O Escasso Prestígio da Mulher em Hamlet, Mário Amora Ramos

A rainha Gertrudes, ao longo de toda a peça, é extremamente devotada ao filho Hamlet. Ela se preocupa com ele e procura defendê-lo sempre que pode.

Sua primeira aparição ocorre no início da segunda cena do Primeiro Ato. A rainha, ao lado do rei, dirige a Hamlet suas três únicas falas desta cena. Ela pede que ele se torne amigo do novo rei, deixe de lado seu luto pesado pela morte do pai e não volte para Wittemberg. Nesta mesma cena, no primeiro solilóquio do príncipe, ele revela que está extremamente irritado com o casamento apressado da mãe. Note-se que ele ainda não sabe da acusação terrível do fantasma contra o rei Cláudio, o que agravará sua angústia.

A rainha volta a aparecer no início da segunda cena do Segundo Ato, também ao lado do rei. Ela é grata a Rosencrantz e Guildenstern pela companhia que fariam a Hamlet e lhes diz: “Rogo que procurem imediatamente meu filho tão transformado” (I beseech you instantly to visit/ My too-much-changed son) (2.2). Mais tarde, ela diz ao rei que acredita que os problemas de Hamlet decorrem da morte do pai e do casamento dela logo em seguida. Assim, quando Polônio atribui o estado do príncipe ao amor não correspondido de Ofélia, é natural que a rainha responda, um tanto cética: “É bem possível” (It may be very likely) (2.2). Neste ponto, a rainha parece mais ponderada do que o conselheiro real, que abraça sua teoria inflexivelmente, sem deixar margem para dúvidas.

Na primeira cena do Terceiro Ato, a rainha, ao lado do rei, pergunta a Rosencrantz e Guildenstern se o príncipe os recebeu bem e se eles o convidaram para algum divertimento. Quando saem Rosencrantz e Guildenstern, o rei pede à rainha que deixe o salão, já que ele e Polônio iriam bisbilhotar a conversa de Ofélia com o príncipe. Trata-se aqui de uma enorme descortesia, que bem revela o escasso prestígio da mulher à época. Tudo se passa como se o rei e Polônio considerassem a rainha incapaz de fazer algum comentário inteligente que ajudasse a compreender as razões da aflição do príncipe. Curiosamente, ao sair do salão, a rainha despede-se praticamente com as mesmas palavras submissas de Ofélia, quando Polônio proibiu seu namoro com o príncipe: “Obedecerei” (I shall obey) (3.1). Ao sair, a rainha se mostra simpática com Ofélia, e diz esperar que “seus encantadores atrativos sejam a feliz causa do desequilíbrio de Hamlet” (your good beauties be the happy cause/ Of Hamlet’s wildness) (3.1).

Analogamente, a atitude do pai mostra que ele não confia em Ofélia, já que ele não deixa que a filha encontre o príncipe em particular. Além disso, após testemunhar a conversa dura entre ambos, Polônio sequer se interessa em saber a opinião da filha: “Você não precisa nos dizer nada do que Lorde Hamlet disse; ouvimos tudo” (You need not tell us, what lord Hamlet said;/ We heard it all) (3.1). Em outras palavras, Polônio trata a filha como se ela fosse incapaz de comentar o estranho comportamento do príncipe. O conselheiro parece esquecer que a própria Ofélia chamara sua atenção para o fato.

Na quarta e última cena do Terceiro Ato ocorre o encontro de Hamlet com a mãe e a trágica morte acidental de Polônio, que ouvia a conversa de ambos.

Na cena seguinte, a primeira do Quarto Ato, a rainha relata o acontecido ao rei, procurando com desvelos maternais atribuir tudo a um acesso do filho. Ela conta que, arrependido, “ele chora pelo que fez” (he weeps for what is done) (4.1), certamente uma mentira piedosa para abrandar a cólera real.

Nesta altura dos acontecimentos, a rainha já sabe de tudo o que se passou com seu falecido marido. Ela já assistiu à peça que incriminou o rei e, ao recriminar Hamlet pelo assassinato de Polônio, para ela “uma ação sanguinária e violenta” (a rash e bloody deed) (3.4), teve como resposta de Hamlet que a ação foi tão má “quanto matar o rei e casar com seu irmão” (As kill a king and marry with his brother) (3.4). A partir daí é natural que ela passe a se preocupar ainda mais com o filho, que procura vingar a morte do pai e enfrentar o rei. A rainha, com sua intuição feminina, já sabe que está entre poderosos adversários. Está casada com um e é a mãe do outro. Ela precisará de toda sua argúcia para aplacar os ânimos de ambos.

A rainha Gertrudes só volta a parecer na quinta cena do Quarto Ato, para testemunhar a loucura de Ofélia. Suas preocupações são param por aí. Ela chega a intervir por ocasião da chegada intempestiva de Laertes, acompanhado de um bando de revoltosos, desta vez em defesa do rei, seu marido.

Na cena do cemitério, a primeira do Quinto Ato, Gertrudes solidariza-se com Ofélia, espalhando flores sobre seu túmulo, e mais uma vez defende Hamlet, após a luta deste com Laertes.

Na última cena da peça, a rainha toma a taça envenenada que se destinava ao filho, talvez desconfiada da trama diabólica do rei, e precipita os acontecimentos ao denunciar que o vinho estava envenenado. Laertes, certamente arrependido, segue seu exemplo e restabelece a verdade: acusa a si próprio e denuncia o rei. Hamlet, ao tomar conhecimento da revelação terrível, não só fere o soberano com a espada, como também o obriga a beber do mesmo vinho que vitimara sua mãe. Uma mesma espada e uma taça de vinho tiram a vida de quatro personagens na cena.

Teria a rainha sido cúmplice da morte do marido? Nada na peça parece indicar isso. O fantasma do falecido marido não a recrimina. Ao contrário, seu pedido a Hamlet, no primeiro encontro entre ambos, é claro: “nada faça contra sua mãe: deixe-a aos cuidados do céu e dos espinhos que se alojam em seu peito” (Against thy mother aught: leave her to heaven,/ And to those thorns that in her bosom lodge) (1.5). Mais tarde, nos aposentos da rainha, o fantasma dirige-se novamente a Hamlet e pede a ele para “interceder entre ela e sua atormentada alma” (step between her and her fighting soul) (3.4). Esta não é a reação típica de um fantasma vingativo.