A Dúvida de Otelo, Mário Amora Ramos

Otelo, personagem principal da tragédia que leva seu nome, é um general mouro, a serviço de Veneza. Ele se casa com a jovem Desdêmona, filha de Brabâncio, um senador veneziano, contrariando a vontade do pai dela. Por decisão do próprio Senado, Otelo é enviado a Chipre, para defender aquela ilha contra a esquadra turca. Ainda em Veneza, Iago, um jovem alferes veneziano, sob o comando do general, é preterido numa promoção a tenente, sendo Cássio o escolhido. O invejoso Iago decide vingar-se do general e de seu novo oficial. Em Chipre, para onde se transferem os principais personagens, Iago provoca o ciúme de Otelo, insinuando um suposto romance entre Cássio e Desdêmona. Iago embriaga Cássio, que perde seu prestígio com o general, que o rebaixa de oficial a soldado. O pérfido e astuto Iago sugere a Cássio que peça a intercessão de Desdêmona junto ao invejoso Otelo. Quando Cássio conversa com Desdêmona, Iago aproveita para fazer insinuações maldosas sobre eles. Desdêmona intercede por Cássio e Otelo a acusa de estar apaixonada pelo jovem oficial. Para incriminá-la ainda mais, Iago conta a Otelo ter visto Cássio com um lenço de Desdêmona, que ela havia perdido e que fora um presente do general. Quando o desconfiado general pede o lenço a Desdêmona, ela evidentemente não pode apresentá-lo. Otelo não acredita na inocência da esposa e, finalmente, a mata, em sua própria cama. É Emília, mulher de Iago, que descobre a trama urdida por seu marido e diz a terrível verdade ao mouro: “Mataste a mais terna das inocentes/ que jamais elevou os olhos para o céu!” (For thou hast kill’d the sweetest innocent/ That ever did lift up eye) (5.2). Ao descobrir a inocência de Desdêmona, Otelo se suicida. Ironicamente, na última fala da peça sabe-se que caberá ao novo governador Cássio ordenar a execução de Iago.

Além de Otelo, há alguns outros personagens de Shakespeare que, enciumados, duvidam injustamente suas esposas, como ilustram os exemplo abaixo.

Em “As Alegres Comadres de Windsor”, Falstaff envia cartas de amor idênticas para duas senhoras casadas, esposas dos senhores Ford e Page, as quais ele tenta conquistar. O que ele não sabe é que elas se unem para dar uma lição nele. O comportamento dos maridos difere da água para o vinho. O senhor Ford é terrivelmente ciumento. Ele se disfarça como o senhor Brook, finge-se interessado em conquistar a senhora Ford e, para tanto, pede a ajuda de Falstaff. O fanfarrão Falstaff diz a Brook que não se preocupe, pois o senhor Ford não passa de um idiota, o que produz diálogos muito engraçados, como se pode imaginar. O senhor Page, por outro lado, tem total confiança em sua mulher, como se percebe nesta fala, referindo-se ao conquistador Falstaff: “Se ele tentar esta investida contra minha mulher, eu a entregaria a ele; e o que ele conseguir dela, além de palavras ásperas, que caia sobre as minha cabeça” (If he should intend this voyage towards my wife, I would turn her loose to him; and what he gets more of her than sharp words, let it lie on my head) (2.1). Tratando-se de uma comédia, tudo acaba bem, com o conquistador finalmente desmascarado.

Em “Muito Barulho por Nada”, os personagens principais são Cláudio, um jovem de Florença, e Hero, filha de Leonato, governador de Messina, capital da Sicília. Para indispor Cláudio com Hero, o pérfido Dom João, irmão bastardo de Dom Pedro, príncipe de Aragão, faz com que Cláudio e Dom Pedro assistam a um encontro entre uma criada que se faz passar por Hero e seu suposto amante, um assecla de Dom João. Cláudio desfaz o casamento no dia seguinte, já na igreja, convencido da infidelidade da noiva. Graças a um artifício sugerido por frei Francisco, que suspeita de alguma trapaça, simula-se a morte de Hero. Conforme recomenda o zeloso frei, “isto, bem conduzido, deverá, em benefício dela, transformar a calúnia em remorso” (this well carried shall on her behalf change slander to remorse) (4.1). No fim, a trama é revelada e Cláudio e Hero finalmente se casam.

Em “Cimbelino”, Póstumo Leonato está banido em Roma e elogia as virtudes da esposa Imogênia. Iachimo, um amigo do dono da casa, aposta com Póstumo que seria capaz de vencer a fidelidade de Imogênia e viaja para a Grã-Bretanha. O astuto Iachimo pede a Imogênia que guarde em seu quarto um tesouro que ele transportava numa arca. À noite, a arca é levada para o quarto de Imogênia, com Iachimo escondido no seu interior. Quando a princesa adormece, ele faz anotações detalhadas de seu quarto e de “alguns sinais físicos de seu corpo” (some natural notes about her body) (2.2) e volta a se esconder. Retornando a Roma, ele não tem dificuldades de convencer o desolado Póstumo da infidelidade da esposa. Finalmente, Póstumo e Imogênia se reencontram e tudo se esclarece.

Em “Conto de Inverno”, Leontes, rei da Sicília, é um tirano ciumento. Ele acha que sua esposa Hermíone tem um caso amoroso com Políxenes, rei da Boêmia e amigo dele, que está visitando a Sicília. Leontes manda prender a inocente Hermíone, que está grávida dele próprio. Mesmo grávida, a rainha é encarcerada. Quando nasce a filha, Leontes não a reconhece como sua e ordena ao súdito Antígono que abandone a infanta num lugar remoto fora do reino. É curioso que Antígono, numa fala dirigida ao rei, usa um argumento semelhante ao de Emília para Iago: “O senhor está sendo enganado por algum intrigante” (you are abus’d, and by some putter-on) (2.1) Dezesseis anos depois, tudo se esclarece, com a volta de Perdita, a infanta abandonada, e a reconciliação de todos.

O poema “A Violação de Lucrécia” ilustra o mais violento episódio de assédio sexual da obra de Shakespeare. É curioso que, assim como ocorre em Cimbelino, o marido de Lucrécia, Colatino, também elogia as virtudes da esposa. Segundo o poeta, Colatino não deveria ser o proclamador “daquela rica jóia que deveria manter oculta/ de ouvidos rapaces, pois lhe pertencia” (Of that rich jewel he should keep unknown/ From thievish ears, because it is his own) (versos 34 e 35). Sexto Tarquínio, filho do rei Lúcio Tarquínio, fascinado por sua beleza, hospeda-se na residência de Colatino, na ausência deste. À noite, introduz-se traiçoeiramente nos seus aposentos e a violenta, fugindo na manhã seguinte. Lucrécia revela o culpado e se mata, apunhalando-se. Os Tarquínios, em conseqüência, são punidos com expatriação perpétua.

É curioso observar que estes maridos ciumentos estão bem distribuídos ao longo de seis obras: numa tragédia (Otelo), num poema (A Violação de Lucrécia), em duas das chamada “peças finais” (Cimbelino e Conto de Inverno) e em duas comédias (As Alegres Comadres de Windsor e Muito Barulho por Nada).

Há também maridos comprovadamente traídos na extensa obra de Shakespeare, a exemplo do rei Menelau, na tragédia de “Tróilo e Créssida”. Prudentemente, o autor situa o desafortunado marido na longínqua Guerra de Troia, como ilustram as primeiras linhas do prólogo da peça:

“Em Troia transcorre nossa cena. Das ilhas da Grécia
Os príncipes orgulhosos, seu nobre sangue irritado,
Para o porto de Atenas enviaram seus navios
Carregados de ministros e instrumentos
Da cruel guerra. Sessenta e nove que usavam
Seus diademas reais da baía ateniense
Partiram em direção à Frígia, com o juramento feito
De saquear Troia, dentro de cujas fortes muralhas
A raptada Helena, mulher de Menelau,
Dorme com o voluptuoso Páris – e daí surgiu a contenda.”

(In Troy, there lies the scene. From isles of Greece
The princes orgillous, their high blood chaf’d,
Have to the port of Athens sent their ships
Fraught with the ministers and instruments
Of cruel war. Sixty and nine that wore
Their crownets regal from th’ Athenian bay
Put forth toward Phrygia; and their vow is made
To ransack Troy, within whose strong immures
The ravish’d Helen, Menelaus’ queen,
With wanton Paris sleeps-and that’s the quarrel.)

O imperador Saturnino, na tragédia de “Tito Andrônico” é também traído por Tamora, a rainha dos godos, ambos convenientemente situados em Roma.

Em “Rei Lear”, suas duas filhas mais velhas traem os respectivos maridos com o vilão Edmundo. Um deles, predestinadamente, é o Duque da Cornualha (Duke of Cornwall).

Com uma maioria de esposas injustiçadas entre seus personagens, Shakespeare deixa-nos uma importante mensagem: as dúvidas dos maridos ciumentos são, em geral, injustas. Levadas a extremos, como em “Otelo”, podem ter consequências trágicas.