Laerte: Um Instrumento nas Mãos do Rei, Mário Amora Ramos

A primeira participação de Laerte, de uma única fala, ocorre na segunda cena do Primeiro Ato, ao pedir a autorização real para retornar à França. Ele volta na cena seguinte, a terceira do Primeiro Ato, numa longa fala na qual procura convencer a irmã Ofélia a precaver-se do assédio do príncipe Hamlet. Na mesma cena Polônio, pai de Laerte, despede-se do filho com conselhos paternais.

Laerte só volta a ser citado quando Polônio instrui o criado Reinaldo a buscar informações sobre ele entre os dinamarqueses residentes em Paris, na primeira cena do Segundo Ato. Esta cena pouco acrescenta ao limitado conhecimento que se tem de Laerte. Aliás, como acontece nesses casos, a cena diz mais sobre o caráter alcoviteiro de Polônio do que propriamente sobre Laerte.

Ele retorna, em armas e à frente de um grupo de revoltosos, na quinta cena do Quarto Ato. Desta vez, sua situação é semelhante à do príncipe Hamlet: ele também está disposto a vingar-se da morte de seu próprio pai. Na mesma cena, a presença de Ofélia enlouquecida contribui para reforçar seus propósitos de vingança.

Na sétima e última cena do Quarto Ato, o rei, muito astuto, trama com Laerte a morte de Hamlet, já de volta à Dinamarca. Sabe-se que o rei contou a Laerte as circunstâncias da morte de Polônio, mas seu relato não faz parte do texto da peça. O rei, naturalmente, deve ter dito cobras e lagartos do príncipe, a julgar pelo teor do despacho que Rosencrantz e Guildenstern levavam para a Inglaterra. Segundo Hamlet contou mais tarde a Horácio, a carta continha acusações tão graves que impunham sua decapitação imediata. Nesta mesma cena da trama entre o rei e Laerte, sabe-se da morte de Ofélia. O rei, sempre atento a tudo aquilo que possa ajudar seus propósitos, conta à rainha Gertrudes sua preocupação, preparando-a para algum eventual desfecho trágico. Diz o rei, referindo-se a Laerte, na última fala da cena:

“Sigamos, Gertrudes;
Como foi difícil acalmar seu furor!
Temo que isto [a morte de Ofélia] fará com que tudo comece novamente.
Portanto, sigamos.”

(Let’s follow, Gertrude;
How much I had to do to calm his rage!
Now fear I this will give it start again;
Therefore let’s follow) (4.7).

Laerte e Hamlet lutam no cemitério, na primeira cena do Quinto Ato, e, na cena seguinte do combate de esgrima, ambos morrem.

Pobre Laerte! No seu entusiasmo juvenil, ele julgava ter dobrado o rei com seu plano audacioso de invadir o palácio real. Mal sabia ele que estava sendo devidamente manipulado pelo monarca, que viu no impulsivo jovem um instrumento adequado para seus objetivos. Mesmo hoje, alguns séculos depois, jovens bem intencionados continuam sendo habilmente explorados para objetivos políticos os mais diversos, sob a capa de intenções mais nobres, pondo também em risco suas próprias vidas.