posso pois ser mais velho que ti:

Ah, então amor, tenha um tal cuidado contigo mesma,

Quanto eu, não por mim, mas por ti o faria;

Levando o teu coração, que eu manterei tão preciosamente

Como se fosse uma babá cuidadosa de tudo velando o bebê.

Não imagine em teu coração quando o meu morrerá;

Tu me deste o teu, para não mais ser devolvido.

XXIII

Tal qual ator amador no palco,

Que com seu medo é substituído em sua parte,

Ou algo de feroz cujo excesso de raiva,

Em sua abundância de força, fraqueja internamente;

Assim eu, medroso com falta de confiança, me esqueço de dizer

A cerimônia perfeita do rito amoroso,

E na própria força do meu amor pareço decair,

Sobrecarregado com o peso do próprio poder do meu amor.

Ah, deixa então que os meus livros sejam a eloquência

E mudos presságios do meu peito transbordante;

Que roga por amor e tenta ser recompensado

Mais do que aquela língua que mais já se expressou.

Oh, aprenda a ler o que o amor silente escreveu;

Ouvir com os olhos pertence ao fino senso do amor.

XXIV

Meus olhos viraram pintor, e com isso esboçaram

A beleza de tuas formas nas telas do meu coração:

E meu corpo nada mais que a moldura onde tudo isso está impresso,

E a perspectiva é a melhor técnica do pintor.

Pois através do pintor deves perceber sua perícia,

Para achar onde tua verdadeira imagem esboçada está

Que na loja do meu peito está ainda dependurada,

Que tem suas janelas brilhantes com teus olhos.

Agora veja que coisa boa a visão fez a si mesma:

Meus olhos desenharam tua forma, e a tua para mim

São janelas para meu peito, através do qual o sol

Adora bisbilhotar, para te fitar ali.

E, contudo, falta a seguinte inteligência aos olhos para completar sua arte,

Eles desenham só o que veem, e não sabem o que se passa no coração.

XXV.

Que aqueles que estejam favorecidos pela sorte,

Orgulhem-se de honra pública e status bombástico,

Enquanto que eu, barrado pela Fortuna de tais triunfos,

Desconhecido, mais me alegro naquilo que mais honro.

Os favoritos dos grandes príncipes e poderosos se pavoneiam,

Mas como o girassol aos olhos do sol;

E neles mesmos os seus orgulhos jazem enterrados,

Pois que com um olhar aborrecido suas glórias perecem.

O doloroso guerreiro, famoso por suas proezas,

Após mil vitórias, uma vez derrotado,

Está do livro da honra completamente obliterado,

E tudo aquilo esquecido, por que ele tanto lutou:

Então, feliz eu, que amo e sou amado,

De onde não posso remover, nem ser removido.

XXVI

Senhor do meu amor, a quem em vassalagem

Seu mérito me indicou inequivocamente o dever,

A ti envio essa embaixada por escrito,

Para demonstrar o dever, e não para mostrar meu espírito fino.

Tão grande é o dever, e senso tão pouco quanto o meu,

Pode parecer coisa pouca, por falta de palavras que o demonstrem;

Exceto que espero uma boa opinião de ti

Nas considerações de tua alma que, toda nua, assim a considerará:

Até que a estrela que me guia,

Me dê qualquer indicação,

E ornamente mais meu amor em trapos,

Me tornando mais digno de teu doce respeito:

Então poderei me orgulhar de como te amo,

Até então, não aparecerei onde tu possas me cobrar.

XXVII

Cansado de tanta labuta, corro para a cama,

O caro repouso para os membros fatigados de tanto viajar;

Mas começa então uma viajem mental,

Para cansar minha mente, quando já se esgotou o corporal:

Pois então meus pensamentos (desde longe onde me quedo)

Começam zelosa peregrinação até ti,

E mantém minhas pálpebras a cair completamente escancaradas,

Fitando a escuridão, que os cegos miram:

Só que a visão imaginária de minh’alma

Apresenta a tua imagem ao meu olhar sem visão,

A qual, tal qual joia engastada na noite horrenda,

Torna linda a negra noite e sua velha face nova.

Assim que, de dia meus membros, de noite minha mente,

Para ti e para mim, não encontram descanso.

XXVIII

Como posso então voltar em boas condições,

Se do benefício do descanso sou privado?

Quando a opressão do dia não é aliviada pela noite,

Mas o dia oprimido com a noite, e a noite com o dia?

E cada qual, apesar de inimigos ao domínio um do outro,

Se dão mãos a me espezinhar,

Um pelo trabalho, o outro reclamando

Como trabalho distante, e cada vez mais de ti.

Eu conto ao dia, para lhe agradar, que tu és brilhante,

E lhe fazes um favor quando as nuvens toldam os céus:

Assim também adulo a escura noite:

Quando as estrelas piscando não brilham, tu fazes brilhar a noite.

Mas diariamente os dias encompridam os meus sofrimentos,

E, à noite, cada uma delas parece fazer as minhas saudades mais fortes.

XXIX

Quando caio em relação à fortuna e aos olhos da humanidade,

Eu, completamente sozinho, pranteio o meu estado de abandono,

E importuno os Céus surdos com meus gritos inúteis,

E me vejo a mim mesmo amaldiçoando meu estado,

Me desejando como algum outro mais rico e com futuro,

A ele parecido, como ele cheio de amizades,

Desejando ter a arte desse homem e a amplidão de vistas daquele outro,

Com o que eu mais aprecio, fico então menos contente;

E contudo, nessas considerações quase me desprezando,

Felizmente te recordo — aí meu estado

(Como a cotovia ao despontar do dia, surgindo diante

Da terra embrumada), canta hinos nos portais dos céus;

Pois que o teu doce amor lembrado traz tais riquezas,

Que eu então zombo de trocar o meu estado com reis.

XXX

Quando a seções de doce pensamento silente

Eu chamo de volta o passado,

Suspiro a falta de muitas coisas que procurei,

E com velhas mágoas nesses novos tempos choro a perda de tempo que não volta mais,

Então meus olhos, desacostumados a chorar, encho d’água,

Por amigos preciosos, já embutidos na noite sem fim da morte,

E choro novamente a tristeza há muito tempo cancelada do amor,

E lamento a tristeza de muitas visões desiludidas.

Suspiro então dores idas,

E pesadamente me embalo de dor em dor,

Na triste lembrança de um lamento já pranteado,

Que parece pago de novo, como se já não o houvera sido.

Mas se nesse meio-tempo penso em ti, cara amiga,

Todas as perdas são restauradas, e a tristeza cessa.

XXXI

Teu seio está agraciado com todos os corações,

Os quais eu, que não os tinha, supus mortos;

E seus reinos de amor e todas as formas amorosas,

E todos aqueles amigos que eu julgava há muito arquivados.

Quantas lágrimas sagradas e obsequiosas

O amor religioso roubou aos olhos meus,

Como juros dos mortos, que agora parecem,

Tão-somente coisas distantes, que em ti ocultos jazem!

Tu és o túmulo onde o amor há tempos vive,

Dependurados como os troféus de meus amores passados,

Cujas partes de mim a ti entregaram;

Aquilo que era devido a muitos é agora somente teu:

As suas imagens eu amava, e as vejo em ti,

Como tu (todos eles) tens todo o meu total.

XXXII

Se sobreviveres meu dia feliz,

Então aquele folgazão da Morte me cobrirá de pó os ossos,

E irás quiçá mais uma vez revisitar,

Essas pobres rudes linhas de teu amante falecido,

Compare-as com as melhores de hoje em dia:

E apesar de serem superadas por todas as penas,

As reserve por causa do meu amor, não pelas suas rimas,

Excedidas pelas alturas de homens mais felizes.

Ah, então que sobre para mim apenas esse pensamento amante!

“Tivesse a musa do meu amigo crescido com a sua crescente idade,

Uma criação melhor que essa seu amor teria trazido,

A marchar em esquadrões mais bem equiparados:

Mas já que ele morreu e outros poetas foram provados melhores,

Lerei os de outros por seus estilos, os dele por seu amor.”

XXXIII

Já vi e constatei tantas e tão gloriosas manhãs,

Adulando os cumes das montanhas com olhar soberano,

Beijando com rosto dourado verdes vales,

Dourando pálidos córregos com uma divina alquimia;

E logo permitindo às nuvens mais baixas cavalgar,

Como um feio ancinho seu rosto celeste,

E do mundo esquecido, seu rosto esconder,

Correndo invisível para o oeste com esta desgraça:

Foi assim mesmo que o meu sol brilhou certa manhã.

Com todo o esplendor triunfante em minha testa;

Mas apagou! Lamentável! Foi meu somente durante uma hora,

E a nuvenzinha vizinha o obliterou de mim agora,

E contudo o meu amor em nada o despreza por isso,

Sóis desse mundo podem se manchar, quando o sol dos céus se mancha.

XXXIV

Por que prometeste dia tão lindo,

E me fizeste viajar sem uma capa,

Para deixar que nuvens chatas me pegassem no caminho,

Ocultando a tua lindeza em suas fumaças horripilantes?

Não basta que perfures as nuvens,

Para de minha face varrida de tempestade secar a chuva,

Pois nenhum homem pode de tal remédio falar bem,

Que fecha a ferida e não cura a origem da calamidade:

Nem pode tua vergonha curar a minha tristeza;

Apesar de te arrependeres, contudo a minha perda permanece:

O arrependimento do que ofendeu dá parco alívio

Àquele que carrega a forte cruz da ofensa:

Ah, mas são pérolas as lágrimas que teu amor verte agora,

E ricas são, e resgatam todas as más ações.

XXXV

Não mais te entristeças com o que fizeste:

As rosas têm espinhos e fontes de prata lama;

Nuvens e eclipses mancham tanto o sol quanto a lua,

E uma úlcera infame mora na flor mais doce.

Todos cometemos erros, eu sou especialista nisso,

Autorizando o teu erro através de comparações,

Sempre me corrompendo, salvando com isso teu deslize,

Escusando teus pecados, mais que teus pecados seriam:

Pois eu trago ao tribunal a tua falta sensual,

(Teu partido contrário é o teu advogado)

E contra mim mesmo começo uma ação legal:

Existe uma tal guerra civil no meu amor e ódio,

De que eu devo ser um cúmplice,

Àquela doce ladra que de mim rouba amargamente.

XXXVI

Deixe-me confessar que devemos ser dois,

Apesar de nossos amores em si serem unos:

Assim estas manchas que comigo permanecem,

Sem a tua ajuda, tem de ser carregadas só por mim.

Nossos dois amores dizem a um só respeito,

Mas nas nossas vidas uma amargura separada,

Que, enquanto não alterando o efeito unificado do amor,

Contudo, ainda assim, rouba doces horas de felicidade ao amor.

Eu posso não te reconhecer para sempre;

A menos que minha chorada culpa te faça envergonhada;

Nem tu com bondade pública me honrares,

A menos que tomes essa honra do teu nome:

Mas não o faças: Eu te amo de uma tal maneira,

Que tu, sendo minha, minha é tua boa fama.

XXXVII

Assim com um pai já decrépito se delicia

Ao ver sua criança ativa brincar e correr,

Assim eu, já mortificado pelos golpes da fortuna adversa,

De teu valor e verdade todo meu conforto tiro:

Pois que se verdade, nascimento, inteligência ou riqueza,

Ou quaisquer desses, ou todos ou mais ainda,

Se referindo a ti são em ti coroados,

Eu tomo meu amor nesse sentido:

Então não mais sou aleijado, pobre e desprezado.

Enquanto que de tal sombra vier tal substância,

Que eu em tua abundância me basto,

E com fração de tua glória já sobrevivo.

Veja lá o que de tudo é melhor, isso mesmo te quero em ti;

Meu desejo é realizado; então feliz dez vezes de mim.

XXXVIII

Como poderia faltar assunto para minha musa criar,

Enquanto respiras, que vertes em meu verso

Teu próprio doce argumento, excelente demais

Para que qualquer papel vulgar o ensaie?

Ah, dê a ti mesma os agradecimentos, se algo em mim

Que valha a pena olhar possa permanecer ante o teu olhar;

Pois quem é tão bobo que não possa escrever a ti,

Quando és tu mesma que trazes à luz a invenção?

Se fosses a décima musa, dez vezes mais valia terias,

Que as primeiras e velhas nove que os rimadores costumam puxar para assunto;

E aquele que se arrime em ti, que traga

Assuntos eternos que sobrevivam às eras;

Se minha delicada musa se agradar desses dias curiosos,

A dor será minha, mas o louvor irá todo para ti.

XXXIX

Ah, como posso tudo que vales adequadamente declamar,

Quando és a minha melhor parte?

O que poderia resultar em me elogiar a mim mesmo?

E o que seria senão o que é meu somente, quando te elogio?

Mesmo só por isso vivamos separados,

E nosso caro amor perca o nome de uno,

Para que com essa separação eu te possa dar

Aquilo que te é devido, que apenas tu mereces.

Oh, ausência, que tormento serias

Não fosse que tuas amargas férias ensejassem

O tempo entreter com pensamentos de amor,

(Que tempo e pensamentos tão docemente enganam)

E porque tu ensinas a fazer dois de um,

Louvando ela aqui, que lá longe se queda!

XL.

Apodere-se de todos os meus amores, amor, sim, de todos;

O que terias tu então, a mais que tens agora?

Amor nenhum, amor, que possas chamar de verdadeiro amor;

Todo o meu era teu, antes que tivesses esse mais

Então se por meu amor receberes o meu amor,

Eu não te posso culpar por meu amor usares;

Mas sejas ainda culpada, se te enganas a ti mesma

Por provares voluntariosamente o que tu mesma recusas.

Eu te perdoo esse roubo, doce ladra,

Apesar de te roubares com isso toda minha pobreza;

E contudo, sabe o amor, é uma tristeza maior

Aguentar os males do amor, que a injúria desconhecida do ódio.

Graça lasciva, na qual todo perverso se mostra bem,

Me mate de amarguras; e no entanto inimigos não devemos ser.

XLI

Aquelas gracinhas de chantagens que a liberdade comete,

Quando por vezes estou ausente do teu coração,

Combinam bem com tua beleza e com teus anos,

Pois a tentação ainda te segue atrás;

Doce és, e portanto algo a ser conquistado,

Bonita sois, portanto a serdes cobiçada;

E quando uma mulher quer seduzir, quem é aquele nascido de mulher,

Que a deixará de lado até que ela tenha conseguido o que queria?

Ai de mim! Ainda assim poderias ter o meu lugar evitado,

E ter ralhado com tua beleza e a afoiteza da juventude?

Que te conduzem em suas loucuras até ali,

Onde tens necessariamente que escolher entre uma verdade dupla;

Dele, com tua beleza o tentando para ti Tua, com tua beleza me traindo.

XLII

Que tu o tenhas, não é só por isso que estou triste,

E contudo digamos que eu o amasse caramente;

Que ele te possua, é o principal de minha mágoa,

Uma perda no amor que mais próximo me toca.

Sois pois amantes ofensivos, assim é que vos desculparei:—

O amas porque sabes que o amo:

E por minha causa assim mesmo ela me abusa,

Aguentando que meu amigo por minha causa aprove.

Se eu te perder, minha perda é ganho do meu amor,

E, perdendo-a, o meu amigo se deparou com aquela perda;

Ambos se encontrando, a ambos perco,

E ambos por minha causa me sobrecarregam com essa cruz:

Mas eis o que pode alegrar no meio disso: o meu amigo e eu somos um;

Doce adulação! Então ela me ama a mim apenas.

XLIII

Quanto mais eu pisco, então melhor vejo.

Pois durante o dia os olhos veem coisas que não interessam;

Mas, em sonhando, eles te veem

E obscuramente luminosos, no escuro se dirigem sozinhos;

Então tu, cuja sombra das sombras torna luminoso,

Como faria a forma de tua sombra um espetáculo feliz,

Ao dia claro com a tua muito mais límpida luz,

Quando para olhos que não veem, tua sombra de tal forma brilha!

Como (eu digo) ficariam os meus olhos tão felizes,

Te fitando debaixo da luz solar,

Quando na noite profunda tua sombra somente sugerida,

Através do sono pesado em olhos que não veem, assombram ainda?

Todos os dias são noites para se ver, até que eu te veja,

E noites, dias brilhantes, quando os sonhos te revelam ante mim.

XCIV

Se a plúmbea substância de minha carne pensamento fosse,

A distância injuriosa não estorvaria meu caminho;

Pois então, apesar da distância, eu seria transportado

Desde limites longínquos, até onde te quedas.

Não importaria então, mesmo que meu pé tivesse ficado

No lugar da terra mais distanciado de ti,

Pois o ágil pensamento se transporta por sobre terra e mar,

Logo que pensasse o lugar onde tivesse querido estar.

Mas, ah! Me mata o pensamento que pensamento não seja,

Para saltar grandes distâncias de léguas quando tu te vais,

Mas isso, tantas terras e águas formadas,

Devo aguardar o tempo passar, com o meu lamento:

Nada recebendo dos lerdos elementos

Senão pesadas lágrimas, medalhas da dor de ambos:

XLV

Os outros dois, o leve ar e o fogo purificante,

Ambos estão contigo, onde quer que eu me quede;

O primeiro é meu pensamento; o outro, meu desejo.

Esses presentes-ausentes escorregam em movimento rápido

Pois que quando esses elementos mais rápidos se vão,

Em suave embaixada amorosa, até onde te encontras,

A minha vida, se constituindo dos quatro, com apenas dois

Se afunda para a terra, opressa de melancolia;

Até que retorne a composição da vida

Daqueles dois rápidos mensageiros que de ti regressaram,

Que agora mesmo voltaram a mim, assegurando

Que ias bem de saúde, me contando tudo:

Isto dito, eu me alegro; mas em seguida, não mais alegre,

Eu os envio rápido de volta, e logo fico triste.

XLVI

Minha vista e meu coração travam mortal combate,

Sobre como dividir a conquista de tua visão:

O meu olho barraria do meu coração o retrato de tua visão,

Meu coração, ao meu olho a liberdade daquele direito.

Meu coração acha que tu nele te quedas,

(Um segredo jamais penetrado com olhos penetrantes)

Mas o defensor nega a acusação,

E diz que nele a tua bela aparição se queda.

A decidir a peleja é convocada

Uma busca dos pensamentos, que todos ligados ao coração;

E com o seu veredito fica determinado

A metade do olho límpido, e parte do caro coração:

Assim, o devido ao meu olho é tua parte externa,

E o direito do meu coração, o teu amor interior de coração.

XLVII

Entre minha vista e meu coração estabeleceu-se um acordo,

E agora cada qual faz ao outro um favor:

Quando meu olho está faminto por um olhar,

Ou o coração almejando amar com suspiros que ele mesmo abafa,

Com o retrato do meu amor então a minha visão entra em festa,

E ao banquete esboçado convida o coração:

De outra feita, o meu olho é o hóspede do coração,

E em seus pensamentos de amor colabora:

Assim, quer seja por teu retrato ou por meu amor,

Estás, mesmo longe, presente sempre ainda comigo:

Pois não estás mais distante que o alcance de meus pensamentos,

E eu estou unido a eles, e eles contigo;

Ou se eles dormem, teu retrato na minha vista

Desperta o meu coração para a alegria de vista e coração.

XLVIII

Como eu era cuidadoso ao encetar caminho,

De cada coisinha empurrar para trás das grades mais firmes

Para que, para o meu uso, pudesse ficar guardada,

Por mãos incautas, seguramente encaixotadas!

Mas tu, comparada a quem minhas joias nada são,

Meu melhor conforto, agora minha maior angústia,

Tu, melhor das mais queridas, e o único a que ligo,

És deixada à mercê de cada ladrão vulgar.

A ti eu não tranquei em cofre algum,

Exceto onde não estás, apesar de sentir que lá estás ,

Dentro do gentil compartimento do meu peito,

De onde à vontade podes sair e entrar;

E até daí serás roubada temo muito,

Pois a verdade se prova ladra para um tão valioso prêmio.

XLIX

Contra aqueles tempos, se jamais aparecerem,

Quando te vir agastada com os meus defeitos,

porque o teu amor jogou todo seu tesouro

E foi chamada uma auditoria por conselhos abalizados;

Contra aqueles tempos, quando passares como uma estranha,

E mal me cumprimentares com aquele sol, teus olhos,

Quando o amor, convertido daquilo que era,

Achar razões e mais razões para uma gravidade distante;

Contra aquele tempo me escondo eu aqui,

Com o conhecimento daquilo que mereço,

E levanto contra mim mesmo essa minha mão,

Para ser o próprio guardião das razões cheias de peso de tua causa;

Para me deixar ao pobre de mim, tens as forças das leis,

Já que, porque amo, não posso alegar causa alguma.

L.

Como vou pesado caminho afora,

Quando o que busco — o fim de minha cansativa viagem —

Ensina assim àquele conforto e repouso a dizer,

“Assim longe são os quilômetros medidos de tua amiga!”

O animal que vai me levando, cansado e cheio de tristeza,

Pé ante pé vai indo, de carregar também esse meu peso;

Vai se arrastando caminho afora, de levar esse peso extra dentro de mim.

Como se por instinto o miserável soubesse,

Que quem o cavalga não gosta de velocidade, sendo feito de ti:

A espora sangrenta já não o pode atilar

Que às vezes a cólera enfia em sua ancas,

Que me responde pesadamente com um gemido.

Mais doloroso para mim que a esporeada em seu flanco;

Pois que esse mesmo gemido me lembra

Que minha tristeza jaz em frente, e que minha alegria já para trás ficou.

LI

Assim pode o meu amor perdoar a vagarosa ofensa

Do meu torpe portador, quando me vou de ti:

De onde estás, por que haveria eu de ir embora às carreiras?

Até a volta, que necessidade haveria de correrias?

Ah, mas retornando em seguida, que desculpa achará meu pobre animal,

Quando a extrema rapidez parecerá coisa vagarosa somente?

Então, mesmo que montado no vento eu o esporearia;

Na velocidade alada eu não encontraria movimento bastante:

Então não haveria cavalo algum que com meu desejo emparelhe;

Portanto, o desejo, sendo confeccionado a partir do amor mais perfeito,

Vai relinchando (não sendo bobo) em sua feroz carreira;

Mas o amor, por amor, assim perdoará meu pangaré;

Já que de ti partindo voluntarioso ele se foi devagar,

Mas para ti eu correrei, e soltar-lhe-ei as rédeas.

LII

Assim sou como os ricos, cuja abençoada chave

Lhes pode trazer ao seu doce tesouro trancado,

O qual ele não vai ficar olhando à toa,

Para não estragar o gosto de um raro prazer.

Por isso também é que as festas são tão solenes e tão raras,

Já que espaçadamente acontecendo, ao longo do ano,

São colocadas como pedras de valor, poucas de cada vez,

Ou como as jóias mais raras num colar.

Assim é o tempo que te guarda, como minha arca de tesouro,

Ou como o armário que oculta a bela veste,

Para fazer algum momento especialíssimo sobre os demais,

Podendo exibir novamente o seu orgulho enclausurado.

Abençoada és, cujo valor dá margem a,

Sendo tida a triunfar, e na saudade, a esperançar.

LIII

Qual a tua substância, de que és feita,

Que milhões de estranhas sombras te atendem?

Haja vista que cada um tem uma, a sua própria sombra

E tu, que és apenas uma, podes emprestar a todas as sombras.

Descreva Adônis, e esse retrato É só pobre imitação tua:

Coloque no rosto de Helena toda a arte da beleza,

E tu, em penteados e roupas gregas, estarás de novo pintada.

Falando da primavera, e as colheitas afluentes do ano;

Um deles mostra uma parcela de tua plenitude,

O outro com tua abundância se assemelha,

E tu, em toda abençoada forma que conhecemos.

Em toda a graça externa tens parte,

Mas como nenhuma, nenhuma és tu, em coração constante.

LIV

Ah, quanto mais a beleza parece bela,

Com aquele doce ornamento que o dá a verdade!

A rosa parece bela, mas mais bela a estimamos

Por causa daquele doce odor que nela vive.

As parasitas nas plantas têm um tom tão profundo

Quanto a tintura perfumada das rosas.

Também possuem tais espinhos e igualmente lascivas,

Quando o hálito do verão revela os seus botões mascarados:

Mas, apenas para sua virtude são suas aparências,

Elas, sem serem desejadas, vivem e, desrespeitadas, murcham;

Morrem por si mesmas. Doces rosas assim não o fazem;

De suas doces mortes são os perfumes mais doces feitos:

E assim tu, linda e bela jovem,

Quando tudo isso fenecer, com versos tua verdade será destilada.

LV

Nem o mármore, nem os monumentos banhados a ouro

Dos príncipes, sobreviverão a essa minha poderosa rima;

Mas tu brilharás mais luminosa nisso aqui contido

Que uma pedra descuidada, cheia das marcas do tempo prostituído.

Quando a guerra arrasadora derrubar estátuas,

E revoluções arrancarem com os trabalhos dos pedreiros,

Nem Marte com sua espada, nem o fogo rápido da guerra queimarão

A lembrança vivente de tua memória.

Contra a morte e a inimizade que tudo oblitera

Marcharás tu; e o teu elogio achará lugar,

Até mesmo às vistas de toda posteridade

Que a esse mundo gasta até o fim último.

Assim, até o julgamento final em que te levantes

Viverás nisso e morarás em todos os olhos dos amantes.

LVI

Doce amor, renova tuas forças; que não seja dito,

Que tua lâmina é menos afiada que o apetite,

Que tão somente é aliviado pela alimentação,

E amanhã volta com o mesmo ímpeto:

Assim sê tu, amor: apesar de hoje encheres plenamente

Os teus olhos famintos, até que eles pisquem de plenitude,

Amanhã vê novamente, e não trucides

O espírito do amor com chatice eterna.

Deixa que esse triste ínterim seja como o oceano,

Que separa a praia onde dois recém-casados

Vêm diariamente às dunas, para que, ao verem

O retorno do amor, a visão possa ser tanto mais abençoada;

Ou chama isso de inverno, o qual, estando cheio de cuidados,

Torna a chegada do verão três vezes mais bem-vinda, mais rara.

LVII

Sendo escravo teu, o que tenho a fazer senão atender

Aos momentos e ocasiões do teu desejo?

Eu não tenho nenhum tempo precioso absolutamente a gastar,

Nem nenhum serviço a fazer, até que o ordenes.

Nem ouso eu ralhar com aquele tempo que não passa mais,

Enquanto eu, minha soberana, fico marcando hora por ti,

Nem acho que a amargura da ausência seja dura,

Quando uma vez que tenhas despedido teu servo;

Nem sequer ouso eu questionar com o meu pensamento ciumento

Onde possas estar, ou fazer suposições sobre os teus negócios,

Mas, como um triste escravo, fico e nada penso,

Exceto que onde estás agora, tornas aqueles com quem estás felizes:

Tão tolo é o amor, que em sua vontade

(Apesar de tudo poderes fazer) ele nada acha ruim.

LVIII

Deus me livre, que primeiro me fez teu escravo,

De em pensamentos controlar os teus momentos de prazer,

Ou de ficar te pedindo contas do que fizestes,

Sendo teu vassalo, obrigado a guardar tua discrição:

Ah, deixe-me sofrer (que aguardo uma chamada tua),

A ausência aprisionada de tua liberdade,

E a paciência, obediente ao sofrimento, detenha cobranças

Sem te acusar de causar prejuízos.

Fica onde quiseres; o teu alvará é tão forte,

Que podes privilegiar o teu próprio tempo:

Faz o que quiseres, a ti ele pertence

E tu mesmo é que tens que te auto-perdoar de crimes.

Eu tenho só de esperar, apesar de esperar assim ser o inferno;

E não culpo o teu prazer, seja ele bom ou mau.

LIX

Se nada existe de novo, mas aquilo que é agora,

E que dantes foi, como nossos cérebros são enganados,

Que, tentando inventar, trazem errado à luz

O segundo nascimento de uma criança já dantes concebida!

Ah, se a história pudesse me mostrar,

Mesmo fosse em quinhentas revoluções solares,

A tua imagem em algum livro antigo,

Onde primeiro o mental tivesse sido registrado!

Que eu pudesse ver o que dizia a velha palavra,

A essa tua formosura de porte.

Se eles disseram melhor, ou melhor nós,

Ou se não houve mudança alguma.

Ah, que certeza tenho eu, de que antigas inteligências

A sujeitos piores deram seu elogio admirador.

LX

Assim mesmo como as ondas avançam para a praia de pedrinhas,

Assim mesmo nossos minutos correm para seus fins;

Cada qual trocando de lugar com aquele que vem antes.

Em sequência laboriosa, tudo vai seguindo em frente.

A natividade, uma vez já esteve no apogeu da luz,

Se arrasta à maturidade, onde sendo coroada,

Eclipses maldosos lutam contra sua glória,

E o Tempo, que deu, agora arruína o seu presente.

O Tempo trespassa o florescer que havia colocado na juventude.

E imprime os paralelos na testa da beleza;

Se alimenta das raridades da verdade da natureza,

E nada há que se levante, exceto que sua foice vá podar,

E contudo, aos tempos em esperanças, meu verso se quedará,

Louvando teu valor, apesar de sua mão cruel.

LXI

Será esta tua vontade, que tua imagem mantenha abertas

Minhas pesadas pálpebras na noite fatigada?

Queira tu que meus descansos sejam alquebrados,

Enquanto que sombras, que contigo se assemelham, zombam de minha visão?

Será o teu espírito que envia desde ti

Tão longe de tua casa, para minhas ações espionarem;

Para descobrir vergonhas e horas ociosas em mim,

A amplidão e tendência de teus ciúmes?

Ah, não! o teu amor, apesar de grande, tão grande não é;

É o meu próprio amor que mantém o meu olho desperto;

É o meu próprio verdadeiro amor que derrota o meu descanso,

Fazendo-o vigia sempre por ti;

Por ti eu velo, enquanto tu acordas alhures,

De mim tão longe, de outros tão perto.

LXII

O pecado ao auto-amor possui todo meu ser,

E toda minh’alma e todas as minhas partes.

E diga-se que para esse pecado não existe solução,

Ele está tão enraizado no meu coração.

Eu acho que não existe um rosto tão gracioso quanto o meu,

Nem forma tão verdadeira, nem verdade tão importante,

E para eu definir o que seria o meu valor,

A todos os outros em todos os aspectos supero.

Mas quando meu espelho me mostra como sou de verdade,

Todo alquebrado e partido com chamuscada idade,

O meu auto-amor eu leio completamente às avessas,

Amar a si mesmo dessa forma seria uma iniquidade.

És tu (eu mesmo) que para mim mesmo eu elogio,

Pintando minha idade com a beleza dos teus dias.

LXIII

Um dia o meu amor será como agora sou eu,

Com a injuriosa mão do tempo esmagada e gasta;

Quando as horas chuparem o seu sangue e encherem a sua testa,

Cheia de linhas e rugas; quando aquela sua manhã de juventude

Tiver viajado para íngreme noite da idade;

E todas aquelas belezas pelas quais ela é agora possuída,

Tiverem desaparecido, ou sumido de vista,

Tendo roubado o tesouro de sua primavera;

Contra uma tal época eu agora me fortifico

Contra a faca cruel da idade que a tudo arrasa,

Que sua memória jamais será esquecida

A do meu doce amor, apesar de o ser minha vida de amante.

A sua beleza nessa negras linhas será vista,

E elas viverão, e ela nelas, verde ainda.

LXIV

Quando já vi com a terrível mão do tempo desfigurado

O custo riquíssimo das eras enterradas e gastas

Quando por vezes vejo orgulhosas torres arrasadas,

E o cobre eterno, escravo de rixas mortais;

Quando já vi o oceano faminto ganhar terreno no reino da praia,

E o terreno sólido se firmar no reino líquido,

Aumentando a quantidade com a perda, e a perda com a quantidade;

Quando já vi um tal intercâmbio de estados,

Ou o próprio estado arrasado até a decadência;

A ruína foi que assim me ensinou a ruminar —

Que o Tempo virá e me arrancará o meu amor.

Esse pensamento é como uma morte, que não pode senão

Chorar por possuir aquilo que teme perder.

LXV

Já que até o cobre e à pedra e ao mar infindo,

Mas é a triste mortalidade que os controla a todos,

Como é que, com esse furacão, terá o amor qualquer chance,

Cuja ação não é mais forte que uma flor?

Ah, como é que o hálito doce do verão irá se sustentar

Contra o assédio violento dos dias demolidores,

Quando as próprias rochas impenetráveis tão fortes não são,

Nem portões de aço tão robustos, mas o tempo os corrói a todos?

Ah, meditação temerosa! Onde, gostaria de saber,

É que a joia mais preciosa do Tempo, da arca do Tempo poderá ser poupada?

Ou que poderosa mão poderá parar esse seu pé ligeiro?

Ou quem pode impedir essa devastação que ele causa na beleza?

Ninguém, a menos que esse milagre forte seja,

Que em tinta preta o meu amor possa brilhar luminoso.

LXVI

Fatigado de tudo isso, peço pela morte clemente, —

Como por exemplo ver o merecimento dado a alguém que nasceu mendigo,

E aquela nulidade predestinada ser colocada em honras,

E a mais pura fé ser infelizmente trapaceada,

E a honra dourada ser vergonhosamente atribuída errada,

E a virtude virgem ser rudemente estuprada,

E a perfeição correta maldosamente desgraçada,

E a força da plenitude por embustes mancos desfeita,

E a arte ser calada pela autoridade,

E a loucura (como um médico) controlando a perícia,

E a verdade simples chamada erroneamente de simplicidade,

E o bem cativo à mercê do mal capitão:

Exausto desse, deles me iria de bom grado,

Exceto que, se morresse, deixaria o meu amor abandonado e só.

LXVII

Ah, por que com uma infecção deveria ela viver,

E com sua presença agraciar a impiedade,

Que o pecado dela deva se aproveitar,

E se adornar com a sua sociedade?

Por que deveria a pintura falsa imitar o seu rosto,

E roubar visão morta para sua coloração viva?

Por que deveria a magra beleza buscar indiretamente

Rosas de sombras, já que verdadeira é a rosa dela?

Por que deveria ela viver, agora que a Natureza foi à bancarrota,

Sem sangue a bombear pelas veias cheias de vida?

Pois ela não tem recurso algum exceto os dela,

E, orgulhosa de muitos, vive dos ganhos dela.

Ah, é ela que a natureza armazena, para mostrar que riqueza ela tinha,

Nos dias há muito idos, antes desses últimos tão ruins.

LXVIII

Assim é o rosto dela o mapa de dias que se foram,

Quando a beleza vivia e morria como as flores o fazem agora,

Antes que esses sinais bastardos de beleza tivessem nascido,

Ou ousassem habitar numa testa vivente;

Antes que as tranças louras dos mortos,

O direito dos sepulcros, fossem raspadas fora,

Para viver uma segunda vida, em cabeça segunda,

Antes que a peruca morta da beldade fizesse uma outra alegre:

Nela aquelas horas antigas e sagradas são vistas.

Sem qualquer ornamento, ela mesma é verdadeira

Não fazendo verão com um verde alheio,

Não roubando a um de outrora para enfeitar a sua beleza nova;

E ela como um mapa a Natureza armazena,

Para mostrar à Arte falsa o que era a beleza nos dias de antanho.

LXIX

Aquelas partes de ti que o mundo fita

Nada deixam a desejar que o pensamento dos corações possa completar:

Todas as línguas (as vozes da alma) te dão esse tanto, o merecido.

Falando apenas a verdade crua, assim mesmo como até inimigos elogiam

O seu exterior com o elogio externo é coroado;

Mas aquelas mesmas línguas que te dão assim o teu devido,

De outras formas destróem esses elogios,

Vendo mais longe que o olho mostrou.

Eles olham dentro da beleza de tua mente,

E isto, adivinhando, eles medem por tuas ações;

Então (miseráveis) em seus pensamentos, apesar de seus olhos terem sido bondosos,

À tua linda flor acrescentam o cheiro pútrido das ervas daninhas:

Mas porque o teu perfume não chega à altura do teu show

A solução é essa,— é que de uma forma muito comum tu vives.

LXX

Que és mal falada não será o teu defeito.

Pois o alvo das más línguas foi e sempre será as lindas;

O ornamento da beleza é sempre suspeito,

Um corvo que voa no doce ar dos céus.

Então tu sejas boa, as más línguas somente aprovam

Ainda mais o teu valor, sendo a pretendida do momento:

Pois o vício mais infame ama os botões de flor mais doces,

E tu mostras um apogeu puro e sem manchas.

Tu passastes da armadilha de dias mais jovens,

Ou não conquistada ou vitoriosa sendo assaltada;

E contudo esse teu elogio não pode assim ser o teu elogio,

Para amarrar a inveja para sempre inflada:

Se suspeita de malfazer não mascarasse o teu show,

Então tu apenas deverias possuir os reinos dos corações.

LXXI

Não mais pranteies por mim, quando morto eu estiver,

Quando ouvirás o sino melancólico e impertinente

Avisando ao mundo que me fui

Desse mundo vil, com mais vis vermes morar:

Não, e se leres essa linha, não te lembres

Da mão que a escreveu; pois que eu te amo tanto,

Que em teus doces pensamentos seria olvidado,

Se pensar em mim fosse motivo para dor.

Ah, se (eu digo) olhares esse verso,

Quando eu estiver misturado ao pó,

Nem mesmo, te rogo, recites o meu nome;

Mas deixe que o teu amor mesmo com minha vida termine:

A menos que o sábio mundo deva penetrar o teu gemido,

E zombar de ti sobre mim depois que eu tiver me ido.

LXXII

Oh, a menos que o mundo te dê a tarefa de recitar

Qual era o mérito que em mim vivia, que deverias amar

Após minha morte, — caro amor, completamente me olvides

Pois que tu em mim nada valorosa podes te mostrar;

A menos que inventasses alguma mentira virtuosa,

Para fazer mais por mim do que eu mereço,

E dependurar mais elogio em mim morto

Que a sórdida verdade ela mesma conferiria:

Ah, a menos que o teu verdadeiro amor possa parecer falso nisso,

Que tu, por amor, fales bem de mim inveridicamente,

Meu nome seja enterrado onde meu corpo o foi,

E não mais viva para envergonhar a ti ou a mim,

Pois que eu estou envergonhado com o que apresento,

E tu também o deves estar, para amar coisas que nada valem.

LXXIII

Aquela época do ano tu notarás em mim

Quando folhas amarelas, ou nenhuma, ou poucas, restam

Naqueles galhos tiritantes de frio,

Coros nus e arruinados, onde último trinavam doces passarinhos

Em mim vê tu o crepúsculo de um tal dia Como quando depois de o sol se pôr no oeste,

Ao qual, pouco a pouco, a negra noite vai ganhando terreno

A segunda identidade da morte, que a tudo sela em descanso.

Em mim vês o lusco-fusco de uma tal luz,

Que nas cinzas de sua juventude repousa,

Como no leito de morte onde deve perecer,

Consumido com aquilo que o nutria.

Isso percebes que faça o teu amor mais forte,

Que ames bem aquilo que logo terás que deixar.

LXXIV

Mas fica despreocupada: Quando aquela cruel prisão

Sem qualquer possibilidade de fiança me levar,

A minha vida tem nessa linha algum interesse,

Que como uma lembrança ainda contigo ficará.

Quando isso vires, verás a parte mesma

Que foi consagrada a ti.

O que é pó só pode voltar ao pó, o que lhe é devido;

O meu espírito é teu, a melhor parte minha:

Assim perdeste apenas a escória da vida,

A parte dos vermes, meu corpo estando morto;

A conquista covarde da faca de um miserável,

Porcaria de mais para que tu o recordes.

O que isso vale é o que isso contém,

Que é isso, e isso contigo fica.

LXXV

Assim és para meus pensamentos, como a comida para a vida,

Ou como uma chuvarada doce no momento preciso para a terra,

E pela tua paz sou tão aguerrido Quanto um avaro o é por sua riqueza:

Agora orgulhoso como quem goza, e logo depois

Achando que a idade ladra vá roubar o seu tesouro:

Agora achando que o melhor possível é estar contigo sozinha,

Outras vezes, que é melhor que todo mundo veja o meu prazer:

Às vezes feliz de estar em festa com tua visão,

E logo depois, faminto por uma olhada;

Nem tendo nem procurando deleites,

A menos daquilo que de ti seja tido, ou de ti tomado.

Assim eu sofro e me sacio dia a dia,

Ou como um glutão para tudo, ou com tudo perdido.

LXXVI

Por que está o meu verso tão vazio de rompantes novos?

Tão longe de variações ou de tempos diferentes?

Por que, com o tempo, não vislumbro eu Novos métodos e variantes inéditas?

Por que escrevo eu ainda uno, sempre o mesmo

E mantenho a invenção em uma região conhecida,

Que cada palavra quase me conhece por nome,

Mostrando o seu nascimento e de onde proveio?

Ah, saiba, querido amor, eu escrevo sempre de ti,

E tu e o amor são ainda o meu argumento;

Então todo o meu melhor é vestir de roupagem nova palavras velhas,

Gastando novamente o que gasto já foi;

Assim como o sol diariamente é novo e velho,

Assim também está o meu amor a dizer o que é dito.

LXXVII

Teu espelho te mostrará como tua beleza se consome,

O relógio de como se esvaem teus preciosos minutos:

Folhas soltas trarão o impresso de tua mente

E desse livro este aprendizado podes degustar.

As rugas que teu espelho verdadeiramente te mostrará,

De túmulos hediondos te darão memórias;

Pelo sombrio adiantamento do teu relógio podes saber

Como o tempo, como um ladrão, progride para a eternidade.

Veja aquilo que tua memória não pode conter

E confia isso a essas folhas em branco, e verás

Que essas crianças criadas, nascidas do teu cérebro,

De outra e nova forma se relacionam com tua mente .

Essas folhas, tão frequentemente quanto veja-as,

Delas te aproveitarás, e muito enriquecerás o teu livro.

LXXVIII

Tão frequentemente te invoquei como musa,

E um apoio tão lindo encontrei para o meu verso,

Que toda caneta estrangeira pegou minha mania,

E sob ti a poesia deles dispersa.

Teus olhos, que ensinaram os mudos a cantarem,

E a pesada ignorância a alto voar,

Acrescentou penas às asas dos sábios,

E deu à graça uma dupla majestade.

E contudo estejas super-orgulhosa daquilo que eu compilo,

Cuja influência é tua, e de ti proveio:

Nos trabalhos dos outros apenas remendas o estilo

E suas artes com tuas doces graças ficam melhoradas;

Mas tu és toda minha arte e aumentas,

Tão alto quanto o conhecimento, a minha rude ignorância.

LXXIX

Enquanto que apenas eu pedia tua ajuda,

Meu verso apenas tinha toda tua feminilidade adorável;

Mas agora minha graciosa prolificidade decaiu,

E minha musa doente é substituída por uma outra.

Eu admito, doce amor, que o adorável argumento que forneces

Merece o trabalho de uma caneta melhor;

E contudo, aquilo que de ti o teu poeta inventa,

Ele rouba de ti, e te devolve tudo novamente.

Ele te empresta a virtude, e essa palavra ele roubou

Do teu comportamento; a beleza ele te dá,

Mas a encontrou no teu rosto; ele nada pode dizer

Em elogio a ti, senão o que em ti vive.

Então não lhe agradeças pelo que ele diz,

Já que o que ele te deve tu mesma o recompensas.

LXXX

Ah, como sinto vertigens, quando de ti escrevo,

Sabendo que um espírito melhor usa teu nome,

E no elogio dele gasta toda sua força,

Para me fazer calado, falando de tua fama!

Mas já que o teu valor (tão amplo quanto o oceano)

Tanto leva a vela humilde quanto a mais orgulhosa,

Meu barquinho ínfimo, muito inferior ao dele,

No teu amplo domínio aparece todo empinadinho.

A tua menor ajuda vai me deixar navegando e não afundar.

Enquanto que ele nas tuas profundezas insondáveis navega;

Ou, naufragando, eu sou um barco sem valia,

Ele de elevada estatura, e de orgulhoso mundano;

Então se ele triunfar e eu for arrojado fora,

O pior que poderia acontecer seria;— o meu amor foi minha falência.

LXXXI

Ou vivo eu para fazer teu epitáfio,

Ou sobrevives tu e eu podre na terra estarei;

Daqui de tua memória a morte nada pode levar,

Apesar de em mim tudo ficar esquecido doravante.

Daqui em diante teu nome terá a vida imortal.

Apesar de mim, uma vez ido, a todo mundo devo morrer:

A terra só pode me dar um túmulo comum,

Quando tu ficarás sepultada aos olhos dos homens.

O teu monumento será o meu gentil verso,

Que olhos ainda não nascidos lerão;

E línguas que virão, teu modo ensaiarão

Quando todos os que respiram nessa terra se tiverem ido:

Viverás ainda (tal virtude tem minha caneta)

Ali onde o hálito mais tem hálito,— na boca mesma dos homens.

LXXXII

Eu admito que não casastes com minha musa,

E podes portanto sem problemas ler

As dedicadas palavras que escritores usam

De seus assuntos lindos, abençoando cada livro.

És tão linda em conhecimento quanto em coloração,

Encontrando no teu valor um limite muito além de meu louvor;

E portanto és forçada a procurar novamente

Algum outro selo mais ajustado e melhorado.

E faça isso, amor; e contudo quando eles tiverem inventado

Com toques forçados que a retórica pode conceder,

A tua beleza verdadeira seria condignamente simpatizada

Em verdadeiras palavras simples, pelo teu amigo que a verdade te diz,

E as grosseiras pinturas deles poderiam melhor ser utilizadas

Onde falta sangue nos rostos; em ti é só um abuso.

LXXXIII

Nunca senti que necessitavas ser pintada,

E por isso nunca te pintei a beleza:

Eu achei, ou achei que achava, que excedias

Aquele pouco que um poeta pudesse fazer:

E portanto eu permaneci quieto ao falar de ti

Que tu mesma, tão destacada sendo, bem poderia mostrar

O quanto falta à uma pena moderna

Falando do valor, que valor em ti reside.

Esse silêncio atribuístes a meu pecado

Que deverá se provar minha maior glória, tendo permanecido mudo,

Pois eu não prejudico a beleza, ficando mudo

Quando outros dariam a vida e falariam disso, criando um túmulo,

Há mais vida em um só dos teus lindos olhos

Que ambos os teus poetas poderiam em elogio criar.

LXXXIV

Quem é aquele que mais diz? Quem pode dizer mais

Do que esse rico louvor, — Que apenas tu és tu?

Em que outro lugar emparedado haverá o lugar

Que pudesse demonstrar onde vive o teu igual?

Uma penúria extrema naquela caneta mora,

Que aos seus sujeitos não confere alguma glória;

Mas aquele que de ti escreve, se ele conseguir dizer

Que tu és tu, dignifica a sua história de uma tal maneira,

Que ele somente copie o que está em ti escrito,

Não piorando aquilo que a natureza fez tão claro,

E uma tal imitação dará fama à sua habilidade,

Tornando o seu estilo por todas partes admirado.

Tu às tuas lindas benções acrescentas uma praga,

Gostando de louvores, que torna teus louvores piores.

LXXXV

A minha musa muda fica quieta e comportada

Enquanto que comentários de teu louvor, ricamente compilados,

Se esmeram em suas habilidades com caneta dourada,

E frases preciosas inspiradas por todas as musas.

Eu penso bons pensamentos, enquanto que outros escrevem boas palavras.

E, como sacristão analfabeto, ainda digo “Amém”

A cada hino que espíritos capazes compõem.

Em forma polida de uma bem refinada caneta:

Te ouvindo assim louvada, eu digo, “É isso mesmo, é verdade”,

E ao máximo de louvores acrescento mais ainda;

Mas isso é nos meus pensamentos, cujo amor a ti,

Apesar de as palavras virem por último, mantém a sua hierarquia na frente.

Então respeite outros pelo fôlego das palavras

E a mim pelos meus pensamentos mudos, falando em efeito.

LXXXVI

Terá sido a grande vela orgulhosa estufada de seu grande verso,

Mirando para o prêmio de ti preciosa,

Que enterrou no meu cérebro meus maduros pensamentos,

Fazendo do ventre onde cresciam seu túmulo?

Terá sido o espírito dele, por espíritos ensinado a dissertar

Acima de um tom normal, que me pegou e matou?

Não, não foi nem ele, nem seus cupinchas à noite

Lhe ajudando, que meu verso assombraram.

Não foi nem ele, nem aquele fantasma afável e familiar

Que à noite o engana com inteligência,

Que podem se vangloriar de vitoriosos do meu silêncio;

Não estava eu doente de qualquer medo dessas partes.

Mas quando tua fisionomia encheu a linha dele

Então faltou assunto para mim; foi isso que enfraqueceu a minha.

LXXXVII

Adeus! És cara demais para mim que sejas minha,

E é muito provável que conheças quanto vales;

O alvará do teu valor te libera;

Minhas ligações a ti estão por demais determinadas

Como posso te Ter, a menos que o permitas?

E quanto a essas riquezas, onde está o meu mérito?

A causa desse rico presente em mim está faltando,

E assim a minha patente vai de volta cambaleante.

Tu mesmo destes teu próprio valor não conhecendo,

Ou então fui eu, a quem o destes, com quem te enganastes;

Assim o teu grande presente, tendo sido outorgado por erro,

Volta para casa de novo, ao ser feito um julgamento melhor.

Assim eu te tive, como um sonho adulador

Ao dormir um rei, mas, acordando, não é nada disto.

LXXXVIII

Quando estiveres disposta a dispor de mim,

E colocar o meu mérito à zombaria,

Do teu lado contra mim mesmo lutarei,

E te provarei virtuosa, apesar do teu perjúrio:

Estando plenamente ciente de minha própria fraqueza,

Do teu lado posso contar a história,

Dos meus erros ocultos, dos quais estou manchado;

Assim tu, ao me perderes, muita glória terás:

E eu com isso também sairei ganhando;

Pois que dirigindo todos os meus pensamentos de amor a ti,

As injúrias que a mim mesmo eu posso fazer

Fazendo vantagem a ti, a mim são vantagem e meia.

Tal é o meu amor, a ti tanto pertenço

Que pelo teu direito eu assumirei todos os males.

LXXXIX

Diga que me abandonastes por algum erro,

E eu comentarei sobre essa ofensa:

Fale de meu ponto fraco, e eu imediatamente me detenho;

Contra tuas razões não me defendo absolutamente.

Não podes, amor, me desgraçar nem a metade,

De falares em uma mudança desejada,

Quanto eu logo me desgraço: sabendo tua vontade,

Eu estrangulo a familiaridade, e estranho ficarei;

Me ausentarei de tuas caminhadas; e em minha língua

Teu doce amado nome não mais morará;

A menos que eu (profano demais) — o possa danificar,

E por acaso comentar nosso caso cancelado.

Por ti, contra mim prometo debater,

Pois não devo mais amar aquele a quem odeias.

XC

Odeie-me então quando queiras; se em algum momento, nesse;

Agora, quando o mundo está todo combinado contra mim,

Se junte a essa fortuna mutante, e faça-me sucumbir de vez.

E não voltes para um já uma vez perdido:

Ah! não o faças, quando o meu coração sobreviveu a essa tristeza,

Não voltes para trás em uma dor superada,

Não dês a uma noite de ventanias uma manhã de chuvas,

Para prolongar a decisão de terminar.

Se me deixares, que não seja eu o último,

Quando outras pequenas amarguras já tiverem me arrasado,

Mas venha de assalto; assim eu só provarei

De uma vez só a totalidade da força da sorte;

E outros tipos de dores, que agora parecem dor,

Comparados com a perda de ti, assim não serão.

XCI

Alguns se vangloriam de seus nascimentos, outros de suas habilidades

Alguns de suas riquezas, outros de suas forças corpóreas;

Alguns de suas roupas, apesar do modismo ridículo;

Alguns de seus falcões e galgos, outros de seus cavalos;

E cada humor tem aquele prazer que com ele casa,

Onde ele concentra uma alegria acima de tudo o mais;

Mas esses todos não são por certo minha medida,

A eles eu supero em um melhor de tudo.

Para mim, o teu amor é melhor que o nascimento nobre,

Mais precioso que a riqueza e mais orgulhoso do que o custo das roupas,

De mais encanto que são falcões e cavalos;

E, a ti tendo, de todo orgulho que o homem é capaz eu me vanglorio

Miserável, contudo, em um só aspecto:

Que tudo isso podes tirar, e me tornar o mais miserável de todos.

XCII

Mesmo que tudo faças para te perderes de mim,

Durante toda a vida minha és decerto;

E a vida não mais permanecerá que no teu amor,

Pois que do teu amor ela depende.

Então não preciso eu temer o pior dos males,

Quando até mesmo o menor deles dá cabo de mim.

Vejo que um estado melhor a mim pertence

Do que aquilo que de teu humor depende;

Não me podes aborrecer com mente inconstante,

Já que a minha vida de teu movimento depende.

Ah, que feliz título tenho eu,

Feliz de ter o teu amor, feliz de morrer!

Mas o que será tão perfeito assim que manchas não teme?

— Podes ser falsa, e contudo eu não o sei:

XCIII

Assim pois viverei eu, supondo-te verdadeira,

Como um marido enganado; assim o rosto do amor

Pode ainda me parecer amor, apesar de recém alterado;

Teu olhar comigo, teu coração alhures:

Pois que ódio em teu coração não pode viver.

E portanto nisso eu não verificarei tua mudança.

Mas em muitos casos a história do coração falso

Está estampada no rosto, em estranhas cismas, rugas e caretas:

Mas os céus em tua criação decretaram

Que no teu rosto apenas o doce amor deveria se estabelecer;

Quais fossem teus pensamentos ou funcionamentos de coração,

Os teus lábios nada diriam senão doçura.

Quão parecida com a maçã de Eva não será tua beleza,

Se a tua doce virtude não for a mesma que a tua aparência?

XCIV

Os que têm o poder de ferir e não o fazem,

Que não fazem aquilo que mais aparentariam fazer,

Que, aos outros movendo, são eles mesmos como pedras,

Imóveis, frios e lentos à tentação;

Eles corretissimamente são os que herdam as graças dos Céus

E controlam as riquezas da Natureza de gastos;

São os senhores e donos de si mesmo,

Enquanto que os outros, só os criados de suas excelências.

A flor do verão é doce para todo o verão

Apesar de para si mesma ela ser só nascer e fenecer;

Mas se aquela flor ficar doente,

A erva mais daninha já a deixou muito para trás:

Pois que suas ações tornam amargas as coisas mais doces:

Lírios podres cheiram pior que os matinhos.

XCV

Que doce e adorável tornas a vergonha,

Que como uma úlcera alojada na rosa fragrante,

Marca a beleza do teu nome em flor!

Ah, em que doçuras ocultas teus pecados!

Aquele que contar a história dos teus dias,

Fazendo comentários lascivos dos teus divertimentos,

Não pode te criticar, exceto através de um elogio:

Te nomeando só com isso ele abençoa o mal que falaria.

Ah, que mansão possuem esses vícios,

Que para sua habitação te escolheram!

Onde o véu da beleza a toda mancha cobre,

E todas as coisas ficam perfeitas, que os olhos podem observar!

Cuidado, caríssima, com esse grande privilégio:

A faca mais afiada, se mal usada, perde o corte.

XCVI

Alguns dizem que o teu erro é a juventude; outros, seres caprichosa;

Alguns dizem que a tua graça é a juventude, e doces folguedos;

Tanto erros quanto graças são amados por mais e por menos:

Tu fazes de erros graças que a ti recorrem.

Como no dedo de uma rainha entronada

A mais reles joia pode aparecer bem;

Assim também são aqueles erros que em ti são observados

Em verdades traduzidos e estimados como coisas verdadeiras.

Quantas ovelhas poderia o áspero lobo devorar,

Se como uma ovelha ele pudesse se parecer!

Quantos fitadores poderias levar embora,

Se quisesses utilizar a tua força total!

Mas não o faças; Eu te amo de uma tal maneira,

Que tu, sendo minha, minha é tua boa fama.

XCVII

Como foi a minha ausência como um inverno

De ti, o prazer do ano evanescente!

Que enregelamentos senti, que escuros dias vi!

Que desolação de velho inverno por toda parte!

E contudo, fora isso, que tempo de verão,

O outono transbordante, com grande plenitude,

Portando a faustosa carga do maduro,

Como ventres enviuvados após a morte dos maridos;

E contudo toda essa abundância me parecia

Apenas a esperança de órfãos, e fruto sem pai;

Pois que verão e seus prazeres provêm de ti,

E, se tu te fores, os pássaros mesmos ficam mudos;

Ou, se cantarem, ficam tão chatos,

Que as folhas empalidecem, temendo a proximidade do inverno.

XCVIII

De ti me ausentei na primavera,

Quando o variegado outubro, vestido em todo seu garbo,

Vertia o espírito da juventude em todas as partes,

Que até Saturno pesado ria e com ele brincava.

E contudo, nem o canto dos passarinhos, nem o doce cheiro

De diferentes flores em odores ou tonalidades

Podiam me contar uma historia de verão,

Ou de seus orgulhosos colos as arrancarem onde cresciam:

Nem eu me estarreci ante os lírios brancos,

Nem elogiei o profundo vermelho das rosas;

Elas eram tão somente doces, tão somente presenças de encanto,

Desenhadas a partir de ti; tu, o padrão de todas aquelas.

E contudo parecia inverno ainda, e tu longe,

Eu, como tuas sombras, com essas brincava.

XCIX

Ralhei com a presumida violeta;—

Doce ladra, de onde roubaste esse teu doce que perfuma,

Senão do hálito do meu amor? O orgulho púrpura

Que em teu rosto suave para ter um matiz habita

O tingiste toscamente das veias do meu amor.

O lírio eu condenei por tua mão, e botões de manjerona roubaram o teu cabelo:

As rosas medrosamente sobre espinhos se quedavam,

Uma rubra de vergonha, outra branca de desespero:

E uma terceira, nem vermelha nem branca, a ambas roubou.

E a esse roubo acrescentou teu hálito;

Exceto por esse roubo, apesar de todo orgulho de seu crescimento,

Que uma úlcera vingativa a consuma até a morte.

Mais flores vi ainda, e contudo nenhuma

Que seu doce e perfume não tivesse de ti furtado.

C

Aonde estás, Musa, que esquecestes tão longo

De falar daquilo que todo o teu poder te dá?

Gastas toda tua fúria em alguma cantiga indigna,

Obscurecendo o teu poder, dando à luz assuntos reles?

Voltes, musa esquecida, e redima diretamente,

Em ritmo gentil, o tempo tão à toa gasto;

Cante ao ouvido que os teus cantos ama,

E que dá à tua pena tanto habilidade quanto argumento.

Levanta-te, Musa manhosa, e vá pesquisar o rosto do meu doce amor,

Se o tempo gravou ali alguma ruga;

Se alguma, que seja uma sátira à decadência,

E que faça com isso os estragos do tempo por toda parte desprezados.

Dê fama ao meu amor mais rápido do que o Tempo consome a vida;

E detenhas assim a sua foice e faca hediondas.

CI

Ah, Musa vagabunda, como te corrigirás

Por teres negligenciado a verdade tingida de beleza?

Tanto a beleza quanto a verdade dependem do meu amor;

Assim também tu, e com isso estás dignificada.

Respondas, oh, Musa: não dirás quiçá,

“Que a verdade não necessita de cores, tendo já cor definida,

E a beleza de nenhum lápis, para colocar a verdade na beleza;

Mas o melhor é o melhor, se a ele nada for misturado?”—

Por que ela não necessita de louvores, ficarás acaso muda?

Não desculpes dessa forma o silêncio; por que cabe a ti

Lhe fazer viver muito mais além de um túmulo dourado,

E ser louvada de eras vindouras.

Então trabalhes, Musa: Eu te ensino como

Lhe fazer parecer eternamente então o que ela é agora.

CII

O meu amor está fortificado, apesar de aparentemente mais fraco;

Eu não amo menos, apesar de menos parecer;

Aquele amor é só mercadoria cuja riqueza se mede

Pelo que o proprietário da língua publica por toda a parte.

O nosso amor era novo, e então apenas na primavera,

Quando eu o cumprimentava com os meus cantos;

Como canta o rouxinol na vanguarda do verão,

E detém a sua flauta no decurso de dias mais maduros:

Não que o verão esteja menos agradável agora

Do que quando os seus hinos lamentosos trouxeram a noite,

Mas que música selvagem pesa em cada galho,

E doçuras que ficam comuns demais perdem seu caro encanto.

Portanto eu, como ela, às vezes me calo

Porque não te chatearia com minha canção.

CIII

Ai de mim! Que pobreza produz minha Musa,

Que tendo tal amplidão para seu orgulho mostrar,

O argumento, todo nu, por si só é mais valoroso,

Que quando a ele acrescento meu louvor

Ah, não me culpes, se mais não pude escrever!

Olhe teu espelho e ali aparece um rosto

Que de muito supera minha tosca invenção,

Ofuscando minhas linhas e me isolando em desgraça.

Não seria pois pecado, então, tentando melhorar,

Estragar o assunto que originalmente era lindo?

Pois não existe lugar algum para onde se direcionem meus versos,

Que tua graça e teus dons cantar;

E muito, muito mais do que cabe nos meus versos,

Teu próprio espelho te mostra, ao mirares dentro dele.

CIV

Para mim, bela amiga, não podes envelhecer jamais,

Pois tal como eras quando primeiro te conheci,

Tal é ainda a tua beleza. O frio de três invernos

Sacudiu das florestas o orgulho de três verões;

Três lindas primaveras viraram outono amarelo

No processo das estações eu vi;

Três perfumes de Abril em três Junhos quentes se consumirem,

Desde que fresca te vi, que ainda és verde.

Ah! a beleza ainda, como um ponteiro de relógio,

Rouba de sua figura, e parece que se deteve;

Assim teu doce matiz, que me parece ser o mesmo,

Tem movimento, e é o meu olho que pode estar enganado.

Por medo disso, ouça tu que da idade és desconhecida,

Antes que tivesses nascido, morta estava a beleza de verão.

CV

Não seja o meu amor chamado de idolatria,

Nem apareça minha amada como um ídolo,

Já que todas parecidas são minhas canções e louvores,

De uma, para uma, ainda assim e para sempre será.

Bondoso é meu amor hoje, e amanhã bondoso,

Ainda constante em excelência constante;

Portanto, o meu verso, confinado à constância,

Expressando uma coisa, deixa de fora a diferença.

Linda, boa e verdadeira é todo argumento que uso,

Linda, boa e verdadeira, variando para outras palavras;

E nessa mudança toda minha invenção é gasta,

Três temas em um, que me permite tão grande amplidão.

Linda, boa e verdadeira conviveram frequentemente sós,

Que três, até agora, nunca tinham juntos se mantido.

CVI

Quando nas crônicas dos tempos idos

Vejo as descrições das mais belas criaturas vividas,

E a beleza se revestindo da bela rima antiga,

Nos louvores de donzelas mortas e bravos cavalheiros,

Então no elogio do melhor da doce beleza,

De mão, de pé, lábios, rostos e testas,

Vejo que suas penas antigas teriam expresso

Aquela mesmíssima beleza que agora possuis.

Assim são seus elogios meras profecias

Desse nosso tempo agora, todas te anunciando;

E já que eles viram com olhar tão adivinhador,

Não tinham suficiente habilidade para descrever ainda teu valor:

Pois nós, que percebemos agora esses dias presentes,

Temos olhos para admirar, mas nos falta boca para louvar.

CVII

Nem meus próprios medos, nem a alma profética

Do mundo todo sonhando com coisas vindouras,

Poderiam ainda a posse do meu verdadeiro amor controlar,

Assumida como multa para fim determinado

A lua mortal suportou o seu eclipse

E os tristes videntes zombam de seus próprios presságios;

As incertezas se coroam agora como certezas,

E a paz proclama olivas de uma era do sem fim.

Agora com as gotas desse tempo de bálsamos

Meu amor parece fresco e a Morte a mim se subscreve,

Já que apesar dela nessa pobre rima eu viverei,

Enquanto ela insultar tribos morosas e mudas.

E tu nisso acharás teu monumento,

Quando as plumas dos tiranos e túmulos de bronze se tiverem gastado.

CVIII

O que existe no cérebro que possa sair em tinta e letras,

Que já não tenha te cristalizado a ti meu verdadeiro espírito?

O que haverá de novo a dizer, de novo a ser registrado,

Que possa expressar ou o meu amor, ou o teu caro mérito?

Nada, doce moça; e contudo como preces divinas,

Eu devo dizer de novo as mesmíssimas;

Não achando que as coisas velhas sejam velhas, tu minha, e eu teu.

Assim mesmo quando primeiro consagrei teu precioso nome.

Que o amor eterno no invólucro fresco do amor

Não sinta o pó e o dano da idade,

Nem dê às necessárias rugas margem,

Mas faça da antiguidade para sempre seu pajem;

Encontrando o primeiro lampejo do amor que ali nasceu,

Onde o tempo e a forma externa a mostrariam morta.

CIX

Ó, não digas nunca que fui de coração falso,

Apesar da ausência parecer fazer minha chama parecer isso!

Tão facilmente partiria eu de mim mesmo,

Quanto de minha alma, que no teu peito mora:

Essa é a minha casa do amor: Se eu me afastei

Como aquele que viaja, para lá eu volto de novo;

Justo com o tempo, e não trocado com o tempo,—

De tal forma que sou eu quem trago água para minhas manchas.

Não creias nunca, apesar de poder ser parte de minha natureza

Todas as fraquezas que assaltam todos os tipos de sangue,

Que pudesse ela tão escandalosamente ser manchada,

Para considerar como nada toda a tua soma enorme de bondade;

Pois nada é o que chamo a todo esse enorme universo,

Menos a ti, minha rosa; nele és tudo que possuo.

CX

Ai de mim, afinal é verdade, eu vaguei daqui para ali,

E me fiz variegadamente visto,

Sujei meus próprios pensamentos, vendi barato aquilo que me era mais caro,

Fiz de novas afeições velhas ofensas.

O que é bem verdade, é que eu fitei a verdade

De esguelha e estranhamente; mas, por tudo que acima está,

Essas vacilações deram ao meu coração uma outra juventude,

E tentativas frustradas te provaram o melhor do meu amor.

Agora tudo terminou, aconteça o que acontecer para sempre:

Não mais o meu apetite vou atormentar,

Em novas tentativas, para tentar uma amiga mais antiga,

Uma Deusa no amor, a quem estou restrito.

Então me dê as boas vindas, em seguida ao meu céu o melhor,

Ao teu puro e muito amante peito mesmo.

CXI

Ah, por minha causa ralhes tu com a Fortuna,

A deusa culpada de minhas perversas ações,

Que não tomou melhor conta de minha vida,

Que meios públicos, que maneiras públicas geraram,

Daí meu nome recebeu um estigma,

E a partir daí minha natureza quase se submete

Àquilo em que ela opera, como a mão de quem trabalha em tinturas:

Tenha pois dó de mim e queira que eu me renove:

Enquanto isso, como um paciente obediente, eu beberei

Poções de antibiótico, contra minha forte infecção;

Não há amargura que eu ache amarga,

Nem um castigo duplo, para corrigir a correção.

Tenha pois dó de mim, cara amiga, e eu te asseguro

Que até mesmo a tua piedade já basta para me curar.

CXII

O teu amor e a tua dó preenchem os efeitos impressos deixados

Que o vulgar escândalo imprimiu na minha testa;

Pois que hei de ligar com quem me chama de bem ou mal,

Se tu não olhares o meu mal, e permitires o meu bem?

Tu és o meu-todo-mundo, e eu devo tentar

Conhecer minhas vergonhas e louvores a partir de tua língua;

Ninguém mais para mim, nem eu para ninguém vivo,

Que de aço sejam meus sentidos, para a mudança, para o certo ou para o errado.

Em um abismo tão profundo eu jogo todo cuidado

Por vozes alheias, que o meu sentido de audição

Esteja suspenso tanto para o crítico quanto para o adulador.

Veja como eu disponho de tudo com meu desprezo;—

Estás tão profundamente estabelecida nos meus propósitos,

Que o mundo todo ao redor eu julgo morto.

CXIII

Desde que te deixei, minha visão está na minha mente;

E aquilo que me governa por aí

Abandona sua função e parcialmente está morto,

Parece que vê, mas com efeito está apagado;

Pois que não transfere mais forma alguma ao coração

De pássaro, de flor, de forma, a todos ela tranca;

Dos seus objetos vivos a mente não tem parte,

Nem a visão apreende aquilo que cai em seu campo;

Pois que se ela vir a coisa mais rude ou mais gentil,

O sabor mais doce ou criatura mais deformada,

A montanha ou mar, dia ou noite,

Corvo ou pomba, ela lhes dá a todos a tua feição,

De mais incapaz, repleta de ti,

A minha mais verdadeira mente torna assim a minha outra falsa.

CXIV

Seja porque minha mente esteja coroada contigo

E beba a praga dos reis, essa adulação,

Ou diga eu que minha visão me conta a verdade,

E que o teu amor lhe ensina essa alquimia,

De fazer de monstros e de coisas indigestas

Tais querubins que se parecem ao teu doce ser,

Criando de todo o mal um perfeito melhor,

Tão rápido quanto os objetos caiam no campo visual?

Ah, digamos que seja o primeiro; é a adulação na minha mirada,

E minha grande mente muito alegremente a consome:

O meu olho sabe muito bem aquilo que combina com seu gosto,

E com o seu paladar prepara a taça:

Se estiver envenenado, será o pecado menor

Que o meu olho ama, e assim começa tudo.

CXV

Essas linhas que acabei de escrever antes mentem;

Até mesmo aquelas afirmando que eu não podia te amar mais;

E contudo naquela época meu julgamento não conhecia razão por que

A minha muito plena paixão devesse mais tarde se consumir mais límpida.

Mas conhecendo o tempo, que com os seus milhões de acidentes

Se infiltra em nossas promessas e quebra a palavra de reis,

Obscurece a verdade sagrada e cega as intenções mais definidas,

Dobra mentes decididas até que quebrem seus propósitos;

Ai de mim! Por que então, temendo essa tirania do Tempo,

Não posso eu então dizer: “Agora te amo melhor”,

Quando eu estava certo contra a incerteza,

Coroando o presente, duvidando do resto?

O amor é um bebê; não posso então considerar,

Conferir pleno crescimento àquilo que ainda engatinha?

CXVI

Que não admita eu ao casamento de verdadeiras mentes Impedimento

algum. Aquele amor não é amor Que se altera ao encontrar alteração,

Ou se dobra com a retirada do retirante:

Ah, não; é uma marca para todo o sempre fixa,

Que encara tempestades e jamais se altera;

É a estrela de todo barco que se aventura,

Cujo valor não se sabe, mesmo que a altura possa ser tomada.

O amor não se engana com o Tempo, apesar de lábios e rostos rosados

Estarem dentro do compasso de sua foice curva;

O amor não se altera com suas breves horas e semanas,

E a tudo aguenta até a beira do fim-do-mundo.

Se isso estiver errado, e que me o provem,

Eu nunca escrevi nada, nem ninguém jamais amou.

CXVII

Disso me acuses; que eu tudo desperdicei

Tudo aquilo com que deveria recompensar teus grandes merecimentos;

Me esqueci de chamar o meu mui querido amor;

Por causa de minhas tarefas cotidianas;

Que comercio com mentes desconhecidas,

E desperdicei teu próprio direito tão caramente adquirido;

Que ergui velas a todos os ventos

Que para mais longe de tua visão me transportariam.

Anote aí todos os meus erros e voluntarismos,

E com prova justa acumule as evidências,

Me traga ao nível de teu cenho carregado de reprovação,

Mas não atires em mim desde o teu ódio desperto:

Já que o meu recurso diz que eu tentei provar

A constância e a virtude do teu amor.

CXVIII

Da mesma forma que, para aumentar ainda mais o apetite,

Com ansiosos remédios enchemos nosso paladar;

Como, para prevenir doenças ainda não vistas,

Adoecemos para evitar adoecermos, quando nos purgamos;

Dessa mesma forma, estando cheio de tua doçura que nunca enjoa,

Com temperos amargos comecei a me alimentar,

E, doente de bem estar, achei uma certa justiça

Em estar doente, antes que houvesse verdadeira necessidade de tal.

Assim a política no amor, para antecipar

Os males que ainda não chegaram, vão a erros concretos,

E levaram à medicina um estado saudável,

O qual, com excessiva bondade, seria curado por coisa ruim.

Mas daí eu aprendo, e acho a lição muito verdadeira,

Que os remédios envenenam aquele que de ti tanto adoeceu.

CXIX

Que poções eu bebi das lágrimas das Sereias,

Destiladas de limbos terríveis como o inferno interno,

Aplicando medos às esperanças e esperanças aos medos,

Perdendo ainda quando já me via ganhando!

Que miseráveis erros cometeu o meu coração,

Enquanto se julgava tão abençoado quanto nunca!

Como saltaram meus olhos fora de suas órbitas,

Na distração dessa febre enlouquecedora!

Oh, benefícios de males! Agora vejo que é verdadeiro

Que o melhor é tornado melhor ainda pelo mal;

E o amor destruído, quando construído de novo,

Fica mais belo que outrora, mais forte, muito maior.

Assim volto ao meu conteúdo repreendido,

E ganho pelo mal três vezes mais do que gastei.

CXX

Porque foste uma vez malvada, agora sejas minha amiga,

E, por aquela tristeza, que então senti,

Por força devo me curvar ante minha transgressão,

A menos que meus nervos fossem de cobre ou aço batido.

Pois que, se por minha insensatez fostes abalada

Como eu pela tua, terás passado um inferno de momento;

E eu, um tirano, não aproveitei o tempo

Para avaliar como sofri uma vez com teu crime.

Ah, que nossa noite de tristeza pudesse ter lembrado

Ao meu sentido mais profundo, como atinge duro a verdadeira tristeza,

E logo levado a ti, como tu a mim,

O bálsamo humilde que é devido ao peito ferido!

A não ser que a tua infração se torne agora uma cobrança;

A minha resgata as tuas, e a tua a mim deve resgatar.

CXXI

Melhor é ser vil do que ser estimado vil,

Quando não o ser recebe a censura de o ser,

E o prazer justo perdido, que assim é estimado

Não pelos nossos sentimentos, mas pelas vistas dos outros;

Por que devem as falsas e adúlteras vistas de outros

Saudarem o meu sangue puro e alegre?

Ou em minhas fraquezas, por que estes espiões mais débeis ainda,

Que em suas vontades avaliam como mal o que eu acho que é bom?

Não.—Eu sou o que sou; e aqueles que criticam

Meus abusos, o fazem a partir dos seus mesmos;

Eu posso ser direito, apesar de eles mesmos serem tortuosos;

Minhas ações não devem ser apresentadas com seus pensamentos rançosos;

A menos que essa regra geral do mal eles mantenham,—

Todos os homens são maus, e em suas maldades reinam.

CXXII

O teu presente, tuas tábuas, estão em meu cérebro

Impressos de forma indelével

Que para sempre permanecerá,

Além dos dias, até a eternidade:

Ou mesmo até onde subsistam cérebro e coração

Tenham possibilidade por natureza de subsistirem;

Até que cada qual, apagado até o olvido, entregue sua parte

De ti, a tua memória não mais pode ser perdida.

Essa pobre obra tanto não pode abarcar,

Nem preciso eu de registros para numerário de teu caro amor;

Portanto para lhes dar para mim foi ousado,

Acreditar nessas páginas que te recebem mais:

Manter um auxiliar para te lembrar,

Seria uma implicação de esquecimento de minha parte.

CXXIII

Não! Não se vangloriará o Tempo que mudo eu:

Tuas pirâmides construídas com novo poder

Não são para mim nada de novo, nada de estranho;

São tão-somente novos vestidos de uma antiga visão.

Nosso tempo é breve, e admiramos portanto

O que em nós tu introduzes do que já era velho;

E o fazemos mais nascer ao nosso desejo,

Do que pensar que as ouvimos dantes dito.

Teus registros e a ti, ambos desafio,

Não pensando nem no presente e nem no passado;

Pois teus relatórios e o que vemos mentem,

Feito para mais ou para menos por tua pressa contínua:

Isso eu prometo e isso será para sempre assim,

Eu serei fiel, apesar de tua foice e de Ti.

CXXIV

Se o meu caro amor fosse tão-somente o filho das circunstâncias,

Podería sê-lo, pois os bastardos da Sorte são sem pai,

Tão sujeito ao amor do Tempo, quanto ao ódio do Tempo,

Ervas daninhas entre ervas daninhas, ou flores ajuntadas com flores

Não, ela foi erigida muito longe de acidentes;

Não sofre com a pompa sorridente, nem sucumbe

Sob o golpe do descontentamento escravo,

Onde o tempo, convidativo de nossa moda, clama:

Não teme a política, aquele herético

Que trabalha do aluguel de horas breves contadas,

Mas toda sozinha se queda, altamente política

Em que nem cresce com o calor e nem se afoga com as chuvas.

Como testemunhas disto, eu chamo os tolos do tempo,

Que morrem por bondade, que viveram pelo crime.

CXXV

Se para mim significasse algo sustentar as arcadas,

Prestando honras a coisas externas,

Ou se eu instalasse profundos fundamentos para a eternidade,

Que na verdade se provassem mais curtos que o desperdício ou a ruína?

Não, já cansei de ver aqueles que se apegaram a favores e à forma

Perderem tudo e, mais ainda, pagando aluguel demais,

Para coisas sofisticadas em excesso, abandonando o sabor simples,

Arrivistas dignos da maior piedade, que só em seu fitar já se gastaram?

Não: —que seja eu obsequioso em teu coração,

E aceite tu minha oblação, pobre mas livre,

Que com segundas intenções não está misturada, e não conhece artifícios,

Mas a entrega mútua, apenas eu para ti.

Saia daqui seu fofoqueiro teimoso! uma alma verdadeira,

Quando mais acusada, é que menos está sob teu controle.

CXXVI

Oh tu, minha adorada, que em teu poder

Deténs o frívolo espelho do Tempo, sua foice, e hora;

Que minguando crescestes, e mostras com isso

Os teus amantes murchando, enquanto que tu docemente cresces!

Se a Natureza, a soberana dona do desastre,

Enquanto vais para frente, ela te puxa imóvel,

Ela te mantém para esse propósito, que a habilidade dela

Possa causar uma desgraça ao Tempo, e malditos minutos matar.

E contudo tenhas medo dela, a favorita do seu prazer;

Ela pode deter, e contudo não manter o seu tesouro:

Seu ajuste de contas, apesar de atrasado, deve ser respondido,

E a sua quitação é te restituir.

CXXVII

Nos velhos tempos o preto não era considerado bonito,

Ou se tivesse sido, não levava o nome de beleza;

Mas agora o preto é o herdeiro seguinte da beleza.

E a beleza é mal falada com uma vergonha bastarda:

Pois desde que cada mão ensaiou o poder da natureza,

Embelezando o feio com o rosto emprestado da arte,

A doce beleza não tem nome, nem momento sagrado,

Mas está profanada, se é que não está vivendo em desgraça.

Portanto os olhos de minha amada são negros como o corvo,

Assim são seus olhos; e parece que são lamentadores

Para aqueles que, não nascidos belos, a eles beleza não falta,

Falando mal da criação com uma estima falsa:

E contudo eles de tal forma se lamentam, tão conformes à sua dor,

Que não há quem não diga, é assim que a beleza deveria parecer.

CXXVIII

Quão frequentemente, quando tu, minha música, tocas música,

Naquela abençoada madeira cujo movimento ressoa

Com teus doces dedos, quando tão gentilmente tocas o balanço

Das cordas harmoniosas que meus ouvidos confundem,

Como eu vejo aqueles tecladinhos, que rápido pulam

A beijar a tenra parte de dentro de tua mão,

Enquanto que meus pobres lábios, que essa colheita deviam obter,

Com a ousadia da madeira perto de ti, se quedam enrubescidos!

Para serem tão provocados, eles trocariam de estado

E situação com aqueles tecladinhos dançantes,

Sobre os quais teus dedos correm com gentil alegria,

Tornando madeira morta mais abençoada que viventes lábios.

Já que tecladinhos ousados são tão felizes nisso,

Dê-lhes teus dedos, e a mim, teus lábios a beijar.

CXXIX

O despender do espírito em um desperdício de vergonha

É a volúpia em ação; e até a ação é a volúpia

Falsa, assassina, sangrenta, cheia de enganos,

Selvagem, extrema, rude, cruel, não confiável;

Logo que gozada, diretamente desprezada;

Além de toda razão buscada; e logo que tida,

Além de toda razão odiada, como uma isca devorada,

Deixada de propósito para tornar louca a presa:

Louquíssima em perseguição e também na possessão;

Tida, tendo e, na procura, extrema;

Um paraíso a ser provado,— e provada, um desastre;

Antes, uma alegria proposta; superada, um sonho:

Tudo isso todo mundo bem sabe; e contudo ninguém bem sabe

Como evitar o céu que conduz os homens a esse inferno.

CXXX

Os olhos de minha amada em nada se parecem com o sol;

O coral sendo muito mais vermelho que o vermelho encontrado em seus lábios:

Se a neve é branca, então são seus seios cinza;

Se cabelos são arames, arames negros crescem em sua cabeça.

Eu já vi rosas adamascadas, vermelhas e brancas,

Mas nenhuma rosa desse tipo vejo eu em teu rosto;

E em alguns perfumes existe mais delícia

Que no hálito que da minha amada exala.

Eu adoro ouví-la falar,—e contudo bem sei

Que música soa bem mais agradável;

Eu admito que nunca vi uma deusa passando,—

Minha amada, ao passar, está a pisar no solo;

E contudo pelos céus encontro o meu amor tão raro

Quanto qualquer um que ela contradisser com uma comparação falsa.

CXXXI

És tão tirana, e assim és de fato,

Como aquelas cujas belezas orgulhosamente as tornam cruéis;

Pois muito bem sabes que para o meu pobre coração apaixonado

És a jóia mais bela e mais preciosa,

E contudo, dizem alguns que te fitar

O rosto, esse não tem o poder de fazer com que gema o amor:

Tanto dizer quanto que esses erram, eu não irei,

Apesar de mim para eu jurar,

E, com certeza não será perjúrio,

Mil gemidos, mas ao pensar em teu rosto,

Um comparado ao outro, testemunho

Que o teu negro é mais lindo no meu julgamento.

Em nada és negra, exceto em tuas ações,

E daí procede que essa difamação, como penso, tem procedência.

CXXXII

Teus olhos amo, e eles, como se tivessem piedade de mim,

Sabendo que teu coração me atormenta com desprezo,

Envergaram negro, e enlutados amantes são,

Fitando com uma alegre dó minha dor.

E verdadeiramente o sol matinal não é mais

Adequado às nuvens cinzas da aurora,

Nem aquela estrela plena que a noite anuncia

Dá metade daquela glória ao sombrio Ocidente,

Que esses dois lamentosos olhos combinam com teu rosto:

Ah, que então teu coração também

Lamente por mim, já que a lamentação te enche de graça,

E conforma com todas as partes a tua piedade.

Então, jurarei eu que a beleza mesma é negra,

E que erradas estão todas que a tua compleição não possuem.

CXXXIII

Maldito o coração que assim me faz gemer

Por aquela ferida profunda que em mim fez, e no meu amigo!

Não bastando me torturar apenas a mim,

Mas meu mais fiel amigo deve ser também vítima da escravidão?

Eu de mim mesmo o teu olho cruel já roubou,

E o meu mais chegado já capturastes;

Dele, de mim e de ti estou abandonado;

É um triplo tormento ser assim negado.

Aprisione meu coração na cela de aço do teu peito,

Mas que o meu pobre coração seja a fiança do coração do meu amigo;

Que sempre se mantém comigo, que o meu coração guarde o dele;

Não poderás então usar de rigor na minha jaula:

E contudo o farás; pois que eu, estando preso em ti,

Sou por força teu, e tudo aquilo que em mim se encontra.

CXXXIV

Então agora eu confessei que teu ele é,

E eu mesmo estou hipotecado à tua vontade;

A mim renuncio, assim aquele outro meu

Tu liberarias, para ser ainda o meu conforto:

Mas não o farás, nem quererá ele ser livre,

Pois cobiçosa és, e ele bondoso;

Ele só escreveu, certamente,

Debaixo daquela obrigação que também o amarra.

O estatuto da tua beleza farás valer,

Sua avara, que aprisionas a tudo para usar,

E processar um amigo, que virou devedor por causa minha ;

Assim o perco, através do meu abuso maldoso.

A ele perdi; tens ambos, a ele e a mim;

Ele paga por tudo, e contudo eu não estou livre.

CXXXV

Quem quer que tenha o seu desejo, tu possuis a tua vontade.

E vontade demais até, vontade em superabundância;

Mais do que bastante, sou eu que te envergonho ainda

Ao teu doce desejo, fazendo mais uma adição dessa forma.

Tu quererás, cuja vontade é ampla e generosa,

Uma só vez permitir ocultar a minha vontade na tua?

Deverá a vontade em outros parecer graciosa e cortês,

E na minha vontade não refulgir aceitação alguma?

O mar, todo ele água, ainda assim recebe água da chuva,

E acresce extra àquilo que já armazenava;

Assim tu, sendo rica em vontade, acresça à tua vontade

A vontade minha, para tornar maior a tua ampla vontade.

Não deixe nenhum suplicante belo, ou feio, trucidar;

Pense que tudo é uno, e eu dentro disso uma vontade.

CXXXVI

Se tua alma te repreender que eu me aproxime tanto,

Jure à tua alma cega que eu era a tua Vontade,

E a vontade, tua alma bem o sabe, é ali admitida pertinho;

Assim transtornado por amor, meu pedido de amor, doce, realize.

A Vontade realizará o tesouro do teu amor,

Sim, o preencherá de vontades, e minha vontade uma,

Coisas de grande receita com facilidade provamos;

Entre os números, o um não é reconhecido.

Então não me conte nos números,

Apesar de, nas contas tuas, eu dever ser um;

Por nada me tomes, então por favor estime

Esse nada eu, como um algo doce a ti;

Faça apenas do meu nome o teu amor, e ame isso ainda,

E então tu me amarás,—pois que o meu nome é Vontade.

CXXXVII

Seu tolo cego, o Amor, o que fazes tu à minha vista,

Que ela, percebendo, não vê o que vê?

Ela sabe o que é a beleza, vê onde ela está

E contudo aquilo que é o melhor, estima como pior.

Se vistas, corrompidas com pontos de vista parciais,

Se ancoram na baía onde todos os homens caminham,

Por que da falsidade da vista forjaste anzóis,

Onde o julgamento do meu coração está atado?

Por que deveria o meu coração pensar que isto é algo especial

Que o mundo todo sabe que é um lugar comum?

Ou meus olhos, vendo isso, dizem que isso não é isso,

Colocar a bela verdade em um rosto tão feio?

Em coisas verdadeiras meu coração e olhos se equivocaram,

E a essas falsas pragas estão agora transferidos.

CXXXVIII

Quando o meu amor jura que ela é feita de verdade,

Eu creio piamente, apesar de saber ser isso uma mentira ululante;

Para que ela possa achar que sou algum jovem inexperiente,

Que desconhece as falsas sutilezas do mundo.

Assim em vão crendo que ela me crê jovem,

Apesar de ela saber que os meus dias já lá se foram,

Eu simplesmente dou crédito à sua falsa língua;

Assim, é em ambos os lados a verdade suprimida,

Mas por que ela não diz que é injusta?

E por que não digo eu que sou velho?

Ah, o melhor hábito do amor está nessa confiança aparente,

E a idade no amor não aprecia que lhe digam os anos:

Portanto minto eu com ela, e ela comigo,

E nos nossos erros por mentiras somos adulados.

CXXXIX

Ah, não me chames para justificar o erro

Que tua maldade impinge ao meu coração;

Não me firas com tua vista, mas com tua língua;

Use o poder com o poder, e não me enganes com artifícios.

Diga-me que tens amores em partes d’outras; mas na minha vista,

Caro coração, não desvie o olho.

Por que precisarias ferir através da malícia, quando o teu poder

É mais que minha defesa combalida poderia suportar?

Deixe-me te desculpar: ah, o meu amor bem sabe

Que a beleza dela tem sido minha inimiga;

E portanto do meu rosto ela desvia meus inimigos,

Para que a outras partes possam endereçar suas injúrias;

E contudo, não o faças: mas já que estou quase morto,

Diretamente me mate com o olhar, e me livre de minha dor.

CXL

Sábia sejas, assim como és cruel; não provoques

Minha paciência calada com desprezo demasiado;

A menos que a tristeza me empreste palavras, e as palavras expressem

A maneira de minha dor para a qual faltou piedade.

Se eu te pudesse ensinar o senso, fosse melhor,

Apesar de não amar, contudo, amor, de me dizer;

(Como aqueles homens teimosos e doentes, de quem a morte se aproxima,

De nada sabem, só notícias de saúde, de seus médicos;)_

Porque se eu desesperar, vou ficar zangado,

E na minha zanga posso falar mal de ti:

Agora esse mundo maldoso está tão ruim,

Que fofocas loucas podem por loucos ouvidos ser cridas

Para que eu possa não ser assim, nem tu caluniada,

Endireita esses teus olhos, apesar de teu coração orgulhoso vagar longe.

CXLI

Na verdade, não é com os meus olhos que eu te amo,

Pois eles veem em ti milhares de coisas erradas;

Mas é o meu coração que ama aquilo que olhos desprezam,

Que, apesar da visão, está disposto a adorar;

Nem estão os meus ouvidos encantados com a harmonia de tua língua;

Nem um sentimento caloroso, sensível a toques de baixeza,

Nem gosto ou cheiro, desejo de ser convidado

A qualquer festa sensual contigo sozinha:

Mas nem os meus cinco sentidos, nem as minhas cinco percepções podem

Dissuadir um tolo coração de te servir.

Quem deixar a firme forma de homem,

Para ser o escravo e servo miserável de teu orgulhoso coração:

Só que minha praga até agora eu considero meu ganho,

Que ela que me faz pecar, me recompensa com dor.

CXLII

Meu pecado é o amor, enquanto que tua virtude, o ódio.

Ódio de meu pecado, enraizado no amor pecaminoso:

Ah, mas apenas compare o meu estado com o teu,

E verás claramente que não é o meu que merece repreensão;

Ou, se merece, certamente não dos teus lábios,

Que teus portais escarlates profanaram,

Selando falsas promessas de amor tão frequentemente quanto as minhas;

Roubando o que a outras camas era devido.

Sê correta, eu te amo, como amas aqueles

Que teus olhos cortejam, assim como te importunam os meus:

Enraíza a piedade no teu coração, para que, quando crescer,

Tua pena possa ser digna de ser tida em piedade.

Se procuras ter aquilo que ora ocultas,

Por um auto-exemplo isso pode te ser declinado!

CXLIII

Veja, assim como uma dona de casa cuidadosa corre a pegar

Uma galinha sua que fugiu correndo,

Colocando seu bebê num canto e se despachando no assunto,

Perseguindo aquilo que gostaria que não fugisse;

Enquanto que sua criança negligenciada a observa,

E chora por obtê-la, ela, cujo anseio se concentra

Em apanhar aquilo que diante dela voa,

Não valorizando o choro de seu pobre pequerrucho;

Assim mesmo é que corres atrás daquilo que de ti voa,

Enquanto que eu, teu bebê, te caço muito atrás;

Mas se apanhares a tua esperança, te voltes para mim,

E faças a parte da mãe, me beijando, e sendo bondosa:

Assim peço eu que possas obter a tua Vontade,

Se voltares, e me apaziguares, que esperneio por ti.

CXLIV

Dois amores tenho eu: um do conforto, outro do desespero,

Que, como dois espíritos, me influenciam;

O anjo melhor é um corretíssimo homem;

O pior espírito, uma mulher de coloração suspeita.

Para me levar logo ao inferno, minha mulher má

Tenta o meu anjo melhor a me abandonar.

Corromperia o meu santo a ser um demônio,

Cortejando a sua pureza com o seu orgulho infecto.

E se o meu anjo já virou um demônio,

Posso até suspeitar, e contudo não afirmar;

Mas sendo ambos de mim provenientes, amigos um do outro,

Posso imaginar cada qual no inferno do outro.

E contudo isso eu nunca saberei, mas viverei em dúvida,

Até que o meu anjo mau arrase com o meu anjo bom.

CXLV

Aqueles lábios que a própria mão do Amor concebeu

Emitiram o som que dizia: “Eu odeio”,

Para mim, que por ela penava:

Mas quando ela viu meu estado desesperado,

Logo em seu coração nasceu a pena.

Ralhando com aquela língua, que mesmo doce

Era usada a dar o suave extermínio;

E assim ensinou-lhe um novo cumprimento:

No ‘Eu odeio’ ela colocou uma terminaçãozinha,

Que a seguiu como o gentil dia

Segue a noite, que como um demônio

Do céu ao inferno se escafede.

Ela tirou o “odeio” do “Eu odeio”,

E me salvou a vida dizendo:— “não a você”.

CXLVI

Pobre alma, centro de minha terra pecaminosa,

Enganada por esses poderes rebeldes que te desgastam,

Por que sofres por dentro, e sofres por escassez,

Pintando por fora tão custosamente alegres tuas paredes?

Por que tanto custo, tendo um arrendamento tão pequeno,

Gastas em tua mansão que vai se arruinando?

Será que vermes, os herdeiros desse excesso,

Serão os que consumirão isso tudo? Será esse o fim do corpo?

Então alma, viva após a perda de teu servente,

E deixe que ele se vá, para agravar teu estado;

Compre divinos termos e venda as horas refugadas;

Alimenta-te desde dentro, e não sejas mais rica externamente:

Assim da Morte te alimentarás, que se alimenta dos homens,

E, uma vez morta a Morte, não haverá então mais morrer.

CXLVII

O meu amor é uma febre, com saudades ainda

Daquilo que por mais tempo alimenta a doença;

Se alimentando daquilo que preserva o mal,

Para agradar ao apetite incerto e doentio.

A minha razão, o médico do meu amor,

Zangada que suas prescrições não sejam seguidas ao pé,

Me abandonou, e eu desesperado aprovo já agora

Que o desejo é a morte, que os remédios não curam.

Além da recuperação estou, agora a razão não mais liga,

E já estou louco varrido com inquietação incessante;

Meus pensamentos e discurso se parecem aos de um louco,

Variantes da verdade, e em vão expressos;

Pois que eu te jurei linda, e te julgava brilhante,

Que és negra como inferno, tão obscena quanto a noite.

CXLVIII

Ai de mim! Que visão o amor me engastou na cabeça,

Que em nada correspondem com a realidade!

Que, se correspondem, para onde se desgarrou meu julgamento,

Que falsamente censura o que ela corretamente vê?

Se aquilo é lindo onde meus falsos olhos tanto se embevecem,

O que quer dizer a palavra que toma uma coisa pela outra?

Se não for, então o amor indica bem

Que o olho do amor não é tão verdadeiro quanto se o quereria: não,

Como poderia ser? Ah, como poderia o olho do Amor ser verdadeiro,

Que fica tão desgastado com lágrimas e com o constante velar?

Não admira então que eu erre na visão;

O próprio sol só pode enxergar, quando o céu fica sem nuvens.

Ah, amor esperto! Com lágrimas cego me manténs,

A menos que olhos que vejam bem devam enxergar erros horríveis.

CXLIX

Pode tu, cruel! Dizer que não te amo,

Quando eu, contra mim mesmo, me divido contigo?

Não penso eu em ti, quando esqueci

O sou de mim, todo tirano, só por tua causa?

Quem te odeia que eu chame de amigo?

Com quem te aborreces que eu também não me aborreça?

E se me fazes mal, não é contra mim

Que eu gasto a vingança com esse lamento presente?

Qual mérito eu em mim mesmo respeito,

Que seja tão orgulhoso a ponto de desprezar o teu serviço,

Quando tudo o que é melhor em mim venera o teu defeito,

Tudo comandado por um piscar dos teus olhos?

Mas, amor, continua a odiar, pois agora conheço como és;

Aqueles que podem ver tu amas, e eu sou cego.

CL

Ah, de que poder derivas essa força,

De balançar meu coração por insuficiência?

De me fazer mentir aquilo que tão corretamente vejo,

E de jurar que o próprio brilho do sol não enche de luz o dia?

De onde obtivestes essa influência de coisas ruins,

Que no próprio recusar de tuas ações

Existe uma tal força e testemunho de habilidade,

Que, em minha mente, o teu pior excede todo o melhor?

Quem te ensinou como fazer para que eu te amasse mais,

Quanto mais vejo e ouço causa justa para o ódio?

Ah, apesar de amar o que outros abominam,

Com os outros tu não deves abominar o meu estado;

Se a tua falta de valor despertou o amor em mim,

Mais digno eu, de ser de ti amado.

CLI

É o amor jovem de mais para saber o que vem a ser a consciência:

E contudo, quem sabe, se acaso a consciência não proveio do amor?

Então, doce tapeadora, não me provoques demasiado

A menos que docemente te proves culpada de meus erros.

Pois que com tu me traindo, eu traio

A minha parte mais nobre à grosseira traição do meu corpo;

A minha alma diz ao meu corpo que ele pode

Triunfar no amor; a carne não possui maior razão;

Mas levantando com o teu nome, te indica

Como o seu prêmio triunfante.

Orgulhoso desse orgulho,

Ele fica contente de ser o teu capacho,

De se quedar nos teus assuntos, de cair por ti,

Não é por falta de consciência que eu a chamo—

Amor, por cujo caro amor eu levanto e caio.

CLII

Ao te amar, já sabes que quebrei a fé,

Mas tu a quebrastes duas vezes, ao me jurares amor;

Na ação da tua promessa de cama quebrada, e nova fé partida

Em jurar um ódio após novo amor trazer.

Mas por que te acuso eu de quebrar dois juramentos,

Quando eu mesmo já quebrei vinte? Eu perjurei mais ainda;

Pois que todas as minhas juras são promessas de te falsificar,

E toda minha fé honesta em ti está perdida:

Pois que eu jurei juras profundas de tua profunda bondade,

Juras de teu amor, de tua verdade, de tua constância;

E, para te iluminar, dei olhos à cegueira.

Ou as fiz jurar contra as coisas as quais elas viam;

Pois que eu te jurei linda: mais perjurado eu

De jurar, contra toda verdade, uma tão estúpida falsidade.

CLIII

Cupido adormeceu ao lado de sua tocha em chamas:

Uma donzela de Diana se aproveitou da oportunidade,

E sua tocha incendiária de amor rapidamente afogou

Numa fria fonte do vale daquela região;

Que tomou emprestado desse sagrado fogo do amor

Um eterno calor tépido, que dura ainda,

E fez nascer um banho quente, que os homens buscam

Contra estranhas doenças e acham uma cura soberana.

Mas nos olhos de minha amada a tocha do Amor acesa novamente,

O garotinho provocantemente tocou com ela meu peito;

Eu, doente com isso, a ajuda do banho desejei,

E para ali me dirigi, um hóspede triste e destemperado,

Mas cura não encontrei: o banho que me ajudaria se encontra

Onde o Cupido achou fogo novo,—nos olhos de minha amada.

CLIV

O pequeno deus do amor, dormindo de certa feita

Deixou de seu lado a tocha que inflama os corações,

Enquanto muitas ninfas que haviam prometido manter vida pura

Chegaram pé ante pé; mas em sua mão virgem

A votaria mais bela pegou aquele fogo

Que tantas legiões de verdadeiros corações haviam aquecido:

E assim o general do quente desejo

Dormia por uma mão virgem desarmado.

Essa tocha ela apagou em um fresco poço ali perto,

Que tomou calor perpétuo do fogo do Amor,

Fazendo nascer um banho e um remédio salutar

Para homens doentes; mas eu, escravo de minha amada,

Ali cheguei para uma cura, e com isso provo o seguinte:

O fogo do amor aquece a água, e a água não esfria o amor.