A Arrogância de Hamlet, Mário Amora Ramos

Por mais que admiremos sua firme determinação de levar adiante a promessa de vingança feita ao fantasma do pai, é preciso reconhecer que Hamlet dá mostras freqüentes de ser voluntarioso, antipático e arrogante.

Nas suas duas primeiras falas na peça, Hamlet é irônico com o próprio rei. Este o chama de sobrinho e filho, já que agora está casado com a rainha Gertrudes, mãe de Hamlet. Falando à parte, Hamlet ironiza o comentário do rei: “posso ser um pouco mais parente, mas nem por isso mais simpático” (A little more than kin, and less than kind) (1.2). O rei, muito hábil, percebe o clima de animosidade e pergunta porque Hamlet ainda deixa que nuvens de tristeza pairem sobre ele. O príncipe, irônico, diz ao rei: “Estou muito exposto ao sol” (I am too much i’ th’ sun) (1.2). Mais tarde, na mesma cena, Hamlet é simpatico com seu amigo Horácio e os membros da guarda, Marcelo e Bernardo, que lhe trazem a notícia da aparição do fantasma de seu pai.

Hamlet chega a ser cruel com o velho conselheiro Polônio, com freqüentes referências desairosas à sua idade e outras impertinências (2.2). Os falsos amigos Rosencrantz e Guidenstern também sofrem um incômodo interrogatório do príncipe, nesta mesma cena.

Após a apresentação da peça que incriminou o rei, Rosencrantz e Guidenstern foram levar a Hamlet um recado da rainha: “Ela quer falar-lhe em seus aposentos antes que o senhor vá deitar-se” (She desires to speak with you in her closet ere you go to bed) (3.2). Hamlet, possivelmente irritado com o pedido, responde com o plural majestático “nós” e usa um pomposo “trade” para referir-se a “assunto”: “Nós obedeceremos, mesmo que fosse dez vezes nossa mãe. Tendes algum outro assunto para tratar conosco?” (We shall obey, were she ten times our mother. Have you any further trade with us?) (3.2).

Mais tarde, após a morte de Polônio, Hamlet menciona sua condição de “filho de um rei” e chama Rosencrantz de “esponja” (por sugar os favores reais): “Além disso, ser questionado por uma esponja! — Que resposta seria esperada do filho de um rei?” (Besides, to be demanded of a sponge! —what replication should be made by the son of a king?) (4.2).

Na cena seguinte, o príncipe voluntarioso brinca de “esconde-esconde” com o rei e seus cortesãos, até finalmente revelar que poderiam achar o corpo de Polônio “ao subir os degraus da galeria” (as you go up the stairs into the lobby) (4.3). E, bem-humorado, acrescenta: “Ele esperará até que vocês cheguem” (He will stay till ye come) (4.3).

É bem verdade que Hamlet matou Polônio acidentalmente, mas o príncipe não hesitou em condenar Rosencrantz e Guidenstern à morte. Hamlet, com a consciência em paz, revela a Horácio que aqueles dois falsos amigos erraram por terem-se colocado entre “poderosos adversários” (mighty opposites) (5.2). Estes seriam, evidentemente, Hamlet e o rei.

Na cena do enterro de Ofélia, Laertes se desespera, amaldiçoa o causador da desgraça de sua irmã e salta dentro do túmulo, para abraçar-se a ela. Hamlet aproxima-se e, insensível à dor daquele que perdeu o pai e a irmã, repreende Laertes e se apresenta como rei: “Aqui estou eu, Hamlet, da Dinamarca” (This is I, Hamlet the Dane) (5.1). Esta atitude só pode ser compreendida por esta fala posterior do príncipe: “Eu amava Ofélia. Quarenta mil irmãos, com todo seu amor, não ultrapassariam o que eu sentia por ela” (I lov’d Ophelia; forty thousand brothers/ Could not, with all their quantity of love,/ Make up my sum) (5.1). Na cena seguinte, a última da peça, ele finalmente se reconcilia com Laertes.

Hamlet é um mau exemplo para seu súditos, como Lucrécia faz ver ao sedutor Sexto Tarquínio, no poema “A Violação de Lucrécia” (The Rape of Lucrece) de Shakespeare (versos 615 e 616):

“Pois os príncipes são o espelho, a escola, o livro,
Em que os olhos do povo aprendem, lêem e se miram.”

(For princes are the glass, the school, the book,
Where subjects’ eyes do learn, do read, do look.)