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Inicial Fórum Peças Hamlet O Vocabulário de Hamlet

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    por Mário Amora Ramos

    As palavras da peça muitas vezes assumem um significado impossível de ser detectado, por exemplo, com o uso de um tradutor automático. Uma palavra simples como “green” (verde) pode ter o significado de “recente”, como quando o rei Cláudio se refere ao irmão falecido, “ainda presente na memória” (the memory be green) (1.2), bem como simbolizar a imaturidade, como quando Polônio chama Ofélia de “menina ingênua” (green girl) (1.3). Analogamente, referindo-se a pessoas, “dry” (seco) pode significar “sedento” e “red” (vemelho) pode ser “corado”.

    Os exemplos abaixo ilustram a riqueza do vocabulário de Shakespeare. Que eles sirvam de estímulo para que o leitor de língua portuguesa tenha acesso à experiência inesquecível de ler o texto original:

    Abuse
    Pode ter o sentido de “farsa”. Ao receber uma carta de Hamlet, propositalmente enigmática, o rei pergunta: “O que quer dizer isso? Os demais voltaram? Ou é alguma farsa e não há nada disso?” (What should this mean? Are all the rest come back? Or is it some abuse, and no such thing?) (4.7).

    Acquaint
    O verbo significa “dar conhecimento” ou “informar”, do latim cognoscere (conhecer). Horácio diz aos seus companheiros: “Vamos informar-lhe [ao jovem Hamlet] o que sucede” (we shall acquaint him with it) (1.1).

    Addition
    Trata-se de qualquer título acrescentado a um nome, como Hamlet, príncipe da Dinamarca. Tem um sentido figurado de “reputação”, neste comentário de Hamlet, no terraço, enquanto o rei patrocinava uma de suas festas costumeiras: “Chamam-nos de bêbedos e com frases indecorosas mancham nossa reputação” (They clepe us drunkards, and with swinish phrase/ Soil our addition) (1.4).

    Adieu
    O fantasma despede-se de Hamlet com a palavra francesa adieu (adeus): “Adeus, adeus! Hamlet, lembre-se de mim” (Adieu, adieu! Hamlet, remember me) (1.5). Hamlet usa a mesma palavra ao despedir-se da mãe: “Desventurada rainha, adeus!” (Wretched queen, adieu!) (5.2).

    Admiration
    Este substantivo tem o sentido de “espanto”. Quando Horácio conta a Hamlet que viu o falecido rei, diz: “Modere o seu espanto” (Season your admiration) (1.2).

    Advancement 1
    Hamlet usa este substantivo no sentido de “benefício” ou “vantagem”, nesta fala, dirigindo-se a Horácio: “Que benefício eu poderia esperar de você, que não tem renda, mas só seus bons dotes, para se alimentar e vestir?” (For what advancement may I hope from thee,/ That no revenue hast, but thy good spirits,/ To feed and clothe thee?) (3.2). Pode não parecer, mas é o início de um belo elogio ao amigo Horácio.

    Advancement 2
    Hamlet usa o termo no sentido de “ambição”, conversando com Rosencrantz e Guidenstern: “Senhor, me falta ambição” (Sir, I lack advancement) (3.2).

    Alack
    Esta interjeição significa “ai de mim”. Curiosamente, aparece duas vezes numa mesma cena. A primeira é nesta canção de Ofélia: “Por Jesus e pela Santa Caridade/ Ai de mim, que vergonha!” (By Gis and by Saint Charity,/ Alack, and fie for shame!) (4.5). Mais adiante, ao ouvir um tumulto fora de cena, a rainha exclama: “Ai de mim, que barulho é esse?” (Alack, what noise is this?) (4.5).

    Amiss 1
    Como advérbio de modo, significado “errado” ou “impróprio” A rainha Gertrudes, aflita, emprega o termo como substantivo: “Qualquer ninharia parece o prólogo de algum desastre” (Each toy seems prologue to some great amiss) (4.5).

    Amiss 2
    Fortimbrás, no fim da peça, usa o termo como advérbio de modo: “Levem estes corpos. — Esta visão/ É própria de um campo de batalha, mas aqui fica mal” (Take up the bodies. —Such a sight as this/ Becomes the field, but here shows much amiss) (5.2).

    An
    Pode ter o sentido arcaico de if (se), como nesta canção de Ofélia: “Diz ela: _ Antes de me derrubar/ Você prometeu se casar/ _ E o teria feito, pela luz do sol/ se você não tivesse vindo para meu leito” (Quoth she, before you tumbled me,/ You promis’d me to wed./So would I ha’ done by yonder sun,/ An thou hadst not come to my bed) (4.5). Quando Horácio responde ao marinheiro “que Deus também o abençoe” (Let Him bless thee too) (4.6), este responde: “Ele o fará, senhor, se for sua vontade” (He shall, sir, an ’t please him) (4.6).

    Anchor
    Pode ser “âncora” e também “anacoreta” (uma pessoa que vive reclusa), como nesta fala da atriz-rainha, na “peça dentro da peça”: “Que a austera reclusão de um anacoreta seja todo meu propósito!” (An anchor’s cheer in prison be my scope!) (3.2).

    Angle
    Embora usualmente signifique “ângulo”, pode ser também “anzol” (fishhook). Hamlet diz a Horácio que o rei “atirou um anzol contra minha própria vida” (Thrown out his angle for my proper life) (5.2).
    Antic O adjetivo é arcaico e vem do latim antiquus (antigo), porém seu significado é “grotesco”, “estranho” ou “engraçado”. Em suma, “meio louco”. Hamlet diz a Horácio e Marcelo que vai “adotar um comportamento meio louco” (put an antic disposition on) (1.5).

    Apoplexy
    A apoplexia é uma afecção cerebral acompanhada de privação dos sentidos e do movimento. Hamlet usa o termo para dizer que sua mãe está fora de seu juízo normal: “Sentidos, claro, você os tem, do contrário não poderia ter movimento: mas certamente estes sentidos estão apoplécticos” (Sense, sure, you have,/ Else could you not have motion: but sure that sense/ Is apoplex’d) (3.4).

    Apparel
    A palavra significa “traje”. Polônio recomenda ao filho Laertes que se vista bem, para fazer boa figura na França, e lhe diz que “o traje muitas vezes faz o homem” (the apparel oft proclaims the man) (1.3).
    Apparition É assim que Marcelo se refere ao fantasma: “se esta aparição vier novamente” (if again this apparition come) (1.1). A palavra é de raiz latina: apparere (aparecer).

    Approve
    O verbo tem o significado usual de “aprovar”, mas pode também ter o sentido de “confirmar”, nesta fala de Marcelo, referindo-se a Horácio: “Assim, pedi a ele que viesse conosco, para a vigília desta noite, para que, se esta aparição vier novamente, ele possa confirmar nossos olhos e falar com ela” (Therefore I have entreated him along/ With us to watch the minutes of this night,/ That, if again this apparition come,/ He may approve our eyes, and speak to it) (1.1).

    Appurtenance
    É o mesmo que “acessório”. Vem do latim appertinere (ser pertinente). Na recepção aos atores, Hamlet diz: “O acessório das boas-vindas são o costume e a etiqueta” (The appurtenance of welcome, is fashion and ceremony) (2.2).

    Argument
    Não se trata de “argumento” ou “raciocínio”, mas sim da “causa de uma disputa”. É o substantivo do verbo to argue (discutir). No sétimo solilóquio (vinte mil homens marcham para seus túmulos), diz Hamlet: “Na verdade, ser grande não é agitar-se sem uma causa maior; pelo contrário, é bater-se por uma questão menor quando a honra está em jogo” (Rightly to be great/ Is not to stir without great argument,/ But greatly to find quarrel in a straw/ When honour is at the stake) (4.4).

    Arm
    Além de “armar” pode significar “preparar-se”, como nesta instrução do rei para Rosencrantz e Guildenstern: “Preparem-se, eu lhes peço, para esta viagem de urgência” (Arm you, I pray you, to this speedy voyage) (3.3).

    Arrant
    O adjetivo significa “notório”. Hamlet refere-se a “notório patife” (arrant knave) (1.5). É uma possível derivação de errant (errante), a exemplo de errant thief (ladrão de beira de estrada) e, num sentido mais nobre, knight-errant (cavaleiro andante).

    Arras
    Trata-se de uma cidade francesa, cujo nome tornou-se sinônimo de “tapeçaria”, como nesta proposta de Polônio para o rei: “Fiquemos então, o senhor e eu, escondidos atrás de uma tapeçaria” (Be you and I behind an arras then) (2.2).

    Articles
    No plural, este substantivo designa as partes que constituem uma declaração formal. Por exemplo, os “estatutos sociais” de uma empresa são articles of association. O rei Cláudio incumbe os embaixadores Voltimand e Cornélio de negociar com o rei da Noruega dentro do “escopo pormenorizadamente descrito neste protocolo” (scope of these dilated articles) (1.2).

    Assistant
    Num sentido figurado, pode significar “disponível”. Laertes, ao se despedir da irmã, diz que “se algum meio de comunicação estiver disponível, não perca tempo, mande notícias suas” (And convoy is assistant; do not sleep,/ But let me hear from you) (1.3).

    At foot
    A expressão significa “de perto”, como nesta ordem do rei para Rosencrantz e Guildenstern, referindo-se a Hamlet: “Sigam-no de perto” (Follow him at foot) (4.3), no sentido de “sem largar o pé”.

    Attent
    Esta é uma forma arcaica do adjetivo attentive (atento), como nesta fala de Horácio para Hamlet: “ouvido atento, para este fato sobrenatural que vou contar, tendo estes cavalheiros por testemunhas” (an attent ear, till I may deliver,/ Upon the witness of these gentlemen,/This marvel to you) (1.2).

    Augury
    A palavra vem do latim augurium e quer dizer “adivinhação” ou “presságio”. A palavra existe também em português. A fala é de Hamlet, ao aceitar o desafio de Laertes: “Nada disso, nós desafiamos os augúrios” (Not a whit, we defy augury) (5.2). O sentido de “desafiar” aqui é de “desconsiderar” ou “desprezar”.

    Auspicious
    O adjetivo “auspicioso” existe também em português. Vem do substantivo latino auspicium (auspício) e quer dizer “favorável”, “de bom presságio”. O rei Cláudio diz que vê seu casamento “com um olho favorável e outro derramando lágrimas” (With one auspicious, and one dropping eye) (1.2).

    Avouch
    Trata-se de uma forma reduzida de avouchment (garantia ou testemunho), do latim advocare (advogar, apoiar). Horácio comenta a aparição do fantasma e diz que “por Deus, eu não acreditaria nisto sem o testemunho sensível e verdadeiro de meus próprios olhos” (Before my God, I might not this believe/ Without the sensible and true avouch/ Of mine own eyes) (1.1).

    Back
    O termo está aqui no sentido de “plano reserva”, nesta fala do rei para Laertes: “portanto este plano deve deve ter um reserva ou um segundo” (therefore this project/ Should have a back or second) (4.7). Hoje o adjetivo backup tem o sentido de “reserva”, a exemplo da duplicata de um arquivo de computador.

    Ban
    Como substantivo significa “banimento”, mas pode ter também o sentido de “maldição”. Na “peça dentro da peça” o personagem Luciano entra em cena e derrama, no ouvido do ator-rei adormecido, uma “poção venenosa, feita de plantas noturnas e três vezes amaldiçoada por Hécate” (mixture rank, of midnight weeds collected,/ With Hecate’s ban thrice blasted, thrice infected) (3.2).

    Batten
    Hamlet, irritado com a mãe, compara o pai a uma montanha e o tio a um pântano. Ele usa um termo forte to batten (cevar), no sentido de “saciar-se”, nesta fala: “Como você pôde deixar esta montanha para alimentar-se e cevar neste pântano?” (Could you on this fair mountain leave to feed,/ And batten on this moor?) (3.4).

    Beaver
    O substantivo designa a viseira da armadura. Horácio conta a Hamlet que viu o rosto do fantasma, que “tinha a viseira levantada” (he wore his beaver up) (1.2).

    Beckon
    É o mesmo que “acenar”, como neste comentário de Horácio para Hamlet, referindo-se ao fantasma: “Ele acena para que você vá com ele,/ como se ele quisesse fazer alguma comunicação/ só para você” (It beckons you to go away with it,/ As if it some impartment did desire/ To you alone) (1.4). Em algumas marcações de cena aparece a expressão Ghost beckons (o fantasma acena).

    Behoove
    O verbo tem um sentido, hoje raro, de “ser adequado ou apropriado”. Polônio, ao repreender Ofélia por sua atenção excessiva aos galanteios de Hamlet, diz que ela não se comporta “como convém a uma filha minha” (As it behooves my daughter) (1.3).

    Beseech
    O verbo to beseech (passado besought) aparece várias vezes na peça, como “rogar” ou “pedir”. Polônio, referindo-se ao filho Laertes, assim se dirige ao rei: “rogo-vos que lhe deis licença de partir” (I do beseech you, give him leave to go) (1.2).

    Besmirch
    O verbo significa “macular” ou “sujar”. Laertes conversa com a irmã sobre as intenções de Hamlet: “talvez ele hoje a ame e, até agora, nenhuma mancha ou embuste macula a pureza de suas intenções” (Perhaps he loves you now;/ And now no soil nor cautel doth besmirch/ The virtue of his will) (1.3).

    Beteem
    O verbo to beteem, hoje obsoleto, significa “permitir”. O velho rei “não permitia que as brisas celestes incomodassem a rainha” (That he might not beteem the winds of heaven/Visit her face too roughly) (1.2).
    Bilbo As cidades espanholas de Toledo e Bilbao eram famosas à época por suas espadas de lâminas bem temperadas. A palavra serve para designar espadas e também os ferros com os quais eram presos os amotinados. Hamlet conta a Horácio como escapou da morte em sua viagem à Inglaterra e diz que se sentia “pior do que os amotinados presos aos ferros” (Worse than the mutines in the bilboes) (5.2).

    Blank
    Como substantivo, pode ser um “espaço vazio” (por exemplo, num formulário), mas pode significar também “alvo”, à semelhança do espanhol blanco. A calúnia, diz o rei, é “como uma bala de canhão que busca um alvo” (as the cannon to his blank) (4.1). Como adjetivo pode significar “branco”, como em “verso branco” (blank verse) (2.2), que é o verso não rimado, citado por Hamlet na conversa com os atores.

    Blazon
    A palavra deriva do francês blason (brasão), mas tem em inglês o sentido de “descrição de um brasão”, dentro das regras da heráldica. Esta fala do fantasma para Hamlet é ilustrativa: “Mas esta explicação sobre as coisas da eternidade não é própria/ para ouvidos de carne e osso” (But this eternal blazon must not be/ To ears of flesh and blood) (1.5). Brasão em inglês é coat of arms, numa etimologia distinta do francês.

    Blister
    Este substantivo normalmente significa “bolha”, mas Hamlet emprega o termo no sentido de “chaga”, ao repreender a mãe: “um ato assim (…) remove a rosa da bela fronte de um amor inocente e põe ali uma chaga” (such an act (…) takes off the rose/From the fair forehead of an innocent love,/ And makes a blister there) (3.4).

    Blood
    Hamlet usa blood (sangue) num sentido figurado, como “vigor sexual”, ao repreender a mãe: “na sua idade, o auge do vigor está aplacado: ele é humilde e age como servo da razão” (for at your age/ The heyday in the blood is tame, it’s humble,/ And waits upon the judgement) (3.4).

    Board
    O verbo to board significa “embarcar em” e, num sentido mais arcaico, “falar com”, a exemplo desta fala de Polônio para o casal real, referindo-se a Hamlet: “Vou falar com ele imediatamente” (I’ll board him presently) (2.2). Em português pode-se dizer também, mais literalmente, “vou abordar o assunto com ele”

    Bode
    Trata de um verbo regular que tem um sentido arcaico de “prenunciar” ou “predizer”. Horácio vê assim a passagem do fantasma: “isto prenuncia alguma estranha comoção no nosso estado” (This bodes some strange eruption to our state) (1.1).

    Body of contraction
    A expressão body of contraction, nesta fala de Hamlet, significa “vínculo matrimonial”: “Oh, um feito desses é como se arrancasse a própria alma do vínculo matrimonial, fazendo da doce religião uma miscelânea de palavras” (O, such a deed/ As from the body of contraction plucks/ The very soul, and sweet religion makes/ A rapsody of words) (3.4). Analogamente, em português se diz “contrair matrimônio”.

    Bore
    O significado usual é de “calibre”, mas pode ter o sentido figurado de “importância” ou “gravidade”, como nesta carta de Hamlet para Horácio: “Preciso contar a você coisas de pasmar; o assunto é de tal gravidade que é difícil encontrar palavras” (I have words to speak in thine ear, will make thee dumb; yet are they much too light for the bore of the matter) (4.6).

    Bound
    Este adjetivo tem o sentido arcaico de “pronto” ou “preparado”. É o que Hamlet diz ao fantasma: “Fale, estou pronto para ouvir” (Speak; I am bound to hear) (1.5).

    Brazen
    Este adjetivo significa “brônzeo”, isto é, feito de bronze, como neste relato de Marcelo sobre a fabricação de canhões na Dinamarca: “e por que este fundir diário de canhões de bronze” (And why such daily cast of brazen cannon) (1.1).

    Brooch
    O brooch (broche) está usado aqui no sentido de “jóia”. Laertes assim se refere ao normando Lamond: “Eu o conheço bem: ele é a jóia, na verdade, e a pérola da nação” (I know him well: he is the brooch, indeed,/ And gem of all the nation) (4.7).

    Bruit
    O verbo é usado com o sentido arcaico de “ressoar”. O rei, aparentemente satisfeito com a permanência de Hamlet na Dinamarca, promete que “os céus ressoarão, repetindo os trovões da terra” (the heavens shall bruit again,/ Re-speaking earthly thunder) (1.2). Em francês, bruit é “ruído”.

    Bulk
    O substantivo significa “tamanho”. Laertes, conversando com a irmã, diz que não crescemos só “em músculos e tamanho” (In thews and bulk) (1.3).

    But
    A tradução usual é a conjunção adversativa “mas”. Há, no entanto, outros significados: “Horácio diz que é apenas nossa imaginação” (Horatio says ’tis but our fantasy) (1.1), afirma Marcelo ao comentar a aparição do fantasma; “Morto há só dois meses!” (But two months dead!) (1.2) diz Hamlet para si mesmo (e para a platéia), no seu primeiro solilóquio; “De fato, considero a ambição de uma qualidade tão aérea e leve, que não passa da sombra de uma sombra” (Truly, and I hold ambition of so airy and light a quality that it is but a shadow’s shadow) (2.2), diz Rosencrantz num diálogo com Hamlet.

    By Gis
    Esta interjeição significa “por Jesus”, nesta canção de Ofélia: “Por Jesus e pela Santa Caridade/ Ai de mim, que vergonha!” (By Gis and by Saint Charity,/ Alack, and fie for shame!) (4.5).

    Canon
    A palavra vem do grego e quer dizer “lei” ou “decreto”. Hamlet, neste solilóquio, reclama de Deus por ter promulgado “sua lei contra o suicídio” (His canon ’gainst self-slaughter) (1.2). Não confundir com cannon (canhão), que é uma forma menos elegante de promulgar uma lei.

    Canonized
    O adjetivo canonized (canonizado) é usado aqui no sentido de “consagrado”, isto é, sepultado conforme os ritos sagrados da Igreja.. Hamlet assim se dirige ao fantasma: “Por que seus ossos consagrados e sepultados pela morte/ romperam sua mortalha” (Why thy canoniz’d bones, hearsed in death,/ Have burst their cerements) (1.4).

    Canopy
    A palavra vem do grego konops (mosquito) e significa “mosquiteiro”. Em inglês serve para designar, entre outras, a cobertura de entrada de um prédio e a cobertura transparente que protege o piloto de um avião de caça. Hamlet, em conversa com Rosencrantz e Guildenstern, refere-se a “esta maravilhosa abóboda, a atmosfera” (this most excellent canopy, the air) (2.2)

    Cap-à-pie
    Este advérbio de modo, derivado do francês, significa “da cabeça aos pés”. Horácio diz a Hamlet que o fantasma estava armado “da cabeça aos pés” (cap-à-pie) (1.2). Em outras palavras, o fantasma vestia uma armadura com todos os seus acessórios.

    Carouse
    O verbo to carouse vem do alemão gar aus (trinken) e quer dizer “beber tudo de uma vez”. Gertrudes pega a taça envenenada e diz: “A rainha bebe à tua sorte, Hamlet” (The queen carouses to thy fortune, Hamlet) (5.2).

    Carve
    O verbo pode significar “cinzelar”, “esculpir” ou “entalhar”. Laertes, num sentido figurado, explica à sua irmã Ofélia as limitações do príncipe: “Ele não pode, como fazem as pessoas humildes,/ escolher por si próprio” (He may not, as unvalu’d persons do,/ Carve for himself) (1.3).

    Cast 1
    O verbo to cast pode significar “fundir”, isto é, derramar uma liga metálica fundida num molde, como neste relato de Marcelo sobre a fabricação de canhões na Dinamarca: “e por que este fundir diário de canhões de bronze” (And why such daily cast of brazen cannon) (1.1).

    Cast 2
    O verbo to cast pode significar “jogar fora” ou “deixar de lado”, como neste conselho da rainha a Hamlet: “Bom Hamlet, deixe de lado este semblante soturno” (Good Hamlet, cast thy nighted colour off) (1.2).

    Cast 3
    O substantivo cast pode significar “sombra”, como neste exemplo do quinto solilóquio (ser ou não ser, eis a questão!): “E o aspecto primitivo da resolução/ é debilitado pela sombra tênue do pensamento” (And thus the native hue of resolution/ Is sicklied o’er with the pale cast of thought) (3.1).

    Cause 1
    Aqui o sentido é de “causa” ou “motivo”. Antes de se retirar, a rainha diz a Ofélia que espera que “seus encantadores atrativos sejam a feliz causa do desequilíbrio de Hamlet” (your good beauties be the happy cause/ Of Hamlet’s wildness) (3.1).

    Cause 2
    Hamlet dirige-se a Horácio e se refere à sua própria história: “Narre minha verdadeira história aos que não a conhecem” (report me and my causes aright/ To the unsatisfied) (5.2).

    Cause 3
    Pode significar “ocasião”. Horácio dirige-se a Fortimbrás: “Disso terei também ocasião de falar” (Of that I shall have also cause to speak) (5.2).

    Cautel
    O substantivo vem do latim cautela. Aqui tem o sentido figurado de “ardil” ou “embuste”. Laertes, ao se despedir da irmã, chama sua atenção para os galanteios de Hamlet “talvez ele hoje a ame e, até agora, nenhuma mancha ou embuste macula a pureza de suas intenções” (Perhaps he loves you now;/ And now no soil nor cautel doth besmirch/ The virtue of his will) (1.3).

    Cellerage
    Numa passagem de um certo “alívio cômico”, Hamlet asssim se refere ao fantasma, para Horácio e Marcelo: “Ouçam este sujeito no porão” (You hear this fellow in the cellarage) (1.5). A forma usual hoje é cellar.

    Cerement
    O substantivo deriva do latim cera (cera) e se refere aos lençóis impregnados usados para o embalsamamento. Hamlet assim se dirige ao fantasma: “Por que seus ossos consagrados e sepultados pela morte/ romperam sua mortalha” “Why thy canoniz’d bones, hearsed in death,/ Have burst their cerements” (1.4).

    Chameleon
    A palavra “camaleão” é de origem grega e significa “leão da terra”. Para Hamlet, o ar é o “prato do camaleão” (chameleon’s dish) (3.2), com base na antiga suposição de que ele se alimentava de ar. Esta idéia aparece também na peça “Dois Cavalheiros de Verona” (Two Gentlemen of Verona), nesta fala: “embora o camaleão Amor viva de ar, eu preciso de meus víveres para me sustentar” (though the chameleon Love can feed on air, I am one that am nourished by my victuals) (2, 1).

    Changeling
    O substantivo se refere a uma criança deixada pelas fadas em troca de outra, levada por elas. Hamlet usa o termo ao referir-se, em conversa com Horácio, à substituição da carta levada por Rosencrantz e Guidenstern: “a troca nunca foi percebida” (The changeling never known) (5.2).

    Charge
    Este verbo tem muitos significados (acusar, atacar, cobrar, etc). Um deles é “ordenar”, como nesta fala de Horácio para o fantasma: “Por Deus, ordeno que você fale!” (By heaven I charge thee, speak!) (1.1).

    Chary
    O adjetivo chary significa “cauteloso”. Laertes previne a irmã Ofélia do assédio de Hamlet e lhe diz que “a donzela mais cautelosa considera uma prodigalidade excessiva revelar sua beleza à própria lua” (The chariest maid is prodigal enough/ If she unmask her beauty to the moon) (1.3).

    Chief
    A palavra tem um curioso sentido arcaico de “principalmente”, que hoje se diria chiefly. Polônio recomenda ao filho Laertes que se vista bem, para fazer boa figura na França, onde “são muito seletos e fidalgos, principalmente nisto” (most select and generous chief in that) (1.3).

    Choice
    Hamlet assim descreve a peça que seria encenada: “A história é autêntica e descrita num italiano refinado” (the story is extant and writ in choice Italian) (3.2). Choice tem aqui o sentido de “refinado” ou “elegante”.

    Chopine
    Trata-se de um sapato de sola grossa, chamado em português de “chapim” (do espanhol chapín). Como na época não existiam atrizes, Hamlet dirige-se a um jovem ator que interpretava papéis femininos: “Ora, minha jovem e senhora? Nossa, está mais perto do céu do que quando eu o vi por último, do alto de um chapim” (What, my young lady and mistress? By’r lady, your ladyship is nearer heaven then when I saw you last, by the altitude of a chopine) (2.2).

    Clad
    Esta é uma forma alternativa do particípio passado de to clothe (revestir). Por exemplo, uma chapa de aço revestida por uma camada de um outro material é um clad steel (aço cladeado). Horácio refere-se à manhã que se aproxima “envolta num manto avermelhado” (in russet mantle clad) (1.1).

    Clepe
    O verbo é arcaico e corresponde a to call (chamar), como neste comentário de Hamlet, no terraço, enquanto o rei patrocinava uma de suas festas costumeiras: “Chamam-nos de bêbedos e com frases indecorosas mancham nossa reputação” (They clepe us drunkards, and with swinish phrase/ Soil our addition) (1.4).

    Close 1
    Tem o sentido de “oculto” nesta recomendação de Polônio para Ofélia: “Venha, vamos ao rei; isto deve ser conhecido. Estando oculto, poderá trazer mais problema se for escondido do que rancor se for revelado” (Come, go we to the king:/ This must be known; which, being kept close, might move/ More grief to hide than hate to utter love) (2.1).

    Close 2
    A expressão significa “de perto”, como at foot (verbete acima), a exemplo desta ordem do rei para Horácio, referindo-se a Ofélia: “Siga-a de perto” (Follow her close) (4.5).

    Closet
    Trata-se do “gabinete particular” da rainha. Rosencrantz diz ao príncipe: “Ela quer conversar com o senhor em seu gabinete particular, antes que o senhor se recolha” (She desires to speak with you in her closet ere you go to bed) (3.2).

    Cockle
    Este substantivo vem do francês coquille e quer dizer “concha”. O “chapéu com concha” é típico dos peregrinos de Santiago de Compostela, capital da Galícia (Espanha). Ofélia canta “Como posso distinguir o verdadeiro amor de um outro? Pelo chapéu de peregrino, bastão e sandálias” (How should I your true love know/From another one?/ By his cockle hat and staff,/and his sandal shoon) (4.5). Em “Péricles”, o personagem Gower, que faz o papel do Coro, diz que em nossa imaginação “atravessamos os mares em conchas” (sail seas in cockles) (4.4). Neste caso, a concha equivale à “casca de noz”, como metáfora de “embarcação pequena e frágil”.

    Coil
    Este substantivo tem o sentido arcaico de “torvelinho”. O mortal coil seria, em sentido figurado, o “torvelinho da vida”. Pode ser também uma “bobina”, como algo que nos envolve. Seria neste caso um “invólucro mortal”. No quinto solilóquio (ser ou não ser), Machado de Assis traduziu como o “lodo mortal”, do qual nos despimos: “Ao perpétuo sono,/ Quando o lodo mortal despido houvermos,/ Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre” (For in that sleep of death what dreams may come,/ When we have shuffled off this mortal coil,/ Must give us pause) (3.1).

    Colour 1
    O substantivo colour significa “cor” e, num sentido figurado, “semblante”, como neste conselho da rainha a Hamlet: “Bom Hamlet, deixe de lado este semblante soturno” (Good Hamlet, cast thy nighted colour off) (1.2).

    Colour 2
    Como verbo, pode ter o sentido de “ocultar” ou “servir de pretexto”. Hamlet diz a Rosencrantz e Guildenstern: “Vocês foram mandados; há uma espécie de confissão em seus olhares, que sua timidez não tem esperteza bastante para ocultar” (You were sent for; and there is a kind of confession in your looks, which your modesties have not craft enough to colour) (2.2). Mais tarde, Polônio instrui sua filha Ofélia: “Leia este livro. Uma mostra de tal devoção pode servir de pretexto para seu recolhimento” (Read on this book;/ That show of such an exercise may colour/ Your loneliness) (3.1).

    Columbine
    É o mesmo que “aquilégia”, uma das flores distribuídas por Ofélia em seu desvario. “Aqui está a erva-doce para você, e aquilégias” (There’s fennel for you, and columbines) (4.5). O nome vem do latim columba (pomba).

    Commandment
    O termo pode referir-se a qualquer um dos Dez Mandamentos bíblicos (Ten Commandments), como também a uma ordem ou comando. O embaixador inglês veio visitar o rei “para dizer-lhe que sua ordem foi cumprida,/ Que Rosencrantz e Guildenstern estão mortos” (To tell him his commandment is fulfill’d,/ That Rosencrantz and Guildenstern are dead) (5.2). Horácio responde usando o mesmo termo: “Ele nunca deu ordem para a morte deles” (He never gave commandment for their death) (5.2).

    Compact
    Como substantivo, pode significar “contrato”, do latim pactus (pacto). Horácio explica aos companheiros que as terras conquistadas pelo falecido rei Hamlet foram objeto de um “contrato selado, devidamente ratificado pela lei e pela heráldica” (a seal’d compact, well ratified by law and heraldry) (1.1).

    Comply
    O verbo significa “agir de acordo com” ou “cumprir”, referindo-se a um regulamento ou uma ordem. Pode ter o sentido de “cumprimentar”: Hamlet diz a Horácio que Osric “antes de mamar já cumprimentava a teta” (He did comply with his dug before he sucked it) (5.2).

    Compulsative
    É o mesmo que compulsory (compulsório). Horácio explica que o jovem Fortimbrás quer recuperar as terras perdidas pelo pai e que pretende fazê-lo “com mão forte e termos compulsórios” (by strong hand,/And terms compulsative) (1.1).

    Conceit
    Pode ser “orgulho” (do italiano concetto, isto é, uma opinião exagerada sobre si mesmo), como também “fantasia”, a exemplo deste conselho do fantasma para Hamlet, para que o príncipe cuidasse da mãe: “A fantasia trabalha mais nos corpos mais frágeis” (Conceit in weakest bodies, strongest works) (3.4).

    Condolement
    A palavra condolement é sinônima de condolence (condolência). O rei Cláudio acha que Hamlet reage exageradamente à morte do pai, e chama seu pesar de “luto obstinado” (obstinate condolement) (1.2).

    Confession
    O substantivo confession pode ter o sentido de “elogio”, como neste comentário do rei para Laertes, referindo-se ao normando Lamord: “Ele lhe fez um elogio” (He made confession of you) (4.7).

    Confine
    A palavra confine deriva de confinement (prisão, confinamento). Horácio conta que, ao nascer o dia, “o espírito errante apressa-se de volta ao seu confinamento” (Th’ extravagant and erring spirit hies/ To his confine) (1.1).

    Contagion
    Hamlet começa o sexto solilóquio dizendo que “esta é a hora dos feitiços noturnos, quando os cemitérios bocejam e o próprio inferno sopra seu veneno sobre o mundo!” (‘Tis now the very witching time of night,/ When churchyards yawn, and hell itself breaths out/ Contagion to this world) (3.2). A palavra não tem aqui o significado usual de “contágio”, mas sim o sentido arcaico de “veneno” (poison). Em outro exemplo, Laertes diz ao rei: “vou mergulhar a ponta de minha espada neste veneno” (I’ll touch my point/ With this contagion) (4.7).

    Convoy
    Esta palavra significa “comboio” mas, num sentido figurado, pode ser “meio de comunicação” ou “correio”. Laertes, ao se despedir da irmã, diz que “se algum meio de comunicação estiver disponível, não perca tempo, mande notícias suas” (And convoy is assistant; do not sleep,/ But let me hear from you) (1.3).

    Corse
    Esta é uma forma poética de corpse (corpo morto, cadáver). O rei Cláudio desdenha do luto pesado de Hamlet, dizendo ser coisa comum os pais morrerem antes dos filhos, “desde o primeiro morto, até aquele que morreu hoje” (From the first corse, till he that died to-day) (1.2).

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