Introdução à Terceira Parte de Rei Henrique VI

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            Henrique VI, Parte III, deve ser considerada não apenas como parte da primeira série de quatro peças históricas de Shakespeare, mas também como uma peça por si só, presumidamente vista pela primeira vez por uma plateia Elisabetana que, apesar de cônscia de um contexto mais amplo, testemunhou essa ação dramática como um evento independente. Porque 3 Henrique VI representa quase que a fase militar inteira da guerra civil, ela é a mais recheada e agitada peça da série. Historicamente, ela cobre o período das batalhas de Wakefield e a Segunda Santo Albano (1460-1461) até as decisivas vitórias Yorkistas em Barnet e Tewkesbury (1471). Essas e outras batalhas são de fato representadas no palco, como um tipo de comunicação simplificada que faz uso eficiente de um limitado número de atores. O método convencional de representar os conflitos armados consistia de gritos de guerra e incursões (isto é, ataques repentinos e investidas de soldados armados em resposta a um sinal de ataque), empregando quantos soldados a companhia teatral poderia reunir, com música marcial e várias entradas e saídas em sucessões rápidas. As batalhas são, geralmente, precedidas por presunçosas e floridas trocas retóricas, flytings [ritual de trocas de insultos poéticos], entre os combatentes. O contexto militar foca nas confrontações heroicas entre líderes individuais. A representação de batalhas frequentemente utiliza as capacidades físicas do teatro Elisabetano, como aparições “nos muros” de alguma cidade (isto é, na galeria superior), arquitetando operações, cercos e afins. Há abundância de mortes espetaculares em 3 Henrique VI, frequentemente representadas como rituais abomináveis. Rutland é arrastado de seu tutor pelo implacável Clifford, e Ricardo de York é zombado com uma coroa de papel da Rainha Margaret; Clifford morre com uma flecha em seu pescoço, e Warwick, o criador de reis, morre lamentando a vaidade de toda realização terrena; o Rei Henrique morre na Torre, um prisioneiro indefeso nas mãos de Ricardo de Gloucester. A peça é, talvez, confusa ao leitor, mas ela respira com energia violenta no palco.

            Simbólico do caos é a falta de um único personagem central. O título da edição in octavo de 1595 combina as mortes de Ricardo de York e do Rei Henrique como os episódios mais memoráveis da peça; e nesse foco dual nós vemos o motivo dominante da reciprocidade, uma morte Yorkista por uma Lancastriana. Esse padrão continuará até Ricardo III, pois 3 Henrique VI termina com um número agourento de projetos inacabados; Clarence, por exemplo, finalmente vê que ele deve morrer como compensação pela sua parte no massacre de Eduardo, o Príncipe Lancastriano de Gales. Assim como as mortes são balanceadas e contrastadas uma com a outra, a ação militar também oscila para trás e para frente. Em certos momentos, ambos o Rei Henrique VI e Eduardo IV estão emprisionados. A roda da fortuna eleva-se para um lado e depois para o outro. As alianças políticas alteram a balança de poder de uma forma e depois de outra. A ação é dolorosamente indecisa, a carnificina levando inutilmente a apenas mais violência. O espetáculo é tornado infinitamente mais agonizante pelo reconhecimento que tudo isso é um conflito de família. Os plebeus, consequentemente, sofrem: testemunhamos à angústia de um pai que matou seu filho acidentalmente em batalha e um filho que matou seu pai (2.5) na batalha de Towton, onde, historicamente, 24.000 pessoas morreram em um dia. O povo, raramente visto, não cria mais os problemas políticos (como o fazia anteriormente em 2 Henrique VI) mas é mera vítima, esperando pacientemente por um final. Um emblema recorrente para expressar a total futilidade dessa guerra é o de um montículo de terra [molehill]. York é coroado zombeteiramente antes de sua execução num monte de terra, e o Rei Henrique retira-se do caos de Towton para um monte de terra para meditar sobre a vida contemplativa feliz que lhe foi negada. O monte de terra sugere à irônica perversidade da busca humana por poder mundano, por meio do qual aqueles que possuem o poder são incapazes de exercê-lo com sabedoria e àqueles que queimam de ambição são negadas oportunidades legítimas.

            Um sinal claro do caos moral ao longo dessa peça é o fenômeno do quebrar de juramentos. Na cena de abertura, Ricardo de York aceita sob juramento uma obrigação de honra a Henrique VI como seu rei, em troca de ser nomeado rei depois da morte de Henrique, mas ele em breve discute com seu filho sobre as bases enganosas as quais o juramento não foi realizado ante “um verdadeiro e lícito magistrado” (1.2.23). Esse habilidoso equívoco, antecipado nas perfídias do Duque de Suffolk em 1 e 2 Henrique VI, nos prepara para as perfídias posteriores de Ricardo de Gloucester em Ricardo III. (Nas fontes de Shakespeare, especialmente Edward Hall, o Parlamento tem um importante papel em desenvolver o compromisso entre York e Henrique; Shakespeare mostra-nos, em vez disso, um acordo pessoal feito entre dois líderes competidores na base da vontade privada e na afirmação do poder militar – um acordo que é facilmente quebrável nas mesmas bases pragmáticas.) O Rei Henrique também é, surpreendentemente, perjuro ao impedir a seu próprio filho a coroa concedida a este como um direito de nascimento da sagrada lei e do costume. Lewis, o Rei Francês, justifica sua mudança de aliança, do Rei Henrique para os Yorkistas com base na simples conveniência. Clarence perjura suas promessas, feitas a seu irmão Eduardo, e muda de lado na guerra, ofendido com a perfídia de Eduardo, ao ter renunciado a sua intenção de casar-se com a meia-irmã do Rei Francês. Em breve Clarence estará de volta ao campo Yorkista, agora traindo às promessas que fez aos Lancastrianos. Warwick, o criador de reis, perjura suas promessas a Eduardo, porque este solapou à missão diplomática de Warwick em França. Onde, de fato, a verdade e a justiça residem, agora que a Inglaterra é governada por dois reis que são ambos perjuros? As pessoas comuns sentem esse dilema, como revelado nas atitudes dos dois jogadores; eles capturam Henrique, a quem foram, outrora, leais porque eles estão agora “juramentados com toda lealdade” a Eduardo, mas estariam novamente sujeitos a Henrique “Se ele estivesse sentado como o Rei Eduardo está” (3.1.70, 95). A realidade política e militar governa a ética política; o governante reconhecido é aquele que pode estabilizar o controle.

            Outro signo da decadência moral nessa peça é a dominância do propósito vingador. 3 Henrique VI, de fato, pode ser vista como um tipo de peça de vingança, na qual Ricardo de Gloucester finalmente emerge como o vingador consumado numa sociedade de vingadores. Na confrontação de abertura entre Yorkistas e Lancastrianos, Warwick insulta os Lancastrianos com o fato deles terem perdido muitos pais na ação militar recente de Santo Albano; os pais de Northumberland, Westmorland e Clifford, todos caíram naquela batalha. (Historicamente, Westmorland e Clifford parecem ser o mesmo homem, do mesmo pai, o Velho Clifford de 2 Henrique VI; Shakespeare nos dá mais filhos órfãos de pais nessa divisão de um homem em dois.) Os filhos, claro, juram vingança. Clifford, renomado “o açougueiro” por sua crueldade, demanda um preço terrível pela morte de seu pai, através do massacre do jovem e indefeso Rutland e a execução zombeteira do pai de Rutland, o Duque de York. Os filhos sobreviventes de York vingam-se, não apenas em Clifford, mas também no Rei Henrique, seu filho Eduardo e muitos outros. Warwick volta-se contra Eduardo de York, mais para vingar um insulto do que para ajudar Henrique, sendo derrubado pelos Yorkistas em Barnet (4.2). O padrão implacável de um olho por um olho eventualmente toma um significado providencial, especialmente quando visto da percepção tardia proporcionada por Ricardo III, mas, conforme experienciamos a peça no teatro, a realidade é, principalmente, de muita brutalidade e horror.

            Como nas peças anteriores da série, os relacionamentos entre homens e mulheres ecoam à discórdia da nação Inglesa e contribuem, consecutivamente, para mais discórdia. Margaret de Anjou, a defensora desapiedada da reivindicação de seu filho Eduardo ao trono, age com autoridade cada vez mais masculina, enquanto seu ineficaz marido Henrique VI abdica da responsabilidade. Ela é o general Lancastriano, habilidoso na batalha e frequentemente vitorioso, implacável na vingança. Essa inversão dos papéis masculinos e femininos é refletida no lado Yorkista pelo desastroso casamento de Eduardo IV com Lady Elizabeth Grey. Ela é uma viúva sem posição familiar ou poder político para trazer ao casamento – nada, de fato, exceto à ambição dela em nome de seus parentes. A atração de Eduardo por ela é carnal e imprudente. Para piorar ainda mais, Warwick negocia nesse momento um acordo de casamento altamente favorável para Eduardo com a meia-irmã do Rei da França. Eduardo IV, assim, inconscientemente imita à obstinação de seu correspondente, Henrique VI (cuja escolha de Margaret de Anjou em 1 Henrique VI não foi menos catastrófica). O desprezo de Eduardo VI em relação a Warwick leva à deserção deste poderoso líder e, através dele, a deserção do irmão de Eduardo, Clarence, que sucumbiu aos charmes da filha de Warwick, Isabel. E, ao passo que 1 Henrique VI ao menos contrabalança à devoção de Henrique com o exemplo positivo de Lorde Talbot, 3 Henrique VI falha em descobrir tal personagem central nobre. (Com efeito, somos brevemente introduzidos aos jovem Conde de Richmond, que será Henrique VII, mas somente como um relance de um futuro esperançoso.) A quase total falta de qualquer personagem efetivamente virtuoso dá a 3 Henrique VI seu humor predominantemente desiludido e impotente. Os heróis foram destruídos.

            Apenas Ricardo de Gloucester parece lucrar com o declínio da Inglaterra. Como seu pai, York, sua estratégia foi a de deixar a Inglaterra esfolar-se na vulnerabilidade anárquica. Uma vez que o pai York desaparece de cena, o jovem e malevolente personagem de Ricardo torna-se cada vez mais aparente. Não mais meramente um dos bravos filhos de York, Ricardo é o novo gênio da discórdia. Como o mais jovem dos três filhos que irá, eventualmente, suplantar seus irmãos mais velhos e os direitos de herança deles, Ricardo é o exemplo supremo da inversão num mundo virado de ponta-cabeça. Seu brilhante solilóquio em 3.2 é, frequentemente, incluído nas performances de Ricardo III, porque fornece ricas pistas sobre seu personagem emergente: ele é ambicioso, cruel, deformado de nascença, e, sobretudo, um enganador consumado. À plateia ele gaba-se de sua habilidade, reivindicando que, como um hipócrita, ele irá exceder os talentos combinados de Nestor, Ulisses, Sinon, Proteu e Maquiavel. A autoconfiança soberba é impressionante, a cruel consistência admirável, apesar de desprezível. Num segundo solilóquio, praticamente no final da peça, tendo já executado Henrique VI e seu filho Eduardo, Ricardo confidencia à plateia que Clarence será a próxima vítima. E, apesar de Ricardo jurar fidelidade ao seu jovem sobrinho, Eduardo, o príncipe da coroa Yorkista, na celebração da vitória Yorkista na qual a peça termina, nós sabemos que o beijo de paz de Ricardo é tão confiável quanto o beijo de Judas em Cristo (veja 5.7.33-4). Todos aqueles que ficarem entre Ricardo e o trono serão eliminados. Claramente, os anseios devotos para a paz expressados pelo Rei Eduardo IV serão cruelmente violados.