Polônio: O Conselheiro Desastrado, Mário Amora Ramos

Polônio, pai de Ofélia e Laertes e conselheiro real em “Hamlet”, cumpre o antipático papel de bisbilhoteiro e informante do rei.

Em sua primeira participação na peça, ele acompanha o filho Laertes, que pede a autorização real para retornar à França. Polônio é tão formal que quando o rei pergunta a ele se Laertes tem sua permissão para viajar, ele precisa de trinta e três palavras (no texto original) para dizer “sim”:

\”Sim, senhor, arrancou de mim uma lenta licença,
Com pedidos insistentes; e, por fim,
Para atendê-lo dei minha relutante permissão:
Rogo que o senhor permita sua partida.\”

(He hath, my lord, wrung from me my slow leave
By laboursome petition; and at last
Upon his will I seal’d my hard consent:
I do beseech you, give him leave to go) (1.2)

Na cena seguinte, Polônio despede-se de Laertes com muitos conselhos paternos e pede a Ofélia que não dê ouvidos aos galanteios do príncipe Hamlet.

Polônio retorna para instruir o criado Reinaldo a obter algumas informações sobre a conduta do filho Laertes, junto aos dinamarqueses residentes em Paris. Polônio, um mestre da arte da dissimulação, sugere que Reinaldo “jogue verde para colher maduro”, isto é, que insinue inclinações imaginárias, mas nada injurioso nem desonroso para Laertes.

Polônio nada sabe do encontro de Hamlet com o fantasma do pai e, quando Ofélia lhe conta do estranho comportamento do príncipe, ele prontamente atribui o desvario de Hamlet à proibição do namoro entre ambos.

Polônio precipitadamente arrisca todo seu prestígio de conselheiro revelando ao casal real seu diagnóstico particular da causa da loucura do príncipe. Se estiver errado, diz ele, “Que eu não seja assistente do Estado e que vá cuidar de uma fazenda e suas carroças” (Let me be no assistant for a state,/ And keep a farm and carters) (2.2).

Mais adiante, Polônio e o rei assistem, escondidos, ao duro diálogo entre Hamlet e Ofélia. O rei ainda não está convencido de que a proibição do namoro seja a causa do destempero do príncipe. Polônio então sugere ao rei que a rainha chame o filho para conversar após a apresentação da peça e oferece-se para ouvir a conversa de ambos. Polônio segue fielmente a tática atribuída a César: “dividir para conquistar”. Junto com o rei, ele bisbilhota a conversa entre Hamlet e Ofélia. Sozinho, ele quer ouvir a conversa entre o príncipe e a mãe. Desta forma, o inseguro Polônio pretende centralizar todas as informações, de modo a, quem sabe, beneficiar-se de sua exclusividade.

Polônio reaparece apenas para dizer ao rei que Hamlet se dirige para os aposentos da mãe. “Vou esconder-me atrás de uma tapeçaria” (Behind the arras I’ll convey myself) (3.3), diz ele, prometendo contar ao rei a conversa entre mãe e filho.

A imprudente intromissão do conselheiro custa-lhe a própria vida. Numa terrível ironia do destino, antes de se esconder, ele se dirige à rainha e lhe diz: “permanecerei em silêncio” (I’ll silence me) (3.4). Pouco tempo depois, ele fica em silêncio para sempre.

Horácio assim relata na última cena da peça: “E como resultado, propósitos frustrados/ Recaem sobre seus autores: tudo isso posso/ Fielmente relatar” (And in this upshot, purposes mistook/ Fall’n on the inventors’ heads: all this can I/ Truly deliver) (5.2).

Certamente Horácio tinha em mente os propósitos frustrados do rei e de Laertes, cujos planos voltaram-se contra eles próprios. O infeliz Polônio, no entanto, teve frustrado seu propósito de demonstrar sua “descoberta” da causa da loucura do príncipe. Mal sabia o infeliz conselheiro que os problemas de Hamlet eram bem mais complexos e sérios do que o rompimento de seu namoro com Ofélia.

Aplica-se igualmente a Polônio o comentário do príncipe sobre a condenação de Rosencrantz e Guidenstern à morte. Assim como os dois falsos amigos, o conselheiro também errou por ter-se colocado entre “poderosos adversários” (mighty opposites) (5.2): Hamlet e o rei.