Shakespeare e os esternocéfalos, Mário Amora Ramos

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O termo acima foi cunhado pelo escritor Sergio Ramírez, da “Academia Nicaragüense de la Lengua” (Academia Nicaraguense da Língua) e membro correspondente da “Real Academia Española” (Real Academia Espanhola). A grafia é a mesma, tanto em português quanto em espanhol, pois ambas as línguas acentuam os proparoxítonos. Esta palavra designa os estranhos seres mencionados por Otelo, nas histórias que contava para Desdêmona sobre os “homens cujas cabeças cresciam abaixo de seus ombros” (men whose heads do grow beneath their shoulders) (1.3).

A curiosa palavra deriva do grego “stérnon” (esterno ou parte larga e plana que forma a frente do peito) e “kephalé” (cabeça). Ela aparece num texto de Sergio Ramírez, designado “Atajos de la Verdad” (Atalhos da Verdade), na edição comemorativa dos quarenta anos do romance “Cem Anos de Solidão”, do escritor colombiano Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura de 1982. A edição conjunta da Real Academia Espanhola e da AALE – Associação das Academias de Língua Espanhola comemora ainda os oitenta anos do escritor, completados no dia 6 de março de 2007.

Em seu texto, Sergio Ramírez refere-se aos esternocéfalos, que teriam olhos, boca e nariz no peito, que o explorador Walter Raleigh (1552?-1618) situou na Guiana, conforme um relato deste de uma viagem em 1595. De fato, Raleigh conta que “eles são chamados Ewaipanoma e dizem que têm os olhos nos ombros, e a boca no meio do peito, e que seus longos cabelos crescem para trás entre os ombros” (they are called Ewaipanoma: they are reported to have their eyes in their shoulders, and their mouths in the middle of their breasts, and that a long train of hair growth backward between their shoulders).

Em “As Alegres Comadres de Windsor”, a fama da rica Guiana é citada nesta fala de Falstaff, referindo-se à senhora Page: “ela é uma região da Guiana, toda ouro e recompensas” (she is a region in Guiana, all gold and bounty) (1.3).

O velho e honesto conselheiro Gonçalo, em “A Tempestade”, também se refere a “homens cujas cabeças situavam-se no peito” (men whose heads stood in their breasts) (3.3).

Ramírez menciona ainda nativos que tinham os pés voltados para trás, mencionados pelo jesuíta espanhol Cristóbal de Acuña (1597-1675), em seus relatos sobre o rio Amazonas. É curioso que esta descrição corresponde ao nosso “curupira”, de origem tupi. Ele é um ente fantástico das matas, em geral descrito como um índio, um lobisomem ou um anão de cabelos vermelhos, que deixa pegadas enganosas para confundir os caçadores e, assim, proteger as árvores e os animais da floresta. Sergio Ramirez explica o realismo fantástico de García Márquez à luz de um triplo amálgama imaginativo: europeu, indígena e africano, com suas histórias orais, ritos, fetiches e familiaridade com ancestrais mortos.

Tanto é assim que, entre nós, o estado do Amazonas deriva seu nome de uma destas histórias fantásticas de viajantes portugueses e espanhóis que acreditavam que suas margens eram habitadas por mulheres guerreiras. O nome deriva do grego “amazos” (a, sem, e mazos, seio), pois se julgava que elas removiam um seio para facilitar o uso de arco e flecha. Na realidade, as amazonas são mais antigas ainda, pois remontam à mitologia grega. Acreditava-se que eram mulheres guerreiras da Cítia, região que na Antigüidade abrangia parte do sudeste da Europa e do sudoeste da Ásia, ao norte do mar Negro. Os citas eram guerreiros nômades e desapareceram por volta do século II a.C.

É curioso que a suposta crueldade dos citas deixou registros em Shakespeare. Há referências à Cítia em “Tito Andrônico”, na primeira cena da peça, numa pergunta de Chiron e na resposta dada por Demétrio. Já os citas aparecem num curto solilóquio da condessa de Auvergne, em “Henrique VI, Parte I” (2.3) e numa fala de “Rei Lear”, na qual o soberano diz à filha Cordélia que ela terá de parte dele o mesmo acolhimento que ele daria ao “bárbaro cita” (the barbarous Scythian) (1.1).