Hamlet: O Príncipe Cético, Mário Amora Ramos

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O mundo passou por grandes transformações nos dois ou três séculos que precederam Shakespeare. A Renascença iniciou-se na Itália e floresceu em toda a Europa entre os séculos XIV e XVI, com notáveis desenvolvimentos na arte, na literatura e no conhecimento técnico, particularmente na matemática, medicina e astronomia. A Reforma, iniciada em 1517 por Martinho Lutero, na Alemanha, estendeu-se à Inglaterra de Henrique VIII (1491-1547), que fundou a Igreja Anglicana, dividindo o Cristianismo em vários credos. Não por acaso, “Henrique VIII” é uma das peças de Shakespeare mais conhecidas.

Shakespeare nasceu no mesmo ano que Galileu Galilei (1564-1642), astrônomo, físico e escritor italiano, considerado o fundador da ciência experimental moderna. Nesta época de grande efervescência cultural, não é de admirar o ceticismo com o qual Horácio e Hamlet receberam o fantasma. Para compreender este processo, o livro “A Ficção Cética”, de Gustavo Bernardo (1), é uma leitura especialmente recomendada. O dilema do “ser ou não ser” está presente logo no primeiro parágrafo do livro.

Horácio é o cético por excelência da peça. Numa de suas primeiras falas, com um misto de impaciência e incredulidade, Horácio duvida da vinda do fantasma: “Ora, ora, ele não vai aparecer” (Tush, tush, ’twill not appear) (1.1). Enquanto esperam o fantasma, Bernardo lhe diz: “sente-se um pouco e deixe-nos assaltar seus ouvidos, que tanto resistem às nossas histórias, com o que vimos nessas duas noites” (Sit down awhile,/ And let us once again assail your ears,/ That are so fortified against our stories,/ What we two nights have seen). A primeira aparição do fantasma, no entanto, contribui para dissipar seu ceticismo, deixando o amigo do príncipe justificadamente pálido e trêmulo. Horácio se vê forçado a reconhecer: “por Deus, eu não acreditaria nisto sem o testemunho sensível e verdadeiro de meus próprios olhos” (Before my God, I might not this believe/ Without the sensible and true avouch/ Of mine own eyes) (1.1).

Quando o fantasma retorna, Horácio, com a curiosidade própria dos céticos, pergunta: “se guardou em vida,/ nas entranhas da terra, algum tesouro extorquido,/ razão pela qual, dizem, vocês espíritos vagam após a morte” (Or if thou hast uphoarded in thy life/ Extorted treasure in the womb of earth,/ For which, they say, you spirits oft walk in death) (1.1).

Na cena seguinte, Horácio, Marcelo e Bernardo, testemunhas oculares da aparição do fantasma, levam o assunto ao conhecimento do príncipe. Como era de se esperar, ele recebe a notícia com ceticismo e criva os amigos de perguntas. Hamlet, aparentemente satisfeito com as respostas, promete que, entre onze e meia-noite, ficará de guarda com eles. Pede segredo a todos, não só da visão, acrescentando: “e qualquer coisa que ocorra à noite devemos procurar compreendê-la mas nunca mencioná-la” (And whatsoever else shall hap to-night,/ Give it an understanding but no tongue) (1.2).

O pedido de segredo tem sua razão de ser. O príncipe é cético e também cauteloso. Ele tem motivos para isso, como se depreende do segundo de seus solilóquios: “Em armas, o espírito de meu pai! Algo está errado;/ Suspeito de alguma trapaça: tomara que a noite chegue!/ Até lá, acalme-se, minha alma; as maldades aparecerão,/ Mesmo que a terra as oculte dos olhos humanos” (My father’s spirit in arms! All is not well;/ I doubt some foul play: would the night were come! Till then sit still my soul; foul deeds will rise,/ Though all the earth o’erwhelm them, to men’s eyes.) (1.2).

O príncipe decide pôr o fantasma à prova. Ele conversa com os atores, que encenariam uma peça no castelo, e propõe um acréscimo no texto, “umas doze ou dezesseis linhas” (some dozen or sixteen lines) (2.2), simulando o crime do rei, pretendendo com isso estudar a reação deste ao assistir à peça. Hamlet quer testar a veracidade do relato do fantasma, como ele próprio explica no quarto solilóquio: “O espírito que vi bem poderia ser o demônio, pois o demônio tem o poder de assumir um aspecto agradável” (The spirit that I have seen/ May be the devil, and the devil hath power/ T’ assume a pleasing shape) (2.2).

Mais tarde, Hamlet pede a Horácio que o ajude a observar a reação do rei, na simulação do crime pelos inocentes atores. O pedido do príncipe mostra a necessidade deste cuidado: “observe meu tio: se seu crime oculto não se revelar numa passagem da peça, então foi um maldito fantasma que vimos, e minhas suspeitas são tão negras quanto a forja de Vulcano” (Observe mine uncle: if his occulted guilt/ Do not itself unkennel in one speech,/ It is a damned ghost that we have seen;/ And my imaginations are as foul/ As foul/ As Vulcan’s stithy) (3.2). Em outras palavras, se o rei não parecer afetado pela reconstituição de seu crime, o fantasma não passa de um mentiroso.

Hamlet é cético mesmo após duas aparições do espectro: a) Num encontro pessoal na quarta cena do Primeiro Ato e b) Ao reforçar o pedido de segredo a Horácio e Marcelo, quando o fantasma exclama, debaixo da terra, por quatro vezes, “Jurai!” (Swear!) (1.5). Afinal, uma denúncia tão grave merece mesmo uma cuidadosa verificação.

Ele ainda aparece para Hamlet uma terceira vez, nos aposentos da rainha (3.4), após a morte de Polônio. É curioso observar que, nesta ocasião, o fantasma só surge para Hamlet (a rainha não o vê), o que poderia sugerir que ele é um produto da imaginação do príncipe. Há um paralelo interessante em “Macbeth”. Nesta peça, o fantasma do general Banquo aparece num jantar e só é visto por Macbeth, o usurpador do trono real e mandante do assassinato do general. O fantasma de Banquo é claramente um produto da imaginação de Macbeth, que se trai neste jantar, da mesma forma que o rei Cláudio se deixa desmascarar na “peça dentro da peça”.

Há duas interpretações possíveis. Na primeira, o fantasma aparece apenas para Hamlet para não impressionar ainda mais a rainha, já assustada com o comportamento do filho. Na segunda e mais curiosa, o fantasma é um produto da imaginação de Hamlet, talvez gerado por sua forte convicção da culpa do rei. É possível que os demais, que viram o fantasma antes de Hamlet, compartilhassem a mesma convicção. O fantasma seria portanto uma manifestação do inconsciente de Hamlet e seus companheiros.

Referências bibliográficas

1 – KRAUSE, Gustavo Bernardo. A ficção cética. 1ª edição. São Paulo: Annablume, 2004. 274p.