A Tenra Juventude, Mário Amora Ramos

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O casamento ocupava, à época de Shakespeare, o centro das preocupações femininas. As donzelas viviam praticamente recolhidas na casa dos pais e lhes deviam estrita obediência. Os pais, por sua vez, envolviam-se de corpo e alma na complexa operação de arranjar um bom casamento para as filhas.

Um episódio de “Romeu e Julieta” é bem ilustrativo do pensamento da época. O senhor e a senhora Capuleto, pais de Julieta, combinam seu casamento com Páris, um jovem conde, parente do príncipe de Verona. Orgulhosa, a senhora Capuleto vai comunicar a Julieta a feliz notícia de seu camento, na quinta-feira seguinte, na Igreja de São Pedro. Julieta, apaixonada por Romeu, e ainda pesarosa pela morte recente do primo Teobaldo, recusa o casamento arranjado tão às pressas, principalmente com alguém que sequer lhe fez a corte. O pai, desapontado, não consegue compreender o comportamento da filha. Aos olhos dele, Julieta deveria estar agradecida e orgulhosa pela escolha de um esposo tão digno. A longa e irada resposta do senhor Capuleto à filha merece ser reproduzida na íntegra, para ajudar a compreender o espírito da época:

“Pela hóstia de Deus! Isso me deixa louco.
De dia, de noite, em qualquer ocasião, de trabalho ou diversão,
Só, acompanhado, sempre me preocupei
Em vê-la casada. Agora que consegui
Um cavalheiro de família nobre,
Rico, jovem e de educação esmerada,
Guarnecido, como dizem, de belas qualidades,
Com tudo aquilo que se poderia desejar,
Então vem esta miserável e tola chorona,
Como uma boneca que geme, quando a fortuna lhe sorri,
E diz: “Não casarei”, “não posso amar”,
“Sou muito jovem”, “por favor, perdoe-me”;
Mas, como você não se casará, vou perdoá-la:
Paste onde quiser, não morará mais comigo.
Veja bem, reflita, não costumo brincar.
Quinta-feira vem aí, ponha a mão na consciência, pense bem.
Se quiser ser minha filha, eu a darei ao meu amigo;
A não ser assim, enforque-se, mendigue, passe fome, morra nas ruas,
Pois, por minha alma, nunca a reconhecerei,
Nem o que é meu far-lhe-á bem algum,
Acredite-me e pense bem, não voltarei atrás”

(God’s bread! it makes me mad.
Day, night, hour, tide, time, work, play,
Alone, in company, still my care hath been
To have her match’d: and having now provided
A gentleman of noble parentage,
Of fair demesnes, youthful, and nobly train’d,
Stuff’d, as they say, with honourable parts,
Proportion’d as one’s thought would wish a man;
And then to have a wretched puling fool,
A whining mammet, in her fortune’s tender,
To answer ‘I’ll not wed,’ ‘I cannot love,’
‘I am too young,’ ‘I pray you, pardon me;’
But, as you will not wed, I’ll pardon you:
Graze where you will you shall not house with me:
Look to ’t, think on ’t, I do not use to jest.
Thursday is near; lay hand on heart, advise.
An you be mine, I’ll give you to my friend;
And you be not, hang, beg, starve, die in the streets,
For, by my soul, I’ll ne’er acknowledge thee,
Nor what is mine shall never do thee good.
Trust to ’t, bethink you; I’ll not be forsworn) (3.5).

O texto acima dá uma boa ideia das razões pelas quais Brabâncio, em “Otelo”, acreditava que a filha Desdêmona era vítima de “sortilégios e remédios comprados de charlatães” (spells and medicines bought of mountebanks) (1.3).

A preocupação dos pais estendia-se também ao casamento dos filhos homens. Em Conto de Inverno, Políxenes, o rei da Boêmia, devidamente disfarçado, interrompe o noivado de seu filho, o príncipe Florisel, com Perdita, suposta filha de um humilde pastor, mas na verdade filha de Leontes, o rei da Sicília. Inconformado por não ter sido avisado, Políxenes se revela como rei, chama Perdita de “nova peça de excelente feitiçaria” (fresh piece of excellent witchcraft) e seu filho Florisel de “régio imbecil” (royal fool) (4.3). Como nos contos de fadas, a verdadeira identidade de Perdita é revelada, todos se reconciliam e tudo termina bem.

Em “Péricles, Príncipe de Tiro”, há um curioso solilóquio de Simônides, rei de Pentápolis, sobre o casamento de sua filha Taísa com um misterioso cavaleiro, vencedor de um torneio (na verdade, o príncipe Péricles), que ilustra as intrincadas relações familiares da época:

“[…] agora, a carta de minha filha:
Ela diz aqui que só se casará com o cavaleiro estrangeiro,
Ou nunca mais verá o dia nem a luz.
Está bem, senhora; sua escolha concorda com a minha;
Fico contente com isso: mas, como ela se mostra autoritária,
Sem se importar se me desgosta ou não!
Bem, eu louvo sua escolha;
Não adiarei mais este assunto.
Silêncio! Aí vem ele. Preciso dissimilar”

([…] now to my daughter’s letter:
She tells me here, she’d wed the stranger knight,
Or never more to view nor day nor light.
’Tis well, mistress; your choice agrees with mine;
I like that well: nay, how absolute she’s in’t,
Not minding whether I dislike or no!
Well, I do commend her choice;
And will no longer have it be delay’d.
Soft! here he comes: I must dissemble it) (2.5).

Para testar o desconhecido, Simônides mostra-lhe a carta da filha, mas Péricles jura que nunca ousou aspirar a tanto, limitando sua ambição a honrá-la. O rei, para culminar, acusa-o frontalmente: “Você enfeitiçou minha filha e é um vilão” (Thou hast bewitch’d my daughter, and thou art a villain) (2.5). Péricles sai-se bem em sua defesa, contando com a ajuda de Taísa, que entra em cena, e tudo termina bem, com o casamento de ambos.

Em “Sonho de uma Noite de Verão”, Egeu, pai de Hérmia, não só acusa Lisandro de enfeitiçar o coração de sua filha, como também impõe o casamento dela com Demétrio, o pretendente escolhido pelo zeloso pai da jovem. Ainda mais, nos termos de uma antiga lei de Atenas, em caso de recusa da vontade do pai, ela seria condenada à morte. O casal resolve fugir e casar-se longe de Atenas. Como reconhece o apaixonado Lisandro, “o curso do verdadeiro amor nunca foi fácil” (The course of true love never did run smooth) (1.1).

Nem mesmo cuidados extremos trazem bons resultados. O zeloso duque, pai de Sílvia, em “Dois Cavalheiros de Verona”, trancafiou a filha no alto de uma torre e guardou a chave consigo, como ele mesmo explica, “sabendo quão fácil de ser seduzida é a tenra juventude” (Knowing that tender youth is soon suggested) (3.1).