Introdução À Segunda Parte de Rei Henrique IV

Print Friendly, PDF & Email

            Shakespeare escreveu 2 Henrique IV logo após 1 Henrique IV, talvez em 1597, em parte, sem dúvida, para capitalizar sobre o enorme sucesso teatral de Falstaff e em parte para finalizar a história da rejeição de Falstaff. Ao escrever 2 Henrique IV, Shakespeare utiliza materiais similares aqueles utilizados em 1 Henrique IV, notavelmente as Crônicas (1587) de Raphael Holinshed e a peça anônima As Famosas Vitórias de Henrique V (1583-1588). Ademais, ele projetou escrever uma peça que estruturalmente é bem parecida com sua predecessora, revelando mais similaridades entre essas peças do que alguém poderia encontrar em qualquer outro lugar em Shakespeare. Mesmo as três peças Henrique VI não reiteram padrões estruturais ao mesmo nível. Shakespeare está repetindo-se, reescrevendo uma peça anterior, e, se sim, por quê? 2 Henrique IV é essencialmente uma forma de dar às plateias mais do que elas encontraram de tão interessante na peça anterior, ou ela é uma forma de refletir sobre as novas e problemáticas questões apenas parcialmente levantadas em 1 Henrique IV? As similaridades são, de fato, marcantes, apesar de, como veremos, a principal função delas pode ser a de ressaltar os importantes contrastes que surgem através da consideração das aparentes semelhanças.

            O padrão estrutural funciona assim. Em ambas as peças, Shakespeare alterna entre cenas de seriedade política e cenas de irresponsabilidade cômica, justapondo uma rebelião no reino com uma rebelião na própria família do Rei. Em 1 Henrique IV, nos movemos de um concelho de guerra (1.1) para um planejamento de um roubo na Colina de Gad (1.2). As cenas comentam umas às outras pela sua proximidade e pela preocupação mútua com a ilegitimidade. Similarmente, em 2 Henrique IV, somos introduzidos, em primeiro lugar, a uma rebelião política no norte da Inglaterra, depois da qual encontramos com Falstaff e o escudeiro do Príncipe Hal. Em ambas as peças, 2.2 mostra-nos Hal com Poins, planejando um encontro futuro para constranger Falstaff através de uma trama, e em ambas as peças, 2.4 é uma longa cena situada na taverna, envolvendo Hal e Falstaff numa competição de argúcias arranjada para expor Falstaff como um criativo mentiroso. As festividades de ambas as cenas são terminadas por um bater na porta. (As divisões atos-cenas podem não ser de Shakespeare, pois elas não aparecem nos quartos anteriores de nenhuma das peças; entretanto, a localização estrutural dessas cenas é similar.) Entre essas cenas conectadas de ação cômica, voltamo-nos em ambas as peças para o campo rebelde dos Percys, para uma discussão de planejamento militar contra o Rei Henrique (2.3). Em ambas as peças, Falstaff parte supostamente para lutar contra os rebeldes, mas, em vez disso, consegue abusar de sua autoridade como oficial recrutador e acumular honras imerecidas, seja ao ferir o morto Hotspur na perna ou ao capturar Caleville de Dale com a ajuda de uma arrogante reputação. As cenas de batalha são pontuadas pelos irônicos solilóquios de Falstaff; sua disputa por vinho em 2 Henrique IV (4.3.88-123) serve a uma função como àquela de seu mais conhecido catecismo sobre a honra em 1 Henrique IV (5.1.129-40). Ambas as peças introduzem um confronto entre Hal e seu pai: o filho tem remorso por sua desobediência, o pai discursa sobre a arte do governo, e o filho pródigo é recuperado na graça régia. O Príncipe Hal procede, depois disso, para ganhar a honra pública e para provar-se o verdadeiro filho de seu pai. Mesmo a rejeição de Falstaff, com a qual a segunda peça termina, encontra sua contraparte em 1 Henrique IV, na impaciência de Hal com Falstaff durante a batalha de Shrewsbury, sua elegia sobre o aparente corpo de seu companheiro de outrora e sua resolução em ser, a partir daquele momento, um príncipe.

          Essas semelhanças, e ainda outras, são ainda mais enfatizadas quando percebemos que Shakespeare continua a utilizar, em sua segunda peça, o dispositivo estrutural dos contrastes, ou personagens pareados, em torno de Hal, que ajudam a definir modelos alternativos de conduta. O pai é, como antes, uma impressionante figura de autoridade – cuja firmeza Hal nunca adota totalmente e ainda com um papel público de rei que Hal deve herdar. Falstaff, como antes, oferece a si mesmo como companheiro de farra, desperdício e joie de vivre, e deve ser rejeitado, mesmo que muito do que ele diga ofereça discernimento em relação à frieza do Rei Henrique e, especialmente, em relação ao obediente irmão de Hal, o Príncipe John. Ainda que o principal propósito dessas recapitulações seja a de sugerir profundas diferenças. 2 Henrique IV simplesmente não examina o material familiar. Mesmo as semelhanças notadas até agora encarnam mudanças significantes; a cena de abertura da primeira peça dá-se na corte, na segunda no interior; a segunda cena da primeira peça arranja o logro a ser aplicado em Falstaff, ao passo que na segunda peça esse evento ocorre em 2.2; essa mesma segunda cena da primeira peça consiste, principalmente, numa batalha de argúcias entre Hal e Falstaff, enquanto que na segunda peça Falstaff tem que enfrentar o penetrante questionamento do Lorde Chefe da Justiça; e assim por diante. Repetidamente, as similaridades das situações revelam o quanto Hal deve ainda aprender, o quanto Falstaff mudou e quão mais complicado o processo político é do que parecia à primeira vista. Os relacionamentos contrastantes nessa peça focam menos na honra, em contrapartida de 1 Henrique IV, do que em duas questões relacionadas: o rumor ou reputação, e a justiça.

          O rumor inicia a peça – literalmente, pois o Rumor é apresentado a nós de forma alegorizada, como retratado por Virgílio, com vestes onde se veem pintadas muitas línguas, espalhando informação falsa sobre a batalha de Shrewsbury que terminou há pouco. O Rumor tem um deleite particular no mais cruel logro de todos – levantar falsas esperanças e então destruí-las. Na cena seguinte, na propriedade dos Percy, vemos o Rumor como ele se manifesta no mundo real dos homens, encantando Northumberland com as “novidades” dos triunfos de seu filho Hotspur, apenas para desapontá-lo subsequentemente com a dura verdade da derrota e da morte. Qual é a função da atípica alegoria no início dessa peça? Ela serve primeiramente para estabelecer um novo tom desalentador. Os rebeldes estão desordenados e a causa deles está em risco. Hotspur está morto, e com ele morreu a brilhante honra de sua causa. Seus parentes, sempre mais maquiavélicos que ele, estão agora mais cautelosos do que nunca. Northumberland está persuadido, numa cena posterior, a mentir para seus aliados e a retirar-se para a Escócia, quando eles precisam de seu suporte, esperando juntar-se a causa deles apenas quando puder ter certeza do sucesso. A atmosfera de realpolitik e de lidar com falsas aparências é consequência de um mundo governado pelo rumor. A causa dos rebeldes não é nunca tão atraente nessa peça quanto em 1 Henrique IV; o idealismo e o espírito de cavaleiro de Hotspur estão profundamente perdidos.

          O rumor tem profundas consequências para o lado do Rei também, tanto quanto para Falstaff e o Príncipe Hal. Falstaff depende da falsa reputação ao longo das primeiras cenas de 2 Henrique IV. Ele escapa da detenção nas mãos do Lorde Chefe de Justiça por causa de seus supostos feitos em Shrewsbury, que sabemos ilusórios. Seu serviço diário em Shrewsbury “dourou um pouco” a sua “exploração noturna na Colina Gad,” que o Lorde Chefe de Justiça relutantemente concede (1.2.147-8). Sua reputação torna possível a captura de Coleville de Dale na Floresta Gaultree, mesmo que, nesse momento, a reputação de Falstaff esteja claramente começando a diminuir gradativamente.

          Por outro lado, Hal descobre que sua reputação de extravagante não irá deixá-lo. Apesar de perder contato com Falstaff, sem nem mesmo saber do paradeiro do velho, até concordar em revisitar esse companheiro de outrora na taverna, para relembrar os bons tempos, Hal compreende que todos assumem o pior de si. Todos esperam que seu futuro reinado seja um de contínua insurgência. Ele própria caracteriza sua visita à taverna, para ver Falstaff novamente, como uma ultrajante “transformação” como àquelas representações Ovidianas de Júpiter em humildes disfarces humanos. Falando com Poins em 2.2.1-44, Hal professa estar “excessivamente desgastado” com a “desgraça” contida em si, em relembrar todos os seus companheiros vis, incluindo Poins, e cinicamente congratula seu companheiro ao pensar, como todo mundo, quando Points assume que qualquer choro da parte de Hal pela morte de seu pai não seria mais do que hipocrisia principesca. “Deixe o fim testar o homem,” diz Hal, no que deve ser uma óbvia alerta de sua reforma, mas ninguém acredita nele com sinceridade. Quando seu pai cai em seu leito de morte, rodeado pelos seus quietos cortesãos, Hal, até agora notavelmente ausente da corte, entra com exagerada displicência, como que evitando mostrar o luto que ele sabe não poder ser acreditado. Seu tomar da coroa do travesseiro de seu pai aparentemente morto golpeia o Rei Henrique e seus cortesãos como uma confirmação última do desejo de Hal em suplantar seu pai, e de fato nós, também, somos forçados a espantar-nos perante a imprudência de Hal. (As insinuações parricidas em uma das fontes de Shakespeare, As Famosas Vitórias de Henrique V, são muito mais abertas do que aquelas da peça de Shakespeare.)

          A recapitulação estrutural de 2 Henrique IV, então, na qual Hal primeiramente troça com Falstaff na taverna e depois confronta seu pai na corte, não são meras repetições; elas enfatizam o deprimente fato que uma reputação de conduta desordeira persiste, que a aceitação de um pai de seu filho expirou em renovada desconfiança, e que a “reforma” não é o processo simples que Hal uma vez supôs. A reforma é, em primeiro lugar, uma questão de melhoria da conduta de alguém, mas também uma matéria de melhorar sua imagem. Hal está ciente da necessidade de cuidar da imagem, mesmo tão precocemente quanto seu famoso solilóquio “Eu conheço vocês todos” (1.2.189-211) em 1 Henrique IV, mas ele subestimou grosseiramente a dificuldade de superar uma reputação repulsiva. Isso não é uma revelação feliz para um jovem que é impaciente perante cerimônias e demonstrações públicas, mas é a maneira do mundo e uma parte integral de qualquer reinado bem-sucedido. O último conselho do Rei Henrique para Hal, de fato, uma vez que eles novamente reconciliaram-se, concerne às manipulações das aparências em nome da governança; o pai encoraja o filho a resolver os conflitos civis ao ir à guerra contra algum inimigo estrangeiro. Ele deve “ocupar as frívolas mentes / Com conflitos estrangeiros” (4.5.212-13). Hal irá adotar esse estratagema em Henrique V ao fazer guerra contra a França. Entrementes, em 2 Henrique IV, ele deve superar sua reputação, não somente com seu pai, mas também com o Lorde Chefe de Justiça, os nobres da corte, e seus irmãos. Até o fim da peça eles não creem em outra coisa para além do fato que aquele Hal dará rédeas soltas ao tumulto em seu reino. A natureza intransigente do falso “rumor” ou reputação faz muito para explicar porquê o novo Rei deve rejeitar Falstaff de maneira pública e bruscamente. Ele já rejeitou Falstaff, de fato, no sentido de deixá-lo, mas ninguém aceitou – muito menos Falstaff, que agora pressiona o novo Rei com esperanças de recompensas e licenças para agir conforme lhe agradar. “As leis da Inglaterra estão sob meu comando,” ele exulta (5.3.138-9). Somente um repúdio público pode alcançar as demandas da monarquia ao fazer total uso do valor simbólico do ato. Hal deve rejeitar Falstaff, não somente em seu coração, mas também às vistas da nação. É um ato repugnante, talvez tanto para ele quanto para nós, mas é necessário por causa das exigências políticas do momento.

          A preocupação da peça com a justiça emerge no primeiro confronto entre o Lorde Chefe de Justiça e Falstaff (1.2.54-226). Um representa a lei; o outro, a licença. Quem irá representar e administrar a lei durante o reinado de Henrique V? O Lorde Chefe de Justiça é uma figura firme e austera, um deputado ou substituto do rei-pai – alguém que presumiu emprisionar Hal por resistir a sua autoridade. Esse Lorde Chefe de Justiça não espera permanecer no cargo uma vez que o novo Rei for coroado; como outros personagens sérios na peça ele anseia por reconforto nos tempos agitados de guerra civil e de mudança da administração sob uma monarquia. Em contraste com essa um tanto quanto impressionante figura paterna, Falstaff oferece hedonismo e irresponsabilidade. Sua argúcia não é, particularmente, menos engajada do que em 1 Henrique IV. Suas cenas com Shallow e Silence, conforme eles escolhem soldados para a iminente campanha ou preparam para os tempos áureos que antecipam, são tão engraçadas como as melhores de Falstaff. O parear do Lorde Chefe de Justiça e Falstaff como antagonistas pode sugerir, à primeira vista, que há carência em um onde o outro é forte e que Hal deve conduzir entre extremos.

          Entretanto essa peça não nos dá um debate genuíno sobre a justiça, como aquele sobre a honra em 1 Henrique IV, no qual os comentários de Falstaff sobre a honra são completamente entendíveis por causa do fanatismo de Hotspur. O Lorde Chefe de Justiça dessa peça está essencialmente correto, apesar de austero, e Falstaff está essencialmente em erro, apesar de engraçado. O Lorde Chefe de Justiça vê através de Falstaff e pacientemente espera pelo seu momento. Os excessos de Falstaff são mais pronunciados do que na peça anterior. Nós o vemos com Doll Tearsheet, uma prostituta, numa conversa sentimental e embriagada. Ele é associado com imagens de doenças – gota, varíola ou sífilis, gulodice, fraqueza – e bulimia. Suas mentiras não são tão consistentes como antes. Hal relembra a mentira brilhante sobre o assalto na Colina Gad e credita Falstaff (talvez ironicamente) em ter visto através do truque do Príncipe naquela ocasião (2.4.305-7), mas, na segunda cena na taverna, Falstaff pode somente gaguejar sem criatividade que ele não tinha ideia que Hal estava atrás dele disfarçado, ouvindo suas acusações desbocadas. O tumulto de Falstaff com Pistol perturba a paz, e nessas brigas homicídios ocorrem, que necessitam de prisões e punições (5.4). Quando Falstaff aparece com o pequeno pajem, como em 1.2, somos poderosamente lembrados da grandeza de seu corpo, mesmo se ele, também, sorri disso. O seu roubo da Senhora Quickly e sua quebra de promessa de casar-se com ela, apesar de insinuados na peça anterior, são muito mais abertos aqui; o humor é afiado, mas nós não podemos nos esquecer que Falstaff está vitimando uma mulher inocente. Ações judiciais e prisões são mais proeminentes nessa peça do que em sua predecessora. O abuso de autoridade de Falstaff ao recrutar os soldados, o qual discursa com argúcia na peça anterior, é aqui mostrado totalmente, tanto em sua hilaridade quanto em suas consequências ilegais.

          Os novos companheiros de Falstaff, Pistol, Doll e então o Juiz Shallow e o Juiz Silence, aguçam nossa percepção da flagrante ilegalidade crescente de Falstaff. Shallow e Silence são, pelas suas próprias profissões, contrapartes ao Lorde Chefe de Justiça. Em seus complacentes interesses na própria prosperidade (“Qual é o preço de uma junta de bois na feira de Stamford?” 3.2.39), na licenciosidade deles em relação à venda de influência de seus subordinados (5.1.37-52), e nas aspirações astutas de Shallow de enganar Falstaff antes de Falstaff enganá-lo, esses pilares da respeitabilidade rural revelam quão longe a injustiça permeou o interior da Inglaterra. Eles são companheiros oportunos a Falstaff quando este ouve a novidade de sua rejeição e são adequadamente vitimados pela inabilidade de Falstaff de pagar um empréstimo que o Juiz Shallow lhe fez por motivos de auto-interesse. Esses homens velhos, relembrando com miopia os felizes dias de suas juventudes, acentuam à fragilidade física de Falstaff e o envelhecimento. Falstaff zomba das histórias das fugas deles, mas ele, também, como confessa a Doll ao tomar seu drinque, está velho. O curso necessário da justiça torna-se claro pelas configurações estruturais da peça. Falstaff e seu companheiros procuram à ilegalidade e devem ser repreendidos; o Lorde Chefe de Justiça, que teme a rejeição, deve, em vez disso, ser abraçado por Hal explicitamente como uma figura paterna (“Você deve ser como um pai para minha juventude,” 5.2.118) para reafirmar à decência pública. O Lorde Chefe de Justiça deve assumir “a balança e a espada” (linha 103) como emblemas da justiça e seu inflexível papel em manter a ordem; Falstaff é rejeitado como “O tutor e o alimentador dos meus tumultos” (5.5.62). Essas necessidades são claras, mesmo se elas não respondem à questão emocionalmente complicada da afeição de Hal (e nossa) pelo seu companheiro de juventude.

          O irmão de Hal, Príncipe John de Lancaster, é outro oposto de Falstaff. Aqui o contraste é menos prejudicial a Falstaff. O Príncipe John assume o controle das guerras de seu pai doente e engendra uma rendição dos rebeldes na Floresta Gaultree que é um triunfo do equívoco e da deslealdade. Também salva a nação de mais conflitos civis, ao menos temporariamente, e estabelece a paz que Hal herda e transforma em sua vantagem contra a França. Parece difícil manter a realpolitik que caracterizou a conduta de ambos os lados até então e pode, assim, ser considerada uma conclusão adequada. A consternada “revolução dos tempos” (3.1.46) traz com ela o esfriamento das amizades e o relembrar das ousadas profecias dos dias de Ricardo II. A única justificação possível para o que John faz é que ele é bem-sucedido. Certamente falta a glória e a honra que acompanha o conflito de Hal e Hotspur em 1 Henrique IV. Não coincidentemente, Hal está longe da Floresta Gaultree quando essa sombria rendição acontece. O Príncipe John é um mestre em saber como “interpretar os tempos de acordo com suas necessidades” (4.1.104). Seus atos dificilmente representam à justiça e à honra. “Esse procedimento é justo e honrável?” perguntam os rebeldes traídos, e então recebem como resposta, meramente “Sua assembleia o é?” (4.2.110-11). Os fins justificam os meios. As observações de Falstaff às custas do Príncipe John fazem sentido. John é, como Falstaff o caracteriza, “sangue-sóbrio”; ele não bebe vinho e não conta com o valor, mas com a sagacidade. Falstaff espera que Hal prove-se mais corajoso, temperando “o frio sangue que herdou naturalmente de seu pai” (4.3.87-117) com a absorção do xerez e outros prazeres aprendidos de Falstaff. Sejam quais forem os méritos da bebida como um incentivo à coragem, nós percebemos que o Príncipe John é totalmente filho de seu pai e que Hal irá evitar essa frieza extrema em sua busca por uma identidade régia que é símbolo e substância.

          Hal aprendeu, assim, algo de Falstaff, mesmo que somente uma cautela contra os extremos, e parcialmente por essa razão sua rejeição a Falstaff deve vir como um choque, não importando quão inevitável ela seja. Hal pode parecer diminuído no processo, pois ele abriu mão de muito do seu ego privado para adotar um papel público imposto a ele. Em performance, essa diminuição pode tornar-se mais do que o prêmio da maturidade pode valer: o filme de Orson Welles chamado Chimes at Midnight (1965-1966) memoravelmente foca no próprio papel de Welles como Falstaff nas duas peças Henrique IV, e, na segunda peça em particular, como a vítima de uma série de despedidas as quais as tocantes declarações de Falstaff por afeição merecem mais do que uma cruel rejeição. Essa felicidade e argúcia de Falstaff nunca ocultam totalmente o olhar de dor nos olhos de um homem gordo que teme ser abandonado. Uma simultânea ofuscação do personagem de Hal é um dispositivo comum de outras produções recentes. Michael Pennington, numa produção em trajes modernos dirigida por Michael Bogadnov para a nova companhia Shakespeare Inglesa em 1986-1987, interpretou Hal como astuto e autoconfiante em seu ostentoso desprezo a Falstaff na cena final da peça, como que para enfatizar a visão do novo rei de Falstaff como irrelevante para o mundo político sobre o qual Hal deve agora governar. Uma produção em Stratford-upon-Avon, em 1964, sob a direção conjunta de John Barton, Peter Hall e Clifford Williams fez uma leitura iconoclasta e distintamente não patriótica do contraste entre um calculista e maquiavélico Príncipe John e um Falstaff inteiramente devasso (Hugh Griffith), e Hal como um astucioso político trilhando um caminho bem-sucedido num mundo de realpolitik.

          Talvez, então, o Príncipe Hal aceite sem relutância o papel público imposto a ele nessa peça, mas, ao mesmo tempo, está consciente que assim o faz com certo custo para si mesmo – e para Falstaff. Seus termos na rejeição não são inteiramente não generosos – ele permite a possibilidade de Falstaff retornar à corte se este reformar-se, e faz uma concessão financeira para que Falstaff não necessite continuar no crime – mas a finalidade da ação permanece chocante. Somos deixados com um Falstaff quebrado, a caminho da prisão da Marinha por ordem do Lorde Chefe de Justiça, tentando enganá-lo a acreditar que tudo ficará bem. Hal e a Inglaterra tomaram uma nova direção; uma guerra contra a França já está claramente em vista, que irá absorver às energias do novo Rei e dos antigos inimigos políticos de seu pai também. Para o melhor e para o pior, a emergência de Hal ao seu papel público está completa.