O Rei e Seu Poder de Sedução, Mário Amora Ramos

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O rei dá mostras de seu poder sedutor logo em sua primeira aparição, no início da segunda cena do Primeiro Ato. Ele relembra aos súditos as circunstâncias de seu casamento com a viúva do irmão, recentemente falecido, e agradece o apoio recebido de todos. Em seguida, despacha seus embaixadores para a vizinha Noruega, recebe a despedida protocolar de Laertes e tem seu primeiro longo e penoso diálogo com Hamlet. O rei, numa longa fala, recrimina o luto pesado do príncipe e tenta, em vão, cativá-lo. Diz-lhe: “você é o mais próximo na linha de sucessão do trono” (You are the most immediate to our throne) (1.2) e, mais adiante, prossegue “rogamos que você consinta em ficar aqui, na alegria e conforto de nossos olhos, como nosso principal cortesão, sobrinho e filho” (And we beseech you, bend you to remain/ Here in the cheer and comfort of our eye,/ Our chiefest courtier, cousin, and our son) (1.2).

A rainha, ao lado do rei, participa ativamente de tudo. O casal real deixa a cena, para o primeiro solilóquio de Hamlet, antes de seu encontro com Horácio, Marcelo e Bernardo, que lhe trazem notícias do fantasma.

O rei ausenta-se nas quatro cenas seguintes (duas de encontro de Hamlet com o fantasma e duas na casa de Polônio) e volta a aparecer no início da segunda cena do Segundo Ato. O rei desta vez exerce seu poder sedutor junto a Rosencrantz e Guildenstern, amigos de juventude do príncipe, convidando-os a passar algum tempo na corte, para descobrir a causa de suas aflições. O rei, naturalmente, desconhece a revelação terrível que o fantasma fez ao desolado Hamlet, mas aparentemente não quer correr riscos desnecessários. A rainha, igualmente sedutora e interessada nos bons serviços que Rosencrantz e Guildenstern poderiam prestar ao príncipe, promete que receberão “agradecimentos dignos da gratidão de um rei” (such thanks/ As fits a King’s remembrance) (2.2). O rei recebe as boas notícias dos embaixadores que retornam da Noruega e concede uma audiência a Polônio, que não consegue convencer o soberano com sua teoria sobre a causa do destempero do príncipe.

O rei dá mostras freqüentes de seu espírito folgazão e amigo de bons vinhos, bem diferente do sisudo e atormentado sobrinho. Na sua vigília com Horácio e Marcelo, Hamlet comenta que o rei é festeiro e tem o hábito de tomar seus “tragos de vinho do Reno” (draughts of Rhenish) (1.4). Após o retorno dos embaixadores em missão na Noruega, o rei lhes recomenda: “Descansem, à noite comemoraremos” (Go to your rest; at night we’ll feast together) (2.2). O novo rei parece bem diferente do anterior, que gostava de participar da conquista de novos territórios à frente de seu exércitos. Não é de admirar que, enquanto isso, a rainha se deixasse aos poucos seduzir por seu cunhado mais alegre e festivo. Ela, naturalmente, desconhece que convive com o assassino de seu próprio marido. Como disse o fantasma a Hamlet: “saiba, meu nobre jovem,/ que a serpente que tirou a vida de seu pai/ agora usa sua coroa” (but know, thou noble youth,/ The serpent that did sting thy father’s life/ Now wears his crown) (1.5).

No fim da primeira cena do Terceiro Ato, o astuto rei procura induzir Polônio a aceitar uma idéia sua para afastar o incômodo Hamlet, enviando-o à Inglaterra, para cobrar tributos atrasados: “Talvez, mares e países diferentes, com sua variedade de coisas novas, expulsem este assunto algo arraigado em seu coração, contra o qual sua mente luta continuamente, e deixa-o assim fora de si. O que você acha disso?” (Haply, the seas and countries different,/ With variable objects, shall expel/ This something-settled matter in his heart;/ Whereon his brains still beating puts him thus/ From fashion of himself. What think you on’t?) (3.1). Polônio continua achando que tudo não passa de conseqüência de um amor desprezado. Para não contrariar o rei, o conselheiro propõe que, após a representação da peça, a rainha chame o filho em particular, ficando Polônio oculto para testemunhar a conversa. Talvez a rainha consiga arrancar o segredo que aflige o filho.

A apresentação da peça pelos atores visitantes faz com que o rei se desmascare, ao retirar-se abruptamente do salão. Na cena seguinte, o rei comunica a Rosencrantz e Guidenstern sua decisão de enviá-los sem demora em missão à Inglaterra, junto com Hamlet. O rei escapa por pouco da morte, já que o príncipe, a caminho dos aposentos da mãe, hesita em matá-lo em atitude de oração, para não correr o risco de premiá-lo com o céu, ao morrer “enquanto purifica seu espírito” (in the purging of his soul) (3.3).

Na quarta e última cena do Terceiro Ato ocorrem o encontro de Hamlet com sua mãe e a trágica morte acidental de Polônio, que ouvia a conversa de ambos. Na sua precipitação, Hamlet não percebeu que quem estava atrás da cortina era o desafortunado conselheiro e não o rei, como ele esperava. Quando a rainha pergunta o que ele fez, ele diz: “Ora, não sei. É o rei?” (Nay I know not. Is it the King?) (3.4).

Na cena seguinte, a rainha relata o acontecido ao rei, procurando com desvelos maternais atribuir tudo a um acesso do filho. Ela conta que, arrependido, “ele chora pelo que fez” (he weeps for what is done) (4.1). O rei se assusta duplamente. Numa seqüência de dez monossílabos, no original, ele diz que “Teria sido conosco se estivéssemos lá” (It had been so with us had we been there) (4.1), enfatizando a gravidade do fato com o plural majestático. Sempre sedutor, o rei diz à rainha que “era tanto nosso amor (pelo príncipe) que não chegamos a compreender o que era mais adequado fazer” (so much was our love,/ We would not understand what was most fit) (4.1). Em seguida reconhece que terá que usar de toda sua habilidade para abafar o caso, como se dissesse: “Está vendo o trabalho que seu filho me dá?”. Em nenhum momento o rei vilão se lamenta pela morte do fiel conselheiro.

O rei não aparece na cena seguinte, na qual estão presentes apenas o esquivo Hamlet e seus companheiros Rosencrantz e Guildenstern, que tentam convencer o príncipe a revelar onde escondeu o corpo de Polônio.

O rei volta a aparecer na terceira cena do Quarto Ato. Depois de muita relutância, Hamlet revela o paradeiro do corpo do desditado conselheiro. Nesta cena, o rei comunica a Hamlet que ele deverá ir à Inglaterra, para a segurança do príncipe, com a qual o rei diz que muito se preocupa. Quando todos saem de cena, o rei admite, pela primeira vez na peça, sua verdadeira intenção: “a morte imediata de Hamlet” (The present death of Hamlet) (4.3), que ocorreria tão logo o príncipe chegasse à Inglaterra. Aqui o vilão se revela definitivamente.

O rei não aparece na quarta cena do Quarto Ato, que se passa numa planície da Dinamarca. Nela participam apenas Hamlet, Horácio e Fortimbrás (a caminho da Polônia), um capitão norueguês e soldados em marcha.

Na quinta cena do Quarto Ato, há novos problemas para o rei. Ofélia surge cantando e fora de si. Ela sai de cena e deixa o casal real preocupado. Afinal, talvez tenha sido um erro enterrar Polônio em segredo. De fato, logo em seguida chega Laertes, irmão de Ofélia, liderando um grupo de revoltosos e querendo vingar o pai. Para culminar, Ofélia retorna transtornada, cantando e distribuindo flores, o que deixa Laertes justificadamente em prantos. O rei, confiante no sucesso da execução de Hamlet na Inglaterra, pede paciência a Laertes e diz que “onde está a ofensa, ali cairá o terrível machado” (where the offence is, let the great axe fall) (4.5). Não se trata de uma figura de linguagem. O próprio Hamlet, após escapar da trama, explica mais tarde a Horácio que sua morte deveria ocorrer “sem perder tempo na amolação do machado” (not to stay the grinding of the axe) (5.2).

O rei não aparece na sexta cena do Quarto Ato, na qual Horácio recebe uma carta de Hamlet.

Na sétima e última cena do Quarto Ato, o rei, confiante na pronta execução de Hamlet logo ao chegar à Inglaterra, tenta apaziguar Laertes: “Você logo ouvirá mais notícias” (You shortly shall hear more) (4.7). No entanto, ironicamente, um mensageiro traz uma carta de Hamlet para o rei, que este lê na presença de Laertes, comunicando a súbita e inesperada volta do príncipe. Mesmo sem estar presente em cena, Hamlet, como um fantasma, retorna para assombrar o rei.

O rei, surpreso, desta vez usa seu poder sedutor para convencer Laertes a levar adiante um novo plano de livrar-se de Hamlet. A realidade, no entanto, é mais pródiga do que os planos reais.

Como foi visto, antes de se esconder, Polônio se dirigiu à rainha e lhe disse: “permanecerei em silêncio” (I’ll silence me) (3.4), para ser morto pouco tempo depois. Pois bem, o rei foi igualmente traído por suas próprias palavras. Na fala de encerramento da cena do cemitério, ele comenta com a rainha, nestes versos rimados:

“Uma hora de quietude logo veremos;
Até lá, mostremo-nos pacientes.”

(An hour of quiet shortly shall we see;
Till then, in patience our proceeding be) (5.1).

Ironicamente, a “hora de quietude” do casal real, na cena seguinte, é a morte.