Introdução Às Alegres Comadres de Windsor

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            De acordo com uma antiga tradição do século dezoito, Shakespeare compôs As Alegres Comadres de Windsor por ordem da Rainha Elizabeth. John Dennis, um crítico e dramaturgo, afirma em 1702 que a Rainha “estava tão ansiosa para vê-la interpretada, que ela comandou que a peça ficasse pronta em catorze dias.” O editor Nicholas Rowe adicionou, em 1709, que a Rainha, de tão satisfeita com Falstaff nas peças sobre Henrique IV, desejava vê-lo apaixonado. Tais lendas, emergindo mais de um século após o evento, devem ser consideradas com cautela. Verdadeiras ou não, elas apontam para uma passagem de bajulação cortesã na peça que fortemente sugere a presença da corte em alguma performance. A benção das fadas, concedida ao Castelo de Windsor no Ato 5 tem a intenção inquestionável de celebrar a famosa Ordem de Garter. Madame Quickly, disfarçada como líder das fadas, ordena aos seus subordinados a cantar toda a noite “no compasso de Garter, numa ciranda,” a escrever “Honi soit qui mal y pense,” o mote da Garter, e cuidar com atenção das “várias cadeiras da ordem” – as fileiras decoradas na Capela de St. George, pertencente aos lordes ilustres membros da Ordem de Garter. Cada uma dessas “fileiras” recebe suas bênçãos, paralelamente com cada “casaco” “insígnia” e “brasão” (5.5.36-75). A natureza tópica dessa passagem é enfatizada por sua aparente falta de relevância para o enredo.

            Outros momentos estranhos de ação podem aludir às questões da corte ou a fofocas de Windsor. O negócio em torno dos supostos três ladrões de cavalos Alemães e o Duque (4.3,5), que faz pouco sentido na peça da forma em que se encontra, pode, talvez, ser explicado como uma piada interna sobre Frederick de Würtemburg, Conde Mömpelgard, um nobre Alemão que intencionava obsessivamente ingressar na Garter. Ele foi objeto de muita zombaria anti-Alemã. Seu nome, Mömpelgard ou Mömpelgart, é possivelmente trocado por “garmombles” no texto corrupto do quarto de 1602, onde no texto do Fólio lê-se “alemães enganados” [cozen germans] (4.5.74). Também, a geografia de Windsor é representada com atenção carinhosa e precisa aos detalhes, como se para uma plateia familiar com seus arredores.

            Tais floreios tópicos não furtam o drama de seu apelo geral; a peça obteve grande sucesso, tanto na versão para o palco quanto nas versões para ópera de Verdi e Nicolai, e foi presumivelmente popular entre as plateias da Londres de Shakespeare. Shakespeare nunca compôs exclusivamente para audiências especiais, até onde sabemos, e, de fato, a benção do Castelo de Windsor pode ter sido adicionada a uma peça comercial, para torná-la particularmente adequada para uma performance real. A alusão a “mulher gorda de Brentford,” uma notória cafetina de Brentford (na metade do caminho entre Londres e Windsor), pode ter sido tão significativo para a plateia da Londres de Shakespeare quanto para a corte. O mesmo pode ser verdadeiro em relação às “luzes” [luces] no brasão d’armas do Juiz Shallow (1.1.14), ocasionalmente pensado como que para ridicularizar o vizinho de Shakespeare em Stratford, Sir Thomas Lucy, mas, de acordo com o estudioso-crítico Leslie Hotson, uma observação mordaz sobre William Gardiner, um Juiz de Paz de Surrey, perto de Londres. A menção à família Brooke, aos lordes de Cobham, sob o nome disfarçado (Brook) do ciumento Ford (como registrado no quarto desautorizado de 1602), deve ter divertido os Londrinos versados; de fato, o ataque satírico era evidentemente tão ofensivo, que o nome teve que ser mudado para “Broome” (como no texto do Fólio). Entretanto, As Alegres Comadres pode ter sido originalmente planejada como um entretenimento para agradar a Rainha Elizabeth. Um banquete em homenagem a St. George, em honra da Garter, foi comemorado em Westminster, em 23 de Abril de 1597, na presença da Rainha. Entre os eleitos da Ordem estavam George Carey, Lorde Hunsdon, o patrão da companhia de Shakespeare e o novo Lorde Camareiro. Ele tomou posse na Ordem em Windsor em Maio. Essa data é precoce para uma peça que parece emprestar várias figuras cômicas das peças Henrique IV e, talvez, de Henrique V (usualmente datada de 1599) também. Recentemente, entretanto, tem-se argumentado persuasivamente que As Alegres Comadres pode ter sido escrita enquanto 2 Henrique IV estava em processo de composição, fazendo usos de seus tipos cômicos, mas antes deles terem aparecido de fato no palco de Londres. De acordo com essa teoria, Nym foi criado primeiro para As Alegres Comadres e foi, então, reintroduzido em Henrique V. A datação e a ordem de composição dessas peças são, ainda, controversas, e portanto, a datação de As Alegres Comadres deve permanecer incerta, de 1597 a 1601.

            Apesar dessa incerteza, a estratégia cômica de Shakespeare em As Alegres Comadres parece razoavelmente clara: traduzir figuras cômicas altamente populares, como Falstaff, Bardolfo, Pistola e Slender, das peças históricas para um tipo comicamente diferente de situação. Falstaff, o outrora engenhoso e autoconsciente companheiro do Príncipe Hal, torna-se o cortejador bufão de duas mulheres virtuosamente casadas que logram-no completamente e sujeitam-no a uma série de divertidas punições humilhantes. O Príncipe Hal também, é claro, trata Falstaff como um bode expiatório nas peças Henrique IV e finalmente rejeita-o, mas a natureza farsesca da ação em As Alegres Comadres expõe Falstaff a um riso mais satírico e frustração do que nas peças históricas. Alguns admiradores de Falstaff ficaram consternados pela deterioração e rejeitaram a peça como um insulto a sua grandeza, porém, certamente, ver a peça assim é o mesmo que criar falsas expectativas e, por isso, não compreender a importância da intenção cômica de Shakespeare. Falstaff e seus companheiros não devem ser julgados perante suas contrapartes nas peças históricas, mesmo que uma consciência da existência deles naquele contexto diferente seja uma parte essencial do humor. Ver Falstaff apaixonado, como um cortejador de mulheres muito mais novo que si mesmo – esse tour de force requer que Shakespeare planeje um enredo múltiplo tão diferente quanto possível das peças históricas, para enfatizar a discrepância cômica.

            O resultado é um enredo cômico estruturalmente complexo que apropriadamente comporta mais semelhança com as outras comédias de Shakespeare do que com as peças históricas. No centro das Alegres Comadres há um enredo familiar de intriga romântica, apresentando uma jovem heroína (Anne Page) a qual os pais reclamam a sua união com o jovem Fenton. Eles a embaraçam com cortejadores rivais incômodos (Slender e Dr. Caius), obrigando-a, finalmente, a enganar seus pais com uma fuga astutamente engendrada. Esse enredo de logro aos pais e rivais em nome do amor jovem tem sua ancestralidade na comédia clássica de Plauto e na comédia neoclássica, apesar de Shakespeare não usar nenhuma fonte reconhecível. A esse enredo ele adiciona uma segunda e paralela história de um amante (Falstaff) pego no ato de cortejar duas mulheres. A novelle Italiana provê muitas situações desse tipo, incluindo àquela a qual o marido é enganado ao ocultar-se o amante no cesto de roupas; veja, especificamente “De Dois Irmãos e Suas Esposas” de Rich em Seu Adeus à Profissão Militar, 1581, “Dois Amantes de Pisa”, de Tarlton em Novidades do Purgatório, 1590, e a segunda história do primeiro dia do Sr. Giovanni Fiorentino, Il Pecorone, 1558. O efeito dos enredos combinados é frequentemente farsesco, especialmente na ênfase na ação ligeira, hilária dos abusos físicos cômicos às custas da consistência do personagem. Por exemplo, devemos aceitar como dada a preferência do sábio Mestre Page por Slender como seu afilhado e a inexplicável preferência da Comadre Page pela adequação do Dr. Caius. As razões são declaradas, mas a simetria do design é mais importante.

            Ademais, Shakespeare enriquece essas situações de dois enredos com personagens menores, assim como cortejadores rivais, alcoviteiros e informantes, que inevitavelmente entrarão em conflito um com o outro e, assim, revelarão seus “humores” e idiossincrasias. Apenas tangencialmente conectados com o enredo, esses personagens são estimados pelas suas excentricidades. O Galês Parson Evans e o Francês Dr. Caius quase sobrepujam a corte de Caius a Anne Page. Eles são mantidos separados em segurança pelo genial Hospedeiro da Pousada Garter e são reconciliados apesar de tramarem contra o Hospedeiro por ter enganado a ambos. (Talvez eles executam a ameaça disfarçados de Alemães misteriosos que supostamente roubaram os cavalos do Hospedeiro, apesar do texto ser obscuro sobre esse ponto.) O Juiz Shallow, um personagem humorístico em 2 Henrique IV, confere justificação nominal, nessa peça, como primo do segundo pretendente indesejado de Anne, Slender, porém a função essencial de Shallow é a de discutir com Falstaff sobre o comportamento ilegal e descomedido deste. Esse enredo não chega a lugar algum e é, de fato, um pouco mais do que um meio para a revelação dos personagens humorísticos. Shallow é um papel coadjuvante, como muitos outros, permitindo-o assumir à postura néscia que também encontramos em 2 Henrique IV. Pistola e Nym, similarmente exigindo algum pretexto para estarem disponíveis, vingam à demissão do serviço a Falstaff, informando os dois maridos dos desígnios de Falstaff em relação as duas felizes esposas. Bardolfo encontra emprego adequado como barman. A transformação da Madame Quickly é, talvez, a mais gloriosamente improvável de todas: ela torna-se confidente de todos os três cortejadores de Anne Page (oferecendo encorajamento igual para cada um e recebendo pagamento de todos), assim como a alcoviteira entre Falstaff e as duas esposas. Ela não é mais uma casada e então viúva anfitriã de uma taverna de Londres, mas uma doméstica solteira em Windsor. Ela triunfa sobre Falstaff de uma forma que não é possível nas peças históricas, reunindo todo o elenco na zombaria ao desconcertado e chifrudo cavaleiro.

            Ao prover uma ocasião para a exibição das idiossincrasias do personagem por si só, lado a lado com sua ação farsesca ágil, Shakespeare parece responder ao mais novo gênero dramático do final dos anos 1590: a comédia de humores. O Mendigo Cego de Alexandria (1596), de George Chapman, fez muito para estabelecer a nova moda. Todo Homem em Seu Humor (1598), de Ben Jonson, também influenciou Shakespeare ou foi influenciado por ele, dependendo das datas. O enredo de Jonson, como o de Shakespeare, é principalmente um veículo para mostrar-se vários humores ou tipos comicamente obsessivos: o pai excessivamente cuidadoso, o marido ciumento, o soldado fanfarrão, a simplória intenção dos camponeses em aprender a discutir como os cavalheiros, os irascíveis homens impacientes. Tipos similares aparecem nas Alegres Comadres, apesar de Shakespeare, caracteristicamente, não satirizar a afetação tanto quanto estimá-la.

            Os tipos cômicos de Shakespeare são estimados por si próprios principalmente através de seus traços verbais: Nym com o seu uso da palavra “humor”; Pistola com seus termos anacrônicos, alusões recônditas, inversões poéticas forçadas e hipérboles (“Ó simplória criatura Húngara, vai virar manipulador de torneiras?”, 1.3.19-20); Madame Quickly, com suas metáforas rústicas sarcásticas (comparando uma barba com “faca de raspa de luveiro,” 1.4.19-20) e suas frases clichês (“Mas deixe isso passar,” linha 14); Shallow com seu jargão legal; e o Francês Caius e o Galês Evans com suas habilidades de “manter seus fígados inteiros e invadir nosso Inglês” (3.1.73). Shakespeare também caricatura esses tipos humorísticos por distintos traços físicos, assim como o nariz “caixa” de Bardolfo (1.3.23) a face desagradável e a pequena barba amarela que tão habilmente adequa-se a sua paixão pelo esporte de incitar ursos e sua submissão idiota a seus superiores. Nós rimos perante essas deformidades e vemos que nenhuma é incorrigível. Os personagens amigavelmente incitam diversão um ao outro, e toda frustração leva, finalmente, à reconciliação. Poucos escapam ao riso, mesmo aqueles que podemos considerar como personagens normativos se isso fosse uma sátira; o Hospedeiro, por exemplo, perde seus cavalos, e a Comadre Page é enganada no final pela fuga de sua filha.

          Entretanto, as alegres comadres do título da peça chegam tão perto quanto quaisquer outras da visão normativa da peça, funcionando como manipuladoras arguciosas numa trama para expor a hipocrisia e a depravação. Os estratagemas que elas inventam para Falstaff são como os esquemas de Maria para Malvólio em Noite de Reis, desde que tudo depende da cumplicidade da vítima auto-eclipsada. Falstaff é o personagem humorístico dominante da peça, obcecado pela lascívia e ganância, engraçado para nós porque a ganância é predominante. Suas razões hipócritas ao cortejo merecem represálias cômicas, ou “vingança”. Sua ganância e sua crença tola em seu próprio charme sobrepujam sua sagacidade natural e deixam-no vulnerável. Ele credulamente aceita os subornos do ciumento Ford, disfarçado de Brook, e é enganado pelas esposas em não menos de três ocasiões. Da parte delas, as esposas estão encantadas com seu “esporte”, pois elas precisam planejar esquemas cada vez mais inteligentes para equilibrar às crescentes suspeitas de Falstaff. Quanto mais improvável for o retorno dele para mais punição, maior deverá ser a ingenuidade delas para enganá-lo novamente. A Comadre Ford aprecia o prazer adicional de ensinar a seu marido uma lição sobre o ciúme. As tramas humorísticas das comadres extraem intensidade do potencial delas serem infiéis, se escolherem, e, assim, do poder que elas possuem sobre os homens como Ford e Falstaff, que são obcecados em fantasias insubstanciais de traições ou estão compulsivamente necessitados em validar suas masculinidades através da conquista da mulher. A inventividade do esporte das comadres é justificada pelo seu interesse moral, e, por outro lado, o ponto moral é desprovido de qualquer didatismo tedioso através do bom humor da pilhéria. Em sua humilhação final, condenado por praticamente todos os personagens da peça, reduzido a uma crença absurda em fadas, Falstaff torna-se um bode expiatório no sentido mais verdadeiro do termo: uma figura com chifres que encarna às faltas de uma sociedade inteira e cujo castigo traz purificação. Entretanto, como a Comadre Quickly observa, “ninguém é sem defeitos” (1.4.13-14), e essa rejeição cômica de Falstaff não leva a um banimento, mas a um banquete reconciliador na casa dos Pages. Sem ter a intenção, Falstaff curou o ciúme de Ford e ajudou a mostrar que “as Esposas podem ser felizes, e honestas também” (4.2.97).

          As Alegres Comadres é uma peça notável em termos de seu relacionamento com a comédia e a história, os dois gêneros mais evidentes da escrita dramática de Shakespeare dos anos 1590. O enredo romântico de amor triunfante, apesar de nominalmente no centro do enredo, é decididamente secundário em importância. O motivo mais dominante do bode expiatório e da renovação dá os papéis centrais às mulheres casadas, em vez dos jovens amantes da comédia romântica. A reivindicação de Falstaff pela argúcia e a vitalidade em 1 Henrique IV e 2 Henrique IV dá lugar aqui a ascendência da mulher doméstica; os princípios cômicos alteram-se para elas. Madame Quickly é traduzida, como Falstaff e seu bando, das peças históricas para a comédia, e compartilha desse reconhecimento da argúcia e virtude das mulheres; não mais uma mantenedora de hospedaria ou viúva aturando às promessas quebradas de Falstaff ou pacientemente fornecendo mulheres a ele, Quickly torna-se uma alcoviteira numa trama cômica de exposição da infidelidade masculina. As mulheres não estão mais na periferia do mundo dominado pelos homens, como nas peças históricas, mas em seu centro. Ao mesmo tempo, as mulheres dessa peça personificam às virtudes matrimoniais em sua maior parte, em vez do companheirismo juvenil (Pórcia, Beatriz, Rosalinda, Viola) das comédias românticas. A localização da peça numa parte da Inglaterra não tão longe de onde Shakespeare cresceu, a inclusão de nomes de lugares familiares da sua infância, o terno retrato do terror de um menino de escola ao lidar com os paradigmas do Latim, tudo sugere um tipo de tributo ao mundo no qual os negócios da própria família de Shakespeare permaneciam, enquanto ele buscava avanço profissional em Londres. A celebração brandamente satírica da vida burguesa, não encontrada em nenhum outro lugar com tal escopo em Shakespeare, nos dá um insight significativo ao autor que lucrou da limitada mas crescente mobilidade social de sua era.