A Presença de Shakespeare na Obra de Machado de Assis, Mário Amora Ramos

Print Friendly, PDF & Email

Este artigo é uma homenagem a Machado de Assis (1839-1908), primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras e um dos mais completos escritores brasileiros, já que sua obra inclui romances, contos, peças de teatro, poemas, crônicas, críticas literárias e um vasto epistolário.

O primeiro centenário de sua morte será lembrado no dia 29 de setembro de 2008. Nosso grande escritor foi grato aos mestres que o antecederam, conforme atestam muitos de seus testemunhos. Desta forma, ele merece das letras nacionais uma consideração pelo menos equivalente. A título de ilustração, quando se comemorou o primeiro centenário da morte do poeta mineiro Basílio da Gama (1741-1795), transcreveu Machado, em crônica de 7 de julho de 1895, um elogio do escritor português Almeida Garret (1799-1854), segundo o qual Basílio da Gama é para os brasileiros “a melhor coroa da sua poesia, que nele é verdadeiramente nacional e legítima americana”. É curioso que, referindo-se novamente ao poeta em uma crônica de 16 de agosto de 1896, dizia Machado que aquela comemoração “não teve o esplendor da de Burns”, comparando-a com o centenário da morte do poeta escocês Robert Burns (1759-1796), que “viu chegar de todas as partes do mundo em que se fala a língua inglesa presentes votivos e deputações especiais”.

Já no sexto aniversário da morte do escritor cearense José de Alencar (1829-1877), assim escreveu Machado, em texto de 5 de dezembro de 1883: “Na história do romance e na do teatro, para não sair das letras, José de Alencar escreveu as páginas que todos lemos, e que há de ler a geração futura”. Como se vê, a apreciação generosa fez justiça ao autor de O Guarani (1857) e Iracema (1865), para ficar nas duas das obras alencarinas mais conhecidas.

Assim, o primeiro centenário da morte de Machado de Assis merece de nós uma comemoração digna do “esplendor da de Burns”. Profeticamente, as palavras machadianas sobre José de Alencar aplicam-se, um século depois, ao próprio Machado, que também escreveu “páginas que todos lemos, e que há de ler a geração futura”.

Machado de Assis foi um grande leitor de Shakespeare, particularmente de Otelo, Hamlet e Macbeth, bem como de outras peças do autor inglês, que direta ou indiretamente estão mencionadas em sua extensa obra, como será mostrado a seguir.

Otelo

A tragédia de Otelo, o mouro de Veneza, causou uma profunda impressão em Machado, a julgar pelas muitas referências a ela em toda a sua obra.

O personagem principal de Ressurreição (1872), seu primeiro romance, o rico, entediado e ciumento Félix, é, segundo o autor, “um homem complexo, incoerente e caprichoso”. No capítulo IX do livro, Félix e Luís Batista são rivais que tentam conquistar as graças da formosa viúva Lívia. O “observador e perspicaz” Luís Batista logo percebeu “que quanto mais o amor de Félix se tornasse suspeito e tirânico, tanto mais perderia terreno no coração da viúva, e assim, roto o encanto, chegaria a hora das reparações generosas com que ele [Luís Batista] se propunha a consolar a moça dos seus tardios arrependimentos”. Para alcançar este resultado, prossegue Machado, “era mister multiplicar as suspeitas do médico [Félix], cavar-lhe fundamente no coração a ferida do ciúme, torná-lo em suma instrumento de sua própria ruína. Não adotou o método de Iago, que lhe parecia arriscado e pueril; em vez de insinuar-lhe a suspeita pelo ouvido, meteu-lha pelos olhos”. Luís Batista converte-se assim em Iago, o alferes do general mouro, disposto a enciumar o incauto Félix, ao “afetar com a moça uma intimidade misteriosa, mas discreta, sem aparato, antes cercada de infinitas cautelas, tão hábil que ela não percebesse, mas tão claramente dissimulada que fosse direito ao coração de Félix”.

No romance seguinte, A Mão e a Luva (1874), o frouxo e apaixonado Estêvão decide morrer logo no primeiro capítulo: “Por mais aborrecível que pareça a idéia da morte, pior, muito pior que ela, é a de viver”. Estêvão foi salvo pelo esperto amigo Luís Alves, que o convenceu, dizendo-lhe que “se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha já diminuído muito o gênero humano”. Esta passagem assemelha-se à terceira cena do Primeiro Ato de Otelo. O apaixonado Rodrigo, desanimado com a partida anunciada de Desdêmona para Chipre, toma uma decisão extrema: “Vou afogar-me logo em seguida” (I will incontinently drown myself) (1.3). O alferes Iago, interessado na fortuna de Rodrigo, convence-o a vender tudo e rumar para Chipre, concluindo com este conselho encorajador: “Procure antes ser enforcado satisfazendo seu desejo a afogar-se e partir sem ela” (seek thou rather to be hanged in compassing thy joy than to be drowned and go without her) (1.3). A idéia do suicídio de um amante sem esperanças poderia ser uma simples coincidência. No entanto, no capítulo III há duas referências à representação da ópera Otelo, de Giuseppe Verdi, no Rio de Janeiro. No capítulo XIII, a governanta inglesa Mrs. Oswald parece o alferes Iago de saias. Diz o autor que ela “interpôs-se para servir aos outros, e mais ainda a si própria”. De fato, na primeira cena da peça, Iago diz ao seu amigo Rodrigo, referindo-se a Otelo: “Servindo-o, estou servindo apenas a mim mesmo” (In following him, I follow but myself) (1.1).

Em Helena (1876), o romance seguinte, há três referências a Otelo. No capítulo XIII, numa carta que não chegou a ser expedida, Helena referia-se aos que “tendo nascido sob a influência de má estrela, só têm felicidades intermitentes e mutáveis”. Otelo refere-se a Desdêmona, após a morte desta, na última cena da peça, como “jovem nascida sob má estrela” (ill-starr’d wench) (5.2). Mais adiante, no capítulo XXI, diz o autor que “quando a suspeita germina na alma, o menor incidente assume um aspecto decisivo”. Lembra uma frase de Iago em Otelo: “Ninharias leves como o ar/ são para o ciumento confirmações fortes/ como provas da Sagrada Escritura” (Trifles light as air/ Are to the jealous confirmations strong/ As proofs of holy Writ) (3.3). Finalmente, no capítulo XXV, o pai de Helena relata:

Poucos dias antes, a bordo, um engenheiro inglês que vinha do Rio Grande para esta Corte, emprestara-me um volume truncado de Shakespeare. Pouco me restava do pouco inglês que aprendi; fui soletrando como pude, e uma frase que ali achei fez-me estremecer, na ocasião, como uma profecia; recordei-a depois quando Ângela me escreveu. “Ela enganou seu pai, diz Brabantio a Otelo, há de enganar-te a ti também.”

No primeiro capítulo do romance seguinte, Iaiá Garcia (1878), o autor revela que o viúvo Luís Garcia, pai da protagonista principal, “não casara por amor nem interesse; casara porque era amado”. Da mesma forma, Otelo, referindo-se a Desdêmona, admite que “ela me amou pelos perigos que passei/ e eu a amei porque ela se comoveu com eles” (She loved me for the dangers I had pass’d,/ And I loved her that she did pity them) (1.3).

Em Quincas Borba (1891), Machado refere-se, no capítulo XL, às “castas estrelas”, lembrando uma das falas mais conhecidas de Otelo, na última cena da peça: “É a causa, é a causa, minha alma!/ Permitam-me que não a nomeie, castas estrelas” (It is the cause, it is the cause, my soul,/ Let me not name it to you, you chaste stars!) (5.2). No curto capítulo CXLIII, o autor recorre novamente a Otelo nesta descrição: “Sofia caiu com graça. Estava singularmente esbelta, vestida de amazona, corpinho tentador de justeza. Otelo exclamaria, se a visse ‘Oh! minha bela guerreira!’”. De fato, ao chegar à ilha de Chipre, em pé de guerra contra os turcos, Otelo entra em cena com sua comitiva e saúda a esposa: “Oh, minha bela guerreira!” (O my fair warrior!) (2.1).

A presença de Otelo em Dom Casmurro (1900) impressionou de tal forma a escritora norte-americana Helen Caldwell, tradutora do romance para o inglês em 1953, que ela reuniu suas impressões num livro: O Otelo Brasileiro de Machado de Assis (The Brazilian Othello of Machado de Assis). A edição original é de 1960, da University of California Press, e traz o subtítulo A Study of Dom Casmurro (Um Estudo de Dom Casmurro). O livro compara Dom Casmurro com a tragédia de Otelo. O tradutor Fábio Fonseca de Melo, na introdução de seus Agradecimentos, ressalta sua surpresa ao constatar que um livro como este “tenha ficado sem tradução no Brasil por mais de quarenta anos”. Machado não deixa claro no romance se Capitu é inocente ou culpada, o que até hoje provoca discussões apaixonadas, mas a autora é de tal forma convincente que o leitor não pode deixar de ver em Capitu uma autêntica Desdêmona brasileira e, portanto, inocente. Capitu não morre como Desdêmona, mas seu banimento assemelha-se a uma morte em vida. Machado deu ao capítulo LXII de Dom Casmurro o título de Uma Ponta de Iago, pelo ciúme sofrido por Bentinho em razão do comentário mordaz do agregado José Dias sobre Capitu: “Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não pegar um peralta da vizinhança, que case com ela…” Já no capítulo LXXII, Otelo, Desdêmona e Iago são citados nominalmente. Há ainda neste capítulo uma bela tradução machadiana da fala de Otelo mencionada acima, no parágrafo sobre Iaiá Garcia: “Ela amou o que me afligira,/ eu amei a piedade dela”. Significativamente, o título do capítulo CXXXV de Dom Casmurro é Otelo. Suas primeiras frases merecem ser reproduzidas:

Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço, ― um simples lenço! ― e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há e valem só as camisas. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia.

No romance seguinte, Esaú e Jacó (1904), o autor se pergunta, no capítulo LVIII, “como é que se matam saudades”, já que para elas “não há ferro nem fogo, corda nem veneno”, numa alusão a esta fala de um Otelo irado, ao jurar vingança contra Desdêmona: “Se existem cordas, facas,/ veneno ou fogo, ou riachos sufocantes,/ não tolerarei isso” (If there be cords, or knives,/ Poison, or fire, or suffocating streams,/ I’ll not endure it) (3.3).

No seu último romance, Memorial de Aires (1908), escreve o memorialista, numa anotação de 2 de agosto de 1888: “Nem tudo se perde nos bancos; o mesmo dinheiro, quando alguma vez se perde, muda apenas de dono”. O raciocínio é o mesmo da primeira parte desta famosa fala de Iago: “Quem furta minha bolsa, furta lixo; é algo, um nada;/ era minha, é dele e tem sido escrava de milhares;/ Mas aquele que surrupia meu bom nome/ rouba de mim o que não o enriquece/ e me torna deveras pobre” (Good name in man and woman, dear my lord,/ Is the immediate jewel of their souls:/ Who steals my purse steals trash; ’tis something, nothing;/ ’Twas mine, ’tis his, and has been slave to thousands) (3.3).

À semelhança do apaixonado Rodrigo, em Otelo, dois outros personagens dos contos machadianos pretendem a tolice de afogar-se por amor. Norberto, em Eterno!, um jovem estudante de medicina que nutre uma paixão impossível por uma baronesa, ameaça em uma carta a um amigo “atirar-se ao mar”. Já em Um Capitão de Voluntários, um dos personagens confessa: “pensei em meter-me na barca de Niterói, que primeiro acolheu os nossos amores, e, no meio da baía, atirar-me ao mar”. Pode-se ver no conto História de Uma Fita Azul alguns traços do ciúme provocado pela perda do lenço da desafortunada Desdêmona. No conto Um Esqueleto, um marido ciumento admite, à semelhança de Otelo: “Algumas aparências me enganaram”. Há outros exemplos da presença de Otelo nos demais contos, nas crônicas, nas críticas literárias e no poema Lúcia, cuja descoberta ficará a cargo do leitor curioso.

Hamlet

A presença de Hamlet na obra de Machado de Assis rivaliza-se com a do desafortunado mouro de Veneza.

No romance Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), o personagem principal assim descreve sua própria morte, no primeiro capítulo do livro: “E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego como quem se retira tarde do espetáculo”. Pois bem, as palavras undiscovered country fazem parte do famoso solilóquio “Ser ou não ser, eis a questão”. A propósito, há uma tradução de Machado de Assis deste solilóquio, na coletânea Ocidentais (1879-1880), que ele intitulou To be or not to be. A expressão undiscovered country aparece no poema machadiano como “esse eterno país misterioso”. Esta passagem volta a ser lembrada no capítulo XXIII do romance, em que ele se refere à morte como “esse duelo do ser e do não ser”. Mais adiante, uma outra expressão do solilóquio é mencionada, no capítulo LXXXIII, neste trecho: “Que me cumpria fazer? Era o caso de Hamlet: ou dobrar-me à fortuna, ou lutar com ela ou subjugá-la”.

O famoso solilóquio aparece como referência em alguns contos. Em A Mulher de Preto, Estêvão reconhece: “Eis-me na dúvida de Hamlet”. No conto Aurora Sem Dia, há a seguinte descrição do personagem Luís Tinoco: “Ele respigava nas alheias produções uma coleção de alusões e nomes literários, com que fazia as despesas de sua erudição, e não lhe era preciso, por exemplo, ter lido Shakespeare para falar do to be or not to be, do balcão de Julieta e das torturas de Otelo”. Em Uns Braços, está a expressão “dormir e talvez sonhar”. No conto Troca de Datas, Machado cita no original: That is the rub, sem traduzir a frase nem referir-se à sua origem. O elegante autor pressupõe que seu leitor leu Hamlet no original e, portanto, dispensa referências adicionais. O mesmo ocorre na crônica História de 15 Dias, em que aparece a expressão That is the question, e numa outra crônica, de 30 de dezembro de 1894, em que Machado usa a frase: Outrageous Fortune!

Em Quincas Borba, no capítulo CVI, Machado faz uma paródia de uma fala bem conhecida de Hamlet: “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar tua filosofia” (There are more things in heaven and earth, Horatio,/ Then are dreamt of in your philosophy) (1.5). Variantes desta fala aparecem no conto A Cartomante e em três crônicas machadianas.

Machado faz muitas referências a Ofélia, a namorada do príncipe Hamlet. Um de seus poemas é justamente uma paráfrase designada A Morte de Ofélia, que encerra o livro Falenas (1870). No conto A Chave, Machado cita no original a fala famosa de Laertes: Too much water hast thou, poor Ophelia! Na crítica sobre Eça de Queirós e O Primo Basílio, a jovem Ofélia é mencionada como uma “das mais castas figuras do teatro”, entre outras “eternas figuras, sobre as quais hão de repousar eternamente os olhos dos homens”.

A cena do encontro de Hamlet, Horácio e os coveiros no cemitério tamnbém mereceu muitos comentários de Machado. No capítulo CVIII do romance Esaú e Jacó, o narrador comenta: “Ainda uma vez, não há novidade nos enterros. Daí o provável tédio dos coveiros, abrindo e fechando covas todos os dias. Não cantam, como os de Hamlet, que temperam as tristezas do ofício com as trovas do mesmo ofício”. Como se sabe, a naturalidade do coveiro, que cantava enquanto trabalhava, provocou a estranheza do príncipe: “Será que este sujeito não tem consciência de seu ofício, já que canta enquanto abre uma cova?” (Has this fellow no feelings of his business, that he sings at grave-making?) (5.1). A resposta de Horácio assemelha-se a este comentário do narrador do conto Identidade: “o uso encruara naquela gente a piedade e a sensibilidade”.

Nesta cena Hamlet emociona-se ao se deparar com o crânio de Yorick, o bobo da corte. Um dos contos machadianos refere-se ao episódio e chama-se A Cena do Cemitério. Nele o narrador exclama: “_ Alas, poor Yorick! Eu o conheci, Horácio”. Numa crônica de 21 de janeiro de 1889, o autor acrescenta: “Tiro o chapéu às caveiras; gosto da respeitosa liberdade com que Hamlet fala à do bobo Yorick”. Numa crítica a Álvares de Azevedo (1831-1852), autor da Lira dos Vinte Anos, diz Machado: “O poeta fazia uma freqüente leitura de Shakespeare, e pode-se afirmar que a cena de Hamlet e Horácio, diante da caveira de Yorick, inpirou-lhe mais de uma página de versos”. Machado, um grande leitor de Shakespeare, reconheceu no jovem autor um gosto literário semelhante ao seu.

Ainda no conto A Cena do Cemitério, a passagem incorpora-se a um sonho do protagonista: “Era o enterro da Ofélia. Aqui o pesadelo foi-se tornando cada vez mais aflitivo. Vi os padres, o rei e a rainha, o séquito, o caixão. Tudo se me fez turvo e confuso. Vi a rainha deitar flores sobre a defunta. Quando o jovem Laertes saltou dentro da cova, saltei também; ali dentro atracamo-nos, esbofeteamo-nos”.

Numa crônica de 23 de abril de 1893, Machado registra o seguinte comentário sobre a resposta evasiva de Hamlet a Polônio, quando este perguntou o que o príncipe estava lendo: “Eu, se tivesse de dar o título Hamlet em língua puramente carioca, traduziria a célebre resposta do príncipe da Dinamarca Words, words, words, por esta: Boatos, boatos, boatos. Com efeito, não há outra melhor que diga o sentido do grande melancólico. Palavras, boatos, poeira, nada, coisa nenhuma”. Ou, como nesta fala do príncipe antes de morrer: “O resto é silêncio”.

Um outro poema machadiano refere-se a uma passagem da peça, quando Laertes diz ao rei que se arriscará “como o carinhoso pelicano, que entrega sua própria vida” (like the kind life-rendering pelican) (4.5). Em Versos a Corina, parte VI, diz Machado: “Pelicano do amor, dilacerei meu peito,/ E com meu próprio sangue os filhos meus aleito”.

Macbeth

Uma frase da senhora Macbeth, ao tentar aliviar as preocupações do marido, tornou-se uma das mais conhecidas da peça: “O que está feito está feito” (What’s done is done) (3.2). Machado, um leitor de Macbeth, usou esta frase em diversas ocasiões. Os exemplos mais expressivos estão nos romances. Em Helena, o doutor Camargo comenta com a frase a disposição testamentária do conselheiro Vale. Em Iaiá Garcia, a expressão serviu para o jovem Jorge consolidar sua decisão de ir à guerra do Paraguai, no capítulo II. Mais adiante, no capítulo XVI, cabe à própria Iaiá usar a frase numa discussão com a madrasta Estela.

Em outra fala bem conhecida, a senhora Macbeth, sonâmbula, tenta lavar as mãos de manchas de sangue imaginárias: “Fora, mancha maldita! Fora, já disse!” (Out, damned spot! Out, I say!) (5.1). Esta passagem também impressionou Machado, que se refere a ela, no original, no romance Iaiá Garcia, no capítulo VI, e no conto Uma Senhora. Já no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, no capítulo CXXIX, “lady Macbeth passeia à volta da sala a sua mancha de sangue”. A senhora Macbet está ainda na crítica A Nova Geração, em versos do poeta francês e ensaísta Charles Baudelaire (1821-1867).

As três feiticeiras que apareceram para o general Macbeth e seu colega Banquo, bem como a mais famosa de suas profecias “Salve, Macbeth, você será rei!” (All hail, Macbeth, that shalt be King hereafter!) (1.3) estão presentes em dois dos romances machadianos. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, ele se refere de passagem, no capítulo XV, a “uma bruxa de Shakespeare”. Em Esaú e Jacó, as promessas das feiticeiras estão devidamente parodiadas: “Ao som da música, à vista das galas, ouvia umas feiticeiras cariocas, que se pareciam com as escocesas; pelo menos, as palavras eram análogas às que saudaram Macbeth: — Salve, Batista, ex-presidente de província! — Salve, Batista, próximo presidente de província! — Salve, Batista, tu serás ministro um dia!” Já no conto Aurora Sem Dia, elas estão neste conselho: “Há de ter lido Macbeth… Cuidado com a voz das feiticeiras, meu amigo”. A profecia famosa está também no poema La Marchesa de Miramar, do livro Falenas: “Então surge dos tronos/ A profética voz que anunciava/ Ao teu crédulo esposo:/ — Tu serás rei, Macbeth!”

O fantasma do general Bânquo, que tanto assombrou Macbeth, está mencionado de passagem na crônica História de 15 Dias, na expressão “como uma sombra de Bânquo”.

Na peça original, ao comentar a escuridão da noite, Bânquo diz ao filho Fleance: “Há economia no céu;/ suas velas estão todas apagadas” (There’s husbandry in heaven,/ Their candles are all out) (2.1). Esta alusão de Bânquo está presente no conto Marcha Fúnebre: “o céu fazia economia de estrelas, apagando-as à medida que o sol ia chegando para o seu ofício”.

Romeu e Julieta

A tragédia dos desafortunados amantes de Verona é outra das predileções machadianas. Curiosamente há poucas referências a eles no romances. Em Helena, no capítulo XX, há uma vaga menção a um “Romeu de contrabando”, como sinônimo de “amante clandestino”. No Memorial de Aires há uma referência um pouco mais extensa:

A única particularidade da biografia de Fidélia é que o pai e o sogro eram inimigos políticos, chefes de partido na Paraíba do Sul. Inimizade de familías não tem impedido que moços se amem, mas é preciso ir a Verona ou alhures. E ainda os de Verona dizem comentadores que as famílias de Romeu e Julieta eram antes amigas e do mesmo partido; também dizem que nunca existiram, salvo na tradição ou somente na cabeça de Shakespeare.

É nos contos que está a presença mais expressiva do casal enamorado. Em Aurora Sem Dia, além da citação acima, no parágrafo sobre Hamlet, o jovem Luís Tinoco refere-se à amada como “a minha Julieta”. Em Curta História, logo no primeiro parágrafo, o narrador elogia o ator Rossi, “que uma noite era terrível como Otelo, outra noite meigo como Romeu”. Mais adiante neste conto está a pergunta famosa de Julieta: “Que importa um nome?” A mesma pergunta, dita de outra forma, está em Evolução, neste tradução machadiana da fala de Julieta: “Que valem nomes? perguntava ela ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, terá sempre o mesmo cheiro”. Em Letra Vencida, o autor lembra uma passagem relacionada ao jovem casal: “Enfim bateram duas horas: era o rouxinol? Era a cotovia? Romeu preparou-se para ir embora; Julieta pediu alguns minutos”. Já o conto Lágrimas de Xerxes é todo ele um curioso diálogo machadiano entre frei Lourenço e o casal de namorados, antes do casamento de ambos.

Romeu e Julieta estão presentes em três poemas de Machado, todos do livro Falenas. Na epígrafe de Quando Ela Fala, constam estes versos de uma fala de Romeu, citados no original: “She speaks!/ O speak again, bright angel!”. Em Pálida Elvira, diz nosso poeta: “Eu bem sei que é preceito dominante/ Não misturar comidas com amores;/ Mas eu não vi, nem sei se algum amante/ vive de orvalho ou pétalas de flores;/ Namorados estômagos consomem;/ Comem Romeus e Julietas comem”. Finalmente, em No Espaço, estão estes belos versos: “E o Senhor que tudo ouvira,/ Voltou os olhos imensos/ Para a alma de Romeu:/ “E tu?” — “Eu amei na vida/ Uma só vez, e subi/ Daquela cruenta lida,/ Senhor, a acolher-me em ti”.

A Violação de Lucrécia

O poema acima foi citado em pelo menos duas ocasiões. Machado inicia a crônica O Punhal de Martinha, de 1894, com uma bela síntese do poema, o mais extenso de Shakespeare:

Quereis ver o que são destinos? Escutai. Ultrajada por Sexto Tarqüínio, uma noite, Lucrécia resolve não sobreviver à desonra, mas primeiro denuncia ao marido e ao pai a aleivosia daquele hóspede, e pede-lhes que a vinguem. Eles juram vingá-la, e procuram tirá-la da aflição dizendo-lhe que só a alma é culpada, não o corpo, e que não há crime onde não houve aquiescência. A honesta moça fecha os ouvidos à consolação e ao raciocínio, e, sacando o punhal que trazia escondido, embebe-o no peito e morre. Esse punhal podia ter ficado no peito da heroína, sem que ninguém mais soubesse dele; mas, arrancado por Bruto, serviu de lábaro à revolução que fez baquear a realeza e passou o governo à aristocracia romana. Tanto bastou para que Tito Lívio lhe desse um lugar de honra na história, entre enérgicos discursos de vingança. O punhal ficou sendo clássico. Pelo duplo caráter de arma doméstica e pública, serve tanto a exaltar a virtude conjugal, como a dar força e luz à eloqüência política.

No romance Quincas Borba, no capítulo XLVI, Machado refere-se a “um céu claro, estrelado, sossegado, olímpico, tal qual presidiu às bodas de Jacó e ao suicídio de Lucrécia”.

Sonho de Uma Noite de Verão

A magia e o encanto desta sofisticada comédia, que envolve fadas e um duende desastrado, fez dela a de maior presença na obra de Machado. Em Iaiá Garcia, no capítulo XI, diz o personagem Procópio Dias que “nada se deve imputar aos dementes e aos namorados”, parodiando Teseu, o duque de Atenas, segundo o qual “os amantes e os loucos têm cérebros de tal forma ardentes,/ fantasias tão visionárias que apreendem/ o que a razão fria jamais entenderá” (Lovers and madmen have such seething brains,/ Such shaping phantasies, that apprehend/ More than cool reason ever comprehends). Em A Mão e a Luva há, no capítulo III, uma rápida referência a “uma fada de Shakespeare”.

No conto Trio em Lá Menor, o narrador compara a personagem Maria Regina com Titânia, a rainha das fadas, que se apaixona por um tecelão por artes de encantamento: “Assim Titânia, ouvindo namorada a cantiga do tecelão, admirava-lhe as belas formas, sem advertir que a cabeça era de burro”.

Tudo Está Bem Quando Acaba Bem

No romance A Mão e a Luva, a governanta inglesa Mrs. Oswald, no capítulo IV, refere-se indiretamente a esta peça: “Bem está o que bem acaba, disse um poeta nosso, homem de juízo”.

Numa crônica de 23 de abril de 1893, dia de aniversário de Shakespeare, Machado encerra assim sua crônica alusiva à data: “E acabemos aqui; acabemos com ele mesmo, que acabaremos bem. All is well that ends well”.

Na crítica intitulada O Teatro de José de Alencar, de março de 1866, Machado comenta a peça alencarina O Demônio Familiar, que ele classifica como “um protesto contra a instituição do cativeiro”, duas décadas antes de sua efetiva abolição. A certa altura, diz Machado: “A peça acaba, sem abalos nem grandes peripécias, com a volta da paz da família e da felicidade geral. All is well that ends well, como na comédia de Shakespeare”.

Rei Lear

Esta tragédia mereceu uma única referência machadiana, numa crítica denominada Castro Alves, de fevereiro de 1868, em resposta a uma carta de José de Alencar. Disse Machado sobre nosso poeta abolicionista: “Não podiam ser melhores as impressões. Achei uma vocação literária, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro”. Para um jovem poeta, que apenas completaria 21 anos no mês seguinte, foi sem dúvida um reconhecimento generoso. Sobre o drama Gonzaga ou A Revolução de Minas, que Castro Alves concluíra no ano anterior, Machado assim encerra um de seus parágrafos:

Por isso, quando no terceiro ato Luís encontra a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluços, o coração chora com ele, e a memória, se a memória pode dominar tais comoções, nos traz aos olhos a bela cena do rei Lear, carregando nos braços Cordélia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo: vê o homem.

Júlio César

A tragédia de Júlio César é mencionada em apenas duas das crônicas machadianas. Na primeira, de 23 de abril de 1893, já mencionada, Machado refere-se à “multidão, a eterna multidão forte e movediça, que execra e brada contra César, ouvindo a Bruto, e chora e aclama César, ouvindo a Antônio”. Mais tarde, num texto de novembro de 1897, referindo-se a uma espada posta em leilão, observa Machado, filosoficamente: “Como iria lá ter uma espada que pode ser a cada instante intimada a comparecer ao serviço? […] Eventualmente, pode ser útil em defender a vida ao dono. Também pode servir para que este se mate, como Bruto”.

Medida por Medida

Machado usou uma de suas falas desta comédia como prólogo de seu romance Ressurreição. Diz o autor:

Minha idéia ao escrever este livro foi pôr em ação aquele pensamento de Shakespeare:

Our doubts are traitors
And make us lose the good we oft might win,
By fearing to attempt.

Ao longo do texto machadiano, percebe-se que as “dúvidas traidoras” referem-se ao ciumento Félix, já referido.

Como Gostais

No romance Brás Cubas, o narrador cita uma fala do melancólico Jacques, personagem da comédia acima: “Que bom é estar triste e não dizer coisa nenhuma”. Machado deixou passar a a pronta resposta a este comentário, por parte da espirituosa Rosalinda: “Ora, então é bom ser um poste” (Why, then, ’tis good to be a post) (4.1).

O autor volta a se referir à peça numa crônica de 16 de setembro de 1888, traduzindo o título original As you like it por Como aprouver a Vossa Excelência. Aliás, acertadamente, já que o pronome you é de uso mais formal no teatro de Shakespeare do que o tratamento thou, equivalente ao nosso “tu”.

As Alegres Comadres de Windsor

Há uma histórica referência à ópera cômica Falstaff, baseada na comédia acima, numa crônica de 26 de março de 1893:

Confiemos em Sarah Bernhardt com todos os seus ossos e caprichos, mas com o seu gênio também. Vamos ouvir-lhe a prosa e o verso, a paixão moderna ou antiga. Confiemos no grande Falstaff. Não é poético, decerto, aquele gordo Sir John; afoga-se em amores lúbricos e vinho das Canárias. Mas tanto se tem dito dele, depois que o Verdi o pôs em música, que mui naturalmente é obra-prima.

A Comédia dos Erros

Esta divertida comédia, sobre as trapalhadas de dois gêmeos (os Antífolos) que têm criados também gêmeos (os Drômios), não passou despercebida de nosso grande romancista. É curioso que a comédia toma por base um texto do dramaturgo romano Plauto (254?-184 aC), cujo título é Menaechmi ou Os Gêmeos. No conto Identidade, cujos personagens principais são gêmeos, há uma referência a “os Drômios e os Menecmas dos poetas”. Há também uma curta referência aos Drômios na crítica O Teatro de José de Alencar.

Vida e Morte do Rei Ricardo II

O duque de Hereford, Henrique Bolingbroke., personagem desta peça histórica, aparece de passagem numa crônica de agosto de 1878, numa referência a um certo “ator Rodrigues”.

Uma expressão famosa deste personagem é “o pão amargo do exílio” (the bitter bread of banishment) (3.1), citada por Machado numa crônica de julho de 1896: “o pão do exílio é amargo e duro; força é barrá-lo com manteiga”. O dito “pão amargo” aparece também no capítulo XXVI do romance Helena.

Antônio e Cleópatra

No conto Confissões de uma Viúva Moça, diz Emílio que o “o amor que calcula, não é amor”. Na peça acima, quando Cleópatra pede a Marco Antônio que diga o quanto a ama, este responde: “Pobre é o amor que pode ser medido” (There is beggary in the love that can be reckon’d) (1.1). É possível ainda que Charmian, uma das aias de Cleópatra, tenha inspirado o nome da “bela Charmion, palmeira única, posta ao sol do Egito”, do conto Identidade.

O Mercador de Veneza

Em Veneza passa-se o Primeiro Ato de Otelo e as cenas principais de O Mercador de Veneza. É curioso que Machado, que tanto se referiu a Otelo, tenha dedicado a esta segunda peça pouco mais que uma menção a um diálogo entre Shylock e seu amigo Tubal, em que o primeiro lamenta a perda de seus preciosos ducados, no conto O Espelho.

Outras peças

A crítica acima sobre Eça de Queirós e O Primo Basílio cita, além de Ofélia, três outras personagens femininas das peças de Shakespeare. A primeira destas três é Imogene, a desventurada filha do rei na peça Cimbelino. É curioso que a grafia machadiana difere do original de Shakespeare (Imogen) e de sua tradução mais usual (Imogênia). A segunda é Miranda, a jovem filha de Próspero em A Tempestade. O selvagem habitante da ilha mágica desta peça é mencionado de passagem numa crônica de julho de 1878, na expressão “alma de Bruto no corpo de Calibã”. A terceira personagem é a destemida Viola, de Noite de Reis. Finalmente, numa crônica de 16 de setembro de 1888, já referida, Machado menciona de passagem Muito Barulho para Nada.

Um testemunho machadiano

Numa crônica de 23 de abril de 1893, Machado dá um extenso terstemunho de sua admiração por Shakespeare:

Tudo são aniversários. Que é hoje senão o dia aniversário natalício de Shakespeare? Respiremos, amigos; a poesia é um ar eternamente respirável. Miremos este grande homem; miremos as suas belas figuras, terríveis, heróicas, ternas, cômicas, melancólicas, apaixonadas, varões e matronas, donzéis e donzelas, robustos, frágeis, pálidos, e a multidão, a eterna multidão forte e movediça, que execra e brada contra César, ouvindo a Bruto, e chora e aclama César, ouvindo a Antônio, toda essa humanidade real e verdadeira. E acabemos aqui; acabemos com ele mesmo, que acabaremos bem. All is well that ends well.

Há ainda, aqui e ali, outras depoimentos generosos. Na crítica Instinto de Nacionalidade, Machado afirma que Shakespeare é “além de um gênio universal, um poeta essencialmente inglês” e, mais adiante, declara que “se há casos em que eles rompem as leis e as regras, é porque as fazem novas, é porque se chamam Shakespeare, Dante, Goethe, Camões”. No conto Tempo de Crise, afirma um personagem: “Dizem de Shakespeare que, se a humanidade perecesse, ele só poderia compô-la, pois que não deixou intacta uma fibra sequer do coração humano”.

Uma referência para as gerações futuras

Estes dois gênios da literatura universal, um essencialmente inglês e outro essencialmente brasileiro, inspiraram-se em mestres que os antecederam. Por sua originalidade, tornaram-se eles próprios referências indispensáveis para as gerações seguintes.

Cem anos depois de sua morte, reler Machado é a maior homenagem que se pode prestar a ele. Que frutifique o exemplo de Helen Caldwell, que viu nele “uma jóia que deve ser motivo de inveja para todo o mundo”, conforme registra o prefácio de sua edição americana.

Referências bibliográficas
CALDWELL, Helen. O Otelo Brasileiro de Machado de Assis. Tradução de Fábio Fonseca de Melo. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2002. 224p.
MACHADO DE ASSIS. Obra Completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986. 3 volumes.
SHAKESPEARE, William. The Complete Works of William Shakespeare. Londres: Oxford University Press, 1935. 1352p.