Referências Bíblicas em Macbeth, Mário Amora Ramos

Uma cidade aberta, sem muralhas; tal é o homem sem autocontrole.

Provérbios 25, 28

O personagem principal da peça é um general escocês vitorioso que, ao acreditar nas profecias de três feiticeiras que encontra em seu caminho, decide matar seu soberano e usurpar-lhe o trono.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que coincidentemente tem um sobrenome materno escocês, parece resumir no seu verso mais famoso toda a angústia do bravo general: “No meio do caminho tinha uma pedra”, isto é, a ideia ambiciosa e sinistra de tornar-se rei, que o aflige constantemente a partir daquele encontro fatídico.

Macbeth é a tragédia da ambição desmedida pelo poder, não só do general, mas também de sua mulher, a pérfida senhora Macbeth, que o auxilia na lúgubre empreitada. À ambição segue-se o crime, o remorso e a morte de seus principais protagonistas.

Uma das passagens mais conhecidas da peça é esta fala do general, na quinta cena do Quinto Ato:

“A vida não é mais do que uma sombra ambulante, um mau ator
Que se exibe e se agita uma hora no palco
E não volta a ser ouvido. É uma história
Contada por um idiota, cheia de som e fúria,
Que nada significa”

(Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing) (5.5).

Esta passagem sugeriu ao escritor norte-americano William Faulkner (1897-1962), prêmio Nobel de Literatura de 1950, o título do romance \”O Som e a Fúria\” (The Sound and the Fury), de 1929, tido por muitos como sua obra-prima. Entre nós, o escritor Luís Fernando Veríssimo faz uma sutil alusão a esta fala no seu livro \”A Décima Segunda Noite\” (Objetiva, 2006), inspirado na comédia Noite de Reis, de William Shakespeare.

Uma outra fala da peça, desta vez de uma das feiticeiras, na primeira cena do Quarto Ato, inspirou o escritor norte-americano Ray Bradbury, autor do romance \”Algo de Mau Vem para Cá\” (Something Wicked this Way Comes), de 1962:

“Pelo comichão de meus polegares,
Algo de mau vem para cá.
Abram, fechaduras,
A quem quer que esteja batendo!”

(By the pricking of my thumbs,
Something wicked this way comes.
Open, locks,
Whoever knocks!) (4.1).

Shakespeare continua surpreendentemente atual. Quatro séculos depois, ainda surgem aqui e ali referências a expressões suas, a exemplo dos títulos originais das obras acima. Quanto a Macbeth, cabe lembrar esta generosa apreciação do ensaísta norte-americano Harold Bloom, em O Cânone Ocidental:

“Para muitos leitores, os limites da arte humana são atingidos em Rei Lear, que, com Hamlet, parece ser o pico do cânone shakespeariano. Minha preferência pessoal é por Macbeth, onde jamais supero meu choque diante da brutal economia da peça, sua maneira de fazer valer cada fala, cada frase.”

A referência bíblica essencial da peça é o quinto mandamento: “Não matarás”, expresso em dois dos livros do Antigo Testamento (Êxodo 20, 13 e Deuteronômio 5, 17). Jesus volta a lembrar este mandamento no Sermão da Montanha (Mateus 5, 21-26) e ao conversar com um jovem rico (Mateus 19, 18 e Lucas 18, 20). São Paulo também se refere a este mandamento na Epístola aos Romanos (13, 9), bem como São Tiago, em sua única Epístola (2, 11).

As demais referências bíblicas listadas a seguir estão apresentadas na ordem em que aparecem na peça:

“De modo que/ eles atacaram duplamente o inimigo com golpes redobrados./ Se queriam banhar-se em feridas fumegantes,/ ou lembrar um outro Gólgota,/ não sei dizer” (So they/ Doubly redoubled strokes upon the foe./ Except they meant to bathe in reeking wounds,/ Or memorize another Golgotha,/ I cannot tell) (1.2). O sargento ferido conta ao rei Duncan as façanhas dos generais Macbeth e Banquo e refere-se ao Gólgota, o local onde Jesus foi crucificado (Marcos 15, 22), no alto de uma colina, nas proximidades de Jerusalém. A palavra Gólgota vem do aramaico e significa “Calvário” (local da caveira).

“Ora, pode o diabo dizer a verdade?” (What, can the devil speak true?) (1.3). Banquo espanta-se com a confirmação da primeira profecia, segundo a qual Macbeth seria o futuro barão de Cawdor. Pode ser uma alusão à advertência de Jesus contra os falsos profetas “que vêm a vós com vestidos de ovelhas, e dentro são lobos arrebatadores!” (Mateus 7, 15). Banquo pode também lembrar que Jesus alertou seus discípulos quanto aos “apóstolos camuflados”, dizendo-lhes que “o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz” (Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios 11, 14). Desta forma, um ser maligno poderia circunstancialmente dizer a verdade, buscando um proveito próprio.

“Os temores presentes/ são sempre menores do que os imaginados” (Present fears/ Are less than horrible imaginings) (1.3). Macbeth pretende assassinar o rei Duncan. Ele parece repetir, numa versão mais branda, a inquietação pessimista de Jó: “Todos os meus temores se realizam, e aquilo que me dá medo vem atingir-me” (Jó 3, 25).

“Que a luz não veja meus ocultos e sombrios desejos” (Let not light see my black and deep desires) (1.4). O malfeitor prefere agir nas trevas, para não ser descoberto. Macbeth afasta-se da definição que Jesus deu de si mesmo: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (João 8, 12). Ele prefere dar ouvidos às feiticeiras, que simbolizam o mundo das trevas.

“Guarde isto no seu coração e adeus” (Lay it to thy heart, and farewell) (1.5). Este conselho que Macbeth dá à sua mulher numa carta equivale a pedir a ela que “guarde em segredo” as revelações feitas pelas feiticeiras. Num contexto certamente muito diverso, Maria também guardava em seu coração muito do que via e não compreendia, a exemplo da sabedoria das respostas de Jesus, aos doze anos, aos doutores do templo. Segundo Lucas, “sua mãe guardava todas estas coisas em seu coração” (2, 51).

“Pareça-se com a flor inocente,/ mas seja a serpente que nela se oculta” (Look like the innocent flower,/ But be the serpent under it) (1.5). A senhora Macbeth, antes do jantar com o rei Duncan, refere-se, neste conselho ao marido, à serpente astuta que induziu Eva a provar do fruto proibido (Gênesis, capítulo 3).

“E a piedade, como um […] querubim celestial a cavalo […] soprará o feito horrível nos olhos do mundo” (And pity, like a […] heaven’s cherubin horsed […] shall blow the horrid deed in every eye) (1.7). O querubim é um espírito guardião. Quando Adão e Eva foram expulsos do paraíso, o Senhor colocou “querubins armados de uma espada flamejante para guardar o caminho da árvore da vida” ( Gênesis 3, 24).

“Terra, segura e firme,/ não ouça meus passos, aonde quer que me levem, porque temo/ que as próprias pedras denunciem meu paradeiro” (Thou sure and firm-set earth,/ Hear not my steps, which way they walk, for fear/ Thy very stones prate of my whereabout) (2.1). Macbeth teme que as pedras denunciem seus passos. Quando da entrada triunfal em Jerusalém, os fariseus pediram que Jesus repreendesse seus discípulos. Em resposta, Jesus lhes disse: “se estes se calarem, clamarão as pedras” (Lucas 19, 40).

“Poderá o oceano do grande Netuno limpar este sangue/ de minha mão?” (Will all great Neptune’s ocean wash this blood/ Clean from my hand?) (2.2). Macbeth faz uma referência implícita ao Salmo 25, 6 (ou 26, 6 na versão hebraica): “Na inocência lavo as minhas mãos,/ e conservo-me junto de vosso altar, Senhor”. Este ato simbólico, entre os judeus, era um atestado de inocência. No Novo Testamento, o procurador romano Pôncio Pilatos lavou as mãos diante do povo, inocentando-se, quando a multidão pediu a crucifixão de Jesus.

“Quem é, em nome de Belzebu?” (Who’s there, i’ the name of Beelzebub?) (2.3). O porteiro bêbado refere-se ao chefe dos demônios, mencionado em Mateus 12, 24. Os fariseus acreditavam que era por meio dele que Jesus expulsava os demônios. Jesus explicou-lhes que o fazia “pelo Espírito de Deus” (Mateus 12, 28).

“Pensei em deixar entrar algumas das profissões que seguem o caminho primaveril da fogueira eterna” (I had thought to have let in some of all professions, that go the primrose way to the everlasting bonfire) (2.3). O porteiro bêbado usa uma imagem oposta à de Ofélia (Ophelia), de Hamlet, que pede ao irmão Laertes que não seja como os pregadores que cedem ao “caminho primaveril dos prazeres” (primrose path of dalliance) (1.3). Em ambos os casos, trata-se de uma alusão a uma das recomendações de Jesus no Sermão da Montanha: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram” (Mateus 7, 13).

“Levantem, levantem e vejam/ a imagem do Juízo Final!” (Up, up, and see/ The great doom’s image!) (2.3). Macduff refere-se ao “Juízo Final” (Doomsday), também presente na fala seguinte, da senhora Macbeth.

“O que está acontecendo aqui,/ que com estes toques de trombeta estremecedores convocam/ os que dormem nesta casa?” (What’s the business,/ That such a hideous trumpet calls to parley/ The sleepers of the house?) (2.3). Na manhã seguinte à noite da morte do rei Duncan, a senhora Macbeth entra em cena indagando a razão daquele alvoroço. É uma alusão ao Juízo Final, ilustrado nestas duas passagens: “Ele enviará os seus anjos que, ao som da grande trombeta, reunirão os seus eleitos” (Mateus 24, 31) e “ao som da última trombeta […] os mortos ressuscitarão” (Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 15, 52). Na peça não há nenhum toque de trombeta, mas sim gritos e o toque de um sino de alarme.

“Onde estamos/ há adagas nos sorrisos; o mais próximo de nosso sangue,/ é quem está mais perto de sangrar” (Where we are/ There’s daggers in men’s smiles; the near in blood,/ The nearer bloody) (2.3). Trata-se de uma referência a esta passagem: “e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa” (Mateus 10, 36).

“Manchei minha alma pela descendência de Banquo,/ por eles matei o bondoso Duncan,/ enchi de rancores a taça de minha paz,/ só por eles minha jóia eterna/ foi dada ao inimigo comum dos mortais” ( For Banquo’s issue have I filed my mind,/ For them the gracious Duncan have I murther’d,/ Put rancors in the vessel of my peace/ Only for them, and mine eternal jewel/ Given to the common enemy of man) (3.1). Macbeth refere-se neste longo solilóquio à sua própria alma (jóia eterna) e ao demônio (o inimigo comum dos mortais), ao qual entregou sua alma após assassinar o rei Duncan.

“Você é tão evangelizado,/ a ponto de rezar por esse bravo homem e sua descendência,/ cuja mão pesada os curvou para a sepultura/ e fez dos seus parentes mendigos para sempre?” (Are you so gospel’d,/ To pray for this good man and for his issue,/ Whose heavy hand hath bow’d you to the grave/ And beggar’d yours forever?) (3.1). Esta fala é de Macbeth, no seu encontro com os dois assassinos. É uma alusão a este conselho de Jesus no Sermão da Montanha: “Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5, 44).

“O sangue atrai o sangue” (Blood will have blood) (3.4). Macbeth, nesta conversa com sua mulher, faz uma referência implícita ao Salmo 41, 8 (ou 42, 8 na versão hebraica): “Um abismo chama outro abismo”.

“O quê! A linhagem se estenderá até estourar o Juízo Final?” (What, will the line stretch out to the crack of doom?) (4.1). Nova referência ao Juízo Final.

“Não procure saber mais” (Seek to know no more) (4.1). Embora não se possa confiar na linguagem equívoca das feiticeiras, este comentário delas para Macbeth tem um paralelo bíblico: “aquele que aumenta seu saber aumenta seu pesar” (Eclesiastes 1, 18). Em outras palavras, não é prudente procurar saber de tudo. Há segredos e mistérios que devem ser resguardados.

“Como os pássaros, mãe” (As birds do, mother) (4.2). A senhora Ross pergunta ao filho como ele viverá, já que não tem mais pai. Em sua resposta, o filho lembra esta recomendação de Jesus, também no Sermão da Montanha: “Olhai as aves do céu: Não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta” (Mateus 6, 26).

“Oferecer um pobre, débil e inocente cordeiro/ para apaziguar um deus irado” (To offer up a weak, poor, innocent lamb/ To appease an angry god) (4.3). Malcolm teme que Macduff seja um espião que queira oferecê-lo em sacrifício, a serviço do tirano Macbeth. Trata-se de uma referência ao sacrifício do cordeiro pascal (Êxodo 12, 3-6) e a Jesus, citado no Novo Testamento como o “Cordeiro de Deus” (Lamb of God), em João 1, 29.36.

“Os anjos são sempre brilhantes, embora o mais brilhante deles tenha caído” (Angels are bright still, though the brightest fell) (4.3). Embora o texto seguinte de Isaías satirize o rei da Babilônia, a expressão “astro brilhante” tem sido interpretada como uma referência a Lúcifer, o anjo caído, líder de um grupo de anjos revoltosos: “Então! Caíste dos céus, astro brilhante, filho da aurora!/ Então! Foste abatido por terra, tu que prostravas as nações!” (Isaías, 14, 12). O nome Lúcifer vem do latim lux, luz e ferre, conduzir.

“Maldições, silenciosas mas profundas, adulação, murmúrios,/ que o pobre coração gostaria de recusar mas não se atreve” (Curses, not loud but deep, mouth-honor, breath,/ Which the poor heart would fain deny and dare not) (5.3). Shakespeare, nesta fala de Macbeth, usa a expressão mouth-honor, aqui traduzida por “adulação”, que parece extraída desta revelação do Senhor ao profeta Isaías: “Este povo vem a mim apenas com palavras e me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de mim e o temor que ele me testemunha é convencional e rotineiro” (Isaías 29, 14).

“E todos os nossos ontens iluminaram para os tolos/ o caminho para a poeira da morte. Apague-se, apague-se, vela fugaz!/ A vida não é mais do que uma sombra ambulante” (And all our yesterdays have lighted fools/ The way to dusty death. Out, out, brief candle!/ Life’s but a walking shadow) (5.5). Há duas referências bíblicas implícitas nesta fala de Macbeth, logo após saber da notícia da morte de sua mulher. A primeira é sobre a transitoriedade da vida, numa alusão a “porque és pó, e em pó te hás de tornar” (Gênesis 3, 19) expressa na “poeira da morte” (dusty death). A segunda refere-se a esta passagem: “Nossos dias sobre a terra passam como a sombra” (Jó 8, 9). Sobre esta última, há um comentário análogo em \”Dom Quixote\”, após uma visita do bravo cavaleiro andante à gruta de Montesinos: “todos os contentamentos desta vida passam como sombra e sonho” (todos los contentos desta vida passan como sombra y sueño) (Livro 2, Capítulo 22).