Horácio: Um Amigo em Quem Confiar, Mário Amora Ramos

No início da peça, Horácio relutantemente acompanha Marcelo e Bernardo para testemunhar a misteriosa aparição do fantasma do falecido rei Hamlet. Na cena seguinte, é ele quem dá a Hamlet a notícia da aparição, junto com Marcelo e Bernardo.

Horácio retorna na quarta cena do Primeiro Ato, juntamente com Hamlet e Marcelo, e testemunha o encontro do príncipe com o espectro de seu pai.

Na cena seguinte, o príncipe, referindo-se ao fantasma, diz ao amigo: “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar tua filosofia” (There are more things in heaven and earth, Horatio,/ Then are dreamt of in your philosophy) (1.5).

O prestativo Horácio só volta a aparecer na peça na segunda cena do Terceiro Ato. Hamlet é generoso com seu amigo e dirige-lhe estas belas palavras: “Mostre-me um homem que não seja escravo da paixão e eu o colocarei no centro de meu coração, como o faço com você” (Give me that man/ That is not passion’s slave, and I will wear him/ In my heart’s core, ay, in my heart of heart,/ As I do thee) (3.2). Logo em seguida o príncipe pede a ajuda do amigo para observar a reação do rei ao longo da peça encenada pelos atores visitantes. Horácio é a única pessoa a quem Hamlet conta o terrível segredo revelado pelo fantasma de seu pai: “uma das cenas se parece com a circunstância que lhe contei da morte de meu pai” (One scene of it comes near the circumstance/ Which I have told thee of my father’s death) (3.2). Ele confia ao amigo um segredo que pode custar sua própria vida. Depois da peça que finalmente desmascara o rei, é com Horácio que Hamlet comemora o sucesso do artifício bem-sucedido.

Horácio retorna para uma curta fala na quinta cena do Quarto Ato, na qual aconselha a rainha a receber a transtornada Ofélia em audiência: “Seria bom falar com ela, pois ela poderia espalhar conjecturas perigosas em mentes mal-intencionadas” (’Twere good she were spoken with; for she may strew/ Dangerous conjectures in ill-breeding minds) (4.5). Na saída de Ofélia, o rei pede ao discreto Horácio que a siga e a vigie de perto. Aparentemente não foi uma tarefa fácil, pois Ofélia burlou a vigilância de Horácio e retornou, numa hora imprópria, na qual o rei procurava apaziguar Laertes.

Na cena seguinte, Horácio recebe uma carta de Hamlet, na qual o príncipe pede que ele vá ao seu encontro e conta que Rosencrantz e Guildenstern “continuam a caminho da Inglaterra” (hold their course for England) (4.6).

Horácio acompanha Hamlet nas duas cenas do Quinto Ato. A primeira delas é a conhecida cena do cemitério, que termina num forte desentendimento entre o príncipe e Laertes. O rei pede novamente a ajuda de Horácio, desta vez para acompanhar Hamlet: “Eu lhe peço, bom Horácio, acompanhe-o” (I pray thee, good Horatio, wait upon him) (5.1).

Na segunda e última cena da peça, já ferido de morte, Hamlet incumbe Horácio de uma importante missão: “Oh bom Horácio, que nome desonrado deixarei,/ Se as coisas ficarem assim desconhecidas!/ Se você me quer bem,/ Abstenha-se da felicidade (da morte) por enquanto,/ E preserve seu fôlego neste mundo de dor,/ Para contar minha história” (O good Horatio, what a wounded name,/ Things standing thus unknown, shall live behind me!/ If thou didst ever hold me in thy heart,/ Absent thee from felicity awhile,/ And in this harsh world draw thy breath in pain,/ To tell my story) (5.2).

Horácio sabe como comportar-se num ambiente hostil e opressivo como é o palácio de Elsinore. O rei tenta seduzir a todos em seu serviço, mas aparentemente respeita Horácio, a quem nada pede de desonroso. Horácio sabe guardar segredos, não dá ouvidos a intrigas e está sempre disponível para ajudar o príncipe, seu amigo, sem buscar nisso nenhum proveito pessoal.

Hamlet fez bem em escolher Horácio para seu porta-voz. O resumo da tragédia que este faz para Fortimbrás e o embaixador dá uma boa idéia de sua capacidade de síntese:

“Deixem-me contar ao mundo, que de nada sabe ainda,/ Como estas coisas aconteceram: os senhores ouvirão/ De atos carnais, sangrentos e contra a natureza;/ Julgamentos precipitados, mortes fortuitas;/ Mortes por astúcia e por violência;/ E como resultado, propósitos frustrados/ Recaem sobre seus autores: tudo isso posso/ Fielmente relatar” (And let me speak to the yet unknowing world/ How these things came about: so shall you hear/ Of carnal, bloody, and unnatural acts;/ Of accidental judgements, casual slaughters;/ Of deaths put on by cunning and forc’d cause;/ And in this upshot, purposes mistook/ Fall’n on the inventors’ heads: all this can I/ Truly deliver) (5.2).