Soneto 37: A Exceção à Regra, Mário Amora Ramos

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Conforme nosso artigo anterior, “O Mistério do Soneto 27”, um dos personagens do conto “O Escaravelho de Ouro” (The Gold Bug), de Edgar Allan Poe (1809-1849), um clássico da ciência da criptografia, faz uma curiosa revelação:

“Ora, em inglês a letra que mais frequentemente ocorre é ‘e’. (…) O ‘e’ é tão singularmente predominante que raras apresenta são as frases, de qualquer tamanho, em que não seja ele a letra principal.”

(Now, in English, the letter which most frequently occurs is ‘e’. (…) E predominates so remarkably, that an individual sentence of any length is rarely seen, in which it is not the prevailing character.)

O soneto 37, apresentado a seguir antecedido por sua tradução, contesta a afirmação do personagem de Poe:

“Como um pai decrépito se compraz
Em ver os feitos da criança ativa,
Eu, coxo pelas afrontas da Fortuna,
Em tuas virtudes me consolo.

Beleza, berço, riqueza e engenho,
Ou qualquer destas, ou todas, ou mais,
Encontram em ti um trono.
Enxerto meu amor em tua fartura.

Assim, não sou mais coxo, pobre, nem desprezado,
Tua sombra me dá tal sustento
Que com tua abundância me contento,
E vivo com uma parte de tua glória.

Procura o melhor, é o que quero para ti,
E, assim, dez vezes sou feliz.”

(As a decrepit father takes delight,
To see his active child do deeds of youth,
So I, made lame by Fortune\’s dearest spite
Take all my comfort of thy worth and truth.

For whether beauty, birth, or wealth, or wit,
Or any of these all, or all, or more
Entitled in thy parts, do crowned sit,
I make my love engrafted to this store:

So then I am not lame, poor, nor despised,
Whilst that this shadow doth such substance give,
That I in thy abundance am sufficed,
And by a part of all thy glory live:

Look what is best, that best I wish in thee,
This wish I have, then ten times happy me.)

Nas duas primeiras quadras, o autor, que se considera desafortunado, refere-se a alguém que ele admira por suas muitas virtudes e declara seu amor a esta pessoa

Na terceira quadra, sua admiração é tanta, que ele se esquece de suas desventuras e se satisfaz com apenas um vislumbre da abundância daquelas virtudes.

No dístico final, ele deseja o que há de melhor para esta pessoa e, assim, se sente dez vezes feliz.

Contrariando a hipótese de Poe, a letra mais comum do soneto 37 não é a letra E (que aparece 50 vezes), mas sim a letra T (54 vezes). A título de ilustração, a letra T é a predominante nos seguintes versos:

4: Take all my comfort of thy worth and truth.
5: For whether beauty, birth, or wealth, or wit,
7: Entitled in thy parts, do crowned sit,
10: Whilst that this shadow doth such substance give,
11: That I in thy abundance am sufficed,
13: Look what is best, that best I wish in thee.