O Poder dos Astros, Mário Amora Ramos

Os favorecidos pelos astros estão no primeiro verso do Soneto 25, reproduzido a seguir:

“Que aqueles que estão favorecidos por seus astros
Vangloriem-se de sua honra pública e de seus títulos pomposos,
Enquanto eu, a quem a Fortuna barra deste triunfo,
Sem o prever, usufruo daquilo que mais prezo.

Os favoritos dos grandes príncipes espalham suas belas pétalas
Mas, como o malmequer ao sol,
Seu orgulho jaz neles próprios,
Pois ao franzir de um cenho eles morrem em sua glória.

O sofrido guerreiro famoso na batalha,
Após mil vitórias uma vez caído,
É do livro da honra praticamente apagado,
E todo o passado, pelo qual lutou, esquecido.

Então feliz sou eu, que amo e sou amado,
De onde não me removo nem sou removido”

(Let those who are in favour with their stars
Of public honour and proud titles boast,
Whilst I, whom fortune of such triumph bars
Unlook’d for joy in that I honour most.

Great princes’ favourites their fair leaves spread
But as the marigold at the sun’s eye,
And in themselves their pride lies buried,
For at a frown they in their glory die.

The painful warrior famoused for fight,
After a thousand victories once foil’d,
Is from the book of honour razed quite,
And all the rest forgot for which he toil’d:

Then happy I, that love and am belov’d,
Where I may not remove nor be remov’d.)

A primeira quadra mostra que o autor do soneto não se considera entre os favorecidos pelos astros. Eles que se envaideçam de sua posição social elevada. Embora a sorte não o tenha feito triunfar, ele no entanto usufrui daquilo que mais preza. Em outras palavras, ele ama e é correspondido. A influência dos astros nos destinos humanos aparece também no Prólogo de Romeu e Julieta, quando o Coro se refere ao desafortunado casal como “um par de amantes sob uma estrela adversa” (a pair of star-cross’d lovers) (1.1). Otelo manifesta a mesma crença no poder dos astros, quando considera Desdêmona, após a morte desta, como uma “jovem nascida sob uma má estrela” (ill-starr’d wench) (5.2).

Na segunda quadra, o autor compara os protegidos dos grandes príncipes ao malmequer, que precisa do calor do sol, sem o qual ele definha e morre. Analogamente, a fama do protegido do príncipe pode ser tão passageira que, a um olhar ameaçador deste, o protegido cai em desgraça. Uma boa imagem desta situação é o relato do cardeal Wolsey sobre a perda de seu prestígio junto ao rei Henrique VIII, na peça de igual nome. Coincidentemente o rei sai de cena, pouco antes, “franzindo o cenho para o cardeal Wolsey” (frowning upon Cardinal Wolsey) (3.2):

“Adeus! Um longo adeus para toda minha grandeza!
Este é o destino do homem: hoje ele desabrocha
As folhas tenras da esperança; amanhã floresce,
E leva consigo suas honras recentemente acumuladas;
No terceiro dia vem uma geada, uma geada mortífera;
E quando ele pensa, homem bom e ingênuo, que plenamente
Amadurece sua grandeza, a geada queima sua raiz,
E então ele cai, como eu”

(Farewell! A long farewell, to all my greatness!
This is the state of man: to-day he puts forth
The tender leaves of hopes; to-morrow blossoms,
And bears his blushing honours thick upon him;
The third day comes a frost, a killing frost;
And, when he thinks, good easy man, full surely
His greatness is a-ripening, nips his root,
And then he falls, as I do) (3.2).

A terceira quadra deste soneto é um retrato fiel da situação de quatro personagens de peças de Shakespeare que, por diferentes razões, após muitas vitórias se vêem caídos. Eles são apagados do livro da honra e todo o passado glorioso de nada mais vale. Deixam de ser generais respeitados e passam a ser considerados indignos. São eles, na ordem em que as respectivas peças foram escritas, Tito Andrônico, Otelo, Macbeth e Corialano.

No último dístico, o autor revela-se feliz, pois ama e é amado e sua situação não mudará, pois ele não está sujeito, como os demais, aos riscos de um poder inconstante e passageiro. Os dois versos finais do Soneto 29 expressam um ponto de vista semelhante:

“A doce lembrança de seu amor traz uma tal riqueza
Que desdenho trocar minha situação com a dos reis”

(For thy sweet love remember’d such wealth brings
That then I scorn to change my state with kings.)

Desta forma, os sonetos se completam: no primeiro, o autor não é um favorecido pela fortuna, mas é feliz porque ama e é amado; no segundo, ele revela que sua felicidade é tal que ele não a trocaria com a de nenhum rei.

Otelo reconhece o tesouro que perdeu quando se refere a si mesmo “como alguém cuja mão,/ como a do indiano vil, jogou fora uma pérola/ mais rica do que toda a sua tribo” (one whose hand,/ Like the base Indian, threw a pearl away/ Richer than all his tribe) (5.2).

Cássio, o instigador da conspiração em “Júlio César”, define bem a questão nesta fala, que inspirou o título original do romance “A Culpa É das Estrelas”, de John Green:

“A culpa, caro Bruto, não é dos nossos astros,
Mas nossa, subalternos que somos.”

(The fault, dear Brutus, is not in our stars,
But in ourselves that we are underlings.) (1,2)