O Vocabulário de Hamlet, Mário Amora Ramos

As palavras da peça muitas vezes assumem um significado impossível de ser detectado, por exemplo, com o uso de um tradutor automático. Uma palavra simples como \”green\” (verde) pode ter o significado de “recente”, como quando o rei Cláudio se refere ao irmão falecido, “ainda presente na memória” (the memory be green) (1.2), bem como simbolizar a imaturidade, como quando Polônio chama Ofélia de “menina ingênua” (green girl) (1.3). Analogamente, referindo-se a pessoas, \”dry\” (seco) pode significar “sedento” e \”red\” (vemelho) pode ser “corado”.

Os exemplos abaixo ilustram a riqueza do vocabulário de Shakespeare. Que eles sirvam de estímulo para que o leitor de língua portuguesa tenha acesso à experiência inesquecível de ler o texto original:

Abuse
Pode ter o sentido de “farsa”. Ao receber uma carta de Hamlet, propositalmente enigmática, o rei pergunta: “O que quer dizer isso? Os demais voltaram? Ou é alguma farsa e não há nada disso?” (What should this mean? Are all the rest come back? Or is it some abuse, and no such thing?) (4.7).

Acquaint
O verbo significa “dar conhecimento” ou “informar”, do latim cognoscere (conhecer). Horácio diz aos seus companheiros: “Vamos informar-lhe [ao jovem Hamlet] o que sucede” (we shall acquaint him with it) (1.1).

Addition
Trata-se de qualquer título acrescentado a um nome, como Hamlet, príncipe da Dinamarca. Tem um sentido figurado de “reputação”, neste comentário de Hamlet, no terraço, enquanto o rei patrocinava uma de suas festas costumeiras: “Chamam-nos de bêbedos e com frases indecorosas mancham nossa reputação” (They clepe us drunkards, and with swinish phrase/ Soil our addition) (1.4).

Adieu
O fantasma despede-se de Hamlet com a palavra francesa adieu (adeus): “Adeus, adeus! Hamlet, lembre-se de mim” (Adieu, adieu! Hamlet, remember me) (1.5). Hamlet usa a mesma palavra ao despedir-se da mãe: “Desventurada rainha, adeus!” (Wretched queen, adieu!) (5.2).

Admiration
Este substantivo tem o sentido de “espanto”. Quando Horácio conta a Hamlet que viu o falecido rei, diz: “Modere o seu espanto” (Season your admiration) (1.2).

Advancement 1
Hamlet usa este substantivo no sentido de “benefício” ou “vantagem”, nesta fala, dirigindo-se a Horácio: “Que benefício eu poderia esperar de você, que não tem renda, mas só seus bons dotes, para se alimentar e vestir?” (For what advancement may I hope from thee,/ That no revenue hast, but thy good spirits,/ To feed and clothe thee?) (3.2). Pode não parecer, mas é o início de um belo elogio ao amigo Horácio.

Advancement 2
Hamlet usa o termo no sentido de “ambição”, conversando com Rosencrantz e Guidenstern: “Senhor, me falta ambição” (Sir, I lack advancement) (3.2).

Alack
Esta interjeição significa “ai de mim”. Curiosamente, aparece duas vezes numa mesma cena. A primeira é nesta canção de Ofélia: “Por Jesus e pela Santa Caridade/ Ai de mim, que vergonha!” (By Gis and by Saint Charity,/ Alack, and fie for shame!) (4.5). Mais adiante, ao ouvir um tumulto fora de cena, a rainha exclama: “Ai de mim, que barulho é esse?” (Alack, what noise is this?) (4.5).

Amiss 1
Como advérbio de modo, significado “errado” ou “impróprio” A rainha Gertrudes, aflita, emprega o termo como substantivo: “Qualquer ninharia parece o prólogo de algum desastre” (Each toy seems prologue to some great amiss) (4.5).

Amiss 2
Fortimbrás, no fim da peça, usa o termo como advérbio de modo: “Levem estes corpos. — Esta visão/ É própria de um campo de batalha, mas aqui fica mal” (Take up the bodies. —Such a sight as this/ Becomes the field, but here shows much amiss) (5.2).

An
Pode ter o sentido arcaico de if (se), como nesta canção de Ofélia: “Diz ela: _ Antes de me derrubar/ Você prometeu se casar/ _ E o teria feito, pela luz do sol/ se você não tivesse vindo para meu leito” (Quoth she, before you tumbled me,/ You promis’d me to wed./So would I ha’ done by yonder sun,/ An thou hadst not come to my bed) (4.5). Quando Horácio responde ao marinheiro “que Deus também o abençoe” (Let Him bless thee too) (4.6), este responde: “Ele o fará, senhor, se for sua vontade” (He shall, sir, an ’t please him) (4.6).

Anchor
Pode ser “âncora” e também “anacoreta” (uma pessoa que vive reclusa), como nesta fala da atriz-rainha, na “peça dentro da peça”: “Que a austera reclusão de um anacoreta seja todo meu propósito!” (An anchor’s cheer in prison be my scope!) (3.2).

Angle
Embora usualmente signifique “ângulo”, pode ser também “anzol” (fishhook). Hamlet diz a Horácio que o rei “atirou um anzol contra minha própria vida” (Thrown out his angle for my proper life) (5.2).
Antic O adjetivo é arcaico e vem do latim antiquus (antigo), porém seu significado é “grotesco”, “estranho” ou “engraçado”. Em suma, “meio louco”. Hamlet diz a Horácio e Marcelo que vai “adotar um comportamento meio louco” (put an antic disposition on) (1.5).

Apoplexy
A apoplexia é uma afecção cerebral acompanhada de privação dos sentidos e do movimento. Hamlet usa o termo para dizer que sua mãe está fora de seu juízo normal: “Sentidos, claro, você os tem, do contrário não poderia ter movimento: mas certamente estes sentidos estão apoplécticos” (Sense, sure, you have,/ Else could you not have motion: but sure that sense/ Is apoplex’d) (3.4).

Apparel
A palavra significa “traje”. Polônio recomenda ao filho Laertes que se vista bem, para fazer boa figura na França, e lhe diz que “o traje muitas vezes faz o homem” (the apparel oft proclaims the man) (1.3).
Apparition É assim que Marcelo se refere ao fantasma: “se esta aparição vier novamente” (if again this apparition come) (1.1). A palavra é de raiz latina: apparere (aparecer).

Approve
O verbo tem o significado usual de “aprovar”, mas pode também ter o sentido de “confirmar”, nesta fala de Marcelo, referindo-se a Horácio: “Assim, pedi a ele que viesse conosco, para a vigília desta noite, para que, se esta aparição vier novamente, ele possa confirmar nossos olhos e falar com ela” (Therefore I have entreated him along/ With us to watch the minutes of this night,/ That, if again this apparition come,/ He may approve our eyes, and speak to it) (1.1).

Appurtenance
É o mesmo que “acessório”. Vem do latim appertinere (ser pertinente). Na recepção aos atores, Hamlet diz: “O acessório das boas-vindas são o costume e a etiqueta” (The appurtenance of welcome, is fashion and ceremony) (2.2).

Argument
Não se trata de “argumento” ou “raciocínio”, mas sim da “causa de uma disputa”. É o substantivo do verbo to argue (discutir). No sétimo solilóquio (vinte mil homens marcham para seus túmulos), diz Hamlet: “Na verdade, ser grande não é agitar-se sem uma causa maior; pelo contrário, é bater-se por uma questão menor quando a honra está em jogo” (Rightly to be great/ Is not to stir without great argument,/ But greatly to find quarrel in a straw/ When honour is at the stake) (4.4).

Arm
Além de “armar” pode significar “preparar-se”, como nesta instrução do rei para Rosencrantz e Guildenstern: “Preparem-se, eu lhes peço, para esta viagem de urgência” (Arm you, I pray you, to this speedy voyage) (3.3).

Arrant
O adjetivo significa “notório”. Hamlet refere-se a “notório patife” (arrant knave) (1.5). É uma possível derivação de errant (errante), a exemplo de errant thief (ladrão de beira de estrada) e, num sentido mais nobre, knight-errant (cavaleiro andante).

Arras
Trata-se de uma cidade francesa, cujo nome tornou-se sinônimo de “tapeçaria”, como nesta proposta de Polônio para o rei: “Fiquemos então, o senhor e eu, escondidos atrás de uma tapeçaria” (Be you and I behind an arras then) (2.2).

Articles
No plural, este substantivo designa as partes que constituem uma declaração formal. Por exemplo, os “estatutos sociais” de uma empresa são articles of association. O rei Cláudio incumbe os embaixadores Voltimand e Cornélio de negociar com o rei da Noruega dentro do “escopo pormenorizadamente descrito neste protocolo” (scope of these dilated articles) (1.2).

Assistant
Num sentido figurado, pode significar “disponível”. Laertes, ao se despedir da irmã, diz que “se algum meio de comunicação estiver disponível, não perca tempo, mande notícias suas” (And convoy is assistant; do not sleep,/ But let me hear from you) (1.3).

At foot
A expressão significa “de perto”, como nesta ordem do rei para Rosencrantz e Guildenstern, referindo-se a Hamlet: “Sigam-no de perto” (Follow him at foot) (4.3), no sentido de “sem largar o pé”.

Attent
Esta é uma forma arcaica do adjetivo attentive (atento), como nesta fala de Horácio para Hamlet: “ouvido atento, para este fato sobrenatural que vou contar, tendo estes cavalheiros por testemunhas” (an attent ear, till I may deliver,/ Upon the witness of these gentlemen,/This marvel to you) (1.2).

Augury
A palavra vem do latim augurium e quer dizer “adivinhação” ou “presságio”. A palavra existe também em português. A fala é de Hamlet, ao aceitar o desafio de Laertes: “Nada disso, nós desafiamos os augúrios” (Not a whit, we defy augury) (5.2). O sentido de “desafiar” aqui é de “desconsiderar” ou “desprezar”.

Auspicious
O adjetivo “auspicioso” existe também em português. Vem do substantivo latino auspicium (auspício) e quer dizer “favorável”, “de bom presságio”. O rei Cláudio diz que vê seu casamento “com um olho favorável e outro derramando lágrimas” (With one auspicious, and one dropping eye) (1.2).

Avouch
Trata-se de uma forma reduzida de avouchment (garantia ou testemunho), do latim advocare (advogar, apoiar). Horácio comenta a aparição do fantasma e diz que “por Deus, eu não acreditaria nisto sem o testemunho sensível e verdadeiro de meus próprios olhos” (Before my God, I might not this believe/ Without the sensible and true avouch/ Of mine own eyes) (1.1).

Back
O termo está aqui no sentido de “plano reserva”, nesta fala do rei para Laertes: “portanto este plano deve deve ter um reserva ou um segundo” (therefore this project/ Should have a back or second) (4.7). Hoje o adjetivo backup tem o sentido de “reserva”, a exemplo da duplicata de um arquivo de computador.

Ban
Como substantivo significa “banimento”, mas pode ter também o sentido de “maldição”. Na “peça dentro da peça” o personagem Luciano entra em cena e derrama, no ouvido do ator-rei adormecido, uma “poção venenosa, feita de plantas noturnas e três vezes amaldiçoada por Hécate” (mixture rank, of midnight weeds collected,/ With Hecate’s ban thrice blasted, thrice infected) (3.2).

Batten
Hamlet, irritado com a mãe, compara o pai a uma montanha e o tio a um pântano. Ele usa um termo forte to batten (cevar), no sentido de “saciar-se”, nesta fala: “Como você pôde deixar esta montanha para alimentar-se e cevar neste pântano?” (Could you on this fair mountain leave to feed,/ And batten on this moor?) (3.4).

Beaver
O substantivo designa a viseira da armadura. Horácio conta a Hamlet que viu o rosto do fantasma, que “tinha a viseira levantada” (he wore his beaver up) (1.2).

Beckon
É o mesmo que “acenar”, como neste comentário de Horácio para Hamlet, referindo-se ao fantasma: “Ele acena para que você vá com ele,/ como se ele quisesse fazer alguma comunicação/ só para você” (It beckons you to go away with it,/ As if it some impartment did desire/ To you alone) (1.4). Em algumas marcações de cena aparece a expressão Ghost beckons (o fantasma acena).

Behoove
O verbo tem um sentido, hoje raro, de “ser adequado ou apropriado”. Polônio, ao repreender Ofélia por sua atenção excessiva aos galanteios de Hamlet, diz que ela não se comporta “como convém a uma filha minha” (As it behooves my daughter) (1.3).

Beseech
O verbo to beseech (passado besought) aparece várias vezes na peça, como “rogar” ou “pedir”. Polônio, referindo-se ao filho Laertes, assim se dirige ao rei: “rogo-vos que lhe deis licença de partir” (I do beseech you, give him leave to go) (1.2).

Besmirch
O verbo significa “macular” ou “sujar”. Laertes conversa com a irmã sobre as intenções de Hamlet: “talvez ele hoje a ame e, até agora, nenhuma mancha ou embuste macula a pureza de suas intenções” (Perhaps he loves you now;/ And now no soil nor cautel doth besmirch/ The virtue of his will) (1.3).

Beteem
O verbo to beteem, hoje obsoleto, significa “permitir”. O velho rei “não permitia que as brisas celestes incomodassem a rainha” (That he might not beteem the winds of heaven/Visit her face too roughly) (1.2).
Bilbo As cidades espanholas de Toledo e Bilbao eram famosas à época por suas espadas de lâminas bem temperadas. A palavra serve para designar espadas e também os ferros com os quais eram presos os amotinados. Hamlet conta a Horácio como escapou da morte em sua viagem à Inglaterra e diz que se sentia “pior do que os amotinados presos aos ferros” (Worse than the mutines in the bilboes) (5.2).

Blank
Como substantivo, pode ser um “espaço vazio” (por exemplo, num formulário), mas pode significar também “alvo”, à semelhança do espanhol blanco. A calúnia, diz o rei, é “como uma bala de canhão que busca um alvo” (as the cannon to his blank) (4.1). Como adjetivo pode significar “branco”, como em “verso branco” (blank verse) (2.2), que é o verso não rimado, citado por Hamlet na conversa com os atores.

Blazon
A palavra deriva do francês blason (brasão), mas tem em inglês o sentido de “descrição de um brasão”, dentro das regras da heráldica. Esta fala do fantasma para Hamlet é ilustrativa: “Mas esta explicação sobre as coisas da eternidade não é própria/ para ouvidos de carne e osso” (But this eternal blazon must not be/ To ears of flesh and blood) (1.5). Brasão em inglês é coat of arms, numa etimologia distinta do francês.

Blister
Este substantivo normalmente significa “bolha”, mas Hamlet emprega o termo no sentido de “chaga”, ao repreender a mãe: “um ato assim (…) remove a rosa da bela fronte de um amor inocente e põe ali uma chaga” (such an act (…) takes off the rose/From the fair forehead of an innocent love,/ And makes a blister there) (3.4).

Blood
Hamlet usa blood (sangue) num sentido figurado, como “vigor sexual”, ao repreender a mãe: “na sua idade, o auge do vigor está aplacado: ele é humilde e age como servo da razão” (for at your age/ The heyday in the blood is tame, it’s humble,/ And waits upon the judgement) (3.4).

Board
O verbo to board significa “embarcar em” e, num sentido mais arcaico, “falar com”, a exemplo desta fala de Polônio para o casal real, referindo-se a Hamlet: “Vou falar com ele imediatamente” (I’ll board him presently) (2.2). Em português pode-se dizer também, mais literalmente, “vou abordar o assunto com ele”

Bode
Trata de um verbo regular que tem um sentido arcaico de “prenunciar” ou “predizer”. Horácio vê assim a passagem do fantasma: “isto prenuncia alguma estranha comoção no nosso estado” (This bodes some strange eruption to our state) (1.1).

Body of contraction
A expressão body of contraction, nesta fala de Hamlet, significa “vínculo matrimonial”: “Oh, um feito desses é como se arrancasse a própria alma do vínculo matrimonial, fazendo da doce religião uma miscelânea de palavras” (O, such a deed/ As from the body of contraction plucks/ The very soul, and sweet religion makes/ A rapsody of words) (3.4). Analogamente, em português se diz “contrair matrimônio”.

Bore
O significado usual é de “calibre”, mas pode ter o sentido figurado de “importância” ou “gravidade”, como nesta carta de Hamlet para Horácio: \”Preciso contar a você coisas de pasmar; o assunto é de tal gravidade que é difícil encontrar palavras” (I have words to speak in thine ear, will make thee dumb; yet are they much too light for the bore of the matter) (4.6).

Bound
Este adjetivo tem o sentido arcaico de “pronto” ou “preparado”. É o que Hamlet diz ao fantasma: “Fale, estou pronto para ouvir” (Speak; I am bound to hear) (1.5).

Brazen
Este adjetivo significa “brônzeo”, isto é, feito de bronze, como neste relato de Marcelo sobre a fabricação de canhões na Dinamarca: “e por que este fundir diário de canhões de bronze” (And why such daily cast of brazen cannon) (1.1).

Brooch
O brooch (broche) está usado aqui no sentido de “jóia”. Laertes assim se refere ao normando Lamond: “Eu o conheço bem: ele é a jóia, na verdade, e a pérola da nação” (I know him well: he is the brooch, indeed,/ And gem of all the nation) (4.7).

Bruit
O verbo é usado com o sentido arcaico de “ressoar”. O rei, aparentemente satisfeito com a permanência de Hamlet na Dinamarca, promete que “os céus ressoarão, repetindo os trovões da terra” (the heavens shall bruit again,/ Re-speaking earthly thunder) (1.2). Em francês, bruit é “ruído”.

Bulk
O substantivo significa “tamanho”. Laertes, conversando com a irmã, diz que não crescemos só “em músculos e tamanho” (In thews and bulk) (1.3).

But
A tradução usual é a conjunção adversativa “mas”. Há, no entanto, outros significados: “Horácio diz que é apenas nossa imaginação” (Horatio says ’tis but our fantasy) (1.1), afirma Marcelo ao comentar a aparição do fantasma; “Morto há só dois meses!” (But two months dead!) (1.2) diz Hamlet para si mesmo (e para a platéia), no seu primeiro solilóquio; “De fato, considero a ambição de uma qualidade tão aérea e leve, que não passa da sombra de uma sombra” (Truly, and I hold ambition of so airy and light a quality that it is but a shadow’s shadow) (2.2), diz Rosencrantz num diálogo com Hamlet.

By Gis
Esta interjeição significa “por Jesus”, nesta canção de Ofélia: “Por Jesus e pela Santa Caridade/ Ai de mim, que vergonha!” (By Gis and by Saint Charity,/ Alack, and fie for shame!) (4.5).

Canon
A palavra vem do grego e quer dizer “lei” ou “decreto”. Hamlet, neste solilóquio, reclama de Deus por ter promulgado “sua lei contra o suicídio” (His canon ’gainst self-slaughter) (1.2). Não confundir com cannon (canhão), que é uma forma menos elegante de promulgar uma lei.

Canonized
O adjetivo canonized (canonizado) é usado aqui no sentido de “consagrado”, isto é, sepultado conforme os ritos sagrados da Igreja.. Hamlet assim se dirige ao fantasma: “Por que seus ossos consagrados e sepultados pela morte/ romperam sua mortalha” (Why thy canoniz’d bones, hearsed in death,/ Have burst their cerements) (1.4).

Canopy
A palavra vem do grego konops (mosquito) e significa “mosquiteiro”. Em inglês serve para designar, entre outras, a cobertura de entrada de um prédio e a cobertura transparente que protege o piloto de um avião de caça. Hamlet, em conversa com Rosencrantz e Guildenstern, refere-se a “esta maravilhosa abóboda, a atmosfera” (this most excellent canopy, the air) (2.2)

Cap-à-pie
Este advérbio de modo, derivado do francês, significa “da cabeça aos pés”. Horácio diz a Hamlet que o fantasma estava armado “da cabeça aos pés” (cap-à-pie) (1.2). Em outras palavras, o fantasma vestia uma armadura com todos os seus acessórios.

Carouse
O verbo to carouse vem do alemão gar aus (trinken) e quer dizer “beber tudo de uma vez”. Gertrudes pega a taça envenenada e diz: “A rainha bebe à tua sorte, Hamlet” (The queen carouses to thy fortune, Hamlet) (5.2).

Carve
O verbo pode significar “cinzelar”, “esculpir” ou “entalhar”. Laertes, num sentido figurado, explica à sua irmã Ofélia as limitações do príncipe: “Ele não pode, como fazem as pessoas humildes,/ escolher por si próprio” (He may not, as unvalu’d persons do,/ Carve for himself) (1.3).

Cast 1
O verbo to cast pode significar “fundir”, isto é, derramar uma liga metálica fundida num molde, como neste relato de Marcelo sobre a fabricação de canhões na Dinamarca: “e por que este fundir diário de canhões de bronze” (And why such daily cast of brazen cannon) (1.1).

Cast 2
O verbo to cast pode significar “jogar fora” ou “deixar de lado”, como neste conselho da rainha a Hamlet: “Bom Hamlet, deixe de lado este semblante soturno” (Good Hamlet, cast thy nighted colour off) (1.2).

Cast 3
O substantivo cast pode significar “sombra”, como neste exemplo do quinto solilóquio (ser ou não ser, eis a questão!): “E o aspecto primitivo da resolução/ é debilitado pela sombra tênue do pensamento” (And thus the native hue of resolution/ Is sicklied o’er with the pale cast of thought) (3.1).

Cause 1
Aqui o sentido é de “causa” ou “motivo”. Antes de se retirar, a rainha diz a Ofélia que espera que “seus encantadores atrativos sejam a feliz causa do desequilíbrio de Hamlet” (your good beauties be the happy cause/ Of Hamlet’s wildness) (3.1).

Cause 2
Hamlet dirige-se a Horácio e se refere à sua própria história: “Narre minha verdadeira história aos que não a conhecem” (report me and my causes aright/ To the unsatisfied) (5.2).

Cause 3
Pode significar “ocasião”. Horácio dirige-se a Fortimbrás: “Disso terei também ocasião de falar” (Of that I shall have also cause to speak) (5.2).

Cautel
O substantivo vem do latim cautela. Aqui tem o sentido figurado de “ardil” ou “embuste”. Laertes, ao se despedir da irmã, chama sua atenção para os galanteios de Hamlet “talvez ele hoje a ame e, até agora, nenhuma mancha ou embuste macula a pureza de suas intenções” (Perhaps he loves you now;/ And now no soil nor cautel doth besmirch/ The virtue of his will) (1.3).

Cellerage
Numa passagem de um certo “alívio cômico”, Hamlet asssim se refere ao fantasma, para Horácio e Marcelo: “Ouçam este sujeito no porão” (You hear this fellow in the cellarage) (1.5). A forma usual hoje é cellar.

Cerement
O substantivo deriva do latim cera (cera) e se refere aos lençóis impregnados usados para o embalsamamento. Hamlet assim se dirige ao fantasma: “Por que seus ossos consagrados e sepultados pela morte/ romperam sua mortalha” “Why thy canoniz’d bones, hearsed in death,/ Have burst their cerements” (1.4).

Chameleon
A palavra “camaleão” é de origem grega e significa “leão da terra”. Para Hamlet, o ar é o “prato do camaleão” (chameleon’s dish) (3.2), com base na antiga suposição de que ele se alimentava de ar. Esta idéia aparece também na peça “Dois Cavalheiros de Verona” (Two Gentlemen of Verona), nesta fala: “embora o camaleão Amor viva de ar, eu preciso de meus víveres para me sustentar” (though the chameleon Love can feed on air, I am one that am nourished by my victuals) (2, 1).

Changeling
O substantivo se refere a uma criança deixada pelas fadas em troca de outra, levada por elas. Hamlet usa o termo ao referir-se, em conversa com Horácio, à substituição da carta levada por Rosencrantz e Guidenstern: “a troca nunca foi percebida” (The changeling never known) (5.2).

Charge
Este verbo tem muitos significados (acusar, atacar, cobrar, etc). Um deles é “ordenar”, como nesta fala de Horácio para o fantasma: “Por Deus, ordeno que você fale!” (By heaven I charge thee, speak!) (1.1).

Chary
O adjetivo chary significa “cauteloso”. Laertes previne a irmã Ofélia do assédio de Hamlet e lhe diz que “a donzela mais cautelosa considera uma prodigalidade excessiva revelar sua beleza à própria lua” (The chariest maid is prodigal enough/ If she unmask her beauty to the moon) (1.3).

Chief
A palavra tem um curioso sentido arcaico de “principalmente”, que hoje se diria chiefly. Polônio recomenda ao filho Laertes que se vista bem, para fazer boa figura na França, onde “são muito seletos e fidalgos, principalmente nisto” (most select and generous chief in that) (1.3).

Choice
Hamlet assim descreve a peça que seria encenada: “A história é autêntica e descrita num italiano refinado” (the story is extant and writ in choice Italian) (3.2). Choice tem aqui o sentido de “refinado” ou “elegante”.

Chopine
Trata-se de um sapato de sola grossa, chamado em português de “chapim” (do espanhol chapín). Como na época não existiam atrizes, Hamlet dirige-se a um jovem ator que interpretava papéis femininos: “Ora, minha jovem e senhora? Nossa, está mais perto do céu do que quando eu o vi por último, do alto de um chapim” (What, my young lady and mistress? By’r lady, your ladyship is nearer heaven then when I saw you last, by the altitude of a chopine) (2.2).

Clad
Esta é uma forma alternativa do particípio passado de to clothe (revestir). Por exemplo, uma chapa de aço revestida por uma camada de um outro material é um clad steel (aço cladeado). Horácio refere-se à manhã que se aproxima “envolta num manto avermelhado” (in russet mantle clad) (1.1).

Clepe
O verbo é arcaico e corresponde a to call (chamar), como neste comentário de Hamlet, no terraço, enquanto o rei patrocinava uma de suas festas costumeiras: “Chamam-nos de bêbedos e com frases indecorosas mancham nossa reputação” (They clepe us drunkards, and with swinish phrase/ Soil our addition) (1.4).

Close 1
Tem o sentido de “oculto” nesta recomendação de Polônio para Ofélia: “Venha, vamos ao rei; isto deve ser conhecido. Estando oculto, poderá trazer mais problema se for escondido do que rancor se for revelado” (Come, go we to the king:/ This must be known; which, being kept close, might move/ More grief to hide than hate to utter love) (2.1).

Close 2
A expressão significa “de perto”, como at foot (verbete acima), a exemplo desta ordem do rei para Horácio, referindo-se a Ofélia: “Siga-a de perto” (Follow her close) (4.5).

Closet
Trata-se do “gabinete particular” da rainha. Rosencrantz diz ao príncipe: “Ela quer conversar com o senhor em seu gabinete particular, antes que o senhor se recolha” (She desires to speak with you in her closet ere you go to bed) (3.2).

Cockle
Este substantivo vem do francês coquille e quer dizer “concha”. O “chapéu com concha” é típico dos peregrinos de Santiago de Compostela, capital da Galícia (Espanha). Ofélia canta “Como posso distinguir o verdadeiro amor de um outro? Pelo chapéu de peregrino, bastão e sandálias” (How should I your true love know/From another one?/ By his cockle hat and staff,/and his sandal shoon) (4.5). Em “Péricles”, o personagem Gower, que faz o papel do Coro, diz que em nossa imaginação “atravessamos os mares em conchas” (sail seas in cockles) (4.4). Neste caso, a concha equivale à “casca de noz”, como metáfora de “embarcação pequena e frágil”.

Coil
Este substantivo tem o sentido arcaico de “torvelinho”. O mortal coil seria, em sentido figurado, o “torvelinho da vida”. Pode ser também uma “bobina”, como algo que nos envolve. Seria neste caso um “invólucro mortal”. No quinto solilóquio (ser ou não ser), Machado de Assis traduziu como o “lodo mortal”, do qual nos despimos: “Ao perpétuo sono,/ Quando o lodo mortal despido houvermos,/ Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre” (For in that sleep of death what dreams may come,/ When we have shuffled off this mortal coil,/ Must give us pause) (3.1).

Colour 1
O substantivo colour significa “cor” e, num sentido figurado, “semblante”, como neste conselho da rainha a Hamlet: “Bom Hamlet, deixe de lado este semblante soturno” (Good Hamlet, cast thy nighted colour off) (1.2).

Colour 2
Como verbo, pode ter o sentido de “ocultar” ou “servir de pretexto”. Hamlet diz a Rosencrantz e Guildenstern: “Vocês foram mandados; há uma espécie de confissão em seus olhares, que sua timidez não tem esperteza bastante para ocultar” (You were sent for; and there is a kind of confession in your looks, which your modesties have not craft enough to colour) (2.2). Mais tarde, Polônio instrui sua filha Ofélia: “Leia este livro. Uma mostra de tal devoção pode servir de pretexto para seu recolhimento” (Read on this book;/ That show of such an exercise may colour/ Your loneliness) (3.1).

Columbine
É o mesmo que “aquilégia”, uma das flores distribuídas por Ofélia em seu desvario. “Aqui está a erva-doce para você, e aquilégias” (There’s fennel for you, and columbines) (4.5). O nome vem do latim columba (pomba).

Commandment
O termo pode referir-se a qualquer um dos Dez Mandamentos bíblicos (Ten Commandments), como também a uma ordem ou comando. O embaixador inglês veio visitar o rei “para dizer-lhe que sua ordem foi cumprida,/ Que Rosencrantz e Guildenstern estão mortos” (To tell him his commandment is fulfill’d,/ That Rosencrantz and Guildenstern are dead) (5.2). Horácio responde usando o mesmo termo: “Ele nunca deu ordem para a morte deles” (He never gave commandment for their death) (5.2).

Compact
Como substantivo, pode significar “contrato”, do latim pactus (pacto). Horácio explica aos companheiros que as terras conquistadas pelo falecido rei Hamlet foram objeto de um “contrato selado, devidamente ratificado pela lei e pela heráldica” (a seal’d compact, well ratified by law and heraldry) (1.1).

Comply
O verbo significa “agir de acordo com” ou “cumprir”, referindo-se a um regulamento ou uma ordem. Pode ter o sentido de “cumprimentar”: Hamlet diz a Horácio que Osric “antes de mamar já cumprimentava a teta” (He did comply with his dug before he sucked it) (5.2).

Compulsative
É o mesmo que compulsory (compulsório). Horácio explica que o jovem Fortimbrás quer recuperar as terras perdidas pelo pai e que pretende fazê-lo “com mão forte e termos compulsórios” (by strong hand,/And terms compulsative) (1.1).

Conceit
Pode ser “orgulho” (do italiano concetto, isto é, uma opinião exagerada sobre si mesmo), como também “fantasia”, a exemplo deste conselho do fantasma para Hamlet, para que o príncipe cuidasse da mãe: “A fantasia trabalha mais nos corpos mais frágeis” (Conceit in weakest bodies, strongest works) (3.4).

Condolement
A palavra condolement é sinônima de condolence (condolência). O rei Cláudio acha que Hamlet reage exageradamente à morte do pai, e chama seu pesar de “luto obstinado” (obstinate condolement) (1.2).

Confession
O substantivo confession pode ter o sentido de “elogio”, como neste comentário do rei para Laertes, referindo-se ao normando Lamord: “Ele lhe fez um elogio” (He made confession of you) (4.7).

Confine
A palavra confine deriva de confinement (prisão, confinamento). Horácio conta que, ao nascer o dia, “o espírito errante apressa-se de volta ao seu confinamento” (Th’ extravagant and erring spirit hies/ To his confine) (1.1).

Contagion
Hamlet começa o sexto solilóquio dizendo que “esta é a hora dos feitiços noturnos, quando os cemitérios bocejam e o próprio inferno sopra seu veneno sobre o mundo!” (‘Tis now the very witching time of night,/ When churchyards yawn, and hell itself breaths out/ Contagion to this world) (3.2). A palavra não tem aqui o significado usual de “contágio”, mas sim o sentido arcaico de “veneno” (poison). Em outro exemplo, Laertes diz ao rei: “vou mergulhar a ponta de minha espada neste veneno” (I’ll touch my point/ With this contagion) (4.7).

Convoy
Esta palavra significa “comboio” mas, num sentido figurado, pode ser “meio de comunicação” ou “correio”. Laertes, ao se despedir da irmã, diz que “se algum meio de comunicação estiver disponível, não perca tempo, mande notícias suas” (And convoy is assistant; do not sleep,/ But let me hear from you) (1.3).

Corse
Esta é uma forma poética de corpse (corpo morto, cadáver). O rei Cláudio desdenha do luto pesado de Hamlet, dizendo ser coisa comum os pais morrerem antes dos filhos, “desde o primeiro morto, até aquele que morreu hoje” (From the first corse, till he that died to-day) (1.2).

Counsel
Além do significado usual de “conselho”, há um sentido arcaico de “segredo”, como nesta observação de Hamlet para Ofélia: “os atores não sabem guardar segredos” (the players cannot keep counsel) (3.2).

Countenance 1
A expressão verbal give countenance tem o sentido de “assegurar” ou “garantir”. Ofélia, conversando com seu pai Polônio, diz que Hamlet “garantiu suas palavras com os mais santos juramentos do céu” (And hath given countenance to his speech, my lord/ With almost all the holy vows of heaven) (1.3). Pode significar também “explicar” ou “justificar” alguma coisa. Após Hamlet assassinar Polônio, o rei diz que “precisamos usar nossa majestade e astúcia, para explicá-lo e desculpá-lo” (We must, with all our majesty and skill,/ Both countenance and excuse) (4.1).

Countenance 2
Como substantivo pode ser “expressão facial” ou “aparência”, como nesta descrição de Horácio para Hamlet, referindo-se ao fantasma: “Uma expressão mais de pesar do que de ira” (A countenance more in sorrow then in anger) (1.2).

Countenance 3
Como substantivo pode ser também “aprovação” ou “favor”. Hamlet diz a Rosencrantz que não vai responder à pergunta de uma esponja. Ele estranha e o príncipe explica que o considera uma esponja “que se empapa do favor do rei, de suas recompensas e de seu poder” (that soaks up the king’s countenance, his rewards, his authorities) (4.2).

Counterfeit
Hoje este adjetivo é sinônimo de “falso”. Há no entanto um sentido arcaico de “retratado”, como nesta fala de Hamlet, repreendendo a mãe: “Veja este quadro e este outro — fiéis retratos de dois irmãos” (Look here upon this picture, and on this, —/ The counterfeit presentment of two brothers) (3.4). O dicionário Oxford dá esta frase como exemplo no verbete counterfeit, significando represented in a picture (representado num quadro).

Cousin
A palavra cousin (primo) pode ser usada para definir qualquer parente. O rei Cláudio se dirige ao sobrinho Hamlet como “meu parente Hamlet e meu filho” (my cousin Hamlet, and my son) (1.2).
Craft Pode ser “arte” ou “ofício”, mas também “esperteza” ou “astúcia”. Hamlet diz a Rosencrantz e Guildenstern: “Vocês foram mandados; há uma espécie de confissão em seus olhares, que sua timidez não tem esperteza bastante para ocultar” (You were sent for; and there is a kind of confession in your looks, which your modesties have not craft enough to colour) (2.2). Mais tarde, Hamlet diz para sua mãe: “na verdade não estou louco, mas louco por astúcia” (That I essentially am not in madness,/ But mad in craft) (3.4).

Credent
O adjetivo significa “crédulo” e vem do latim credere (crer). Laertes, ao se despedir da irmã, chama
sua atenção para os galanteios de Hamlet e pede que ela “não ouça suas canções com um ouvido muito crédulo” (with too credent ear you list his songs) (1.3).

Crime
A palavra não tinha a conotação pesada que tem hoje, mas sim um sentido mais leve de “transgressão”. O fantasma do pai de Hamlet refere-se às “transgressões lamentáveis cometidas em meus dias de vida” (foul crimes done in my days of nature) (1.5). Também Polônio, conversando com o criado Reinaldo, refere-se às transgressões de seu filho Laertes como “os vícios mencionados” (the prenominate crimes) (2.1).

Crowflower
A rainha descreve Ofélia “com suas estranhas guirlandas/ de ranúnculos, urtigas, margaridas, e longas flores púrpuras” (There with fantastic garlands did she come/ Of crowflowers, nettles, daisies, and long purples) (4.7). O “ranúnculo” (crowflower) é o mesmo que “botão-de-ouro” (buttercup), por seu feitio de “taça” (cup). Seu nome científico é Ranunculus e pode ser amarela, branca ou vermelha.

Custom
Pode ter o sentido de “rotina”, como nesta fala de Hamlet para a rainha: “A rotina, este monstro que devora todo sentimento” (That monster custom, who all sense doth eat) (3.4).
Daisy Ofélia distribui flores: “Aqui está uma margarida” (There’s a daisy) (4.5). É o mesmo que “malmequer” e “bem-me-quer”. Os nomes dão uma boa idéia de sua simbologia de dúvida no amor. A mesma flor é citada mais adiante, quando a rainha descreve Ofélia “com suas estranhas guirlandas/ de ranúnculos, urtigas, margaridas, e longas flores púrpuras” (There with fantastic garlands did she come/ Of crowflowers, nettles, daisies, and long purples) (4.7).

Dalliance
O substantivo deriva do verbo to dally, que pode significar “cortejar”, “namorar”, como também “vadiar”. Num sentido figurado, Ofélia pede ao irmão Laertes que não seja como os pregadores que cedem ao “caminho florido dos prazeres” (primrose path of dalliance) (1.3).

Dane
O substantivo Dane refere-se a um cidadão dinamarquês. Na última cena Horácio diz: “tenho mais de romano antigo do que de dinamarquês” (I am more an antique Roman than a Dane) (5.2). Já a expressão the Dane refere-se ao “rei dinamarquês”. Na primeira aparição de Horácio e Marcelo, o segundo diz ao sentinela Francisco que eles são “súditos do rei da Dinamarca” (liegemen to the Dane) (1.1).

Dansker
É o mesmo que Dane (dinamarquês), como neste pedido de Polônio a Reinaldo: “Primeiro procure saber, em meu nome, quem são os dinamarqueses que estão em Paris” (Enquire me first what Danskers are in Paris) (2.1).

Dead-men’s fingers
A rainha descreve Ofélia “com suas estranhas guirlandas/ de (…) longas flores púrpuras,/ Às quais os pastores lascivos dão um nome mais grosseiro,/ Que nossas donzelas chamam de dedos-de-defunto” (There with fantastic garlands did she come/ (…) and long purples,/ That liberal shepherds give a grosser name,/ But our cold maids do dead-men’s fingers) (4.7). As “longas flores púrpuras” são orquídeas também conhecidas como dog’s cullions. Cabe lembrar que “orquídea” vem do grego orchis (testículo).

Dear
Curiosamente, Hamlet usa dearest (mais querido, mais estimado) no sentido de “pior” nestes versos, referindo-se ao dia do casamento da mãe: “Eu teria preferido encontrar meu pior inimigo no céu/ a ter visto aquele dia, Horácio!” (Would I had met my dearest foe in heaven/ Ere I had ever seen that day, Horatio!) (1.2).

Debate
O verbo equivale ao nosso “debater”, no sentido de “promover uma discussão formal”. Hamlet conversa com o capitão norueguês e diz que “duas mil almas e dois mil ducados não irão decidir a questão desta bagatela” (Two thousand souls and twenty thousand ducats/ Will not debate the question of this straw) (4.4). Em outras palavras, “duas mil almas e dois mil ducados não serão suficientes para debater esta bagatela”.
Deliver Além do sentido usual de entregar ou distribuir mercadorias e correspondências, este verbo pode significar “contar” ou “relatar”, como nesta fala de Horácio para Hamlet: “ouvido atento, para este fato sobrenatural que vou contar, tendo estes cavalheiros por testemunhas” (an attent ear, till I may deliver,/ Upon the witness of these gentlemen,/This marvel to you) (1.2).

Desert
Além de seu significado usual de “deserto” (com pronúncia paroxítona em inglês), este substantivo pode também significar “merecimento” (com pronúncia oxítona em inglês). Polônio diz a Hamlet que tratará os atores “conforme seu merecimento” (according to their desert) (2.2). O verbo correspondente é “to deserve” (merecer).

Desk
Aqui desk (escrivaninha) e table-book (diário) são símbolos de “capacidade de guardar segredo”, como nesta fala de Polônio para o casal real: “Se eu me comportasse como uma escrivaninha ou um diário” (If I had play’d the desk or table-book) (2.2).

Dexterity
O substantivo pode significar “destreza”, mas também “impaciência” ou “sofreguidão”. Hamlet se queixa do luto rápido observado por sua mãe, que “se apressou com tanta sofreguidão para lençóis incestuosos” (to post/ With such dexterity to incestuous sheets!) (1.2).

Diet 1
O substantivo diet em geral significa “dieta”, no sentido de restrição alimentar. Pode significar também “suprimentos”. Horácio, em conversa com os companheiros Marcelo e Bernardo, conta que o jovem Fortimbrás reuniu um bando de rebeldes “a troco de comida e suprimentos” (for food and diet) (1.1).

Diet 2
O substantivo “dieta” pode significar também uma “assembléia” ou “reunião formal”. V. Worm(s) mais adiante neste capítulo, sobre o trocadilho famoso entre “dieta de vermes” e “Dieta de Worms” (4.3).

Dilate
O verbo significa “dilatar” e também “descrever com pormenores”. O rei Cláudio incumbe os embaixadores Voltimand e Cornélio de negociar com o rei da Noruega dentro do “escopo pormenorizadamente descrito neste protocolo” (scope of these dilated articles) (1.2).

Dismal
A palavra vem do latim dies mali (mau dia) e significa “horrível”. O embaixador inglês, ao deparar com os cadáveres, exclama: “Esta cena é horrível” (The sight is dismal) (5.2).

Disappointed
Não se trata do significado habitual (desapontado), mas sim “despreparado”. O fantasma do pai de Hamlet se queixa de ter morrido despreparado, isto é, sem ter recebido os sacramentos (1.5).

Disaster
A etimologia de desastre (disaster), do latim dis + astrum, se refere a alguma coisa fora da ordem natural dos astros, simbolizando assim a possibilidade de algum infortúnio. É o que Horácio quer dizer quando se refere a “sinais ameaçadores no sol” (disasters in the sun) (1.1).

Discourse
Trata-se de um termo arcaico para “inteligência” ou “racionalidade”. No seu sétimo solilóquio Hamlet diz que “Certamente aquele que nos criou com uma vasta inteligência, capaz de pensar no passado e no futuro, não nos deu esta capacidade e a razão divina para embolorar por falta de uso” (Sure he that made us with such large discourse,/ Looking before and after, gave us not/ That capability and godlike reason/ To fust in us unus’d) (4.4).

Discretion
O substantivo quer dizer “razão” ou “entendimento”. Nesta fala, o rei Cláudio diz que “a razão se opôs à natureza” (discretion fought with nature) (1.2). Não confundir com discreetness (discrição, comedimento).

Disjoint
Este é um adjetivo arcaico para disjointed (desarticulado ou desagregado). O termo é empregado pelo rei Cláudio, que diz que o jovem Fortimbrás se engana ao julgar que “o país está desarticulado” (our state to be disjoint) (1.2).

Disposition
Não se trata de “disposição”, mas sim de “comportamento”. Hamlet diz a Horácio e Marcelo que vai “adotar um comportamento meio louco” (put an antic disposition on) (1.5). Achava-se na época que o humor derivava da posição relativa ou “disposição” dos planetas.

Distracted
Aqui o sentido é de “irracional” ou “fanática”. O rei Cláudio lamenta não poder punir Hamlet porque “ele é amado pela multidão fanática,/ que julga com os olhos e não com a razão” (He’s lov’d of the distracted multitude,/ Who like not in their judgement, but their eyes) (4.3).

Distraction
Pode ser “diversão” ou “distração”, como também “loucura”. Hamlet fica impressionado com o desempenho do ator, que fez seu papel “com lágrimas nos olhos e um semblante de loucura” (Tears in his eyes, distraction in’s aspect) (2.2). Mais tarde, Hamlet desculpa-se com Laertes, antes do combate fatídico, dizendo-se “punido por uma cruel loucura” (punish’d with sore distraction) (5.2).

Divide
Além de “dividir”, o verbo pode significar “distinguir”. Marcelo refere-se ao trabalho duro dos carpinteiros navais que “não distingue os domingos dos demais dias da semana” (Does not divide the Sunday from the week) (1.1).

Document
Aqui significa “lição”. Laertes assim se refere à loucura da irmã: “Uma lição de loucura, — pensamentos e lembranças harmonizam-se” (A document in madness, — thoughts and remembrance fitted) (4.5). É a única vez que a palavra aparece na peça.

Dole
A palavra é um sinônimo arcaico para “dor”. O rei Cláudio explica que decidiu tomar por esposa a viúva de seu irmão, “pesando em igual balança o prazer e a dor” (In equal scale weighing delight and dole) (1.2).

Don
O verbo to don é uma contração de to do on e tem o mesmo significado de seu equivalente mais moderno to put on (vestir-se), como nesta canção de Ofélia: “Então ele se levantou e vestiu suas roupas” (Then up he rose, and donn’d his clothes) (4.5).

Doubt 1
Este verbo pode ter o sentido arcaico de “suspeitar” ou “temer”. Hamlet emprega o verbo neste sentido quando diz: “suspeito de alguma traição” (I doubt some foul play) (1.2).

Doubt 2
O cortesão explica à rainha que Ofélia, que está enlouquecida, “diz coisas ambíguas” (speaks things in doubt) (4.5).

Down
Pode significar “arruinado” ou “perdido”, como nesta fala de Ofélia: “O espelho da elegância e modelo de estilo, o centro de todos os olhares — perdido, completamente perdido” (The glass of fashion and the mould of form,/ The observ’d of all observers, — quite, quite down!) (3.1).

Dread
Embora o adjetivo signifique “temível”, Laertes o usa, dirigindo-se ao rei Cláudio, no sentido reverencial de “Meu venerável senhor” (Dread my Lord) (1.2).

Dry
Aqui dry (seco) está no sentido de “sedento”, nesta instrução do rei para Laertes: “Quando na agitação da luta vocês estiverem calorosos e sedentos” (When in your motion you are hot and dry) (4.7).

Dry up
Acreditava-se que o cérebro era um órgão frio e úmido, que conduziria à loucura se secasse. Nesta fala, Laertes aflige-se com a loucura da irmã: “Oh, febre, seque meu cérebro” (O heat, dry up my brains!) (4.5). O mesmo conceito encontra-se em “Dom Quixote” de Miguel de Cervantes: “e assim, de pouco dormir e de muito ler, secou-se-lhe o cérebro, de modo que veio a perder o juízo” (y así, del poco dormir y del mucho leer, se le secó el celebro, de manera que vino a perder el juicio) (livro 1, cap. 1).

Ducat
O ducado era uma das moedas de ouro e prata que circulavam na época, em diversos países. A palavra vem do italiano ducato, porque elas traziam a efígie de um duque. Hamlet diz que “pagariam vinte, quarenta e cem ducados por um pequeno retrato do rei” (would (…) give twenty, forty, an hundred ducats a-piece for his picture in little) (2.2). Antes de matar Polônio, que estava escondido atrás da tapeçaria, o príncipe diz “Morto, aposto um ducado (que estará) morto!” (Dead, for a ducat, dead!) (3.4). Hamlet conversa com o capitão norueguês e diz que “duas mil almas e dois mil ducados não irão decidir a questão desta bagatela” (Two thousand souls and twenty thousand ducats/ Will not debate the question of this straw) (4.4).

Dug
É sinônimo de “teta” (teat). Hamlet diz a Horácio que Osric “antes de mamar já cumprimentava a teta” (He did comply with his dug before he sucked it) (5.2).

Dull 1
O verbo to dull pode significar “calejar”, como neste conselho de Polônio a Laertes: “Mas não caleje a sua mão dando acolhida a cada camarada mal saído da casca do ovo e ainda por emplumar” (But do not dull thy palm with entertainment/ Of each unhatch’d, unfledg’d comrade) (1.3).

Dull 2
O verbo to dull pode significar “embotar” ou “perder o gume ou a amolação”. Polônio aconselha Laertes dizendo que “pedir emprestado embota o gume da economia” (borrowing dulls the edge of husbandry) (1.3).
Duty Pode ter o sentido de “cumprimentos” ou “saudações”, como nesta fala de Fortimbrás para seu capitão, referindo-se ao rei da Dinamarca: “Expressaremos nossos cumprimentos pessoalmente” (We shall express our duty in his eye) (4.4).

Eager
O adjetivo normalmente significa “ansioso” ou “impaciente”. Pode significar “agudo”, como nesta frase de Horácio: “O ar frio está cortante e agudo” (It is a nipping and an eager air) (1.4). Pode ser também “ácido”, como quando o fantasma do falecido rei explica que o veneno talhou seu sangue “como gotas ácidas no leite” (like eager droppings into milk) (1.5).

Ear
Este substantivo pode significar “ouvido” e também “espiga” (como uma espiga de trigo). Hamlet emprega este segundo sentido em conversa com a mãe, quando chama o tio e padrasto de “espiga definhada” (mildew’d ear) (3.4).

Ecstasy
Trata-se de uma extrema exaltação emocional, como uma “loucura” ou “delírio”, como nesta explicação de Polônio para Ofélia: “Esta é a própria loucura do amor, cuja característica violenta destrói a si próprio” (This is the very ecstasy of love;/ Whose violent property foredoes itself) (2.1).

Effects 1
Embora no singular signifique “efeito”, no plural tem o significado de “bens” ou “propriedades”, como neste monólogo do rei, que se vê impedido de obter o perdão divino, “uma vez que ainda estou de posse dos bens pelos quais cometi o assassinato: minha coroa, minha própria ambição e minha rainha” (since I am still possess’d/ Of those effects for which I did the murder/ My crown, mine own ambition, and my queen) (3.3).

Effects 2
Pode significar “desígnios” ou “objetivos”, como nesta fala de Hamlet para sua mãe: “Não olhe para mim, para que com esta ação piedosa não mude meus firmes designios” (Do not look upon me;/ Least with this piteous action you convert/ My stern effects) (3.4).

Eisel
A palavra deriva do latim acetum e que dizer “vinagre”. No encontro com Laertes no enterro de Ofélia, Hamlet pergunta se ele “beberá vinagre” (Woul’t drink up eisel?) (5.1), como demonstração de pesar, como chorar e jejuar.

Entertainment
O verbo to entertain pode significar “divertir” como também “receber bem” ou “dar boa acolhida”. Polônio utiliza o substantivo entertainment (acolhimento) neste conselho a Laertes: “Mas não caleje a sua mão dando acolhida a cada camarada mal saído da casca do ovo e ainda por emplumar” (But do not dull thy palm with entertainment/ Of each unhatch’d, unfledg’d comrade) (1.3). O significado é o mesmo.neste recado da rainha para Hamlet “ser simpático com Laertes” (to use gentle entertainment to Laertes) (5.2).

Enviously
O sentido moderno é “com inveja”, mas há também o sentido arcaico de “com má vontade” ou “com irritação”. Horácio diz à rainha que Ofélia “se enfurece por nada” (spurns enviously at straws) (4.5).
Ere A palavra, hoje de uso arcaico ou poético, significa “antes”. Horácio refere-se ao imperador Júlio César, da Roma antiga, quando menciona uma época “um pouco antes da queda do poderoso Júlio” (a little ere the mightiest Julius fell) (1.1).

Erring
Horácio refere-se ao fantasma como um “espírito errante” (erring spirit) (1.1). É curioso que em ambas as línguas o verbo to err “errar” pode significar tanto “cometer erros” quanto “vagar sem destino”, à semelhança do latim errare.

Eruption
Horácio vê assim a passagem do fantasma: “isto prenuncia alguma estranha comoção no nosso estado” (This bodes some strange eruption to our state) (1.1). O substantivo “erupção” tem vários sentidos: físico (como a erupção da lava de um vulcão), social (como um descontentamento súbito da população) ou médico (como uma lesão inflamatória ou infecciosa). Neste último caso, seria a metáfora de um estado com um problema orgânico.

Exact
Este adjetivo pode significar “exato” e também “rigoroso”, “categórico” ou “terminante”. Hamlet conta a Horácio que as instruções para sua execução (de Hamlet) eram “uma ordem terminante” (an exact command) (5.2).

Exercise
Além de “exercício”, pode ser “devoção” ou “prática religiosa”. Polônio instrui sua filha Ofélia: “Leia este livro. Uma mostra de tal devoção pode servir de pretexto para seu recolhimento” (Read on this book;/ That show of such an exercise may colour/ Your loneliness) (3.1).

Extant
Hamlet assim descreve a peça que seria encenada: “A história é autêntica e descrita num italiano refinado” (the story is extant and writ in choice Italian) (3.2). Extant tem aqui o sentido de “autêntico” ou “verdadeiro”.

Extravagant
Não se trata de “excessivo”, mas sim “fora de seus limites habituais”, dentro da etimologia latina de extra + vagare. Horácio conta que, ao nascer o dia, “o espírito errante apressa-se de volta ao seu confinamento” (Th’ extravagant and erring spirit hies/ To his confine) (1.1).

Eye 1
A expressão in his/her eye significa “pessoalmente”, como nesta fala de Fortimbrás para seu capitão, referindo-se ao rei da Dinamarca: “Expressaremos nossos cumprimentos pessoalmente” (We shall express our duty in his eye) (4.4).

Eye 2
Pode ser “golpe de vista”, como nesta fala do rei, ao convencer Laertes a esgrimir com Hamlet: “Quanto ao seu florete, mais especialmente, Lamond disse que seria um espetáculo se alguém se batesse com você: os esgrimistas da terra dele, jurou Lamond, não teriam nem movimentação, nem guarda, nem golpe de vista, se você lutasse com eles” (And for your rapier most especially,/ That he cried out, ’twould be a sight indeed/If one could match you: the scrimers of their nation,/ He swore, had neither motion, guard, nor eye,/ If you oppos’d them) (4.7).

Familiar
Pode significar também “amistoso”, como neste conselho de Polônio a Laertes: “Seja amistoso, mas de modo algum vulgar” (Be thou familiar; but by no means vulgar) (1.3).

Fashion 1
O sentido que a palavra hoje tem de “moda” encontra-se neste comentário de Rosencrantz sobre os atores: “hoje eles estão na moda” (these are now the fashion) (2.2).

Fashion 2
Laertes, conversando com Ofélia sobre o interesse de Hamlet por ela, pede que a irmã “considere isso como um entusiasmo passageiro” (hold it a fashion) (1.3).

Fashion 3
Pode ter o sentido de “elegância”, como nesta fala de Ofélia: “O espelho da elegância e modelo de estilo, o centro de todos os olhares — perdido, completamente perdido” (The glass of fashion and the mould of form,/ The observ’d of all observers, — quite, quite down!) (3.1).

Fashion 4
Aqui a expressão from fashion of himself quer dizer “fora de seu costume habitual” (do latim facere, fazer), no sentido de “fora de si”, como neste comentário do rei para Polônio, referindo-se a Hamlet: “Este assunto algo arraigado em seu coração, contra o qual sua mente luta continuamente, deixa-o assim fora de si” (This something-settled matter in his heart;/ Whereon his brains still beating puts him thus/ From fashion of himself) (3.1).

Fat
A rainha usa a palavra no sentido de “suarento”, referindo-se a Hamlet, que luta com Laertes: “Ele está suarento e sem fôlego” (He’s fat, and scant of breath) (5.2).

Favour 1
O substantivo tem aqui o sentido de “galanteio”. Laertes começa assim seus conselhos à irmã Ofélia: “Quanto a Hamlet e seus galanteios frívolos” (For Hamlet, and the trifling of his favour) (1.3).

Favour 2
Há ainda um sentido arcaico de “aparência” ou “aspecto”. Hamlet, segurando o crânio de Yorick, na cena do cemitério, diz-lhe: “Agora vá ao aposento de minha senhora e diga-lhe que ponha uma polegada de pintura e que ela deve chegar a este aspecto; faça-a rir com isso” (Now get you to my lady’s chamber, and tell her, let her paint an inch thick, to this favour she must come; make her laugh at that) (5.1).

Fear
Além do significado habitual de “temor”, pode significar também “dever”, como nesta fala de Guildenstern para o rei: “É um dever sacrossanto dar proteção a tantos súditos aos quais aos quais Sua Majestade governa e dá sustento” (Most holy and religious fear it is/ To keep those many many bodies safe/ That live and feed upon your majesty) (3.2).

Fee
O significado usual é “remuneração”, mas Hamlet usa a palavra com um sentido figurado de “valor”, nesta frase: “não dou um alfinete por minha vida” (I do not set my life at a pin’s fee) (1.4).

Fell
Como adjetivo, é sinônimo de “cruel”, como nesta despedida de Hamlet: “Se eu tivesse tempo, — mas a morte, como um policial cruel,/ É inflexível na prisão, — Oh, eu poderia dizer-lhes, —/ Mas deixem estar” (Had I but time, —as this fell sergeant, death,/ Is strict in his arrest, —O, I could tell you, —/ But let it be) (5.2).

Fennel
Esta é uma das flores distribuídas por Ofélia em seu desvario. Seu nome deriva do latim faenum (feno). A erva-doce é uma dentre muitas flores e ervas com esta denominação: “Aqui está a erva-doce para você” (There’s fennel for you) (4.5). Simboliza a lisonja e a hipocrisia.

Fie
Com esta interjeição, o rei Cláudio desdenha do luto pesado de Hamlet (1.2). Ela equivale a “que vergonha!”. Ela aparece também nesta canção de Ofélia: “Por Jesus e pela Santa Caridade/ Ai de mim, que vergonha!” (By Gis and by Saint Charity,/ Alack, and fie for shame!) (4.5).

Foil
A palavra vem do latim folium (folha) e designa uma espada de esgrima com um proteção na ponta, para evitar acidentes. O rei diz a Laertes que Hamlet, descuidado, “não irá examinar as espadas” (Will not peruse the foils) (4.7).

Foredo
O verbo to foredo, hoje arcaico, significa “destruir” ou “arruinar”, como nesta explicação de Polônio para Ofélia: “Esta é a própria loucura do amor, cuja característica violenta destrói a si próprio” (This is the very ecstasy of love;/ Whose violent property foredoes itself) (2.1). Existe também a grafia to fordo.

Foreknowing
A palavra quer dizer “presciência” ou “conhecimento antecipado”, como nesta fala de Horácio, dirigindo-se ao fantasma “se você estiver familiarizado com o destino do país,/ o qual, talvez, um conhecimento antecipado possa evitar,/ oh, fale!” (If thou art privy to thy country’s fate,/ Which, happily, foreknowing may avoid,/ O, speak!) (1.1).

Forfeit
O verbo significa “perder”, no sentido de “perder um direito”. A palavra vem da mesma raiz latina do francês forfait, que é a multa paga pelo proprietário de um cavalo que deixa de correr num páreo para o qual estava inscrito. Horácio explica aos companheiros Marcelo e Bernardo que o falecido rei Fortimbrás “perdeu, além de sua vida, todas as suas terras” (Did forfeit, with his life, all those his lands) (1.1).

Form
Pode significar “estilo”, no sentido de “forma de comportamento”, como nesta fala de Ofélia: “O espelho da elegância e modelo de estilo, o centro de todos os olhares — perdido, completamente perdido” (The glass of fashion and the mould of form,/ The observ’d of all observers, — quite, quite down!) (3.1).

Forward
Este adjetivo tem um sentido, hoje em desuso, de “precoce”, como neste conselho de Laertes, prevenindo a irmã Ofélia que o assédio de Hamlet é “precoce, mas não permanente, e suave, mas não duradouro” (Forward, not permanent, sweet, not lasting) (1.3).

Foul play
Esta expressão significa “uma ação contrária às regras de um jogo”. Seu antônimo é o fair play “jogo limpo”. Hamlet emprega a expressão no sentido figurado de “traição”, quando diz: “suspeito de alguma traição” (I doubt some foul play) (1.2).

Fox
Hamlet, após esconder o corpo de Polônio, concorda em ir ao encontro do rei, a pedido de Rosencrantz e Guidenstern. Sua última fala antes de saírem de cena é: “Esconda-se, raposa, aqui vamos nós” (Hide fox, and all after) (4.1). Trata-se de uma referência ao jogo de “esconde-esconde” (fox and hounds). A palavra só aparece na peça neste exemplo.

Frame
O sentido aqui é de “forma coerente” ou “boa ordem”. Guildenstern diz a Hamlet, que se faz de desentendido: “Meu bom senhor, ponha suas palavras em boa ordem e não fuja tão bruscamente de meu assunto” (Good my lord, put your discourse into some frame, and start not so wildly from my affair) (3.2).

Front
É sinônimo de forehead (testa) e deriva do latim frontis (genitivo de frons). Hamlet, ao mostrar à rainha os retratos do pai e do tio, compara o pai à “fronte do próprio Júpiter” (the front of Jove himself) (3.4).

Fruit
Nesta fala de Polônio para o rei, tem o sentido figurado de sobremesa: “Minha notícia será a sobremesa deste grande festim” (My news shall be the fruit to that great feast) (2.2).

Fust
Trata-se de um verbo arcaico para “embolorar”. No seu sétimo solilóquio Hamlet diz que “Certamente aquele que nos criou com uma vasta inteligência, capaz de pensar no passado e no futuro, não nos deu esta capacidade e a razão divina para embolorar por falta de uso” (Sure he that made us with such large discourse,/ Looking before and after, gave us not/ That capability and godlike reason/ To fust in us unus’d) (4.4).

Gait
Este substantivo é sinônimo de “modo de andar”, em geral utilizado para definir a marcha de um cavalo. O rei Cláudio usa o termo figurativamente, no sentido de “passos”. Ele espera que o rei norueguês “reprima os próximos passos [de seu sobrinho]” (to suppress/ His further gait herein) (1.2), referindo-se às intenções belicosas do jovem Fortimbrás. Hamlet, dirigindo-se aos atores, usa o termo no sentido de “comportamento” ou “forma de se conduzir no palco” (3.2).

Gall 1
O verbo significa “inflamar” ou “irritar”. Hamlet se queixa do luto rápido observado por sua mãe, que se casou antes mesmo que suas lágrimas deixassem seus “olhos inflamados” (galled eyes) (1.2). Mais adiante Hamlet se refere a um “pangaré esfolado” (galled jade) (3.2).

Gall 2
Pode também ser “ferir”. Laertes diz ao rei: “vou mergulhar a ponta de minha espada neste veneno, de modo que se eu o ferir levemente, pode significar a morte para ele” (I’ll touch my point/ With this contagion, that if I gall him slightly,/ It may be death) (4.7).

Gambol
É o mesmo que dar “cabriolas” (saltar como as cabras) ou “cambalhotas”. Hamlet tenta convencer a mãe de que não está louco: “Faça um teste comigo e eu repetirei tudo; a loucura fugiria disso aos pulos” (bring me to the test,/ And I the matter will re-word; which madness/ Would gambol from) (3.4).

Gaudy
O adjetivo significa “espalhafatoso” ou “chamativo”. Polônio recomenda que o filho Laertes use roupas “de qualidade, mas sem ostentação” (rich, not gaudy) (1.3).

Gem
O substantivo gem (gema, pedra preciosa) está usado aqui no sentido de “pérola”. Laertes assim se refere ao normando Lamond: “Eu o conheço bem: ele a jóia, na verdade, e a pérola da nação” (I know him well: he is the brooch, indeed,/ And gem of all the nation) (4.7).

Gibber
O verbo to gibber significa “algaraviar”, isto é, “falar rápida e incoerentemente”. Horácio conta que “um pouco antes da queda do poderoso Júlio [César],/ os túmulos ficaram desocupados, e os mortos com seus sudários/ Grunhiam e falavam incoerentemente nas ruas de Roma” (A little ere the the mightiest Julius fell,/ The graves stood tenantless, and the sheeted dead/ Did squeak and gibber in the Roman streets) (1.1).

Glassy
Este adjetivo deriva de glass (vidro) e significa “cristalino”. Ofélia tentava subir num salgueiro quando supostamente caiu e se afogou. A rainha Gertrudes começa assim seu relato: “Há um salgueiro inclinado sobre um regato,/ Que reflete suas folhas esbranquiçadas na corrente cristalina” (There is a willow grows aslant a brook,/ That shows his hoar leaves in the glassy stream) (4.7).

Goblin
É o mesmo que “duende”. Hamlet dirige-se ao fantasma pedindo: “anjos e ministros da graça, nos defendam! Seja você um espírito do bem ou um duende amaldiçoado” (Angels and ministers of grace defend us! Be thou a spirit of health or goblin damn’d) (1.4).

Grace
Quando Hamlet concorda em permanecer na Dinamarca, o rei Cláudio, “em reconhecimento disso” (in grace whereof) decide comemorar a decisão (1.2). Ao menos, naquele momento.

Grapple 1
Trata-se de uma espécie de âncora com muitos ganchos, lançada por piratas para prender e puxar um navio a ser abordado. Com relação aos amigos, Polônio recomenda a Laertes que “prenda-os à sua alma com aros de aço” (Grapple them to thy soul with hoops of steel) (3.1). Neste caso, Polônio usa o verbo to grapple (prender, sujeitar).

Grapple 2
Hamlet usa o termo no sentido de “luta” ou “abordagem”: “Na luta, passei para o navio deles e, naquele instante, os navios se afastaram um do outro, de modo que só eu fiquei prisioneiro deles” (in the grapple, I boarded them: on the instant they got clear of our ship, so I alone became their prisoner) (4.6).

Green 1
Embora o adjetivo signifique “verde”, nem sempre deve ser traduzido assim. Pode significar “vivo” ou “ainda presente”. Por exemplo, quando o rei Cláudio se refere ao irmão falecido, ele diz que “embora esteja ainda presente na memória” (though yet […] the memory be green) (1.2).

Green 2
O adjetivo pode também significar “ingênuo” ou “imaturo”. Polônio, ao aconselhar Ofélia para se acautelar com os galanteios do príncipe Hamlet, a chama de “menina ingênua” (green girl) (1.3).

Greenly
Aqui o sentido é de “imaturamente”. O rei conversa com a rainha sobre Polônio: “agimos imaturamente enterrando-o em segredo” (we have done but greenly/ In hugger-mugger to inter him) (4.5).

Grizzled
O adjetivo significa “grisalho”, sendo ambas as palavras derivadas do francês gris (cinza). Hamlet perguntou a Horácio se o fantasma “tinha a barba grisalha” (His beard was grizzled) (1.2).

Ground
Hamlet pergunta ao coveiro, num sentido figurado, “Por que motivo?” (Upon what ground?) (5.1). O coveiro responde literalmente “Ora aqui na Dinamarca” (Why, here in Denmark) (5.1), interpretando a pergunta como “em que localidade?” ou “onde foi isso?”. Ground também quer dizer “terreno” ou “porção de terra”.

Guilt
Normalmente significa “culpa”, mas tem também o sentido de “crime”. O príncipe pede a Horácio: “observe meu tio: se seu crime oculto não se revelar numa passagem da peça, então foi um maldito fantasma que vimos” (Observe mine uncle: if his occulted guilt/ Do not itself unkennel in one speech,/ It is a damned ghost that we have seen) (3.2).

Gulf
Além de acidente geográfico (golfo), pode ser um “torvelinho”, como nesta fala de Risencrantz para o rei: “A majestade quando cessa não morre só, mas, como um torvelinho, arrasta com ela o que estiver perto” (The cease of majesty/ Dies not alone but like a gulf doth draw/ What\’s near it, with it) (3.3).
Habit Pode significar também “roupa”, como neste conselho de Polônio a Laertes: “Que sua roupa seja tão cara quanto sua bolsa possa pagar” (Costly thy habit as thy purse can buy) (1.3). Hamlet mostra à mãe o fantasma do pai: “Meu pai, com o traje que usava em vida!” (My father in his habit, as he liv’d!) (3.4).

Hallow
O verbo to hallow significa “tornar alguma coisa sagrada” ou “santificar”. É o que Marcelo diz, referindo-se ao Natal: “tão sagrada e cheia de graça é a ocasião” (So hallow\’d, and so gracious is the time) (1.1).

Ham
O substantivo é hoje mais usado como “presunto”. Hamlet, no entanto, diz a Polônio que os idosos têm “pernas fracas” (weak hams) (2.2).

Hand
Pode ser uma forma reduzida de handwriting (escrita manual). O rei recebe uma carta supostamente de Hamlet e Laertes pergunta: “O senhor conhece a letra?” (Know you the hand?) (4.7). Laertes pode referir-se também ao estilo ou maneira de escrever.

Handsaw
Hamlet diz a Rosencrantz e Guildenstern que só fica louco quando sopra o nor-noroeste. Quando sopra o vento sul, ele pode “distinguir um falcão de uma garça” (know a hawk from a handsaw) (2.2), esta última uma possível variante de heronshaw. Há uma segunda interpretação: handsaw pode ser também uma “serra manual”. Neste caso, ele pode distinguir entre uma “desempenadeira” (hawk), que os pedreiros usam para regularizar superfícies, e uma “serra manual” (handsaw). Em outras palavras, ele considera os falsos amigos como “aves de rapina” ou “instrumentos ou ferramentas do rei”.

Haply
Esta é uma forma arcaica de perhaps (talvez). O rei, dirigindo-se a Polônio, espera que uma viagem à Inglaterra faça bem a Hamlet: “Talvez outros mares e países, com objetos diferentes, expulse este assunto algo arraigado em seu coração” (Haply, the seas and countries different,/ With variable objects, shall expel/ This something-settled matter in his heart) (3.1).

Happily
Esta é uma outra forma arcaica de perhaps (talvez), como nesta fala de Horácio, dirigindo-se ao fantasma “se você estiver familiarizado com o destino do país,/ o qual, talvez, um conhecimento antecipado possa evitar,/ oh, fale!” (If thou art privy to thy country’s fate,/ Which, happily, foreknowing may avoid,/ O, speak!) (1.1).

Harbinger
O substantivo harbinger é o mesmo que “precursor”. Antigamente, era um representante avançado de um exército ou de um cortejo real, que ia à frente para providenciar hospedagem e o apoio logístico necessário. A palavra aparece um única vez na peça, numa fala de Horácio, na expressão “mensageiros constantemente precedendo os fados” (harbingers preceding still the fates) (1.1).

Hard 1
O adjetivo hard pode significar “relutante”. Polônio conta ao rei que deu a Laertes sua “relutante permissão” (hard consent) (1.2) para o regresso deste à França.

Hard 2
Como advérbio de tempo pode significar “próximo”. Horácio concorda com Hamlet que o casamento da rainha ocorreu muito perto da morte do rei: “De fato, meu senhor, ele aconteceu logo depois” (Indeed, my lord, it follow’d hard upon) (1.2).

Harrow
O substantivo harrow se aplica a umas grades pontiagudas utilizadas para aplainar a terra lavrada, também conhecidas como “rastelo”. O verbo correspondente é “rastelar”, isto é, submeter à ação do rastelo. A palavra aparece na peça por duas vezes, com dois sentidos figurados distintos: Horácio, ao ver o fantasma, diz que “ele me aflige com medo e espanto” (it harrows me with fear and wonder) (1.1); o fantasma, no seu encontro a sós com Hamlet, diz: “eu poderia contar uma história cuja palavra mais leve rasgaria sua alma” (I could a tale unfold whose lightest word/ Would harrow up thy soul) (1.5).

Havoc
O substantivo havoc quer dizer “massacre”, no caso de uma guerra, ou uma “devastação”, causada por um fenômeno natural, como um furacão ou um terremoto. É o que diz o principe norueguês Fortimbrás, ao encontrar quatro corpos no salão real da Dinamarca: “Estes despojos proclamam um massacre” (This quarry cries on havoc) (5.2).

Head
O substantivo head significa cabeça, mas pode ter o sentido de “fonte” ou “razão” de algum acontecimento. Neste caso, é uma forma reduzida de fountainhead (fonte ou nascente de um curso d’água). Esta fala de Horácio é um exemplo, referindo-se à “causa desta nossa vigília e a principal razão de toda esta pressa [dos preparativos para a guerra]” (the source of this our watch, and the chief head of this post-haste) (1.1).

Health
Embora signifique “saúde”, pode ter o sentido de “bem”. Hamlet dirige-se ao fantasma pedindo: “anjos e ministros da graça, nos defendam! Seja você um espírito do bem ou um duende amaldiçoado” (Angels and ministers of grace defend us! Be thou a spirit of health or goblin damn’d) (1.4).

Heat
Este substantivo pode significar “calor”, como também, simbolicamente, “febre” ou “raiva”. A entrada de Ofélia em cena deixa seu irmão Laertes transtornado: “Oh, febre, seque meu cérebro!” (O heat, dry up my brains!) (4.5).

Hebona
Este é o nome da substância venenosa que mata o pai de Hamlet (1.5). Seu nome também se escreve hebenon e, segundo o dicionário Oxford, é de etimologia desconhecida. O Webster’s sugere um possível variante de henbane. Esta última equivale ao meimendro, uma planta medicinal e tóxica (Hyoscyamus niger).

Herald
Os arautos eram os encarregados de fazer proclamações, atuar como embaixadores junto a outros soberanos e organizar torneios e combates. Hamlet, ao mostrar à rainha os retratos do pai e do tio, diz que o pai tem “um porte como o do arauto Mercúrio” (a station like the herald Mercury) (3.4).

Heraldry
A palavra é mais conhecida como heráldica, isto é, a ciência dos brasões e das genealogias. A heráldica pode ser também a ciência dos arautos (heralds), que cuidam da organização dos torneios e combates. É neste segundo sentido que Horácio explica aos companheiros que as terras conquistadas pelo falecido rei Hamlet foram objeto de um “contrato selado, devidamente ratificado pela lei e pela heráldica” (a seal’d compact, well ratified by law and heraldry) (1.1).

Heyday
Trata-se do “auge” ou “apogeu”. Hamlet repreende a mãe por apaixonar-se pelo cunhado: “na sua idade, o auge do vigor está aplacado: ele é humilde e age como servo da razão; e que razão mudaria deste para este?” (for at your age/ The heyday in the blood is tame, it’s humble,/ And waits upon the judgement: and what judgement/ Would step from this, to this?) (3.4).

Hie
O verbo significa “apressar-se”. Horácio conta que, ao nascer o dia, “o espírito errante apressa-se de volta ao seu confinamento” (Th’ extravagant and erring spirit hies/ To his confine) (1.1). Hoje são mais usuais to hasten e to hurry.

His
Bernardo assim descreve a aparição do fantasma: “Na noite passada, quando aquela mesma estrela que está a oeste do pólo completara seu curso” (Last night of all/ When yon same star that’s westward from the pole/ Had made his course) (1.1). O pronome possessivo do último verso se refere à estrela no masculino his, quando hoje se usa o neutro its.

Hoar
Este adjetivo significa “cinza esbranquiçado”. Ofélia tentava subir num salgueiro quando supostamente caiu e se afogou. A rainha Gertrudes começa assim seu relato: “Há um salgueiro inclinado sobre um regato,/ Que reflete suas folhas esbranquiçadas na corrente cristalina” (There is a willow grows aslant a brook,/ That shows his hoar leaves in the glassy stream) (4.7).

Hobby-horse
Pouco antes da apresentação da “peça dentro da peça”, Hamlet comenta com Ofélia a rapidez com que o falecido rei foi esquecido pela rainha Gertrudes. Em seguida ele cantarola uma canção “Oh! Oh! Ninguém mais se lembra do cavalo de pau” (For oh, for oh, the hobby-horse is forgot) (3.2). O cavalo de pau era usado numa antiga dança de origem moura, designada morris dance (de Moorish, mouro), já em desuso naquela época. A mesma canção é entoada em “Trabalhos de Amor Perdidos” (Love’s Labour’s Lost) pelo pajem Moth. O folclorista Câmara Cascudo (V. Bibliografia) registra, no verbete “cavalo”, que “a figura fingindo o cavaleiro montado, presente no bumba-meu-boi, etc., já era usual na Europa no século XV”.

Home
No enterro de Ofélia, um sacerdote usa a palavra como sinônimo de “última morada”, na expressão “a condução à última morada” (the bringing home) (5.1).

Honest 1
O sentido mais usual é de “honesto” ou “honrado”, a exemplo desta fala de Hamlet para Polônio: “nos tempos que correm, ser um homem honrado é ser escolhido um entre dez mil” (to be honest, as this world goes, is to be one man picked out of ten thousand) (2.2).

Honest 2
O príncipe, surpreso com a devolução dos presentes, pergunta a Ofélia: “Ah, ah! És honesta?” (Ha, ha! Are you honest?) (3.1). Existe aqui um curioso duplo sentido: “sincera, franca” ou, num significado mais arcaico em inglês, “casta” ou “virtuosa”.

Honesty
Hamlet, conversando com Polônio, usa o termo no sentido de “boa educação”, nesta fala: “Não acho de boa educação colocar as coisas desta forma” (I hold it not honesty to have it thus set down) (2.2).
Hot Aqui hot (quente) está no sentido de “caloroso” ou “calorento”, nesta instrução do rei para Laertes: “Quando na agitação da luta vocês estiverem calorosos e sedentos” (When in your motion you are hot and dry) (4.7).

Husband
Como verbo, significa “administrar”. Laertes diz ao rei que “quanto aos meios de que disponho, saberei dirigi-los tão bem que irão longe com pouca coisa” (And for my means, I’ll husband them so well,/ They shall go far with little) (4.5).

Husbandry
A palavra tinha originalmente o sentido de “gestão dos assuntos domésticos” e deriva de husbandman, uma palavra hoje arcaica para “fazendeiro”. Polônio aconselha Laertes dizendo que “pedir emprestado embota o gume da economia” (borrowing dulls the edge of husbandry) (1.3).

Hyrcanian
A Hircânia é uma província dos antigos impérios persa e macedônio, localizada entre o sul e o sudeste do Mar Cáspio. No trecho que Hamlet recita para os atores, ele se refere ao “Feroz Pirro, como a fera da Hircânia” (The rugged Pyrrhus, like the Hyrcanian beast) (2.2). O tigre da região era famoso por sua ferocidade. Há uma referência em Macbeth (Macbeth) ao “tigre hircano” (the Hyrcan tiger) (3.4).

Idle
Pouco antes da peça começar, Hamlet diz a Horácio: “Preciso ficar ocioso” (I must be idle) (3.2). Há dois sentidos nesta frase: a) Hamlet precisa ficar só para não dar a impressão de que ele e Horácio conspiram alguma coisa; b) Hamlet quer prosseguir aparentando loucura.

Impart
O verbo significa “dar conhecimento” ou “relatar”. Horácio diz aos seus companheiros: “Vamos informar o que vimos esta noite ao jovem Hamlet” (Let us impart what we have seen to-night/ Unto young Hamlet) (1.1). Mais tarde, na presença de Marcelo e Bernardo, Horácio diz a Hamlet: “Foi isto o que, em grande segredo, me contaram” (This to me/ In dreadful secrecy impart they did) (1.2).

Impartment
É o mesmo que “comunicação”, como neste comentário de Horácio para Hamlet, referindo-se ao fantasma: “Ele acena para que você vá com ele,/ como se ele quisesse fazer alguma comunicação/ só para você” (It beckons you to go away with it,/ As if it some impartment did desire/ To you alone) (1.4).
Impious O rei Cláudio acha que Hamlet persevera exageradamente no seu luto obstinado e considera isso uma “teimosia ímpia” (impious stubbornness) (1.2).

Import
O verbo to import tem o significado arcaico de “ser relativo a”, “referir-se a”. O rei Cláudio queixa-se do jovem Fortimbrás, “importunando-nos com mensagens sobre a devolução das terras perdidas por seu pai” (to pester us with message,/ Importing the surrender of those lands/ Lost by his father) (1.2).
Imposthume Trata-se de um sinônimo de abscess (abscesso). Para Hamlet, a guerra é como “um abscesso causado por um excesso de riqueza e de paz, que rebenta por dentro” (This is the imposthume of much wealth and peace,/ That inward breaks) (4.4).

Impress
A palavra deriva de impressment, que é o recrutamento de pessoas para prestar um determinado serviço público. É o que Marcelo quer dizer quando se refere a um “alistamento de carpinteiros navais” (impress of shipwrights) (1.1).

In faith
Esta expressão é apenas um reforço, significando “na verdade” ou “de fato”. Pode ser também um juramento. Quando Hamlet pediu aos seus companheiros que não revelassem que viram o fantasma, Horácio respondeu: “por minha fé, senhor, que não o vi” (In faith,/ My lord, not I) (1.5).
Incense Além do sentido usual de “incensar”, o verbo pode significar “irritar” ou “irar”, talvez pela prática de usar fumaça para expulsar abelhas, para colher o mel. Laertes invade o palácio e o rei lhe pergunta: “Por que você está tão irritado?” (Why thou art thus incens’d?) (4.5). Hamlet, em conversa com Horácio, se refere às “pontas iradas (das espadas) de poderosos adversários” (incensed points/ Of mighty opposites) (5.2). Mais adiante, o rei ordena, referindo-se a Hamlet e Laertes, que lutam: “Separai-os, estão fora de si” (Part them, they are incens’d) (5.2).

Index
Trata-se do índice de um livro, do latim indicare (mostrar). Aqui a rainha usa o termo num sentido obsoleto de “prólogo”, como se a repreensão de Hamlet fosse (numa linguagem figurada) um ato de uma peça de teatro: “Ai de mim, que ato é este que ruge tão alto e troveja logo no prólogo?” (Ay me; what act,/ That roars so loud, and thunders in the index?) (3.4).

Indifferent
O sentido aqui não é de “indiferente”, mas sim de “mais ou menos” ou “como o comum dos mortais”. Quando Hamlet pergunta como ele está, Rosencrantz responde: “Como costumam passar os filhos da terra” (As the indifferent children of the earth) (2.2).

Inky
O adjetivo inky pode significar “negro” ou “escuro”. Hamlet, comentando seu pesado luto com a rainha, refere-se ao seu “negro manto” (inky cloak) (1.2).

Insinuation
Além do sentido usual de “sugestão indireta”, pode significar também uma “intrusão”, como nesta fala de Hamlet para Horácio, referindo-se a Rosencrantz e Guildenstern: “a derrota deles ocorrreu de sua própria intrusão” (their defeat/ Does by their own insinuation grow) (5.2).

Instrumental
A expressão to be instrumental in significa “contribuir para”. O rei Cláudio, contudo, usa este adjetivo no sentido de “útil” ao autorizar o regresso de Laertes à França: “a mão não é mais útil à boca do que o trono da Dinamarca ao teu pai” (The hand [is not] more instrumental to the mouth,/ Then is the throne of Denmark to thy father) (1.2).

Inter
É o mesmo que to bury (sepultar), do latim in + terra, isto é, “enterrar”. O rei conversa com a rainha sobre Polônio: “agimos imaturamenter enterrando-o em segredo” (we have done but greenly/ In hugger-mugger to inter him) (4.5).

Investment
O substantivo pode ter o sentido de “veste” ou “roupagem”, da etimologia latina in, em + vestire, vestir. Polônio usa o plural investments neste sentido, ao alertar Ofélia contra Hamlet (1.3).
Invite O verbo to invite (convidar) normalmente sugere um convite pessoal. Contudo, Polônio apressa Laertes dizendo que “o tempo o convida” (The time invites you) (1.3).
Jade O O substantivo pode ter o significado de “jade” (uma pedra esverdeada) ou de “pangaré”, como neste exemplo. O príncipe diz ao rei que a peça teatral nada tem de ofensivo: “um pangaré esfolado pode sentir dor, mas nós temos as costas sãs” (let the galled jade wince, our withers are unwrung) (3.2).

Jester
O coveiro mostra a Hamlet, no cemitério, “o crânio de Yorick, o bobo do rei” (Yorick’s skull, the king’s jester) (5.1). Embora to jest signifique “brincar” ou “ridicularizar”, a palavra deriva do verbo latino gerere (executar), que produziu em português “gestão” e “gerente”.

Jocund
A palavra vem do latim jucundus (agradável). O rei Cláudio, aparentemente satisfeito com a decisão de Hamlet de não mais voltar para Wittenberg, refere-se a um “brinde feliz” (jocund health) (1.2).
Jointress O substantivo designa uma mulher que tem uma jointure, isto é, a herança de bens deixados pelo marido falecido. O rei Cláudio se refere à rainha como “herdeira imperial deste estado guerreiro” (the imperial jointress of this warlike state) (1.2).

Judgement
Este substantivo também pode significar “razão”. Hamlet repreende a mãe: “na sua idade, o auge do vigor está aplacado: ele é humilde e age como servo da razão” (for at your age/ The heyday in the blood is tame, it’s humble,/ And waits upon the judgement) (3.4). O rei Cláudio lamenta não poder punir Hamlet porque “ele é amado pela multidão fanática,/ que julga com os olhos e não com a razão” (He’s lov’d of the distracted multitude,/ Who like not in their judgement, but their eyes) (4.3).

Jump
Embora normamente signifique “pulo”, existe um sentido hoje arcaico de “neste mesmo instante”, como nesta fala de Marcelo aos companheiros de guarda: “assim, em duas ocasiões anteriores, nesta mesma hora morta,/ ele passou por nossa vigília com um andar marcial” (Thus twice before, and jump at this dead hour,/ With martial stalk hath he gone by our watch) (1.1). Em algumas edições, o termo é sustituído por “just”, com o mesmo significado.

Kin
É o mesmo que “parente”. Hamlet ironiza o comentário do rei: “posso ser um pouco mais parente, mas nem por isso mais simpático” (A little more than kin, and less than kind) (1.2). Mais tarde, referindo-se ao corpo de Polônio, diz que: “Misturei com o pó, do qual é parente” (Compounded it with dust, whereto ’tis kin) (4.2).

Knave
O substantivo pode referir-se ao valete do jogo de cartas, a um jovem servidor ou a uma pessoa desonesta ou traiçoeira. É neste último sentido que Hamlet diz a Ofélia: “Somos todos consumados canalhas; não acredite em nenhum de nós” (We are arrant knaves all; believe none of us) (3.1).

Knavish
O adjetivo correspondente a knave é knavish (desonesto ou traiçoeiro), como neste comentário de Hamlet para o rei: “Trata-se de uma obra-prima da perfídia” (’tis a knavish piece of work) (3.2).

Lay home
É o mesmo que “repreender” ou “falar com dureza”. Polônio, referindo-se a Hamlet, recomenda que a rainha “repreenda-o” (lay home to him) (3.4).

Let
Embora o verbo to let normalmente tenha o sentido de “permitir”, ele pode ser usado com o sentido oposto, de “deter”, como neste exemplo, quando Hamlet pede a Hoácio e Marcelo que não o sigam na perseguição ao fantasma: “Pelo céu, tranformarei em fantasma aquele que me detiver!” (By heaven, I’ll make a ghost of him that lets me!) (1.4).

Levy
O substantivo levy é um alistamento militar, em geral compulsório. O rei Cláudio usa o termo no plural levies, referindo-se aos preparativos militares dos vizinhos noruegueses (1.2).

Liege
A palavra deriva do latim ligare (ligar) e quer dizer “soberano” ou “rei”. Polônio se dirige ao rei como “meu bom soberano” (my good liege) (2.2), ou simplesmente como “meu soberano” (my liege) (3.3), e ao casal real como “meu soberano e minha senhora” (My liege, and madam) (2.2).

Liegeman
A palavra é derivada de liege e quer dizer “súdito” ou “vassalo”. Na primeira aparição de Horácio e Marcelo, o segundo diz ao sentinela Francisco que eles são “súditos do rei da Dinamarca” (liegemen to the Dane) (1.1).

Light
O verbo to light on tem o sentido de “recair sobre”, como nesta última fala de Hamlet: “Mas profetizo que a eleição recairá sobre/ Fortimbrás: ele tem meu voto moribundo” (But I do prophesy the election lights/ On Fortinbras: he has my dying voice) (5.2).

Like
Este adjetivo é uma forma reduzida de alike (parecido, semelhante). Horácio conta a Hamlet que o fantasma se parece tanto com o falecido rei que “estas mãos não são mais semelhantes” (These hands are not more like) (1.2).

Lime
O substantive lime se refere ao “visco” (ou visgo) usado em armadilhas para passarinhos. O rei usa o adjetivo “viscosa” neste solilóquio: “Oh, alma viscosa, que quanto mais tenta se libertar, mais se prende” (O limed soul, that, strugling to be free,/ Art more engag’d!) (3.3).

List 1
O substantivo list em geral significa “lista”, a exemplo de uma lista de compras (shopping list). Pode significar também um bando ou grupo de pessoas, numa possível derivação do verbo to enlist (alistar nas forças armadas). Horácio, em conversa com os companheiros Marcelo e Bernardo, conta que o jovem Fortimbrás “reuniu fraudulentamente um bando de aventureiros sem terra” (shark’d up a list of landless resolutes) (1.1).

List 2
O verbo to list é uma forma abreviada de to listen (ouvir). Laertes, ao se despedir da irmã, chama sua atenção para os galanteios de Hamlet e pede que ela “não ouça suas canções com um ouvido muito crédulo” (with too credent ear you list his songs) (1.3).

Lobby
A palavra significa “galeria” ou “corredor”. Aparece duas vezes na peça. Na primeira, Polônio comenta com o casal real que Hamlet “algumas vezes passeia por horas a fio aqui na galeria” (sometimes he walks for hours together/ Here in the lobby) (2.2). Na segunda, o príncipe diz que poderiam achar o corpo de Polônio “ao subir os degraus da galeria” (as you go up the stairs into the lobby) (4.3). O sentido de “influenciar decisões do poder público” é de uso recente.

Love
A palavra pode também designar “amizade”. Hamlet pede aos seus companheiros que guardem segredo sobre o fantasma e diz que “suas amizades serão recompensadas” (I will requite your loves) (1.2). Na última cena da peça, Laertes diz a Hamlet: “Aceito como verdadeira a amizade que você me oferece” (I do receive your offer’d love like love) (5.2).

Mark
O verbo pode significar “marcar” ou “identificar”, como também “prestar atenção”, como neste pedido do fantasma a Hamlet: “Ouça-me” (Mark me) (1.5).

Marrow
Trata-se da “tutano”, podendo ser também, num sentido figurado, a essência de alguma coisa. Hamlet refere-se à “essência de nossas qualidades” (The pith and marrow of our attribute) (1.4).

Marry
Esta é uma interjeição de surpresa ou palavra de reforço a uma observação. É um eufemismo para Virgin Mary (Virgem Maria), utilizada em várias ocasiões na peça. Equivale à interjeição “Nossa!”, no sentido de Nossa Senhora. Manuel Bandeira usou esta interjeição no “Rondó dos Cavalinhos” (Estrela da Manhã, 1936): “Nossa! A poesia morrendo…”.

Mart
É uma forma reduzida de market (mercado) e tem o significado arcaico de “comércio”, como nesta fala de Marcelo: “E o comércio exterior de implementos de guerra” (And foreign mart for implements of war) (1.1)
Marvel A palavra pode significar “fato sobrenatural”, como nesta fala de Horácio para Hamlet: “ouvido atento, para este fato sobrenatural que vou contar, tendo estes cavalheiros por testemunhas” (an attent ear, till I may deliver,/ Upon the witness of these gentlemen,/This marvel to you) (1.2).

Meet 1
O verbo to meet significa “encontrar” e é usado por Bernardo nesta pergunta a Francisco, numa das primeiras falas da peça: “Se você encontrar Horácio e Marcelo” (If you do meet Horatio and Marcellus) (1.1).

Meet 2
O adjetivo meet nada tem a ver com o verbo e significa “adequado” ou “apropriado”, como nesta fala de Hamlet: “É preciso que eu escreva isso” (meet it is I set it down) (1.5).

Mermaid
A sereia é uma criatura lendária com corpo de mulher e cauda de peixe. Ao descrever a morte de Ofélia, a rainha diz que “suas roupas se espalharam/ E mantiveram-na flutuando como uma sereia” (Her cloathes spread wide;/ And, mermaid-like, awhile they bore her up) (4.7).

Metal
Hamlet usa a palavra no sentido de “ímã”. A rainha convida Hamlet a sentar-se ao seu lado. Ele agradece, mas prefere ficar ao lado de Ofélia: “Não, querida mãe, aqui há um íma mais atraente” (No good mother, here’s metal more attractive) (3.2).

Methinks
Esta expressão, hoje arcaica, significa “parece” ou “acho que”. Hamlet diz a Horácio: “parece que estou vendo meu pai” (methinks I see my father) (1.2).

Methought
Esta expressão, também arcaica, é o passado de methinks e significa “pareceu-me” ou “achei que”. Horácio diz a Hamlet: “pareceu-me que o fantasma levantara a cabeça” (once methought/ It lifted up its head) (1.2).

Mettle
A palavra deriva de metal (metal) e é usada, no sentido figurado, como temperamento ou caráter. Horácio, em conversa com os companheiros Marcelo e Bernardo, refere-se ao jovem Fortimbrás como sendo “inexperiente” (of unimproved mettle) (1.1), isto é, de qualidades que ainda não foram testadas.

Mildew
O míldio (mildew) é uma doença causada por um fungo, que ataca as videiras e as espigas de trigo. Hamlet, em conversa com a mãe, compara o rei Cláudio a uma espiga de trigo apodrecida pelo míldio (mildew): “Aqui está seu marido, como uma espiga apodrecida, contaminando seu saudável irmão” (Here is your husband, like a mildew’d ear/ Blasting his wholesome brother) (3.4).

Mind’s eye
A expressão é utilizada com dois sentidos distintos. Horácio discute a aparição do fantasma com Bernardo e Marcelo e a considera “Um cisco a incomodar o olho da mente” (A mote it is to trouble the mind’s eye) (1.1). Mais tarde Hamlet diz que “parece que estou vendo meu pai”. Horácio toma a expressão no seu sentido literal, mas o príncipe acrescenta: “Com os olhos da alma, Horácio” (In my mind’s eye, Horatio) (1.2).

Modesty
Pode ser “decoro” mas também “timidez”. Hamlet diz a Rosencrantz e Guildenstern: “Vocês foram
mandados; há uma espécie de confissão em seus olhares, que sua timidez não tem esperteza bastante para ocultar” (You were sent for; and there is a kind of confession in your looks, which your modesties have not craft enough to colour) (2.2).

Moiety
A palavra quer dizer “metade”, do latim medius. Horácio explica aos companheiros Marcelo e Bernardo, referindo-se à disputa de terras com o falecido rei Fortimbrás, que “a metade correspondente foi dada em garantia pelo nosso rei” (a moiety competent was gaged by our king) (1.1).

Moist star
O “astro úmido” (moist star) é a Lua, que na astronomia daquele tempo era o corpo celeste responsável pela umidade (moisture). Horácio se refere ao “astro úmido, sob cuja influência está o império de Netuno” (the moist star, upon whose influence Neptune’s empire stands) (1.1).

Moment
Este substantivo pode ter o sentido de “importância”. No quinto solilóquio (ser ou não ser), Hamlet refere-se a “empreendimentos de grande importância” (enterprises of great pith and moment) (3.1). Neste caso, pith e moment são praticamente sinônimos.

Moor
O substantivo moor (pântano) deriva do latim mare (mar) e se refere a terras costeiras alagadas (swampy costland, segundo o Webster’s). Hamlet, irritado com a mãe, compara o pai a uma montanha e o tio a um pântano: “Como você pôde deixar esta montanha para alimentar-se e cevar neste pântano?” (Could you on this fair mountain leave to feed,/ And batten on this moor?) (3.4).

Morn
Esta é uma forma poética de morning (manhã). Horácio explica que “o galo, que é a trombeta da manhã” (The cock, that is the trumpet to the morn,) (1.1) é um sinal para os espíritos errantes voltarem aos seus refúgios. Laertes, em conversa com a irmã Ofélia, define a mocidade como “a aurora e o orvalho fresco da juventude” (the morn and liquid dew of youth) (1.3) e a adverte de seus perigos.

Mote
É o mesmo que “cisco”. Horácio discute a aparição do fantasma com Bernardo e Marcelo e o considera “Um cisco a incomodar o olho da mente” (A mote it is to trouble the mind’s eye) (1.1). V. 7.2 Referências Bíblicas.

Motion
Aqui motion (movimento) está no sentido figurado de “agitação da luta”, nesta instrução do rei para Laertes: “Quando na agitação da luta vocês estiverem calorosos e sedentos” (When in your motion you are hot and dry) (4.7).

Mould
Pode significar “molde”, do latim modulus e, num sentido figurado, “modelo”, como nesta fala de Ofélia: “O espelho da elegância e modelo de estilo, o centro de todos os olhares — perdido, completamente perdido” (The glass of fashion and the mould of form,/ The observ’d of all observers, — quite, quite down!) (3.1).

Mountebank
Trata-se de um charlatão, isto é, alguém que “monta num banco” para anunciar seus produtos na praça. Laertes diz ao rei: “Comprei um ungüento de um charlatão” (I bought an unction of a mountebank) (4.7).

Mouth
Como verbo, significa “declamar exageradamente”, como neste conselho de Hamlet: “Mas se você declamar exageradamente, como fazem muitos dos nossos atores” (But if you mouth it, as many of your players do) (3.2). Pode ser simplesmente gritar, como nesta fala de Hamlet para Laertes, no enterro de Ofélia: “Se você gritar,/ gritarei tanto quanto você” (Nay, and thou’lt mouth,/ I’ll rant as well as thou) (5.1).

Move
O verbo to move (mover) pode significar “comover”. Um dos atores contratados, ao recitar para Hamlet, refere-se à dor de Hécuba, que comoveria os próprios deuses, “a menos que as coisas mortais não os afetem” (Unless things mortal move them not at all) (2.2). Laertes, ao ver a loucura da irmã, diz-lhe: “Se você estivesse em seu juízo e me persuadisse à vigança, não me comoveria tanto” (Hadst thou thy wits, and didst persuade revenge,/ It could not move thus) (4.5).

Mute
Como adjetivo, significa “mudo”. Nesta fala de Hamlet, o termo é usado como substantivo e tem sua origem no teatro: “Vocês que estão pálidos e trêmulos,/ Que não passam de personagens mudos ou de platéia deste ato,/ Se eu tivesse tempo, — mas a morte, como um policial cruel,/ É inflexível na prisão, —Oh, eu poderia dizer-lhes, —/ Mas deixem estar” (You that look pale and tremble at this chance,/ That are but mutes or audience to this act,/ Had I but time, —as this fell sergeant, death,/ Is strict in his arrest, —O, I could tell you, —/ But let it be) (5.2).

Mutine
Hamlet, na discussão com a mãe, usa a palavra como verbo: “Inferno rebelde,/ Se você pode amortinar-se nos ossos de uma matrona” (Rebellious hell,/If thou canst mutine in a matron’s bones) (3.4). Como substantivo, trata-se de uma variante arcaica de mutineer (amotinado). Hamlet conta a Horácio como escapou da morte em sua viagem à Inglaterra e diz que se sentia “pior do que os amotinados presos aos ferros” (Worse than the mutines in the bilboes) (5.2).

Naked
Numa carta propositalmente enigmática, Hamlet escreve ao rei: “desembarquei nu em vosso reino” (I am set naked on your kingdom) (4.7). As interpretações podem ser muitas, como “desarmado”, “indefeso”, “sem um tostão” etc.

Napkin
Em lugar do sentido usual de “guardanapo”, a rainha usa a palavra como “lenço” (handkerchief), enquanto Hamlet luta com Laertes: “Aqui, Hamlet, pegue meu lenço e enxugue o rosto” (Here, Hamlet, take my napkin, rub thy brows) (5.2).

Native 1
O rei Cláudio usa este adjetivo no sentido de “próximo” ao autorizar o regresso de Laertes à França: “a cabeça não está mais próxima do coração (…) do que o trono da Dinamarca ao teu pai” (The head is not more native to the heart,/…/ Then is the throne of Denmark to thy father) (1.2).

Native 2
O adjetivo native (do latim natus, nascido) pode significar “primitivo” ou “original”, como neste exemplo do quinto solilóquio (ser ou não ser, eis a questão!): “E o aspecto primitivo da resolução/ é debilitado pela sombra tênue do pensamento” (And thus the native hue of resolution/ Is sicklied o’er with the pale cast of thought) (3.1).

Nature 1
O significado mais comum é “natureza”, mas aqui tem o sentido de “brio”. O fantasma do pai diz a Hamlet: “Se você tiver brio, não o tolere” (If thou hast nature in thee bear it not) (1.5). Em outras palavras, “se você tiver brio, considere intolerável o que fizeram comigo”.

Nature 2
Pode ser “amor filial”, como no sexto solilóquio de Hamlet: “Silêncio! Agora verei minha mãe. Oh, coração, não perca seu amor filial” (Soft! now, to my mother. —/ O heart, lose not thy nature) (3.2).

Necessary
Esta palavra, no plural, tem o curioso sentido de “bagagens”. Laertes, ao se despedir da irmã, diz que “minhas bagagens já estão a bordo” (My necessaries are embark’d) (1.3).

Nettle
A rainha descreve Ofélia “com suas estranhas guirlandas/ de ranúnculos, urtigas, margaridas, e longas flores púrpuras” (There with fantastic garlands did she come/ Of crowflowers, nettles, daisies, and long purples) (4.7). A “urtiga” (nettle) tem suas folhas cobertas por pêlos que causam irritação à pele.

Nighted
Embora a palavra night seja usada como adjetivo, como em night school (escola noturna), Shakespeare utilizou nighted, por razões de métrica, neste conselho da rainha a Hamlet: “Bom Hamlet, deixe de lado este semblante noturno” (Good Hamlet, cast thy nighted colour off) (1.2).

Nip
O verbo to nip significa “podar”. O adjetivo nipping, analogamente, quer dizer “cortante”, como nesta frase de Horácio: “O ar frio está cortante e agudo” (It is a nipping and an eager air) (1.4).

Norway
O termo pode se referir ao país, assim como ao “rei da Noruega”, como neste relato dos embaixadores dinamarqueses: “O velho rei norueguês, bastante satisfeito, concede-lhe uma pensão de três mil coroas anuais” (old Norway, overcome with joy,/ Gives him three thousand crowns in annual fee) (2.2).

Number
Trata-se, no plural, de “métrica” (contagem das sílabas de um verso), como neste bilhete de Hamlet: “Oh, querida Ofélia, não sei fazer versos” (O dear Ophelia, I am ill at these numbers) (2.2).

Nutshell
Rosencrantz diz a Hamlet que a Dinamarca é “estreita demais para vosso espírito” (too narrow for your mind) (2.2). A resposta de Hamlet é famosa: “Poderia ficar confinado numa casca de noz e, mesmo assim, considerar-me rei do espaço infinito, não fossem os maus sonhos que tenho” (I could be bounded in a nutshell, and count myself a king of infinite space, were it not that I have bad dreams) (2.2). Em “A Tempestade”, o velho e honesto conselheiro Gonçalo (Gonzalo) usa a “casca de noz” (nutshell) como metáfora para “embarcação frágil” (1.1).

Obsequious
O rei Cláudio, antes de repreender Hamlet por seu luto excessivo, concorda que este deve “por obrigação filial, por algum tempo, mostrar uma tristeza reverente” (In filial obligation, for some term/ To do obsequious sorrow) (1.2). Há um duplo sentido com obsequies (ritos fúnebres), isto é, uma “tristeza própria dos ritos fúnebres”.

Observant
A raiz latina é a mesma de “observar”. Marcelo, membro da guarda, comenta que há uma grande movimentação no país e uma “vigília rigorosa e atenta” (strict and most observant watch) (1.1).

Of
A expressão twice seen of us (duas vezes vista de nós) do comentário de Marcelo a seguir seria, no inglês de hoje, twice seen by us (duas vezes vista por nós): “A respeito desta visão terrível, duas vezes vista por nós” (Touching this dreaded sight, twice seen of us) (1.1).

Oft
Esta é uma forma poética de often (“com freqüência” ou “muitas vezes”). Polônio recomenda ao filho Laertes que se vista bem, para fazer boa figura na França, e lhe diz que “o traje muitas vezes faz o homem” (the apparel oft proclaims the man) (1.3).

Omen
O substantivo omen é um presságio ou agouro, que pode ser bom ou mau. A palavra aparece um única vez na peça, numa fala de Horácio, na expressão “prólogo do presságio” (prologue to the omen) (1.1).

Ominous
O adjetivo significa “sinistro” ou “ameaçador”. Deriva do substantivo omen, citado acima. Hamlet, em conversa com os atores contratados, na peça encenada dentro da peça, refere-se ao “corcel sinistro” (ominous horse) (2.2), o cavalo de Tróia, onde se escondeu o guerreiro Pirro.

Orison A palavra quer dizer “oração” e deriva do latim oratio. Assim Hamlet se dirige a Ofélia: “Ninfa, que em suas orações sejam lembrados os meus pecados” (Nymph, in thy orisons/ Be all my sins remembered) (3.1). Hoje, a palavra mais comum é prayer.

Overcrow
O verbo significa “subjugar” e parece ter origem na briga de galos. O galo vencedor over crows, isto é, “canta sobre o outro”. Hamlet, em sua última fala na peça, diz: “Oh, Horácio, estou morrendo!/ O veneno potente subjuga completamente meu espírito” (O, I die, Horatio;/ The potent poison quite o’ercrows my spirit) (5.2).

Overlook
Dentre os muitos significados do verbo (omitir, fazer vista grossa etc), nesta carta de Hamlet para Horácio seu sentido é de ler ou examinar com atenção: “Horácio, quando você tiver lido esta carta, faça com que estes homens sejam levados à presença do rei” (Horatio, when thou shalt have overlook’d this, give these fellows some means to the king) (4.6).

Overwhelm
O sentido usual do verbo é de “superar por uma vitória esmagadora”, como numa eleição, ou “dominar de forma irresistível”, como um desejo. Há também o sentido de “inundar” ou “fazer desaparecer sob alguma coisa”, como neste exemplo: “Até lá, acalme-se, minha alma; as maldades aparecerão,/ Mesmo que a terra as oculte dos olhos humanos” (Till then sit still my soul; foul deeds will rise,/ Though all the earth o’erwhelm them, to men’s eyes.) (1.2).

Ownself
A palavra tem o sentido pouco usado de “si próprio”. Polônio aconselha Laertes dizendo que “acima de tudo, seja sincero consigo próprio” (This above all, —to thine ownself be true) (1.3).

Pajock
Após desmascarar o rei, Hamlet recita uma quadra, na qual falta uma rima. Horácio diz que Hamlet “poderia ter feito uma rima” (You might have rhymed) (3.2). Horácio não revela qual seria a melhor rima, mas especula-se que em lugar de pajock (pavão) seria mais apropriado rimar was (do verbo ser) com ass (asno), numa referência ao rei que se deixou apanhar tão facilmente. Nos dicionários modernos a palavra pajock aparece apenas em razão desta fala, com o provável significado de “pavão” (peacock).

Pale 1
O adjetivo pale pode significar “pálido”, como também “tênue” ou “frágil”, como neste exemplo do quinto solilóquio (ser ou não ser, eis a questão!): “E o aspecto primitivo da resolução/ é debilitado pela sombra tênue do pensamento” (And thus the native hue of resolution/ Is sicklied o’er with the pale cast of thought) (3.1).

Pale 2
Como substantivo significa “paliçada”, uma proteção feita de estacas pontiagudas, do latim palus (estaca). Enquanto o rei patrocina uma de suas festas costumeiras, Hamlet refere-se às “paliçadas e fortificações da razão” (pales and forts of reason) (1.4).

Palm
A palma (palm) é utilizada como metonímia de “mão” neste conselho de Polônio a Laertes: “Mas não caleje a sua mão dando acolhida a cada camarada mal saído da casca do ovo e ainda por emplumar” (But do not dull thy palm with entertainment/ Of each unhatch’d, unfledg’d comrade) (1.3). Em português é mais usual a referência a “mãos calejadas”.

Palmy
A palma (palm), folha da palmeira, é um símbolo de vitória e triunfo. O adjetivo correspondente é palmy, que significa próspero ou florescente. É o que Horácio quer dizer quando se refere à “gloriosa e próspera Roma” (high and palmy state of Rome) (1.1).

Pansy
O amor-perfeito é uma das flores distribuídas por Ofélia em seu desvario. Seu nome vem do francês pensée (pensamento). É uma flor da família das violáceas (Viola tricolor), de cores roxa, branca e amarela: “Há amores-perfeitos, estas são para os pensamentos” (there is pansies, that’s for thoughts) (4.5).

Pardie
Trata-se de uma interjeição, do francês par Dieu (por Deus), usada por Hamlet. Também se escreve pardy (3.2) e é o mesmo que by God (por Deus).

Parle
Horácio diz a Marcelo, referindo-se ao fantasma, que “ele (o falecido rei) franzia a testa do mesmo jeito, certa vez, numa parlamentação colérica” (So frown’d he once when, in an angry parle) (1.1). O termo existe também na forma parley, no sentido de trégua para parlamentação com o inimigo. Polônio usa esta forma ao ordenar que Ofélia passe menos tempo com Hamlet, recomendando a ela um “comando de parlamentação” (command to parley) (1.3).

Particular
A palavra tem o sentido de “individual”, “pessoal” ou “singular”. A rainha, referindo-se ao luto pesado de Hamlet, pergunta a ele: “Por que isto te afeta de uma forma tão singular?” (Why seems it so particular with thee?) (1.2).

Partisan
A partasana é uma alabarda de infantaria, isto é, uma lança equipada com uma lâmina de corte lateral. A palavra aparece uma única vez na peça, quando Marcelo pergunta a Horácio se deve atacar o fantasma com sua partasana (Shall I strike at it with my partisan?) (1.1). A mesma palavra designa hoje um partidário tendencioso de um grupo ou um soldado de guerrilha, derivando do latim pars, partis (parte).

Passage
Há um sentido de “passamento” ou “morte” nesta fala de Hamlet, referindo-se ao rei: “estarei vingado,/ Surpreendendo-o enquanto purga sua alma,/ Quando está disposto e preparado para a morte?” (am I, then, reveng’d,/ To take him in the purging of his soul,/ When he is fit and season’d for his passage?) (3.3). O mesmo ocorre nesta fala de Fortimbrás, referindo-se a Hamlet: “por sua morte,/ A música marcial e os ritos guerreiros/ Falem alto por ele” (for his passage,/ The soldier’s music and the rites of war/ Speak loudly for him) (5.2).

Pate
Este é um termo mais coloquial para “cabeça” ou “crânio”. O príncipe se sente um canalha: “Seria eu um covarde?/ Ninguém me chama de vilão? Parte minha cabeça ao meio?” (Am I a coward?/ Who calls me villain? Breaks my pate across?) (2.2). Hamlet, na cena do cemitério, comenta com Horácio: “Talvez seja o crânio de um político” (It might be the pate of a politician) (5.1).

Patience
Além de “paciência”, pode significar também “ordem” ou “ordens”. Quando Hamlet pergunta a
Rosencrantz se os atores estão prontos, este responde: “Sim, senhor, eles esperam suas ordens” (Ay, my lord; they stay upon your patience) (3.2).

Pause
Não se trata de “pausa”, mas sim de “ponderação” ou “reflexão”. No quinto solilóquio (ser ou não
ser), na tradução famosa de Machado de Assis, o verbo “pesar” está no sentido de “ponderar”: “Ao perpétuo sono,/ Quando o lodo mortal despido houvermos,/ Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre” (For in that sleep of death what dreams may come,/ When we have shuffled off this mortal coil,/ Must give us pause) (3.1). O rei Cláudio pondera que o envio de Hamlet à Inglaterra deve dar a impressão de “reflexão amadurecida” (deliberate pause) (4.3).

Peace
Embora habitualmente usado como substantivo (paz), seu uso como interjeição tem o significado, hoje arcaico, de “silêncio!”. Na primeira aparição do fantasma na peça, diz Marcelo: “Silêncio, parem! Ali está ele novamente!” (Peace, break thee of; look where it comes again!) (1.1). Hamlet emprega a palavra no mesmo sentido, conversando com Horácio, referindo-se também ao fantasma: “Se ele assumir a pessoa de meu nobre pai, falarei com ele, mesmo que o próprio inferno se abra e me peça silêncio” (If it assume my noble father’s person/ I’ll speak to it, though hell itself should gape/ And bid me hold my peace) (1.2).

Pelican
Laertes diz ao rei que se arriscará “como o carinhoso pelicano, que entrega sua própria vida” (like the kind life-rendering pelican) (4.5). Segundo a lenda, o pelicano alimentaria seus filhotes com seu próprio sangue. Num sentido oposto a este, o personagem principal de “Rei Lear” chama suas filhas ingratas de “filhas de um pelicano” (pelican daughters) (3.4).

Perchance
A palavra quer dizer “talvez”, como no famoso solilóquio “dormir, talvez sonhar” (To sleep, perchance to dream) (3.1).

Pester
O verbo to pester (importunar) é usado pelo rei Cláudio, ao se referir ao jovem Fortimbrás, “importunando-nos com mensagens sobre a devolução das terras perdidas por seu pai” (to pester us with message,/ Importing the surrender of those lands/ Lost by his father) (1.2).

Piece of work 1
Esta expressão significa “obra de arte” neste comentário de Hamlet: “Que obra de arte é o
homem!” (What a piece of work is a man!) (2.2) e nesta sua pergunta a Polônio: “O rei assistirá a esta obra de arte?” (Will the king hear this piece of work?) (3.2).

Piece of work 2
A expressão tem o sentido de “obra-prima” neste comentário de Hamlet para o rei: “Trata-se de uma obra-prima da perfídia” (’tis a knavish piece of work) (3.2).

Pioner
Trata-se de um “sapador”. O trabalho de “sapa” consiste em cavar trincheiras, fossos e galerias subterrâneas em operações militares. Numa passagem de um “alívio cômico”, Hamlet asssim se refere ao fantasma, para Horácio e Marcelo: “Excelente sapador!” (A worthy pioner!) (1.5). A palavra vem do francês pionnier, referindo-se ao soldado de infantaria, que anda a pé.

Pith 1
Trata-se da “medula”, podendo ser também a “casca interna e branca da laranja”. Num sentido figurado, a essência de alguma coisa. Hamlet refere-se à “essência de nossas qualidades” (The pith and marrow of our attribute) (1.4).

Pith 2
Há ainda o sentido de “importância”. No quinto solilóquio (ser ou não ser), Hamlet refere-se a “empreendimentos de grande importância” (enterprises of great pith and moment) (3.1).

Pith 3
Pode significar “seiva”, como nesta fala do rei à rainha, referindo-se a Hamlet: “tal era nosso amor/ que não atinamos com o que seria mais adequado,/ mas, como alguém que sofre de uma terrível doença/ guarda-a em segredo, deixando-a alimentar-se/ da própria seiva da vida” (so much was our love,/ We would not understand what was most fit,/ But, like the owner of a foul disease,/ To keep it from divulging, let it feed/ Even on the pith of life) (4.1).

Player
É o mesmo que “ator” (actor), como nesta observação de Hamlet para Ofélia: “os atores não sabem guardar segredos” (the players cannot keep counsel) (3.2).

Pledge
Este substantivo pode significar “penhor” como também “brinde (à saúde de alguém)”. É o que Hamlet quer dizer, referindo-se ao rei, com “seu brinde triunfal” (The triumph of his pledge) (1.4).

Polack
Horácio diz a Marcelo, referindo-se ao fantasma, que ele se parece com o falecido rei, que “derrotou os poloneses com seus trenós” (He smote the sledded Polacks on the ice) (1.1). No inglês moderno, a palavra Polack é considerada ofensiva, equivalente ao português “polaco”, sendo preferível Polish (polonês). Há quem interprete a palavra como poleax, um machado de guerra.

Pole
A palavra designa a região polar. Bernardo assim descreve a aparição do fantasma: “Na noite passada, quando aquela mesma estrela que está a oeste do pólo completara seu curso” (Last night of all/ When yon same star that’s westward from the pole/ Had made his course) (1.1). Pode significar também a Estrela Polar (polestar), também chamada Polaris, da constelação Ursa Maior.

Poniard
Osric usa esta palavra, derivada do francês poignard (punhal). Ambas derivam do latim pugnus (punho), de onde deriva o português “punhal”, ao descrever para Hamlet a aposta de Laertes: “seis floretes e seis punhais franceses” (six French rapiers and poniards) (5.2). São armas usadas em pares: o florete, mais comprido, serve para atacar, e o punhal, mais curto, para aparar os golpes do adversário.

Pooh
Esta é uma interjeição de repulsa, usada por Polônio, ao repreender Ofélia por sua atenção excessiva aos galanteios de Hamlet (1.3).

Post 1
A expressão post-haste refere-se à “pressa” (haste) característica dos “correios a cavalo” (post). Horácio refere-se à “causa desta nossa vigília e a principal razão de toda esta pressa e tumulto no país” (the source of this our watch, and the chief head of this post-haste, and rummage in the land) (1.1).

Post 2
O verbo pode significar “apressar-se”. Hamlet se queixa de sua mãe, que “se apressou com tanta sofreguidão para lençóis incestuosos” (to post/ With such dexterity to incestuous sheets!) (1.2).

Posy
A palavra deriva de poesy, uma forma arcaica de poetry (poesia). Após o curto Prólogo da “peça dentro da peça”, Hamlet pergunta a Ofélia se foi “um prólogo ou a inscrição de um anel” (a prologue, or the posy of a ring) (3.2). Estas inscrições, necessariamente curtas, eram usualmente uma divisa ou um verso de um poema.

Precurse
O substantivo precurse é o mesmo que “precursor”. A palavra aparece um única vez na peça, numa fala de Horácio, na expressão “precursor de eventos terríveis” (precurse of fierce events) (1.1).

Pregnant 1
Em geral significa “grávida”. Pode ser também “inteligente” ou “engenhoso”, como neste comentário de Polônio, referindo-se a Hamlet: “Como suas respostas às vezes são engenhosas!” (How pregnant sometimes his replies are!) (2.2). Em outras palavras, as respostas são “plenas de engenho”.

Pregnant 2
Pode significar “servil”, como neste comentário de Hamlet para Horácio: “Dobrem-se as articulações do joelho servil, onde o lucro segue a lisonja” (And crook the pregnant hinges of the knee/ Where thrift may follow fawning) (3.2).

Presence
Em lugar de “presença”, Hamlet usa o termo no sentido de “os presentes”, isto é, “os que aqui estão”, falando com Laertes: “os presentes sabem, e o senhor deve ter ouvido falar, como estou punido por uma cruel loucura” (This presence knows, and you must needs have heard,/ How I am punish’d with sore distraction) (5.2).

Present
Como adjetivo, tem o sentido arcaico de “imediato”, como neste solilóquio do rei, no qual ele se refere à “morte imediata de Hamlet” (present death of Hamlet) (4.3).

Presently
Este advérbio de modo é mais usado no sentido de “atualmente” ou “hoje em dia”. Há ainda um sentido arcaico de “imediatamente”, a exemplo destas falas de Polônio para o casal real, referindo-se a Hamlet: “Vou falar com ele imediatamente” (I’ll board him presently) (2.2) e de Polônio para Hamlet: “Meu senhor, a rainha quer falar-lhe imediatamente” (My lord; the queen would speak with you, and presently) (3.2).

Presentment
O adjetivo counterfeit está usado no sentido arcaico de “retratado”, conforme explicado acima. Já o substantivo presentment é sinônimo de presentation (apresentação). Nesta fala, Hamlet repreende a mãe: “Veja este quadro e este outro — fiéis retratos de dois irmãos” (Look here upon this picture, and on this, —/ The counterfeit presentment of two brothers) (3.4).

Primy
O adjetivo, pouco usado, deriva do substantivo prime, que quer dizer “primavera”. Laertes, ao se despedir da irmã, chama sua atenção para os galanteios de Hamlet “uma violeta no ímpeto de uma natureza primaveril” (A violet in the youth of primy nature) (1.3).

Primrose
O substantivo primrose significa “prímula”, o nome de uma flor. Num sentido figurado, Ofélia pede ao irmão Laertes que não seja como os pregadores que cedem ao “caminho florido dos prazeres” (primrose path of dalliance) (1.3).

Privy
A locução verbal to be privy to significa “estar familiarizado com”, como nesta fala de Horácio, dirigindo-se ao fantasma “se você estiver familiarizado com o destino do país” (If thou art privy to thy country’s fate) (1.1).

Probation
Esta palavra tem hoje o sentido jurídico de “liberdade condicional” ou, nas relações trabalhistas, “estágio probatório”. Horácio a emprega no sentido hoje obsoleto de “prova”, quando diz que “isto (…) foi a prova do que eu disse” (This (…) made probation) (1.1).

Prologue 1
Hamlet usa o termo no sentido etimológico de “introdução de uma peça”, quando pergunta se foi “um prólogo ou a inscrição de um anel” (a prologue, or the posy of a ring) (3.2).

Prologue 2
A rainha Gertrudes, aflita, emprega o termo como sinônimo de “início”: “Qualquer ninharia parece o prólogo de algum desastre” (Each toy seems prologue to some great amiss) (4.5).

Prologue 3
Hamlet usa o termo no sentido etimológico quando diz a Horácio que “antes que pudesse conceber um prólogo em sua imaginação,/ os outros já tinha começado a peça” (Ere I could make a prologue to my brains,/ They had begun the play) (5.2).

Property
Pode ser “característica”, como nesta explicação de Polônio para Ofélia: “Esta é a própria loucura do amor, cuja característica violenta destrói a si próprio” (This is the very ecstasy of love;/ Whose violent property foredoes itself) (2.1).

Proportions
O substantivo, no plural, significa “provisões”, no sentido de recursos necessários a uma ação de guerra. O rei Cláudio usa o termo “provisões completas” (full proportions) (1.2), referindo-se aos preparativos militares dos vizinhos noruegueses.

Put on 1
Nesta carta de Hamlet para Horácio, o sentido é de revestir: “Como éramos lentos de vela, tivemos que nos revestir de coragem” (Finding our selves too slow of sail, we put on a compelled valour) (4.6).

Put on 2
Neste relato de Horácio, o sentido é de “causar”: “Mortes causadas por astúcia e por violência” (Of deaths put on by cunning and forc’d cause) (5.2).

Put on 3
Fortimbrás usa o termo no sentido de “testar” ou “por à prova”: “Que quatro capitães/ Conduzam Hamlet, como um soldado, a um tablado;/ Pois ele, provavelmente, se tivesse sido testado,/ Teria mostrado sua alta realeza” (Let four captains/ Bear Hamlet like a soldier to the stage;/ For he was likely, had he been put on,/To have prov’d most royally) (5.2).

Quality
Pode ser sinônimo de “habilidade”, como neste pedido de Hamlet para o ator: “Venha, dê-nos uma amostra de sua habilidade” (come, give us a taste of your quality) (2.2). O rei comenta com Laertes sobre “uma habilidade na qual, segundo dizem, você se sobressai” (a quality wherein they say you shine) (4.7).

Quarry
O substantivo quarry significa “presa” ou “caça”, mas tem também um sentido arcaico de “pilha de animais mortos numa caçada”. Nesta frase do principe norueguês Fortimbrás tem o sentido de “despojos” ou “restos mortais”: “Estes despojos proclamam um massacre” (This quarry cries on havoc) (5.2).

Quick 1
Pode ser “rápido” ou “súbito”, como nesta fala do rei, a propósito de enviar Hamlet à Inglaterra: “Numa determinação súbita, decidi o seguinte” (I have in quick determination/ Thus set it down) (3.1).

Quick 2
Também pode significar “vivo”. Hamlet, na cena do cemitério, diz ao coveiro: “é para os mortos, não para os vivos” (’tis for the dead, not for the quick) (5.1). Mais adiante, na mesma cena, o príncipe desafia Horácio: “Enterre-se vivo com ela e eu farei o mesmo” (Be buried quick with her, and so will I) (5.1).

Quicksilver
A expressão deriva do latim argentum vivum (prata rápida) e se refere ao mercúrio, que tem a propriedade de um escoamento rápido. O fantasma conta como foi envenenado em vida e assim descreve a ação do veneno: “rápido como azougue” (swift as quicksilver) (1.5). O vocábulo português “azougue” é de origem árabe, assim como o correspondente espanhol azogue.

Quintessence
Hamlet, referindo-se ao homem, pergunta “o que é esta quintessência do pó?” (What is this quintessence of dust?) (2.2). A “quintessência” é o que há de melhor ou de mais puro. Entre os antigos, é o quinto elemento, com a qual são feitos o céu e os corpos celestes.

Rabble
Este é um termo um tanto depreciativo para designar a “plebe” ou a “ralé”. Um cortesão entra em cena e diz ao rei que “a ralé o chama senhor” (the rabble call him lord) (4.5), referindo-se a Laertes a aos revoltosos que ele comanda.

Rank
Esta adjetivo significa “de mau gosto”. Hamlet compara o mundo a um “jardim mal cuidado” (unweeded garden), ocupado por “coisas de mau gosto e grosseiras” (things rank and gross in nature) (1.2).

Rant
“É o mesmo que “gritar” (to mouth), como nesta fala de Hamlet para Laertes, no enterro de Ofélia: “Se você gritar,/ gritarei tanto quanto você” (Nay, and thou’lt mouth,/ I’ll rant as well as thou) (5.1).

Rapier
Trata-se do florete utilizado na competição de esgrima. Nesta fala do rei, ao convencer Laertes a esgrimir com Hamlet, é uma metonímia de “capacidade de esgrimir”: “Quanto ao seu florete, mais especialmente, Lamond disse que seria um espetáculo se alguém se batesse com você: os esgrimistas da terra dele, jurou Lamond, não teriam nem movimentação, nem guarda, nem golpe de vista, se você lutasse com eles” (And for your rapier most especially,/ That he cried out, ’twould be a sight indeed/If one could match you: the scrimers of their nation,/ He swore, had neither motion, guard, nor eye,/ If you oppos’d them) (4.7).

Reck
O verbo to reck, hoje arcaico, significa “levar em conta” ou “seguir”. Ofélia pede ao irmão Laertes que não seja como o falso pregador que “não segue sua própria doutrina” (recks not his own rede) (1.3).

Recorder
Pode significar “flauta”, como nesta fala de Hamlet: “Venham, um pouco de música! Venham, flautas!” (Come, some music! Come, the recorders!) (3.2).

Red
Esta adjetivo pode significar “corado”. Hamlet pergunta a Horácio se o fantasma estava “pálido ou corado” (pale or red) (1.2).

Rede
O substantivo arcaico rede significa “pregação” ou “doutrina”. Ofélia pede ao irmão Laertes que não seja como o falso pregador que “não segue sua própria doutrina” (recks not his own rede) (1.3).

Relief
Este substantivo tem normalmente o sentido de “alívio”, como na redução de uma carga ou de uma tensão. Há um sentido menos comum de “rendição (da guarda)”, isto é, “o revezamento da guarda”. Francisco, após uma noite fria de serviço de sentinela, assim agradece a Bernardo: “Muito obrigado por me render” (For this relief much thanks) (1.1).

Removed
Embora o adjetivo derive do verbo to remove (remover), ele significa “distante” ou, dentro do contexto da cena, “reservado”, como nesta observação de Marcelo para Hamlet, referindo-se ao fantasma: “Ele acena para que você o siga para um lugar mais reservado” (It waves you to a more removed ground) (1.4).

Rendezvous
É uma palavra francesa para “local de encontro”, como nesta fala de Fortimbrás para seu capitão: “Você conhece o local de encontro” (You know the rendezvous) (4.4). No Brasil significa também “casa de tolerância”.

Repair
O verbo pode significar “efetuar reparos” como também “vir”, como nesta carta de Hamlet para Horácio: “Faça com que o rei receba as cartas que mando e venha me ver, tão rápido como se você fugisse da morte” (Let the king have the letters I have sent; and repair thou to me with as much haste as thou wouldst fly death) (4.6). O verbo aparece novamente neste conselho de Horácio para Hamlet, na última cena da peça: “Se sua mente receia algo, obedeça-a: impedirei que venham para cá e direi que você não está preparado” (If your mind dislike anything, obey it: I will forestall their repair hither, and say you are not fit) (5.2).

Repugnant
Hoje a conotação mais comum deste adjetivo é de “desagradável”. No entanto, em sua origem etimológica, seu sentido é de “opor” ou “resistir”, do latim re (contra) e pugna (luta), como nesta fala do ator-rei, ao contar a história do velho rei Príamo: “sua espada antiga, rebelde ao seu braço, jaz onde ela cai, resistindo ao comando” (his antique sword,/ Rebellious to his arm, lies where it falls,/Repugnant to command) (2.2).

Requite
O verbo significa “retribuir” ou “recompensar”. Hamlet pede aos seus companheiros que guardem segredo sobre o fantasma e diz que “suas amizades serão recompensadas” (I will requite your loves) (1.2).

Resolute
O adjetivo resolute significa firme ou determinado, isto é, alguém que não se afasta de seus objetivos. Como substantivo, pode designar um aventureiro que, de certa forma, também é uma pessoa decidida. Horácio, em conversa com os companheiros Marcelo e Bernardo, conta que o jovem Fortimbrás “reuniu fraudulentamente um bando de aventureiros sem terra” (shark’d up a list of landless resolutes) (1.1).

Resolve
Este verbo, usado reflexivamente, pode ter o sentido pouco usual de “dissolver-se”, como neste solilóquio de Hamlet: “Oh, se esta poluída carne pudesse se fundir, derreter e dissolver-se num orvalho!” (O, that this too too sullied flesh would melt,/ Thaw, and resolve itself into a dew!) (1.2). Aparentemente, a repetição too too se destina a completar o decassílabo.

Retirement
Hoje significa “aposentadoria”. Nesta fala de Guildenstern para Hamlet tem o sentido de “aposento”. O rei está “no seu aposento, muito irritado” (in his retirement, marvellous distempered) (3.2). Também em português “aposentar-se” tem o sentido de “recolher-se aos seus aposentos”.

Retrograde
Este adjetivo tem o sentido, hoje obsoleto, de “contrário”. O rei Cláudio se opõe ao retorno de Hamlet a Wittenberg dizendo que isto é “contrário à nossa vontade” (retrograde to our desire) (1.2).

Reword
Hoje o verbo tem o sentido de “expressar novamente com outras palavras” . Aqui tem o sentido arcaico de “repetir”, quando Hamlet tenta convencer a mãe de que não está louco: “Faça um teste comigo e eu repetirei tudo; a loucura fugiria disso aos pulos” (bring me to the test,/ And I the matter will re-word; which madness/ Would gambol from) (3.4).

Rhapsody
A palavra está sendo usada, nesta fala de Hamlet, num sentido arcaico de “miscelânea”: “Oh, um feito desses é como se arrancasse a própria alma do vínculo matrimonial, fazendo da doce religião uma miscelânea de palavras” (O, such a deed/ As from the body of contraction plucks/ The very soul, and sweet religion makes/ A rhapsody of words) (3.4).

Rhenish
Há duas referências na peça ao vinho do rio Reno (Rhine). Na primeira, Hamlet comenta que o rei tem o hábito de tomar seus “tragos de vinho do Reno” (draughts of Rhenish) (1.4). Na segunda, o coveiro se queixa de Yorick, que “uma vez derrramou uma garrrafa de vinho do Reno na minha cabeça” (poured a flagon of Rhenish on my head once) (5.1).

Riband
É uma forma arcaica de ribbon (fita). O rei usa o termo no sentido de adorno, ao comentar o dote de esgrimista de Laertes: “Um simple adorno no gorro da juventude” (A very riband in the cap of youth) (4.7).
Rival Esta palavra tem hoje o sentido de “competidor”, tanto em português quanto em inglês. Nos versos abaixo, ela tem o sentido arcaico de “companheiro”, do latim rivalis, isto é, aquele que mora do mesmo lado de um rio (em latim, rivus). Bernardo se dirige a Francisco, que está deixando o posto de sentinela, e diz: “se você encontrar Horácio e Marcelo, meus companheiros de vigília, peça e eles que se apressem” (If you do meet Horatio and Marcellus,/ The rivals of my watch, bid them make haste) (1.1).

Rivet
O verbo to rivet significa “rebitar”, isto é, “cravar com rebites”. Hamlet diz a Horácio que observará a reação do rei: “De minha parte, cravarei meus olhos em seu rosto” (For I mine eyes will rivet to his face) (3.2).

Rosemary
O rosmaninho é uma das flores distribuídas por Ofélia em seu desvario. É uma flor pequena, normalmente azul-pálida, também conhecida como “alecrim” (Rosmarinus officinalis): “Aqui está o rosmaninho para a recordação” (There’s rosemary, that’s for remembrance) (4.5).

Round
Como advérbio de modo, quer dizer “com clareza” ou “abertamente”, como nesta fala de Polônio para o rei, recomendando que a rainha tenha uma conversa franca com o filho: “Deixe que ela fale com ele abertamente” (let her be round with him) (3.1).

Rouse
Esta é uma palavra arcaica para “brinde” (ato de beber para saudar alguém). Hamlet concorda com o pedido da rainha e decide permanecer na Dinamarca, em lugar de retornar a Wittenberg. O rei, aparentemente satisfeito, promete um “brinde real” (king’s rouse) (1.2).

Rue
A arruda é uma das flores distribuídas por Ofélia em seu desvario. “arruda para você e algumas para mim —- podemos chamá-la erva-da-graça dos domingos” (there’s rue for you; and here’s some for me: —we may call it herb-grace o’ Sundays) (4.5). É símbolo de tristeza e amargura, razão pela qual ela reserva algumas para si própria.

Rugged
O adjetivo pode significar “acidentado”, no caso de um terreno, ou “tempestuoso”, referindo-se ao clima de uma determinada época. No trecho que Hamlet recita para os atores, ele se refere ao “Feroz Pirro, como a fera da Hircânia” (The rugged Pyrrhus, like the Hyrcanian beast) (2.2). O sentido aqui é de “feroz” ou “rude”.

Rummage
A palavra aparece apenas nesta fala de Horácio, referindo-se à “causa desta nossa vigília e a principal razão de toda esta pressa e tumulto no país” (the source of this our watch, and the chief head of this post-haste, and rummage in the land) (1.1). Há uma possível etimologia castelhana do termo \”arrumaje\” (arrumação da carga de um navio).

Russet
Este adjetivo vem do latim russus (avermelhado). Horácio refere-se à manhã que se aproxima “envolta num manto avermelhado” (in russet mantle clad) (1.1). Não confundir com o português “ruço” (do latim roscidus, orvalhado) que quer dizer “pardacento”, como um nevoeiro.

Sable
Em heráldica, representa a cor negra. Hamlet perguntou a Horácio se o fantasma tinha a barba grisalha e Horácio respondeu que sim, que ela era “negra com um tom de prata” (A sable silver’d) (1.2).

Saint Patrick
Hamlet jura a Horácio “por São Patrício” (by Saint Patrick) (1.5). São Patrício, bispo e missionário, é o padroeiro da Irlanda e o guardião do purgatório. Acredita-se que ele tenha expulsado as cobras do território irlandês. Seu dia é o 17 de março, comemorado pela colônia irlandesa em Nova Iorque, nos Estados Unidos, com festas e um desfile na Quinta Avenida, na qual há uma catedral com seu nome.

Saw
O substantivo saw pode significar “serra” (ferramenta para serrar) como também “provérbio”, como quando Hamlet promete esquecer “todos os provérbios dos livros” (All saws of books) (1.5).

Scholar
A palavra deriva do latim schola (escola) e designa uma pessoa instruída. Por esta razão, Marcelo pede que Horácio se dirija ao fantasma: “Você é instruído, fale com ele, Horácio” (Thou art a scholar; speak to it Horatio) (1.1).

Scope
Pode ser “escopo” e também “propósito” ou “finalidade”, como nesta fala da atriz-rainha, na “peça dentro da peça”: “Que a austera reclusão de um anacoreta seja todo meu propósito!” (An anchor’s cheer in prison be my scope!) (3.2).

Scrimer
Trata-se de “esgrimista”, do francês escrimeur. Nesta fala, o rei procura convencer Laertes a esgrimir com Hamlet: “os esgrimistas da terra dele, jurou [Lamond], não teriam nem movimentação, nem guarda, nem golpe de vista, se você lutasse com eles” (the scrimers of their nation,/ He swore, had neither motion, guard, nor eye,/ If you oppos’d them) (4.7).

Season 1
Este verbo pode ter o sentido de “moderar”. Quando Horácio conta a Hamlet que viu o falecido rei, diz: “modere o seu espanto” (season your admiration) (1.2).

Season 2
O verbo pode ser também “amadurecer” ou “frutificar”, como neste conselho de Polônio a Laertes: “que minha bênção frutifique isto em você” (my blessing season this in thee) (1.3), referindo-se aos seus conselhos de pai.

Sense
Pode ser “sentido” (como a visão e o tato) e também “sentimento”, como nesta fala de Hamlet para a rainha: “A rotina, este monstro que devora todo sentimento” (That monster custom, who all sense doth eat) (3.4).

Sensible
O adjetivo normalmente significa “sensato” ou “razoável”. Na citação que se segue, a idéia de “sensível” é de sensação física, isto é, percebida pelos sentidos. Horácio comenta a aparição do fantasma e diz que “por Deus, eu não acreditaria nisto sem o testemunho sensível e verdadeiro de meus próprios olhos” (Before my God, I might not this believe/ Without the sensible and true avouch/ Of mine own eyes) (1.1).

Sergeant
É uma forma reduzida de sergeant-at-arms (um policial encarregado de efetuar prisões), como nesta despedida de Hamlet: “Se eu tivesse tempo, — mas a morte, como um policial cruel,/ É inflexível na prisão, — Oh, eu poderia dizer-lhes, —/ Mas deixem estar” (Had I but time, —as this fell sergeant, death,/ Is strict in his arrest, —O, I could tell you, —/ But let it be) (5.2).

Service
Laertes compara o corpo humano a um templo e usa a palavra “serviço” como sinônimo de “atividade”: “Enquanto este templo se dilata,/ A atividade interna da mente e da alma/ Cresce com ele” (as this temple waxes,/ The inward service of the mind and soul/ Grows wide withal) (1.3). Há um segundo sentido de “serviço religioso”, como atividade própria de um templo.

Shark
O substantivo shark significa “tubarão”. O verbo to shark tem o sentido arcaico de “conseguir algo de forma fraudulenta”. Horácio, em conversa com os companheiros Marcelo e Bernardo, conta que o jovem Fortimbrás “reuniu fraudulentamente um bando de aventureiros sem terra” (shark’d up a list of landless resolutes) (1.1).

Shipwright
A palavra refere-se aos profissionais envolvidos na construção e reparo de navios (ships). Como os navios da época eram de madeira, estes profissionais eram, em sua maioria, carpinteiros navais. Marcelo se refere a um “alistamento de carpinteiros navais” (impress of shipwrights) (1.1).

Shoon
Este é um plural arcaico de shoe (sapato), que aparece nesta canção de Ofélia: “Como posso distinguir o verdadeiro amor de um outro? Pelo chapéu de peregrino, bastão e sandálias” (How should I your true love know/From another one?/ By his cockle hat and staff,/and his sandal shoon) (4.5).

Shot
O substantivo pode referir-se ao disparo de uma flecha ou de qualquer outro projétil. Num sentido figurado, out of shot significa “fora do alcance”, como neste conselho de Laertes, prevenindo a irmã Ofélia do assédio de Hamlet, para que ela se mantenha “fora do alcance e do perigo do desejo” (Out of the shot and danger of desire) (1.3).

Shrewd
O adjetivo shrewd quer dizer “astuto” ou “perspicaz”. Há um sentido arcaico de “agudo” ou “penetrante”, como neste comentário de Hamlet: “O ar corta a pele, faz muito frio” (The air bites shrewdly; it is very cold) (1.4).

Shuffle 1
O verbo to shuffle off significa “livrar-se de” ou “despir”. No quinto solilóquio (ser ou não ser), na tradução de Machado de Assis, “despir o lodo mortal” é, simplesmente, morrer: “Ao perpétuo sono,/ Quando o lodo mortal despido houvermos,/ Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre” (For in that sleep of death what dreams may come,/ When we have shuffled off this mortal coil,/ Must give us pause) (3.1). É o mesmo que “quando nos livrarmos deste invólucro mortal”.

Shuffling 1
O verbo to shuffle pode significar também embaralhar (cartas do baralho). O rei usa o substantivo
correspondente com o sentido de “trapaça”, ao afirmar que nas relações com o céu “não há trapaça possível” (There is no shuffling) (3.3).

Shuffling 2
O rei usa o termo no sentido de “astúcia” ou “habilidade” ao planejar com Laertes a morte de Hamlet: “com um pouco de astúcia, você pode escolher uma espada sem o botão protetor da ponta” (with a little shuffling, you may choose/ A sword unbated) (4.7).

Sift
O verbo to sift pode significar a ação física de “peneirar”, como também o sentido figurado de “questionar” ou “sondar”. É o que o rei quer dizer, conversando com a rainha a respeito de Hamlet: “bem, nós o questionaremos” (Well, we shall sift him) (2.2).

Sight
Pode significar “espetáculo”, como nesta fala do rei, ao convencer Laertes a esgrimir com Hamlet: “Quanto ao seu florete, mais especialmente, Lamond disse que seria um espetáculo se alguém se batesse com você” (And for your rapier most especially,/ That he cried out, ’twould be a sight indeed/If one could match you) (4.7).

Simple
É um termo arcaico para “erva medicinal”. Laertes diz ao rei que comprou um ungüento tão mortífero que “nenhum cataplasma, por melhor que seja, pode salvar da morte quem for arranhado por ele, mesmo que feito por todas as ervas medicinais que tenham virtudes sob o influxo da lua” (no cataplasm so rare,/ Collected from all simples that have virtue/ Under the moon, can save the thing from death/ That is but scratch’d withal) (4.7).

Sledded
O termo sled é o mesmo que sledge ou sleigh (trenó). Horácio diz a Marcelo, referindo-se ao fantasma, que ele se parece com o falecido rei, que “derrotou os poloneses com seus trenós” (He smote the sledded Polacks on the ice) (1.1). Há quem interprete como sleaded poleaxes, ou seja, “machados de guerra” (poleaxes) “reforçados com chumbo” (sleaded). Neste caso, a tradução seria “derrotou, no gelo, os machados de guerra”.

Sleep
Num sentido figurado, pode significar “perder tempo”. Laertes, ao se despedir da irmã, diz que “se
algum meio de comunicação estiver disponível, não perca tempo, mande notícias suas” (And convoy is assistant; do not sleep,/ But let me hear from you) (1.3).

Slow
O adjetivo slow significa “lento”, mas pode ser também “relutante”. Polônio conta ao rei que Laertes “conseguiu minha relutante permissão” (wrung from me my slow leave) (1.2).

Smite
O verbo é irregular (smite, smote, smitten). Pode significar derrotar, destruir ou matar. Horácio diz a Marcelo, referindo-se ao fantasma, que ele se parece com o falecido rei, que “derrotou os poloneses com seus trenós” (He smote the sledded Polacks on the ice) (1.1).

Soft 1
Embora habitualmente usado com adjetivo (macio), seu uso como interjeição tem o significado, hoje arcaico, de “silêncio!”. Aparece diversas vezes na peça. Por exemplo, no fim do quinto solilóquio (ser ou não ser, eis a questão!), quando Hamlet pressente a chegada de Ofélia (3.1), e no sexto solilóquio (que eu seja cruel, mas nunca desnaturado): “Silêncio! Agora verei minha mãe” (Soft! now, to my mother) (3.2).

Soft 2
Esta interjeição também tem o significado de “espere um pouco”, como neste pedido do rei para Laertes: “Espere um pouco, deixe-me pensar (Soft! Let me see) (4.7).

Soil
O substantivo pode designar “solo” ou “chão” como também “mancha” ou “nódoa”. Laertes conversa com a irmã sobre as intenções de Hamlet: “talvez ele hoje a ame e, até agora, nenhuma mancha ou embuste macula a pureza de suas intenções” (Perhaps he loves you now;/ And now no soil nor cautel doth besmirch/ The virtue of his will) (1.3).

Sometime
O rei Cláudio usa o termo como adjetivo, quando se refere a Gertrudes como “nossa antiga cunhada” (our sometime sister) (1.2). O rei usa o plural majestático our quando se dirige aos seus súditos e chama a antiga cunhada de sister (irmã), uma forma abreviada de sister-in-law (cunhada).

Sometimes
Este advérbio de modo quer dizer “às vezes” ou “de vez em quando”. Há também o significado arcaico do advérbio de tempo “antigamente” ou “outrora”. Horácio, ao se dirigir ao fantasma, pergunta a ele a razão de assumir “a nobre forma guerreira com a qual o falecido rei da Dinamarca outrora marchava” (that fair and warlike form/ In which the majesty of buried Denmark/ Did sometimes march) (1.1).

Sore
O adjetivo pode significar “dolorido” como em sore eyes (olhos doloridos), como também “penoso”. Marcelo refere-se ao sore task (trabalho penoso) (1.1) dos carpinteiros navais.
Sort O verbo to sort significa “distribuir” ou “classificar”. Há ainda um sentido arcaico de “explicar”, como nesta fala de Bernardo, referindo-se ao fantasma: “Isto bem pode explicar a razão pela qual esta figura portentosa/ apareceu armada na nossa vigília, tão parecida com o rei” (Well may it sort, that this portentous figure/ Comes armed through our watch; so like the king) (1.1).

Sound
É o mesmo “sondar” ou “investigar com cautela”, como nesta instrução de Polônio a Reinaldo: “Você poderia sondá-lo” (him you would sound) (2.1).

Speech
Pode ser “discurso” e também “fala” ou “passagem” de uma peça, no sentido de um “conjunto de linhas ditas por um personagem”. O príncipe pede a Horácio: “observe meu tio: se seu crime oculto não se revelar numa passagem da peça, então foi um maldito fantasma que vimos” (Observe mine uncle: if his occulted guilt/ Do not itself unkennel in one speech,/ It is a damned ghost that we have seen) (3.2).

Sphere
O substantivo sphere aqui significa “órbita”, considerando que na época vigorava a astronomia de Copérnico, que supunha órbitas esféricas. O fantasma, no seu encontro a sós com Hamlet, diz que poderia contar uma história que “fizesse seus olhos, como planetas, saltarem de suas órbitas” (Make thy two eyes, like stars, start from their spheres) (1.5).

Splenitive
Hamlet reage à agressão de Laertes no enterro de Ofélia: “Embora eu não seja irritadiço e impetuoso,/ Há em mim algo perigoso/ Que sua prudência deve temer” (For, though I am not splenitive and rash,/ Yet have I in me something dangerous,/ Which let thy wiseness fear) (5.1). Splenitive é uma forma antiga de spleenful (irritadiço), já que se acreditava que o baço (spleen) era a sede de algumas emoções.

Springe
Esta é uma armadilha simples, que consiste de um laço preso a um galho de árvore encurvado, sob tensão. Polônio, ao advertir Ofélia, diz que as palavras do príncipe são “armadilhas para apanhar galinholas” (springes to catch woodcocks) (1.3). Na última cena da peça, Laertes admite que ter sido tolamente apanhado “como uma galinhola, na minha própria armadilha” (as a woodcock to mine own springe) (5.2).

Sprinkle
Não se trata de “borrifar”, mas sim do sentido figurado de “temperar”, como neste conselho da rainha para Hamlet: “Oh, meu filho, tempere o calor de sua excitação com a fria paciência” (O gentle son,/ Upon the heat and flame of thy distemper/Sprinkle cool patience) (3.4). É a mesma palavra que deu origem ao sprinkler system (sistema de proteção contra incêndio tipo chuveiro automático).

Spurn
Como substantivo, significa “desdém”, como nestes versos do quinto solilóquio: “Ser ou não ser, eis a questão!”, na tradução de Machado de Assis: “E o vão desdém que de rasteiras almas/ O paciente mérito recebe) (and the spurns/ That patient merit of the unworthy takes) (3.1). O verbo to spurn tem o sentido de “rejeitar com desprezo ou desdém”. Horácio diz à rainha que Ofélia “se enfurece por nada” (spurns enviously at straws) (4.5).

Squeak
O verbo to squeak significa “grunhir”, como um animal. Pode ser também o som alto e estridente de uma “roda sem lubrificação” (squeaky wheel). Horácio conta que “um pouco antes da queda do poderoso Júlio [César],/ os túmulos ficaram desocupados, e os mortos com seus sudários/ Grunhiam e falavam incoerentemente nas ruas de Roma” (A little ere the mightiest Julius fell,/ The graves stood tenantless, and the sheeted dead/ Did squeak and gibber in the Roman streets) (1.1).

Staff
Hoje é um sinônimo comum de “equipe” (workforce). Pode ser também “cajado” ou “bastão”, como nesta canção de Ofélia: “Como posso distinguir o verdadeiro amor de um outro? Pelo chapéu de peregrino, bastão e sandálias” (How should I your true love know/From another one?/ By his cockle hat and staff,/and his sandal shoon) (4.5).

Stage
Além de “palco”, o termo se aplica a uma plataforma elevada ou tablado, como nesta fala de Horácio: “ordene que estes corpos sejam colocados numa plataforma elevada, à vista de todos” (give order that these bodies/High on a stage be placed to the view) (5.2). Também Fortimbrás usa o mesmo termo: “Que quatro capitães/ Conduzam Hamlet, como um soldado, a um tablado” (Let four captains/ Bear Hamlet like a soldier to the stage) (5.2).

Stake
Como substantivo, significa “estaca”. Na expressão at stake significa que algo está “em jogo”, isto é, correndo o risco de ser perdido. A expressão vem do bearbaiting, uma forma de diversão condenável, que consistia em amarrar um urso numa estaca para que fosse atacado por cães. No sétimo solilóquio (vinte mil homens marcham para seus túmulos), diz Hamlet: “Na verdade, ser grande não é agitar-se sem uma causa maior; pelo contrário, é bater-se por uma questão menor quando a honra está em jogo” (Rightly to be great/ Is not to stir without great argument,/ But greatly to find quarrel in a straw/ When honour is at the stake) (4.4).

Stalk
O verbo significa “andar”, com arrogância ou determinação. O termo pode também ser usado como substantivo (“um andar marcial”). Bernardo avisa aos companheiros de turno: “Vejam, o fantasma vai embora!” (See, it stalks away!) (1.1). Pouco depois, Marcelo conta aos companheiros que “assim, em duas ocasiões anteriores, nesta mesma hora morta,/ ele passou por nossa vigília com um andar marcial” (Thus twice before, and jump at this dead hour,/ With martial stalk hath he gone by our watch) (1.1).

Star
Embora hoje signifique “estrela”, era o mesmo que “corpo celeste”. Horácio se refere à Lua como “astro úmido, sob cuja influência está o império de Netuno” (the moist star, upon whose influence Neptune’s empire stands) (1.1).

Start 1
Além do sentido usual de “começar”, o verbo pode significar “sobressaltar-se” ou “assustar-se”. Horácio conta que o fantasma “se assustou, como um ser culpado” (it started, like a guilty thing) (1.1).

Start 2
O verbo pode significar também “saltar”. O fantasma, no seu encontro a sós com Hamlet, diz que poderia contar uma história que “fizesse seus olhos, como planetas, saltarem de suas órbitas” (Make thy two eyes, like stars, start from their spheres) (1.5).

Start 3
O sentido aqui é de “fugir de um assunto”. Guildenstern diz a Hamlet: “Meu bom senhor, ponha suas palavras em boa ordem e não fuja tão bruscamente de meu assunto” (Good my lord, put your discourse into some frame, and start not so wildly from my affair) (3.2).

Station 1
A palavra tem o sentido usual de estação, a exemplo de uma estação de trem ou de rádio. Pode também significar “porte”. Hamlet, ao mostrar à rainha os retratos do pai e do tio, diz que o pai tem “um porte como o do arauto Mercúrio” (a station like the herald Mercury) (3.4).

Station 2
A palavra pode significar “posição social”. Polônio recomenda ao filho Laertes que se vista bem, para fazer boa figura entre “aqueles de conceito e posição social na França” (they in France of the best rank and station) (1.3).

Stay 1
O verbo tem normalmente o significado de “permanecer” ou “ficar”, como neste apelo da rainha a Hamlet: “Eu lhe peço, fique conosco, não vá para Wittenberg” (I pray thee, stay with us; go not to Wittenberg) (1.2).

Stay 2
Há um sentido arcaico de “aguardar” ou “esperar por alguém”, como neste exemplo de Hamlet: “Minha mãe me aguarda” (My mother stays) (3.3). Pode significar também “demorar” ou “perder tempo”, como no comentário do príncipe sobre o pedido para sua execução “sem perder tempo na amolação do machado” (not to stay the grinding of the axe) (5.2).

Stay 3
O verbo tem ainda o sentido de “impedir”, como neste exemplo, quando o rei pergunta a Laertes: “Quem poderá impedi-lo?” (Who shall stay you?) (4.5).

Steal 1
Pode ser “furtar” como também “entrar furtivamente”. O fantasma do pai de Hamlet conta-lhe que “na minha hora de quietude, seu tio entrou furtivamente, com um maldito veneno num frasco” (Upon my secure hour thy uncle stole,/With juice or cursed hebenon in a vial) (1.5).

Steal 2
Pode ser ainda “sair furtivamente” ou “desvanecer”. É com este último sentido que Hamlet chama a atenção da mãe para o fantasma de seu pai: “Veja como ele se desvanece!” (Look how it steals away!) (3.4).

Step
Hamlet usa o verbo to step no sentido de “mudar”, ao repreender a mãe por apaixonar-se pelo cunhado: “na sua idade, o auge do vigor está aplacado: ele é humilde e age como servo da razão; e que razão mudaria deste para este?” (for at your age/ The heyday in the blood is tame, it’s humble,/ And waits upon the judgement: and what judgement/ Would step from this, to this?) (3.4).

Still
No uso shakespeariano, still pode ser o advérbio de modo “constantemente” ou “sempre”, a exemplo desta fala de Horácio, na expressão “mensageiros constantemente precedendo os fados” (harbingers preceding still the fates) (1.1). Mais adiante, o rei diz a Polônio: “Você sempre foi o pai de notícias gratas” (Thou still hast been the father of good news) (2.2).

Stithy
A palavra quer dizer “forja” (forge). Hamlet, quando pede a Horácio para observar as reações do rei, diz ao amigo Horácio que suas suspeitas são “tão negras quanto a forja de Vulcano” (as foul/ As Vulcan’s stithy) (3.2). A palavra pode se referir também a uma bigorna (anvil), um bloco de aço sobre o qual as peças aquecidas são conformadas por martelagem.

Stomach
Este substantivo significa estômago, mas também pode ter o sentido figurado de valentia. Horácio, em conversa com os companheiros Marcelo e Bernardo, conta que o jovem Fortimbrás reuniu um bando de rebeldes dispostos qualquer coisa que “exija valentia” (hath a stomach in’t) (1.1).

Stop
Além de “parada” ou “batente”, pode referir-se aos orifícios de uma flauta que,. quando tampados, fazem variar o comprimento da coluna de ar que vibra. São também conhecidos como “registros”, como nesta fala de Hamlet para Guildenstern: “Veja, estes são os registros” (Look you, these are the stops) (3.2).

Straw
Este substantivo aparece por três vezes no sentido de “bagatela” ou “motivo frívolo”, como na expressão “por dá cá aquela palha”. Hamlet conversa com o capitão norueguês e diz que “duas mil almas e dois mil ducados não irão decidir a questão desta bagatela” (Two thousand souls and twenty thousand ducats/ Will not debate the question of this straw) (4.4). Um pouco adiante, no sétimo solilóquio, o príncipe usa a expressão “brigar por uma ninharia” (to find quarrel in a straw) (4.4). Finalmente, seu amigo Horácio diz à rainha que Ofélia “se enfurece por nada” (spurns enviously at straws) (4.5).

Strumpet
Por duas vezes a Fortuna é associada a uma prostituta (strumpet), de etimologia incerta. Hamlet, em conversa com Rosencrantz e Guildenstern, diz que “ela é uma prostituta” (she is a strumpet) (2.2), pois estende seus favores indiscriminadamente a todos. Mais adiante, na sua fala de demonstração, um dos atores declama: “Fora, fora, prostituta Fortuna!” (Out, out, thou strumpet Fortune!) (2.2).

Subject
Este substantivo, além do significado usual de assunto ou matéria, pode representar também o súdito de um rei, como nesta fala de Marcelo, comentando os preparativos militares em curso na Dinamarca, que “cansam todas as noites os súditos do reino” (nightly toils the subject of the land) (1.1).

Sullied
Este adjetivo pode significar tanto “sujo” como, em sentido figurado, “moralmente poluído”, como neste solilóquio de Hamlet:: “Oh, se esta poluída carne pudesse se fundir, derreter e dissolver-se num orvalho!” (O, that this too too sullied flesh would melt,/ Thaw, and resolve itself into a dew!) (1.2).

Summons
O substantivo é singular (o plural é summonses) e significa “convocação”. Horácio conta que o fantasma “se assustou, como um ser culpado, sob uma convocação aterradora” (it started, like a guilty thing,/ Upon a fearful summons) (1.1).

Suppliance
A palavra deriva do substantivo supplication, que quer dizer “súplica”. Neste contexto, pode ter também o sentido figurado de “deleite”: Laertes, ao se despedir da irmã, chama sua atenção para os galanteios de Hamlet “o perfume e deleite de um minuto” (The perfume and suppliance of a minute) (1.3).

Sweet
O substantivo sweet (doce) é usado aqui como metáfora para “flor”. A rainha espalha flores sobre o túmulo: “Flores para a flor: adeus!/ Eu esperava que fosse a esposa de meu Hamlet/ E adornar seu leito nupcial, doce donzela,/ E não espalhar flores em seu túmulo” (Sweets to the sweet: farewell!/ I hop’d thou shouldst have been my Hamlet’s wife;/ I thought thy bride-bed to have deck’d, sweet maid,/ And not have strew’d thy grave) (5.1).

Switzer
Trata-se de um membro da guarda real, originalmente formada por mercenários suíços. Com o tumulto provocado fora de cena por Laertes e seus comandados, o rei exclama: “Onde está minha guarda suíça?” (Where are my Switzers?) (4.5).

Table
Não se trata aqui de mesa, mas do equivalente em inglês da expressão latina tabula rasa (tábua vazia). Aristóteles considerava que o espírito humano, antes de qualquer experiência, era como uma tábua recoberta de cera, na qual nada tinha sido ainda gravado. É o que Hamlet quer dizer com: “Sim, da tábua de minha memória,/ apagarei todos os registros triviais” (Yea, from the table of my memory,/ I’ll wipe away all trivial fond records) (1.5).

Take
Dentre os muitos significados do verbo to take, inclui-se presumir ou supor, como nesta fala de Horácio: “e esta é, eu acho, a causa principal de nossos preparativos” (and this, I take it,/ Is the main motive of our preparations) (1.1).

Tame
Hamlet, irritado, usa o verbo to tame (domesticar) no sentido de “aplacar” ou “serenar”, ao repreender a mãe: “na sua idade, o auge do vigor está aplacado: ele é humilde e age como servo da razão” (for at your age/ The heyday in the blood is tame, it’s humble,/ And waits upon the judgement) (3.4).

Target
Aqui não se trata de “alvo”, mas sim de um pequeno escudo redondo, designado “rodela”, tanto em
português quanto em espanhol, que se segurava no braço esquerdo enquanto se manejava a espada. Hamlet, referindo-se aos atores, diz que “o cavaleiro andante usará a espada e o escudo” (the adventurous knight shall use his foil and target) (2.2). Dom Quixote, numa passagem famosa, “bem coberto de sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a todo galope de Rocinante e investiu contra o primeiro moinho que estava diante” (bien cubierto de su rodela, con la lanza en el ristre, arremetió a todo el galope de Rocinante y embistió con el primero molino que estaba delante) (“Dom Quixote”, livro 1, cap. 8).

Taste
Originalmente, tinha um sentido de “amostra”, como neste pedido de Hamlet para o ator: “Venha, dê-nos uma amostra de sua habilidade profissional” (come, give us a taste of your quality) (2.2). A palavra aparece apenas uma vez na peça.

Tax home
É o mesmo que “censurar” ou “falar com dureza”. Polônio, referindo-se a Hamlet, diz ao rei que a rainha vai “falar-lhe com dureza” (tax him home) (3.3).

Tell
Este verbo pode significar “contar (números)”. Hamlet pergunta a Horácio se a aparição do fantasma foi demorada e ele responde que “dava, sem pressa, para contar até cem” (While one with moderate haste might tell a hundred) (1.2).

Tenable
Este adjetivo significa “sustentável” ou “manutenível”. Ele deriva do latim tenere, isto é, “manter”, com uma idéia de continuidade. Hamlet pede aos seus companheiros que guardem segredo sobre o fantasma, isto é, “que o mantenham em seu silêncio” (Let it be tenable in your silence) (1.2).

Tenantless
O substantivo tenant (locatário) deriva do latim tenere (ter). Horácio conta que “um pouco antes da queda do poderoso Júlio [César],/ os túmulos ficaram desocupados” (A little ere the the mightiest Julius fell,/ The graves stood tenantless) (1.1).

Tend
O verbo to tend é uma forma reduzida de to attend, que tem o sentido, hoje arcaico, de “esperar”. Polônio apressa Laertes dizendo que “vá, seus criados o esperam” (go, your servants tend) (1.3).

Tender 1
Ofélia usa este substantivo como “demonstração de afeto”, ao comentar com o pai Polônio seu namoro com Hamlet: “Ele tem, meu senhor, dado ultimamente muitas demonstrações de sua afeição para comigo” (He hath, my lord, of late made many tenders/ Of his affection to me) (1.3).

Tender 2
Polônio usa o substantivo tender no sentido de “oferta (de pagamento)”: “você considerou as ofertas dele como moeda legal” (you have ta’en his tenders for true pay) (3.1).

Tender 3
Polônio usa o verbo to tender no sentido de “ofertar (como numa proposta comercial)”: “Faça de si mesma uma oferta de maior valor” (Tender yourself more dearly Ofélia) (1.3), antes de proibir o namoro da filha.

Tender 4
Polônio usa to tender no sentido de “apresentar” (a si próprio) ao advertir Ofélia: “você vai fazer de mim um tolo” (you\’ll tender me a fool) (1.3).

Thaw
Este verbo é sinônimo de to melt (derreter): “Oh, se esta poluída carne pudesse se fundir, derreter e dissolver-se num orvalho!” (O, that this too too sullied flesh would melt,/ Thaw, and resolve itself into a dew!) (1.2). A palavra too está repetida no original.

Thews
O substantivo, mais usado no plural, significa “músculos”. Laertes, conversando com a irmã, diz que não crescemos só “em músculos e tamanho” (In thews and bulk) (1.3).

Thrift
O substantivo é sinônimo de “economia” ou “frugalidade”. É a explicação irônica que Hamlet dá a Horácio para justificar o casamento da mãe logo após a morte do pai. “Economia, economia, Horácio!” (Thrift, thrift, Horatio!) (1.2), diz Hamlet, observando que os manjares da refeição fúnebre foram aproveitados na festa do casamento.

Touching
Não se trata de um tempo verbal, mas sim de uma preposição, significando “com relação a”, “a respeito de”, como neste comentário de Marcelo: “A respeito desta visão terrível, duas vezes vista por nós” (Touching this dreaded sight, twice seen of us) (1.1).

Toil 1
O verbo significa “trabalhar duro” e vem do latim tundere (bater repetidas vezes). Marcelo conta que os preparativos para a guerra “todas as noites fazem os súditos da terra trabalharem duro” (nightly toils the subject of the land) (1.1).

Toil 2
Como substantivo pode significar “armadilha sob a forma de rede”, do latim tela (rede). Hamlet acusa Rosencrantz e Guildenstern de “conduzirem-me para uma armadilha” (drive me into a toil) (3.2).

Toward
Esta preposição normalmente significa “em direção a”, entre outros significados. Como adjetivo, pode significar “iminente” ou “por acontecer”, como nesta indagação de Marcelo: “O que pode estar por acontecer, que justifique esta pressa suarenta, que faz a noite companheira do dia no trabalho […]?” (What might be toward, that this sweaty haste/ Doth make the night joint labourer with the day […]?) (1.1).

Toy 1
Hoje mais usado como “brinquedo de criança” ou “miniatura”, era sinônimo de “flerte”. Laertes, conversando com Ofélia, classifica o interesse de Hamlet pela irmã como “um flerte juvenil” (a toy in blood) (1.3).

Toy 2
Horácio, ao pedir a Hamlet que não siga o fantasma, usa o termo no sentido de “idéias”, possivelmente idéias que “brincam” com a mente: “O próprio local inspira idéias desesperadas” (The very place puts toys of desperation) (1.4). Horácio teme que a alucinação provocada pela altura afete o amigo.

Toy 3
A rainha Gertrudes, aflita, emprega o termo como “ninharia” ou “coisa sem importância”: “Qualquer ninharia parece o prólogo de algum desastre” (Each toy seems prologue to some great amiss) (4.5).

Train
Horácio conta aos seus companheiros que, quando Júlio César caiu, viram-se “estrelas com caudas de fogo e orvalhos de sangue” (stars with trains of fire and dews of blood) (1.1). Em algumas marcações de cena, o cortejo que acompanha um nobre é também designado train. Teria o “trem” mineiro antecedentes shakespearianos?

Tragedian
Rosencrantz e Guildenstern decidem animar Hamlet com a notícia de uma companhia de atores que se dirige para o castelo, os “trágicos da cidade” (the tragedians of the city) (2.2). Embora habitualmente traduzido como “trágicos”, são na verdade “atores de tragédias” ou, simplesmente, “atores”. Mais adiante, na mesma cena, os atores são também mencionados como players.

Trappings
Este substantivo, usado no plural, significa “adornos” ou “enfeites”. Hamlet, comentando seu pesado luto com a rainha, refere-se aos “enfeites (…) da dor” (trappings (…) of woe) (1.2).

Trifling
Este adjetivo é derivado de trifle (ninharia, coisa sem importância) e tem o sentido de “frívolo”. Laertes começa assim seus conselhos à irmã Ofélia: “Quanto a Hamlet e seus galanteios frívolos) (For Hamlet, and the trifling of his favour) (1.3).

Truant
Esta palavra pode ser tanto um adjetivo como um substantivo. Um exemplo do primeiro caso está nesta resposta bem-humorada de Horácio, quando Hamlet pergunta o que ele faz longe da universidade: “um temperamento vadio, meu senhor” (A truant disposition, good my lord). Hamlet, seu amigo, discorda: “eu sei que você não é um vadio” (I know you are no truant) (1.2). Neste segundo caso, “vadio” é um substantivo. Deriva do francês truand (em espanhol, truhán).

Truepenny
No inglês arcaico, era uma “pessoa honesta e confiável”. Numa passagem de um “alívio cômico”, Hamlet asssim se refere ao fantasma: “É você que está aí, gente boa?” (Art thou there, truepenny?) (1.5).

Truncheon
Esta palavra vem do latim truncus (tronco) e significa “bastão de comando”. Horácio conta a Hamlet que o fantasma do rei estava perto, “ao alcance de seu bastão de comando” (Within his truncheon’s length) (1.2).

Tush
Com esta interjeição, que revela um misto de impaciência e incredulidade, Horácio duvida da vinda do fantasma: “Ora, ora, ele não vai aparecer” (Tush, tush, ’twill not appear) (1.1).

Unaneled
O fantasma do pai de Hamlet se queixa de ter morrido sem ter recebido a Unção dos Enfermos (anele) (1.5), do latim oleum, mais comumente designada hoje Anointment of the Sick.

Unction
Trata-se de um ungüento, normalmente para uso medicinal ou religioso. Laertes refere-se a um veneno, quando diz ao rei: “Comprei um ungüento de um charlatão” (I bought an unction of a mountebank) (4.7).

Uncurrent
O adjetivo aqui significa “fora de circulação”, referindo-se a uma moeda. Hamlet brinca com um ator adolescente, talvez por estar mudando a voz, e diz que espera que “sua voz, como uma moeda de ouro fora de circulação, não venha a se rachar” (your voice, like a piece of uncurrent gold, be not cracked within the ring) (2.2).

Unfledged
O verbo to fledge significa “emplumar”. O adjetivo unfledged quer dizer portanto “por emplumar”, como neste conselho de Polônio a Laertes: “Mas não caleje a sua mão dando acolhida a cada camarada mal saído da casca do ovo e ainda por emplumar” (But do not dull thy palm with entertainment/ Of each unhatch’d, unfledg’d comrade) (1.3).

Unfold
O verbo to fold (dobrar) se aplica quando uma coisa se dobra sobre si própria, como uma folha de papel ou um mapa. O verbo to unfold (desdobrar) é a ação inversa. Na primeira fala de Francisco, o sentinela, ele pede a Bernardo, que se aproxima, que “fique de pé e se apresente” (stand and unfold yourself) (1.1). Mais adiante, o verbo tem outro significado: o fantasma diz a Hamlet: “preste muita atenção ao que eu vou revelar” (lend thy serious hearing/ To what I shall unfold) (1.5). O fantasma volta a aplicar o verbo: “eu poderia contar uma história cuja palavra mais leve rasgaria sua alma” (I could a tale unfold whose lightest word/ Would harrow up thy soul) (1.5).

Unhand
O verbo to unhand significa “soltar”, referindo-se a uma pessoa contida por outra. Hamlet pede que os amigos o soltem para que ele possa seguir o fantasma: “soltem-me, cavalheiros” (unhand me, gentlemen) (1.4).

Unhatched
O verbo to hatch significa “chocar (um ovo)”. O adjetivo unhatched quer dizer portanto “mal saído da casca do ovo”, como neste conselho de Polônio a Laertes: “Mas não caleje a sua mão dando acolhida a cada camarada mal saído da casca do ovo e ainda por emplumar” (But do not dull thy palm with entertainment/ Of each unhatch’d, unfledg’d comrade) (1.3).

Unhouseled
O fantasma do pai de Hamlet se queixa de ter morrido sem ter recebido a Sagrada Comunhão
(housel) (1.5), mais comumente designada hoje Holy Communion.

Unimproved
O adjetivo deriva do verbo to improve (melhorar ou desenvolver). Horácio, em conversa com os companheiros Marcelo e Bernardo, refere-se ao jovem Fortimbrás como sendo “inexperiente” (of unimproved mettle) (1.1), isto é, de qualidades que ainda não foram desenvolvidas ou testadas.

Union
Trata-se aqui de uma pérola grande, de boa qualidade e alto valor. Antes do combate de esgrima entre Hamlet e Laertes, o rei diz que “lançará na taça uma pérola mais rica do que a usada por quatro reis sucessivos da Noruega” (And in the cup an union shall he thrown,/ Richer then that which four successive kings/ In Denmark’s crown have worn) (5.2). Mais tarde, Hamlet força o rei a beber a taça envenenada e pergunta: “Sua união está aqui?” (Is thy union here?) (5.2). Há dois sentidos possíveis: “pérola”, como quem pergunta “é esta a pérola de seu casamento?” ou, ainda, “beba e una-se à minha mãe”, já que Gertrudes morrera envenenada pouco antes.

Unkennel
O verbo deriva do substantivo kennel, do latim canis (cão), que significa “canil”. O verbo to unkennel é um termo de caça, que significa “revelar” a raposa, fazendo-a sair da toca com o uso de cães de caça. Hamlet pede a Horácio: “observe meu tio: se seu crime oculto não se revelar numa passagem da peça, então foi um maldito fantasma que vimos” (Observe mine uncle: if his occulted guilt/ Do not itself unkennel in one speech,/ It is a damned ghost that we have seen) (3.2).

Unmastered
O adjetivo vem do verbo to master (controlar). Laertes, ao se despedir da irmã, chama sua atenção para os galanteios de Hamlet e pede que ela não ceda à sua “importunação descontrolada” (unmaster’d importunity) (1.3).

Unrighteous
Este adjetivo significa “injusto” ou “pecaminoso”. Hamlet se queixa do luto rápido observado por sua mãe, que se casou antes mesmo que cessassem suas “lágrimas pecaminosas” (most unrighteous tears) (1.2).

Unsifted
O verbo to sift pode significar a ação física de “peneirar”, como também o sentido figurado de “testar” ou “examinar cuidadosamente”. Polônio usa o adjetivo unsifted ao aconselhar Ofélia para se acautelar contra os galanteios do príncipe Hamlet, chamando-a de “menina ingênua, não acostumada a esta perigosa circunstância” (green girl,/ Unsifted in such perilous circumstance) (1.3).

Unvalued
O adjetivo deriva de value (valor), no sentido figurado de “posição social”. Laertes explica à sua irmã Ofélia as limitações do príncipe: “Ele não pode, como fazem as pessoas humildes,/ escolher por si próprio” (He may not, as unvalu’d persons do,/ Carve for himself) (1.3).

Unwrung
O príncipe diz ao rei que a peça teatral nada tem de ofensivo: “um pangaré esfolado pode sentir dor, mas nós temos as costas sãs” (let the galled jade wince, our withers are unwrung) (3.2). As costas sãs aqui têm o sentido de “lisas”. Wrung é o particípio passado de to wring (torcer). Unwrung significa portanto “destorcidas”, isto é, “direitas” ou “lisas”.

Uphoard
Este verbo, hoje em desuso, tem o mesmo significado de to hoard up (acumular dinheiro ou provisões para uso futuro). Aparece uma única vez na peça, quando Horácio pergunta ao fantasma se ele “guardou em vida, nas entranhas da terra, algum tesouro extorquido” (uphoarded in thy life/ Extorted treasure in the womb of earth) (1.1).

Vast
Este substantivo, hoje arcaico, vem do latim vastus (vastidão). Horácio comenta com Hamlet a aparição do fantasma “na vastidão sepulcral e no meio da noite” (In the dead vast and middle of the night) (1.2).

Vial
Trata-se de um pequeno frasco de vidro, em geral para guardar um remédio. O fantasma do pai de Hamlet conta-lhe que “na minha hora de quietude, seu tio entrou furtivamente, com um maldito veneno num frasco” (Upon my secure hour thy uncle stole,/With juice or cursed hebenon in a vial) (1.5).

Violet
A violeta é apenas mencionada por Ofélia em seu desvario. “Eu lhe daria umas violetas, mas elas murcharam quando meu pai morreu — dizem que ele teve um fim feliz” (I would give you some violets, but they withered all when my father died: — they say, he made a good end, —) (4.5). A violeta representa a fidelidade.

Virtue
Além de “virtude” pode significar “pureza” ou “qualidade”. Laertes conversa com a irmã sobre as intenções de Hamlet: “talvez ele hoje a ame e, até agora, nenhuma mancha ou embuste macula a pureza de suas intenções” (Perhaps he loves you now;/ And now no soil nor cautel doth besmirch/ The virtue of his will) (1.3).

Voice 1
O substantivo voice (voz) pode significar “opinião”, como neste conselho de Polônio a Laertes: “Dê ouvidos a todos, mas a poucos sua opinião” (Give every man thine ear; but few thy voice) (1.3).

Voice 2
Pode ter o sentido de “voto”, como nesta última fala de Hamlet: “Mas profetizo que a eleição recairá sobre/ Fortimbrás: ele tem meu voto moribundo” (But I do prophesy the election lights/ On Fortinbras: he has my dying voice) (5.2). Em “Coriolano”, de Shakespeare, o personagem principal emprega o substantivo também neste sentido: “lutei pelos seus votos” (for your voices I have fought) (2.3).

Wag 1
O verbo normalmente significa “mover rápida e repetidamente”, como um cão que agita a cauda. Surpresa com a irritação de Hamlet, a rainha pergunta ao príncipe: “O que fiz para que você ouse tagarelar desta forma tão rude?” (What have I done, that thou dar’st wag thy tongue/ In noise so rude against me?) (3.4).

Wag 2
Na cena do cemitério, Hamlet diz a Horácio que lutará com Laertes “até que minhas pálpebras não mais se movam” (Until my eyelids will no longer wag) (5.1). O movimento das pálpebras simboliza aqui um sinal de vida. Hamlet quer dizer portanto que lutará “enquanto viver”.

Wait upon
Hamlet usa to wait upon (servir) num sentido figurado, de “agir como servo”, ao repreender a mãe: “na sua idade, o auge do vigor está aplacado: ele é humilde e age como servo da razão” (for at your age/ The heyday in the blood is tame, it’s humble,/ And waits upon the judgement) (3.4).

Want
Este verbo pode ter o sentido de “faltar”. Hamlet se queixa do luto rápido observado por sua mãe: “um animal, ao qual falta o sentido da razão, teria ficado de luto por mais tempo” (A beast that wants discourse of reason,/ Would have mourn’d longer) (1.2).

Watch
O substantivo watch (relógio) pode ter o significado de “vigília”, a exemplo da vigília de uma sentinela. Esta fala de Horácio refere-se à “causa desta nossa vigília e a principal razão de toda esta pressa [dos preparativos para a guerra]” (the source of this our watch, and the chief head of this post-haste) (1.1).

Wax
O verbo significa “crescer”, como a lua que “cresce” sua porção luminosa. Laertes pede à irmã para tomar cuidado com os galanteios de Hamlet, que podem ser um capricho passageiro. Nesta passagem, Laertes compara o corpo humano a um templo: “enquanto este templo se dilata” (as this temple waxes) (1.3).

Whereof
Significa “disso” ou “do qual”. Quando Hamlet concorda em permanecer na Dinamarca, o rei Cláudio, “em reconhecimento disso” (in grace whereof) (1.2) decide comemorar a decisão. Mais tarde, Laertes explica a Ofélia que Hamlet deve submeter-se ao reino, isto é, “à voz e à vontade daquele corpo/ do qual ele é a cabeça” (Unto the voice and yielding of that body/ Whereof he is the head) (1.3).

Whisper
A palavra normalmente quer dizer “sussurro”. Pode também significar “boato” ou “cochicho”. Horácio diz aos companheiros Marcelo e Bernardo que “pelo menos, este é o boato que corre” (At least, the whisper goes so) (4.1). Hoje, os termos mais usuais são gossip e rumor.

Wholesome
Embora normalmente signifique “saudável”, pode ter o sentido de “plausível”. Guildenstern pede a Hamlet “uma resposta plausível” (a wholesome answer) (3.2).

Why
Esta palavra pode ser uma interjeição de surpresa ou palavra de reforço a uma observação. Hamlet concorda com o pedido da rainha e decide permanecer na Dinamarca, em lugar de retornar a Wittenberg. O rei, talvez surpreso, diz “Eis uma resposta amável e afetuosa” (Why, ’tis a loving, and a fair reply) (1.2). Horácio, ao saber do plano concebido para matar Hamlet, exclama: “Mas que rei é este?” (Why, what a king is this!) (5.2). Teria o “uai” mineiro antecedentes shakespearianos?

Wildly
O adjetivo wild pode significar, além de “selvagem”, “brusco” ou “violento”. Aqui, usando o advérbio de modo correspondente, Guildenstern diz a Hamlet: “Meu bom senhor, ponha suas palavras em boa ordem e não fuja tão bruscamente de meu assunto” (Good my lord, put your discourse into some frame, and start not so wildly from my affair) (3.2).

Willow
Ofélia tentava subir num salgueiro quando supostamente caiu e se afogou. A rainha Gertrudes começa assim seu relato: “Há um salgueiro inclinado sobre um regato” (There is a willow grows aslant a brook) (4.7). O salgueiro cresce ao longo de lagos e rios e, com suas folhas estreitas e longas e ramos flexíveis, simboliza o luto. É conhecido como salgueiro-do-rio e salgueiro-chorão (Salix babylonica). O nome científico decorre possivelmente do Salmo 136 (ou 137, na versão hebraica), que se refere à tristeza do cativeiro dos judeus na Babilônia: “Às margens dos rios da Babilônia,/ Nos assentávamos chorando,/ Lembrando-nos de Sião./ Nos salgueiros daquela terra,/ Pendurávamos, então, as nossas harpas”.

Wind
O substantivo wind (vento) pode ter o sentido de “faro”. Hamlet pergunta a Rosencrantz e Guildenstern “por que vocês andam atrás de mim, procurando me achar pelo faro?” (why do you go about to recover the wind of me?) (3.2). Trata-se de uma linguagem de caça, como se os dois estivessem “farejando” atrás do príncipe.

Withers
Este substantivo plural se refere à “cernelha”, isto é, à parte mais alta das costas do cavalo, onde se juntam as espáduas. O príncipe diz ao rei que a peça teatral nada tem de ofensivo: “um pangaré esfolado pode sentir dor, mas nós temos as costas sãs” (let the galled jade wince, our withers are unwrung) (3.2).

Without
Como advérbio de lugar, quer dizer “do lado de fora”. Hamlet comenta que, para ele, a guerra é como “um abscesso causado por um excesso de riqueza e de paz, que rebenta por dentro, sem se manifestar por fora” (This is the imposthume of much wealth and peace,/ That inward breaks, and shows no cause without) (4.4).

Womb
Este substantivo é normalmente empregado como “útero”. Aparece uma única vez na peça, no sentido figurado de “entranhas” ou “profundeza”, quando Horácio pergunta ao fantasma se ele “guardou em vida, nas entranhas da terra, algum tesouro extorquido” (uphoarded in thy life/ Extorted treasure in the womb of earth) (1.1).

Wont
Este substantivo significa “costume” ou “hábito”, como neste comentário de Horácio, referindo-se ao fantasma: “está chegando a hora/em que o espectro tinha o hábito de caminhar” (then it draws near the season/ Wherein the spirit held his wont to walk) (1.4).

Woodcock
Esta é uma ave migratória européia (Scolopax rusticola), de pernas curtas e bico longo. Polônio, ao advertir Ofélia, diz que as palavras do príncipe são “armadilhas para apanhar galinholas” (springes to catch woodcocks) (1.3). Na última cena da peça, Laertes admite que ter sido tolamente apanhado “como uma galinhola, na minha própria armadilha” (as a woodcock to mine own springe) (5.2). Num sentido hoje obsoleto, era também sinônimo de pessoa tola.

Worm(s)
Hamlet faz um trocadilho entre “dieta de vermes” (worms (…) for diet) (4.3) e a “Dieta de Worms”, uma assembléia (dieta) na cidade alemã de Worms, convocada por Carlos V, na qual Marinho Lutero foi condenado por heresia, em 1521. Em outras palavras, Hamlet quer dizer que está que Polônio está sendo comido pelos vermes.

Wounded
O verbo to wound (ferir) pode ser usado tanto no sentido físico como moral, a exemplo desta fala de Hamlet: “Oh bom Horácio, que nome desonrado deixarei,/ Se as coisas ficarem assim desconhecidas!” (O good Horatio, what a wounded name,/ Things standing thus unknown, shall live behind me) (5.2).
Woundless Este adjetivo tem o sentido de “invulnerável”. O rei diz que tomará providências para que a notícia da morte de Polônio não afete o reino, como uma bala de canhão que se perde e atinge o “ar invulnerável” (woundless air) (4.1).

Writ
Esta é uma forma arcaica de “texto escrito” ou “documento formal”. Horácio dirige-se a Hamlet usando o termo no sentido de um dever: “Julgamos ser nosso dever levar este assunto ao seu conhecimento” (And we did think it writ down in our duty/ To let you know of it) (1.2). Em outras palavras, Horácio comporta-se como se este fosse um “dever estipulado por escrito”.

Wrung
Este é o passado de to wring (torcer). Pode ter o sentido figurado de “conseguir alguma coisa de alguém”, como quem torce uma toalha para extrair água. Polônio conta ao rei que Laertes “conseguiu minha relutante permissão” (wrung from me my slow leave) (1.2). É uma forma branda de “extorquir”, cuja raiz latina torquere também significa “torcer”.

Yesternight
Esta é uma forma poética de “ontem à noite”, como nesta fala de Horácio para Hamlet: “Meu senhor, acho que eu o vi ontem à noite” (My lord, I think I saw him yesternight) (1.2).

Yield
O verbo pode significar “ceder”. Seu gerúndio seria neste caso “consentimento” ou “submissão”, como nesta fala de Laertes, explicando a Ofélia as limitações do príncipe: “E portanto sua escolha deve estar circunscrita/ à voz e consentimento daquele corpo/ do qual ele é a cabeça” (And therefore must his choice be circumscrib’d/ Unto the voice and yielding of that body/ Whereof he is the head) (1.3).

Yon
Esta é uma forma arcaica de “aquele” ou “aquela”, como neste exemplo, no relato de Bernardo sobre a aparição do fantasma: “Na noite passada, quando aquela mesma estrela que está a oeste do pólo completara seu curso” (Last night of all/ When yon same star that’s westward from the pole/ Had made his course) (1.1).

Yonder
Esta é outra forma arcaica de “aquele” ou “aquela”, como nesta pergunta de Hamlet a Polônio: “Você vê aquela nuvem, que tem quase a forma de um camelo?” (Do you see yonder cloud that’s almost in shape of a camel?) (3.2) e nesta canção de Ofélia: “Assim eu o teria feito, pela luz daquele sol” (So would I ha’ done by yonder sun) (4.5).