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    Hamlet é uma tragédia de William Shakespeare, escrita entre 1599 e 1601.[1][2] A peça, passada na Dinamarca, reconta a história de como o Príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai Hamlet, o rei, executando seu tio Cláudio, que o envenenou e em seguida tomou o trono casando-se com a mãe de Hamlet. A peça traça um mapa do curso de vida na loucura real e na loucura fingida — do sofrimento opressivo à raiva fervorosa — e explora temas como a traição, vingança, incesto, corrupção e moralidade.
    Apesar da enorme investigação que se faz acerca do texto, o ano exato em que Shakespeare escreveu-o permanece em debate. Três primeiras versões da peça sobrevivem aos nossos dias: essas são conhecidas como o Primeiro Quarto (Q1), o Segundo Quarto (Q2) e o First Folio (F1).[a] Cada uma dessas possui linhas ou mesmo cenas que estão ausentes nas outras. Acredita-se que Shakespeare escreveu Hamlet baseado na lenda de Amleto, preservada no século XIII pelo cronista Saxo Grammaticus em seu Gesta Danorum e, mais tarde, retomada por François de Belleforest no século XVI, e numa suposta peça do teatro isabelino conhecida hoje como Ur-Hamlet.
    Dada a estrutura dramática e a profundidade de caracterização, Hamlet pode ser analisada, interpretada e debatida por diversas perspectivas. Por exemplo, os estudiosos têm se intrigado ao longo dos séculos sobre a hesitação de Hamlet em matar seu tio. Alguns encaram o ato como uma técnica de prolongar a ação do enredo, mas outros a vêem como o resultado da pressão exercida pelas complexas questões éticas e filosóficas que cercam o assassinato a sangue-frio, resultado de uma vingança calculada e um desejo frustrado. Mais recentemente, críticos psicanalísticos têm examinado a mente inconsciente de Hamlet, enquanto críticos feministas reavaliam e reabilitam o caráter de personagens como Ofélia e Gertrudes.
    Hamlet é a peça mais longa de Shakespeare, e provavelmente a que mais trabalho lhe deu,[3] mas encontrou nos tempos um espaço que a consagrou como uma da mais poderosas e influentes tragédias em língua inglesa: durante o tempo de vida de Shakespeare, a peça estava entre uma das mais populares da Inglaterra e ainda figura entre os textos mais realizados do mundo, no topo, inclusive, da lista da Royal Shakespeare Company desde 1879.[4] Escrita para o Lord Chamberlain’s Men, calcula-se que sobre Hamlet já se escreveram cerca de 80.000 volumes[5], muitos deles certamente são obras de grandes nomes que foram influenciados pela tragédia shakesperiana, como Machado e Goethe e Dickens e Joyce, além de ser considerada por muitos críticos e artistas de todo o planeta como uma obra rica, aberta, universal e muitas vezes perfeita.[6]

    Sinopse

    O protagonista de Hamlet é o Príncipe Hamlet de Dinamarca, filho do recentemente morto Rei Hamlet e sobrinho do Rei Cláudio, irmão e sucessor de seu pai. Após a morte do Rei Hamlet, Cláudio casa-se apressadamente com a então viúva Gertrudes, mãe do príncipe. Num plano de fundo, a Dinamarca está em disputa com a vizinha Noruega, e existe a expectativa de uma suposta invasão liderada pelo príncipe norueguês Fórtinbras.
    A peça abre numa noite fria do Castelo de Elsinore, o Castelo Roial Dinamarquês. Os sentinelas tentam convencer Horácio, amigo do Príncipe Hamlet, que eles têm visto o fantasma do rei morto, quando ele aparece novamente. Depois do encontro de Horácio com o Fantasma, Hamlet resolve vê-lo com seus próprios olhos. À noite, o Fantasma aparece para Hamlet. O espectro diz a Hamlet que é o espírito de seu pai morto, e revela que Cláudio o matou com um frasco venenoso, despejando o líquido em seus ouvidos. O Fantasma pede que Hamlet vingue sua morte; Hamlet concorda, com pena do espectro, decidindo fingir-se de louco para não levantar suspeitas. Ele, contudo, duvida da personalidade do fantasma. Ocupados com os assuntos do estado, Cláudio e Gertrudes tentam evitar a invasão de Fórtinbras. Um tanto preocupados com o comportamento solitário e errático de Hamlet, acrescido de seu luto profundo diante da morte do pai, eles convidam dois amigos do príncipe – Rosencrantz e Guildenstern – para descobrirem a causa da mudança de comportamento de Hamlet. Hamlet recebe os companheiros calorosamente, todavia logo discerne que eles estão contra ele.
    Polônio é o conselheiro-chefe de Cláudio; seu filho, Laertes, está indo de viagem à França, enquanto sua irmã, Ofélia é cortejada por Hamlet. Nem Polônio nem Laertes acreditam que Hamlet nutra desejos sinceros com Ofélia, e ambos alertam para ela esquecê-lo. Pouco depois, Ofélia fica alarmada pelo comportamento estranho de Hamlet e confessa ao pai que o príncipe irá ter com ela num dos aposentos do castelo, mas olha fixamente para ela e nada se diz. Polônio assume que o “êxtase do amor” é o responsável pela loucura de Hamlet, e informa isso a Cláudio e Gertrudes. Mais tarde, Hamlet discute com Ofélia e insiste para que ela vá “a um convento”.
    Hamlet continua sem saber se o espírito lhe contou a verdade, mas a chegada de uma trupe artística em Elsinore apresenta-se como uma solução para a dúvida. Ele vai montar uma peça, encenando o assassinato do pai – assim como o espectro lhe relatou – e determinar, com a ajuda de Horácio, a culpa ou a inocência de Cláudio, estudando sua reação. Toda a corte é convocada para assistir o espetáculo; Hamlet fornece comentários durante toda a encenação. Quando a cena do assassinato é realizada, Cláudio, “muito pálido, ergue-se cambaleante”, ato que Hamlet interpreta como prova de sua culpabilidade. O rei, temendo pela própria vida, bane Hamlet à Inglaterra em um pretexto, vigiado por Rosencrantz e Guildenstern, com uma carta que manda o portador ser assassinado.
    Gertrudes, “em grandíssima aflição de espírito”, chama o filho em sua câmara e pede uma explicação sensata sobre a conduta que resultou no mal-estar do rei. Durante o caminho, Hamlet encontra-se com Cláudio rezando, distraído. Hamlet hesita em matá-lo, pois raciocina que enviaria o rei ao céu, por ele estar orando. No quarto da rainha, têm um debate fervoroso. Polônio, que espia tudo atrás da tapeçaria, faz um barulho; Hamlet, acreditando ser Cláudio, dá uma estocada através do arrás e descobre Polônio morto. O Fantasma aparece, dizendo que Hamlet deve acolher sua mãe suavemente, embora volte a pedir vingança.
    Demente em luto pela morte do pai, Ofélia caminha por Elsinore cantando libertinagens. Laertes retorna da França enfurecido pela morte do pai e melancólico pela loucura da irmã. Cláudio convence Laertes que Hamlet é o único responsável pelo acontecido; e é então que chega a notícia de que o príncipe voltou à Dinamarca porque seu barco foi atacado por piratas no caminho da Inglaterra. Rapidamente Cláudio propõe a Laertes uma luta de espadas entre ele e Hamlet onde o primeiro dos dois utilizará uma espada envenenada, sendo que na ocasião será oferecido ao príncipe uma taça de vinho com veneno, se o “plano A” falhar. Até que Gertrudes interrompe a conversa dizendo que Ofélia afogou-se.
    Vemos depois dois rústicos discutindo o aparente suicídio de Ofélia num cemitério, preparando-se para cavar sua sepultura. Hamlet aparece com Horácio e se aproxima de um dos rústicos, que depois segura um crânio que conta ser de Yorick, um bobo da corte que Hamlet conheceu na infância. Quando o cortejo fúnebre de Ofélia aparece liderado por Laertes e Hamlet descobre que o rústico cavava a sepultura da moça, ele e Laertes se atracam dizendo amar Ofélia, mas o conflito é separado pelos demais.
    No regresso a Elsinore, Hamlet conta a Horácio como escapou do destino mortal que foi entregue a Rosencrantz e Guildenstern. Interrompendo a conversa, Orisco aparece para convidar o príncipe a um combate de armas brancas proposto pelo rei. Quando o exército de Fórtinbras cerca Elsinore, a competição começa e ambos os cavalheiros tomam posição. O rei, como planejou anteriormente, separa a taça envenenada e deposita dentro do líquido uma pérola, oferecendo-a a Hamlet, que deixa a bebida para depois. Hamlet vence o primeiro e o segundo assalto, e a rainha toma a taça envenenada, “bebendo a sua sorte”.
    Enquanto a mãe enxuga a face do filho, Laertes decide feri-lo com a arma envenenada. Hamlet, usando sua força, atraca-se com o inimigo e, no corpo-a-corpo, trocam as espadas. Ele penetra profundamente em Laertes o item envenenado. A rainha confessa que morre por conta do veneno, enquanto Laertes revela que o rei é o culpado de toda a infâmia. A rainha morre envenenada.
    Hamlet fere o rei com a espada envenenada, mas ele diz estar apenas machucado. Furioso, o sobrinho obriga Cláudio a beber a taça com veneno à força, e o mata, vingando a morta de seu pai. Laertes, morrendo aos poucos, despede-se de Hamlet, ambos perdoam-se. Quando é a vez de Hamlet, Horácio diz que será fiel ao príncipe morrendo junto com ele, mas o primeiro não permite, tombando para trás e dizendo que a eleição cairá certamente em Fórtinbras. Hamlet morre, dizendo “O resto é silêncio.” Fórtinbras invade o castelo com seu exército e ordena que “quatro capitães conduzam Hamlet como um soldado, para o catafalco”. Os soldados carregam o corpo do príncipe; soa a marcha fúnebre, e depois uma salva de canhões.

    Fontes textuais

    São identificadas muitas fontes antigas para o texto de Hamlet. A primeira trata-se de Hrólfs saga kraka, uma saga legendária da Escandinávia. Nela, o rei assassinado tem dois filhos—Hroar e Helgi—que passam a maior parte da história disfarçados sob nomes falsos, ao invés de fingirem estarem numa condição de loucura—e é nisso que o texto difere-se do Hamlet de Shakespeare, onde o príncipe fingi-se louco.[10] O segundo é a lenda romana de Brutus, registrada em dois trabalhos latinos diferentes. O herói, Lúcio (“iluminado, luz”), muda seu nome para Brutus (“estúpido”, “bravo”), mudando também sua personalidade, passando a ser “idiota” para evitar o destino de seu pai e irmãos, acabando por degolar o assassino de sua família, o Rei Tarquinius. Torfaeus, um estudioso nórdico do século XVII, comparou o herói Amlodi e o herói espanhol Príncipe Ambales (da Saga de Ambales) ao Hamlet de Shakespeare. As semelhanças entre os textos, pelo menos, são bastante óbvias: a falsa loucura do príncipe, seu abate acidental diante do conselheiro do rei no quarto da mãe, e o eventual assassinato do tio.[11]
    A maioria dos primeiros elementos legendários foram entrelaçados no Vita Amlethi (“A Vida de Amleto”) que data do século XIII, de Saxo Grammaticus, fazendo parte do Gesta Danorum.[12] Escrito em latim, o texto reflete o conceito clássico da Roma acerca da virtude e do heroísmo, e foi amplamente estudado na época de Shakespeare.[13] Os principais paralelos no enredo são a loucura fingida do príncipe, o casamento apressado de sua mãe com o usurpador, o assassinato que o príncipe comete em um espião escondido, e a sorte que ele adquire ao se esquivar da morte e fazer com que outros dois morram em seu lugar. Uma versão fiel e moderada da história de Saxo foi traduzida na França em 1570 por François de Belleforest, em seu Histoires Tragiques.[14] Belleforest, em seu trabalho de tradução, embelezou a obra de Saxo, além de dobrar o tamanho do texto, e introduzir um elemento que, com certeza, Shakespeare usaria posteriormente: a melancolia do herói.[15]
    Contudo, a teoria popular diz que a principal fonte do dramaturgo inglês foi uma peça – hoje perdida – conhecida como Ur-Hamlet. Provavelmente escrita por Thomas Kyd, Ur-Hamlet foi encenada pela primeira vez em 1589 e a primeira versão conhecida da história incorpora um personagem-fantasma.[16] A companhia de Shakespeare, a Chamberlain’s Men, talvez tenha adquirido a peça e encenado uma versão na mesma época, de modo que Shakespeare, que começou sua carreira literária revisando e difundindo textos de outros autores,[17] retrabalhou em cima do enredo.[18] Embora não exista nenhuma cópia de Ur-Hamlet viva hoje, é impossível comparar seu estilo e linguagem com as obras conhecidas de qualquer autor. Consecutivamente, não há evidências de que Kyd a escreveu, tampouco evidências de que a obra não foi uma primeira versão da Hamlet do próprio Shakespeare. Essa recente idéia – que coloca Hamlet como mais recente do que a data geralmente aceita, com um longo período de desenvolvimento – tem atraído alguns suportes, conquanto outros estudiosos desmentem essa especulação.[19]
    Concluindo, os estudiosos não possuem domínio com qualquer confidência que prove que Shakespeare se inspirou em alguma coisa do enredo de Ur-Hamlet (afinal, não se sabem nem se o documento realmente existiu), ou do enredo de Belleforest ou Saxo, ou com qualquer outra fonte contemporânea dele. Não existem evidências claras de que Shakespeare construiu alguma referência direta com a versão de Saxo. Contudo, os elementos da versão de Belleforest aparecem na peça de Shakespeare, mas elas não estão presentes na história do Saxo. Se Shakespeare pegou esses elementos diretamente de Belleforest ou do resto de Ur-Hamlet, isto é incerto.[20]
    Muitos estudiosos rejeitam a idéia de que Hamlet tem alguma conexão com o único filho de Shakespeare, Hamnet Shakespeare, que morreu em 1596 com apenas onze anos de idade. Ao contrário disto, a sabedoria convencional prega que Hamlet tem uma óbvia conexão com a lenda, e que o nome Hamnet era bastante popular naquela época.[21] No entanto, Stephen Greenblatt argumenta acerca da coincidência dos nomes, dizendo que a tristeza de Shakespeare perante a perda do filho talvez o tenha inspirado na criação da tragédia. Greenblatt reforça que o nome de Hamnet Sadler, o vizinho stratfordiano em que o nome Hamnet foi inspirado, tinha seu nome escrito às vezes como “Hamlet Sadler” e que, na delicada ortografia daquela época, os nomes eram constantemente permutáveis.[22] O próprio Shakespeare escreveu o primeiro nome de Sadler como “Hamlett” em seu testamento.[23]

    Data

    “Qualquer data que se fizer de Hamlet deve ser provisória”, advertiu Phillip Edwards, editor do New Cambridge.[24] A estimativa da data mais recente analisa que Hamlet possui freqüentes alusões à Júlio César, que data de 1599.[25] Em contrapartida, a data mais tardia é baseada na entrada da peça em 26 de julho de 1602 no Stationers’ Register, indicando que Hamlet foi encenada pelo Lord Chamberlain Men.
    Em 1598, Francis Meres publicou em seu Palladis Tamia um levantamento da literatura inglesa de Chaucer a sua época, dentro do qual doze peças de Shakespeare são citadas, mas Hamlet não está entre as peças, o que sugere que ela não havia sido escrita até então. Como o texto era muito popular, Bernard Lott, em New Swan, acredita ter sido “pouco provável que ele [Meres] tenha ignorado uma peça tão importante.”[26] A frase “filhotes de falcão” [27], no First Folio (F1) como “little eyases”, talvez seja uma alusão a uma trupe de atores infantis que atuava na época de Shakespeare e, como a trupe tornou-se famosa em 1601, alguns acreditam que Hamlet pode ter sido produzida por essa data.[26]
    Um contemporâneo de Shakespeare, Gabriel Harvey, escreveu uma nota marginal em sua edição de 1598 das obras de Chaucer, edição muito utilizada por alguns estudiosos para datar Hamlet. A nota de Havery afirma que é “uma forma sensata” apreciar Hamlet, e implica que o Conde de Essex – executado em fevereiro de 1601 por uma rebelião – ainda estava vivo. Outros estudiosos consideram isso inconclusivo. Edwards, por exemplo, conclui que o “sentido da época da nota de Havery é tão confuso, que ela é pouco usada na tentativa de datar Hamlet.” Isso ocorre porque a mesma nota faz referência a Spenser e Watson como se eles também estivessem vivos (dizendo “nossos métricos florescentes”); contudo, a nota menciona o “novo epigrama de John Owen”, publicado somente em 1607.[28]

    Textos

    Três primeiras edições do texto sobreviveram aos nossos dias fazendo tentativas de estabelecer um único texto autêntico.[29] Cada edição difere da outra em algum ponto:

      • Primeiro Quarto (Q1): Em 1603, foi publicado e impresso os chamados “maus” primeiros quartos. O Q1 contém um pouco mais da metade do texto depois do segundo quarto.

     

      • Segundo Quarto (Q2): Nicholas Ling publicou em 1604, e James Robert imprimiu. Algumas cópias datam de 1605, o que pode indicar uma segunda impressão; consecutivamente, o Q2 é datado de “1604/5″. A Q2 é a maior edição, embora omita 85 linhas encontradas na F1 (muito provavelmente para não ofender Ana de Dinamarca, a rainha de Jaime I de Inglaterra).[30]

     

      • First Folio (F1): Em 1623, William Jaggard e Edward Blount publicaram o First Folio, a primeira edição dos Trabalhos Completos de Shakespeare.[31]

     

     

    Os primeiros editores dos trabalhos de Shakespeare combinaram o material das duas primeiras fontes de Hamlet disponível naquele tempo, a Q2 e a F1. Cada texto contém algum elemento que o outro carece, com algumas pequenas diferenças na formulação: 200 linhas são praticamente idênticas nos dois. Os editores combinaram em criar um texto que refletisse e imaginasse o “ideal” do original de Shakespeare. A versão de Theobald tornou-se estandarte por um longo tempo,[32] e seu “texto completo” continua a influenciar a prática editorial nos dias de hoje. Alguns estudiosos contemporâneos, contudo, desconsideram essa abordagem, considerando-a “um Hamlet autêntico num ideal irrealizado… existem textos dessa peça, mas nenhum texto.”[33] A publicação de 2006 por Arden Shakespeare dos diferentes textos de Hamlet em diferentes volumes é provavelmente a melhor prova dessa deslocação de foco e ênfase.[34]
    Rowe, em 1709, foi quem elaborou uma lista de personagens da peça pela primeira vez, quando os textos do Q1, do Q2 e do F1 não traziam nenhuma relação.[35] Tradicionalmente, os editores de Shakespeare têm dividido o texto em cinco atos. Nenhum dos primeiros textos de Hamlet, contudo, foi organizado dessa forma, e a divisão da peça em atos e cenas deriva de um quarto de 1676. Os editores modernos geralmente seguem essa divisão, mas a consideram insatisfatória; por exemplo, quando Hamlet arrasta o corpo de Polônio fora do quarto de Getrudes, há uma interrupção, que alguns estudiosos consideram não muito feliz, pois quebra intempestivamente a ação. Dessa forma, dizem que a cena III.4 deveria continuar até o fim de IV.1[36]
    A descoberta do Q1 em 1823 — cuja existência havia sido bastante suspeita — causou grande interesse e entusiasmo, o que levanta muitas questões de interpretação e prática editorial. Os estudiosos logo notaram aparentes deficiências no Q1, que foram essenciais para o desenvolvimento do conceito de um “mau quarto”.[37] Apesar disso tudo, o Q1 possui valor: contém indicações de palco que revelam atuais práticas de encenação que o Q2 e o F1 não possuem; e também contém uma cena inteira (normalmente rotulada como 4,6) que não aparece em nenhuma parte do Q2 ou do F1; e isso se mostra bastante útil na sua comparação com edições posteriores.[37]
    O Q1 é consideravelmente menor que o Q2 ou o F1 e pode ser uma reconstrução memorial de como a peça foi encenada pela companhia de Shakespeare.[38] Os estudiosos discordam entre si quando debatem se essa reconstrução não foi uma edição pirateada ou autorizada. Outra teoria, considerada pelo editor Kathleen Irace, sustenta a idéia de que o Q1 é uma versão que tem a intenção especial de produções de viagem.[39][40] A idéia de que a Q1 não é crivada de erro, e sim uma versão eminentemente própria para o palco e para a fala dos atores, levou (desde 1881) a pelo menos 28 diferentes produções baseadas em seu texto.[41]

    Análise crítica

    Contexto histórico

    Desde o início do século XVII, a peça era famosa por seus personagens fantasmas e pela vívida dramatização da melancolia e da insanidade, o que levou uma procissão de nobres da corte a ir assisti-la durante a Era Jacobina e a Era Carolina.[42] Apesar de ter permanecido com uma audiência considerável, no final do século XVII os críticos da Restauração inglesa enxergavam Hamlet como uma peça primitiva e reprovaram seu estilo.[43] Essa visão mudou radicalmente a partir do século XVIII, o século seguinte, quando os críticos começaram a considerar Hamlet um herói puro, um jovem de idéias brilhantes e um homem em circunstâncias adversas.[44] Em meados do século XVIII, contudo, o advento da literatura gótica trouxe uma leitura psicológica e mística sobre Hamlet, recolocando a loucura e o fantasma da peça para a ribalta.[45] Até os finais deste século os teatrólogos e profissionais envolvidos no teatro começaram a ver Hamlet como confuso e inconsistente. Até então, ele era ora louco, ora lúcido; ora um herói, ora um fracassado.[46] Estes desenvolvimentos representaram uma mudança fundamental na crítica literária, que veio a se concentrar mais no personagem, em detrimento da trama.[47] O século XIX trouxe o Romantismo e, com ele, críticos e dramaturgos que valorizavam Hamlet como um indivíduo infernal, conturbado, que reflete um conflito contemporâneo de lutas internas e interiores, num caráter aberto e amplo.[48] Depois, os críticos se atentaram a focar na demora de Hamlet em matar seu tio como uma característica do personagem, ao invés de um elemento do enredo.[47] Essa atenção ao caráter do personagem e sua luta interna continuou na entrada do século XX, quando a crítica abordou Hamlet sob vários ângulos, discutindo sua temática e interpretação (que serão apresentadas no próximo capítulo).

    Estrutura dramática

    Em um período onde muitas peças eram apresentadas com duas horas de duração ou menos, o texto integral de Shakespeare possui 4.042 linhas, totalizando 29.551 palavras engendradas em cinco atos (é a peça mais longa de Shakespeare)[3] — ou seja, leva-se mais de quatro horas para encená-la fielmente.[50] Hamlet também contém um dos dispositivos mais favoritos de Shakespeare: o teatro no teatro.[51] Dramaticamente, desde o início da obra (a cena de abertura do castelo imperial) existe um clima de tensão que irá tomar conta de todo o resto do enredo da peça. Logo após isso, essa atmosfera ainda misteriosa fica um tanto mais clara com o aparecimento do Fantasma do pai de Hamlet.[6] De forma resumida, podemos dizer que Hamlet afastou-se da convenção dramática de sua época sob várias maneiras: primeiro, na época de Shakespeare, as peças eram usualmente baseadas no ensinamento da Poética de Aristóteles: “o drama precisa focar em sua ação, não em seu personagem.”[52] Em Hamlet, no entanto, Shakespeare reverte essa técnica, substituindo as ações pelos solilóquios como meio de explicar para o público os pensamentos e os motivos de Hamlet; Segundo (e ao contrário de outras peças shakesperianas, com exceção de Otelo): não existe nenhum sub-enredo forte, sendo que todos os enredos se entrelaçam diretamente para a veia principal do enredo mais importante, a tentativa de Hamlet vingar seu pai. No entanto, esses sub-enredos, embora não possuam uma presença visivelmente definida, são diversas vezes selecionados de forma simples pelos críticos: o antagonismo de Hamlet e seu tio Cláudio, seus conflitos com a mãe, sua paixão pela infeliz Ofélia, o relacionamento de Ofélia com o irmão Laertes e o de Laertes com o pai Polônio.[6] Dentro desse caleidoscópio de sentimentos e embates psicológicos, a peça está cheia de irregularidades e descontinuidades em suas ações, principalmente no sub-enredo de antagonismo entre o príncipe e o atual rei: num dado momento, como na cena do coveiro,[9] Hamlet parece estar resolvido a matar Cláudio, mas na próxima cena, contudo, quando Cláudio aparece, ele se encontra subitamente manso.[53] Os estudiosos de Shakespeare ainda debatem se estes entrelaçamentos são enganos ou adiantamentos intencionais a acrescentar à temática da peça (confusão e dualidade).[53] Certos estudiosos acreditam que tal estrutura dramática tenha sido o principal fator de sucesso mundial dessa peça shakesperiana que, segundo eles, fascina todo tipo de platéia (desde a que procura o teatro como mera diversão até a que busca formas de pensamento mais profundas).[6]

    Linguagem

    Grande parte da linguagem da peça é lisonjeira: elaborada, com discurso espirituoso, como recomendado por Baldassare Castiglione em 1528 em seu guia cerimonial The Courtier. Esse trabalho, especificamente, aconselha os retentores reais a divertirem os seus senhores com uma linguagem inventiva. Orisco e Polônio, por exemplo, que são dois empregados, parecem respeitar essa injunção. O discurso de Cláudio é rico em figuras retóricas – como acontece também com Hamlet e, às vezes, com Ofélia – enquanto a linguagem de Horácio, dos Guardas e dos Rústicos é simples. O status alto de Cláudio é reforçado pelo uso da primeira pessoa do plural (“nós” ou “nos”), e com o uso da anáfora misturada com a metáfora para ressonar com os discursos políticos da Grécia antiga.[54]
    Hamlet é o personagem da retórica mais qualificada: ele usa metáforas altamente desenvolvidas com esticomitias, e, em memoráveis palavras, implanta tanto a anáfora como o assíndeto: “morrer: dormir— / Dormir… talvez sonhar”.[56] Em contrapartida, quando a ocasião manda, ele é simples e preciso, quando explica sua emoção introspectiva para a mãe: “[…] Os trajes de costumeiros de solene preto / Rajadas de suspiros no forçado alento /[57] […] Porém eu tenho isto que sinto no interior, / E excede o aspecto, e os trajes e hábitos de dor.” [58] Outras vezes, contudo, Hamlet está fortemente dependente dos trocadilhos para expressar seus verdadeiros pensamentos e simultaneamente para camuflar-los.[59] Suas observações a respeito de “convento”[49] dirigidas para Ofélia são um exemplo de duplo sentido para a palavra conventilho, bordel.[60][61] As primeiras palavras de Hamlet na peça também são trocadilhos; quando Cláudio se dirige a ele como “meu parente e meu filho…”, Hamlet, à parte, responde: “Algo mais que parente, e menos do que filho”.[57] Desse trocadilho (no original como a little more than kin, and less than kind) pode-se entender, entre outras exegeses, que Hamlet considera Cláudio algo mais do que parente, “já que casastes com a minha mãe e, portanto, sois meu pai”, mas “sou menos do que filho, porque esse casamento é incestuoso”; ou ainda: “porque não tenho sentimentos filiais para convosco”.[62]
    Outro elemento retórico, um tanto raro, aparece em vários lugares na peça: o endiades. Exemplos podem ser encontrados nas falas de Ofélia no final da “cena do convento”: “Do guerreiro, a esperança e flor do belo Estado, o espelho da elegância e o molde da etiqueta, o alvo das deferências, como decaiu!”; “E eu, entre as damas a mais triste e infortunada […]“.[63] Muitos estudiosos têm achado curioso e estranho que Shakespeare, aparentemente de forma arbitrária, tenha usado essa forma retórica durante toda a peça. Uma das explicações é que Hamlet foi escrita na maturidade de Shakespeare, quando ele era adepto dos elementos retóricos como meios de se preencher os personagens e o enredo. O lingüista George T. Wright sugere que o endiades tinha sido utilizado por Shakespeare como meio de aumentar a sensação de dualidade e deslocamento da peça.[64]
    Os solilóquios de Hamlet também têm capturado a atenção dos estudiosos: Hamlet às vezes se interrompe, xingando-se, concordando ou discordando de si mesmo, e embelezando suas próprias palavras. Ele tem dificuldades em expressar-se diretamente em vez de ser abrupto com a orientação de seus pensamentos. Só no decorrer da peça, após sua experiência com os piratas,[65] que Hamlet é capaz de se articular melhor e discursar mais livremente.[66]

    Temática e interpretação

    O poeta e tradutor brasileiro Péricles Eugênio da Silva Ramos considerou a peça — em sua tradução de Hamlet — como “[uma] obra rica, [que] permite as mais diversas interpretações e as apreciações mais extremadas.”[6] De fato, desde a realização de Hamlet, há mais de quatro séculos, Shakespeare conseguiu produzir uma obra que abriu diversas discussões em torno de seu enredo e de suas personagens, onde alguns a consideram como indestrutível e, além disso, fundamental para a compreensão do ser humano.[68] Hamlet adequou-se em ramos e áreas humanas com abrangência inédita para uma obra teatral, sendo estudada sob as óticas da ideologia, simbologia, hermenêutica, sociologia, etc.[69]
    O prestígio inicial de Hamlet deu-se no século XIX com o advindo do Romantismo — período que presenciou a origem de estudos mais profundos e mais sérios acerca das obras de Shakespeare — e a popularidade da peça lhe ajudou a entrar no século XX (que lhe doou as compreensões mais abrangentes e as mais tradicionais) com ainda mais vigor, permitindo a ela dar novas roupagens e também contribuições de novos elementos aos variados mecanismos que o século passado se preocupou em criar ou em desenvolver.[70] Portanto, não é de se espantar que a peça adquiriu um grande histórico no que diz respeito a suas interpretações, que foram feitas por grandes nomes da literatura, da ciência e da filosofia, abrangendo desde a religião até a psicanálise, como mostraremos a seguir:

    Religião

    Escrita numa época de turbulência religiosa, e no despertar da Reforma Inglesa, Hamlet é alternadamente Católica (ou supersticiosamente medieval) e Protestante (ou conscientemente moderna): o fantasma do Rei Hamlet diz que está no purgatório e morrendo sem últimos sacramentos.[72] Isso e a cerimônia fúnebre de Ofélia,[73] que é caracteristicamente católica, perfazem a maior parte da conexão do Catolicismo com o enredo da peça. Certos estudiosos têm observado que as tragédias de vingança surgem em países tradicionalmente católicos, como a Espanha e a Itália; e, no entanto, isso é um paradoxo, visto que a doutrina católica prega o dever para com a família e com Deus. O dilema de Hamlet, então, é se vingar de seu pai matando Cláudio, ou deixar a vingança nas mãos de Deus, como exige sua religião.[74]
    Grande parte do Protestantismo de Hamlet resulta provavelmente em sua localização na Dinamarca – que era desde o tempo de Shakespeare predominantemente um país protestante, embora não esteja claro se a localização ficcional da peça nesse país esteja realmente destinada a esse fato. A obra faz menção a Wittenberg, onde Hamlet, Horácio e Rosencrantz e Guildenstern frequentaram universidades, e em que Martinho Lutero pregou pela primeira vez suas 95 teses.[75] Quando Hamlet diz que “há uma iniludível providência na queda de um pardal.”[76] ele reflete a idéia protestante de que a vontade de Deus – Divina Providência – controla até mesmo o menor evento.[77] Diferentemente, no Q1 a mesma passagem aparece da seguinte forma: “Há uma providência predestinada na queda de um pardal.”[78], o que sugere uma ligação ainda mais forte com o protestante João Calvino, através da doutrina da predestinação. Certos estudiosos estimam que essa passagem tenha sido censurada, pois só aparece em Q1.[79]

    Filosofia

    Hamlet é frequentemente encarado como um personagem filosófico, que expôs idéias agora conhecidas como relativistas, existencialistas e céticas. Por exemplo, ele expressa uma idéia relativista quando se dirige para Rosencrantz e diz: “nada é bom ou mau, a não ser por força do pensamento”.[80] A idéia de que nada é mau, exceto na mente do indivíduo, encontra suas raízes nos gregos sofistas, crentes de que, uma vez que nada pode ser percebido exceto através dos sentidos – e uma vez que todas as pessoas sentem e, portanto, percebem as coisas de maneira diferentemente entre si – não há verdade absoluta, apenas a verdade relativa sobre as coisas.[81] O exemplo mais claro do existencialismo, contudo, só está por vir, no célebre e famoso monólogo da tragédia:

    “Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
    Em nosso espírito sofrer pedras e setas
    Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
    Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
    E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
    Dizer que rematamos com um sono a angústia
    E as mil pelejas naturais-herança do homem:
    Morrer para dormir… é uma consumação
    Que bem merece e desejamos com fervor […]“[82]

    Os críticos acreditam que Hamlet usa “ser” para aludir à vida e à ação, e “não ser” aludindo para a morte e a inércia.[83][84] Com a palavra “consumação”, os críticos acreditam que Shakespeare cita o francês Michel de Montaigne: If it be a consummation of ones being, it is also an amendemente and entrance into a long and quiet life. Wee finge nothing so sweete in life, as a quiet rest and gentle sleep, and without dreams.[85] Sendo consummation, no original, anéantissement, isto é, aniquilação, o verso shakesperiano faz alusão a conclusão, a um final que é um atingimento, uma coroação.[86] Na língua portuguesa, consumar também cumpre o sentido de “tudo está consumado” (concluído) ou “consumou-se o intento” (realizou-se, cumpriu-se).[86]
    Os estudiosos acreditam que Hamlet reflete o ceticismo contemporâneo prevalecido no Humanismo Renascentista.[87] Anteriormente à época de Shakespeare, os humanistas argumentaram que o homem era a maior criação de Deus, feito à imagem divina, e capaz de escolher sua própria natureza, mas essa tese foi contestada notavelmente em Ensaios (1950), de Montaigne. A frase “Que obra de arte é um homem”,[88] que vem de Hamlet, ecoa muitas idéias de Montaigne, mas os estudiosos discordam se Shakespeare realmente citou o ensaísta da França ou se isso não passa de coincidência, onde ambos reagiram semelhantemente diante do espírito da época.[89]

    Política

    No início do século XVII, a prática da sátira política ficou totalmente desencorajada pelo fato de os dramaturgos correrem o risco de serem punidos por trabalhos “ofensivos”. Em 1597, por exemplo, Ben Jonson foi preso por sua colaboração na obra A Ilha de Cães.[90] Thomas Middleton, em 1624, ficou encarcerado enquanto sua peça Um Jogo de Xadrez foi banida após nove encenações.[91]
    Numerosos estudiosos crêem que o impulso divertido de Polônio em Hamlet vem seguramente do falecido William Cecil (Lorde Burghley) — tesoureiro e conselheiro-chefe de Isabel I de Inglaterra — onde eles encontram inúmeros paralelos. O primeiro é que Polônio é um estadista ancião num cargo semelhante ao do Lord Bourghley.[92] Ainda nesse raciocínio, os diversos conselhos que Polônio entrega a seu filho Laertes são muito parecidos ao do Lord Burghley para seu filho.[93] Os estudiosos também chamam a atenção para a verbosidade entediante de Polônio, que dizem ser semelhante a de Burghley. [94] Além disso, “Corambis” (o nome de Polônio em Q1) ressoa com o latim “duplo coração”, que talvez satirize o mote do Lorde, que era Cor unum, via una de Cecil (“Um coração, um caminho”).[95] Finalmente, a relação da filha de Polônio, Ofélia, com o nobre Hamlet, pode ser comparada com a relação da filha de Lord Burghley, Anne Cecil, com Eduardo de Vero.[96] Esses argumentos também oferecem um suporte para o debate da autoria de William Shakespeare, e principalmente para a visão oxfordiana.[97] No entanto, Shakespeare esquivou-se da censura e, longe de ser reprimido, tudo indica que Hamlet recebeu um Imprimatur na Inglaterra, bem como um brasão de armas.[98]

    Psicanálise

    Desde o surgimento da psicanálise em finais do século XIX, Hamlet tem sido a fonte de tais estudos, e experimentou análises – realizadas por nomes como Sigmund Freud, Ernest Jones e também Jacques Lacan – que influenciaram produções teatrais posteriores.
    Em seu A Interpretação dos Sonhos (1899), Freud utiliza uma variedade de obras literárias para entender e explicar o comportamento das ações humanas. Talvez a mais conhecida seja a tragédia Édipo Rei, de Sófocles, onde Freud encontra a essência do que viria a chamar de complexo de Édipo, complexo que parece estar intimamente presente no príncipe Hamlet.[99] Nos estudos de Freud, Hamlet complementou o que faltava em Édipo Rei, ou seja, lhe entregou aquela intenção de explicar um desejo que não coloca o sujeito necessariamente na ação, mas, ao contrário, o impede.[100] Assim, embora Freud tenha dado o nome de Complexo de Édipo, talvez como um modo de ser fiel àquilo que mais precocemente foi concebido na história cultural da humanidade, é Hamlet que se encontra mais consistente em suas idéias.[c] Após essas análises, Sigmund conclui que “Hamlet encontra-se impossibilitado de realizar a vingança da morte do pai, tendo em vista que o assassinato deste, na verdade, atualiza seus desejos infantis reprimidos — ou seja, matar o pai e ficar com sua mulher.”[101] Confrontado com sua repressão psicológica, Hamlet se dá conta de que “ele próprio não está em estado melhor do que o pecador que ele quer punir.”[102] Freud sugere que o aparente desgosto sexual de Hamlet, articulado na cena onde ele diz para Ofélia ir a um “convento de freiras”[103] tem consonância com essa interpretação.[104]
    Enquanto o príncipe não mata seu tio e não vinga a morte do pai, ele conduz vários outros personagens à morte. Um deles, o conselheiro Polônio, é assassinado pela espada de Hamlet, que não demonstra qualquer culpa no ato: “Adeus, mísero tolo, intruso e temerário! Tomei-te por alguém mais alto; aceita a sorte/ Bem vês que há algum perigo em ser intrometido.”[105] Nessa ocasião, há a interpretação de que Polônio, por ser um dos personagens de figura paterna na peça, poderia remeter Hamlet a seu próprio pai, mas isso não ocorre.[101] É por meio desse exemplo, do assassinato de Polônio, que Freud discorda de Goethe — defensor da tese de que a hesitação do príncipe se deve sobretudo por causa de sua inclinação à racionalização —, mostrando-lhe que Hamlet é capaz de matar alguém, exceto seu tio, pelo motivo do completo de Édipo. Talvez a proximidade entre a ação de Cláudio e o desejo de Hamlet seja o fator que impede este de matar aquele. [106] Concluindo, Freud crê que a hesitação de Hamlet em realizar a tarefa da qual foi incumbido se deve à natureza da mesma tarefa, isto é, ele precisaria vingar o pai matando seu assassino mas, infelizmente, esse assassino (o tio Cláudio) lhe reflete seus impulsos infantis e isso faz com que Hamlet não se vingue.[107] Desta forma, os fatores que impedem o assassinato de Cláudio por Hamlet seria sua identificação com o tio e o medo de praticar uma ação injusta e imoral com a figura paterna que este lhe representa.[107] Posteriormente, o ator John Barrymore introduziu essas explicações freudianas em sua marcante produção de 1922 em Nova Iorque, que se prolongou por 101 noites.
    Em 1940, Ernest Jones — psicanalista e biógrafo de Freud — desenvolveu as idéias freudianas introduzindo uma série de ensaios que culminaram em seu livro Hamlet and Oedipus (1949). Influenciado pelas abordagens psicanalistas de Jones, inúmeras produções têm retratado a “cena do closet”, quando Hamlet confronta sua mãe na câmara dela,[108] em uma função sexual. Sob essa leitura, Hamlet está desgostoso por sua relação incestuosa com Cláudio enquanto simultaneamente está temeroso de matá-lo, e isso fica claro quando ele conduz sua mãe para a cama, consolando-a. A loucura de Ofélia após a morte do pai também pode ser lida através de lentes freudianas como uma reação à morte de alguém que esperava seu amor, o pai dela. Ela está tão saturada de ter seu amor não-cumprido por ele que terminou de forma abrupta que acaba se entregando à insanidade.[109] Em 1937, Laurence Olivier realizou Hamlet no Old Vic sob as perspectivas de Jones.[110]
    Na década de 1950, as teorias estruturalistas de Lacan sobre Hamlet foram apresentadas pela primeira vez em uma série de seminários dados em Paris e logo depois publicadas em O Desejo e a Interpretação do Desejo em Hamlet. Lacan estipula que a psique humana é determinada por estruturas de linguagem e que, consecutivamente, as estruturas lingüísticas de Hamlet lançam luz sobre a ânsia humana.[111] O ponto de partida de Lacan foram as teorias do complexo de Édipo de Freud, e também o tema central de luto que é exercido pelo príncipe Hamlet.[111] Na análise de Lacan, Hamlet, inconscientemente, assume o papel de falo — a causa de sua inércia — e está cada vez mais distanciado da realidade por conta do “luto, da fantasia, do narcisismo e da psicose”, que criaram buracos (ou “faltas”) nos aspectos reais, imaginários e simbólicas de sua psique.[111] As teorias de Lacan influenciaram a crítica literária de Hamlet porque utilizaram visões alternativas da peça e o uso da semântica para explorar o panorama psicológico da obra.[111]

    Feminismo

    Durante o século XX, críticos feministas abriram novas abordagens acerca das personagens Gertrudes e Ofélia. Os novos historiadores e críticos do materialismo cultural examinaram a peça segundo seus contextos históricos, tentando juntar a cultura original do meio ambiente da peça.[113] Eles se focam para o papel social de gênero da Inglaterra na idade moderna, apontando para a trindade comum da empregada, da esposa ou da viúva, com as prostitutas sozinhas fora do estereótipo. Dentro dessa análise, a essência de Hamlet é no enredo central de que Hamlet não aceita o novo casamento da mãe e a vê como uma prostituta por causa de sua incapacidade de manter-se fiel ao Rei Hamlet, seu falecido marido. Em consequência, segundo os feministas, Hamlet passa a perder sua fé diante de todas as mulheres, tratando Ofélia como se ela fosse desonesta feito uma prostituta. De acordo com certos críticos, Ofélia pode ser honesta e justa, contudo; no entanto, é praticamente impossível associar essas duas características, uma vez que “justiça” é um traço da aparência, do exterior, enquanto que a “honestidade” é um traço interior de cada sujeito.[114]
    O ensaio Mãe de Hamlet (1957), de Carolyn Heilbrun, defende Gertrudes, argumentando que o texto da peça nunca afirmou que a rainha soubesse do envenenamento do Rei Hamlet por parte de Cláudio. Esta análise tem sido defendida por muitos outros críticos, principalmente os feministas. Heilbrun diz que os homens, há séculos, têm seguido a visão do príncipe a respeito de sua mãe, ao invés de entenderem os motivos dados pela própria rainha. Desse modo, não há evidências de que Gertrudes praticou adultério: ela meramente teve que se adaptar às circunstâncias diante da morte de seu esposo para o bem de todo o reino.[115]
    Ofélia, por sua vez, tem sido defendida por críticos de todos os tipos, notavelmente por mulheres que, além de críticas teatrais e literárias, são feministas.[116] Sob esse ângulo, a personagem é cercada de homens poderosos que possuem algum significado em sua própria vida (seu pai, seu irmão e Hamlet), mas todos os três desaparecem (Polônio morre, Laertes viaja, Hamlet abandona-a), fazendo com que algumas teorias convencionais digam que, sem esses três homens importantes para tomar decisões em seu lugar, Ofélia dirigi-se gradativamente à loucura.[117] Os críticos feministas apontam que ela ficou louca e sentiu-se culpada porque, quando Hamlet assassinou seu pai, ele cumpriu o desejo sexual dela de, tirando Polônio do caminho, poderem ficar juntos. Alguns críticos consideram que Ofélia tornou-se – inexata e inadequadamente – o símbolo da mulher histérica e distraída na cultura moderna.[118]

    Influência

    Hamlet é uma das obras mais citadas da literatura inglesa, e é frequentemente incluída na lista de grandes trabalhos literários.[119] Como tal, tem influenciado a escrita de diversos autores através dos séculos. O acadêmico Laurie Osborne identifica a direta influência de Hamlet em inúmeras narrativas modernas, e as divide em quatro principais categorias: contabilidade fictícia da composição da peça, adaptação do enredo para leitores infantis, ampliação ou diminuição de algumas personagens da peça, e narrações destacando atuações da peça.[120]
    Tom Jones, de Henry Fielding, publicado em 1749, descreve uma visita feita por Tom Jones e Mr. Partridge a Hamlet, com similaridades com o recurso “teatro no teatro”.[121] Em contraste, o bildungsroman Wilhelm Meisters Lehrjahre de Goethe, escrito entre 1776 e 1796, não só tem um núcleo semelhante ao de Hamlet como também cria um paralelo entre o Fantasma e o pai morto do personagem Wilhelm Meister.[121] Na década de 1850, em Pierre: or, The Ambiguities, Herman Melville foca-se em Hamlet como um personagem de longo desenvolvimento como escritor.[121] Dez anos depois, o Great Expectations de Dickens contém muitos elementos parecidos com Hamlet: ele é impulsionado por vingança através de ações motivadas, e também possui personagens-fantasmas, além de focar na culpa do herói.[121] O acadêmico Alexander Welsh nota que Great Expectations é uma “novela autobiográfica” e “antecipa leituras psicanalíticas de Hamlet em si.”[122]
    Machado de Assis, um grande admirador de Shakespeare,[e] utilizou a tragédia hamletiana em inúmeros escritos de sua autoria: mais popularmente, no conto A Cartomante há a frase “Há mais coisas entre o céu a terra do que supõe nossa vã filosofia”[123] logo na primeira linha, que conduziu a história através desse discurso.[124] Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o primeiro fantástico e realista do Brasil e, consecutivamente, revolucionário, o personagem-narrador cita o príncipe Hamlet para falar de sua morte no capítulo primeiro: “Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country[125] de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado o trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo.”[126]
    Na década de 1920, James Joyce coordenou “uma versão mais otimista” de Hamlet — despojada de obsessão e vingança — em Ulysses, embora o paralelo principal é com a Odisséia de Homero.[121] Na década de 1990, duas romancistas mulheres foram explicitamente influenciadas por Hamlet. Em Wise Children, de Angela Carter, Ser ou não ser é retrabalhado como uma música e uma dança rotineira, e, em The Black Prince, de Iris Murdoch, há temas como o do complexo de Édipo e do assassinato, entrelaçados com Hamlet.[127]

    História das encenações

    De Shakespeare a Restauração

    Como Richard Burbage era o ator das tragédias do Lord Chamberlain’s Men, com uma capacidade de memória muito grande e uma veia trágica, acredita-se que Shakespeare escreveu o papel de Hamler para ele.[128][129] A julgar pelo número de reimpressões, Hamlet aparece como a quarta peça mais popular de Shakespeare durante seu tempo de vida – somente Henrique VI Parte 1, Ricardo III e Péricles o passaram.[130] Shakespeare não providenciou nenhuma indicação de quando sua peça foi encenada; contudo, como os atores isabelinos encenavam no Globe com vestimentas contemporâneas no mínimo de aparelhagem, isso não teria afetado as encenações.[131]
    São escassas as evidências específicas sobre as primeiras encenações da peça. No entanto, o que se sabe é que a tripulação do barco Red Dragon, ancorado em Serra Leoa, executou Hamlet em setembro de 1607;[132] sabe-se também que a peça excursionou pela Alemanha depois de cinco anos da morte de Shakespeare;[133] e que, por último, foi encenada antes de Jaime I em 1619 e Charles I em 1637.[134] Alguns editores, como George Hibbard, argumentam que, uma vez que a literatura contemporânea contém muitas alusões e referências a Hamlet (somente Falstaff é mencionado mais, em Shakespeare) a obra foi realizada com uma frequência que falta no registro histórico.[135]
    Todos os teatros ingleses foram fechados pelo governo puritano durante o Interregno Inglês.[136] Mesmo durante esse tempo, contudo, atores conhecidos como drolls realizaram peças ilegalmente, incluindo uma chamada Os Coveiros, baseada no Ato 5, Cena 1 de Hamlet.[137]

    Restauração e século XVIII

    A peça foi reaproveitada na Restauração. Quando chegou a pré-guerra civil inglesa e as peças foram divididas entre as duas empresas recém-criadas para ser definido o teatro com patente, Hamlet foi o único favorito shakesperiano que a companhia teatral Duke’s Company, de William Davenant, garantiu.[138]
    Por conta disso, Hamlet tornou-se a primeira das peças de Shakespeare a serem apresentadas com planícies pintadas e móveis com um genérico cenário atrás do proscênio no Teatro Lincoln’s Inn Fields.[139] Esta nova convenção de palco ressaltou a freqüência com que Shakespeare desloca o local dramático, encorajando as recorrentes críticas sobre sua violação do princípio neoclássico de manter a unidade do espaço.[140] Davenant lançou Thomas Betterton no papel epinômino, e ele continuou a encenar Dane até ele ter 74 anos.[141] David Garrick produziu uma versão que adaptou a elevação de Shakespeare, declarando: “eu não gostaria de deixar o palco até que livrar a notável peça de toda a insignificância do quinto ato. Eu tive que retirar a cena dos coveiros, a aparição de Orisco e a competição de esgrima entre Laertes e Hamlet”.[142] O primeiro ator a interpretar Hamlet na América do Norte foi Lewis Hallam. Jr., numa produção da Companhia Americana de 1759, na Filadélfia.[143]
    A estréia de John Philip Kemble no Teatro Drury Lane foi como Hamlet, em 1783.[144] Sua performance era para ser dita por mais 20 minutos do que qualquer outra, e suas prolongadas pausas provocaram a sugestão de que “a música de ser tocada entre as palavras.”[145] Sarah Siddons foi a primeira atriz conhecida a encenar Hamlet, uma vez que muitas mulheres interpretavam-no em papéis com roupas masculinas[146]Em 1748, Alexander Sumarokov escreveu uma adaptação russa que focava no Príncipe Hamlet como o resumo de uma oposição à tirania de Cláudio – um tratamento que ocorreu novamente em outras versões do Ocidente europeu na entrada do século XX.[147] Nos anos que se seguiram a Independência americana, Thomas Abthorpe Cooper, o jovem líder da tragédia nacional, encenou Hamlet no meio de outras peças na Filadélfia e em Nova Iorque. Embora criticado por “memorização inadequada de algumas linhas”, ele tornou-se uma celebridade nacional.[148]

    Hamlet no século XIX

    Por volta de 1810 a 1840, as mais famosas encenações shakesperianas nos Estados Unidos foram realizadas em viagens teatrais lideradas por atores londrinos, incluindo Junius Brutus Booth. Booth merece destaque não só por ter continuado sua carreira nos EUA, mas porque também produziu dois dos mais notórios atores da nação: John Wilkes Booth (que mais tarde assassinaria Abraham Lincoln) e um dos mais famosos Hamlet, Edwin Booth.[149] O Hamlet de Edwin Booth é descrito como “igual ao obscuro, louco, sonhador, misterioso herói de um poema… [agiu] de uma maneira idealizadora, como se afastasse do possível plano da vida real.”[150] Booth encenou Hamlet por 100 noites entre 1864/5, inaugurando a era de longas apresentações shakesperianas nos Estados Unidos.[151]
    No Reino Unido, atores-administradores da Era vitoriana (incluindo Kean, Macready, e Henry Irving) encenaram Shakespeare de formas variadas, elaborando cenários e costumes.[152] A tendência dos atores destacarem a importância de seu próprio personagem (especial e principalmente de Hamlet) ainda não encontrava aprovações dos críticos. George Bernard Shaw, louvando a performance de um outro ator, deu uma “bofetada” na de Irving (que vinha fazendo encenações no Teatro Lyceum): “A história da peça foi perfeitamente compreensível, e levou bastante a atenção da platéia sobre os momentos de aparição da personagem principal. E o que o Lyceum anda a encenar?”[153]
    Em Londres, Edmund Kean foi o primeiro Hamlet a abandonar os enfeites reais usualmente associados ao papel em favor de uma simples fantasia, e ele disse ter se surpreendido com a audiência apesar de seu Hamlet sério e introspectivo.[154] Em um contraponto gritante com as primeiras opulências, a produção sobre o texto do Q1, por William Poel em 1881, foi uma tentativa de reconstruir a austeridade dos teatros isabelinos, onde seu cenário era apenas um conjunto de cortinas vermelhas.[155] Sarah Bernhardt encenou o príncipe em sua popular produção londrina de 1899. Em contraste com a visão “afeminada” do personagem central que geralmente acompanhava um elenco feminino, ela descreveu seu Hamlet como “firme e melancólico, mas nem por isso pensativo… [ele] pensa antes de agir, uma característica que indica sua grande força e seu grande poder espiritual.”[156]
    Em França, Charles Kemble iniciou um trabalho que sustentaria uma mania por Shakespeare, e liderou membros do Movimento Romântico – como Victor Hugo e Alexandre Dumas – a assistir sua performance de Hamlet em Paris em 1827, onde o destaque foi para a Ofélia de Harriet Smithson.[157] Na Alemanha, Hamlet tinha se tornado tão popular em meados do século XIX que Ferdinand Freiligrath declarou certa vez: “A Alemanha é Hamlet”.[158] A partir de 1850, o teatro persiano produziu Hamlet dentro de suas tradição indianas, com dezenas de músicas adicionadas dentre a peça, e com encenações folclóricas.[159]

    Hamlet no século XX e no século XXI

    Além de muitas trupes ocidentais visitarem o Japão no século XIX, a primeira encenação profissional de Hamlet em território japonês partiu de Otojiro Kawakami, em 1903.[160] Shoyo Tsubouchi traduziu Hamlet e produziu uma performance em 1911 que misturou Shingeki (“novo drama”) com estilos típicos do Kabuki.[160] A produção de Hamlet (1948) no Brasil, no Teatro Fênix, encenada e atuada pelo renomado Sérgio Cardoso, talvez tenha sido a primeira encenação da peça em território brasileiro. A produção tornou-se popular e conquistou crítica e público.[161] O impacto dessa produção foi a interpretação inovadora de Sérgio Cardoso, citada como atenciosa na construção da personagem, num tempo em que os atores brasileiros acreditavam no talento nato.[162] Cardoso trabalharia novamente em Hamlet oito anos depois, onde Décio de Almeida Prado diria: “[…] todos estes anos não se passaram em vão”.[163]
    Hamlet muitas vezes foi e ainda continua sendo encenada com tons políticos contemporâneos: a produção de 1926, do alemão Leopold Jessner, no Teatro Berlin Staatstheater, retratou a corte do personagem Cláudio como uma paródia da corte de Guilherme II.[164] Na Polônia, o número de produções de Hamlet obteve uma tendência a dar destaque aos temas políticos da peça, desde que esses temas políticos – crimes suspeitos, golpes, vigilância – pudessem ser utilizados para comentar uma situação da época.[165] Da mesma forma, alguns diretores da República Checa têm usado a peça nos momentos de ocupação: uma produção de 1941 do Teatro Vinohrady, segundo alguns autores, “destacou, com a devida cautela, a situação de um intelectual indefeso tentando sobreviver em um ambiente sem piedade”.[166] Na China, algumas performances de Hamlet tiveram importância política: The Usurper of State Power (1916), de Gu Wuwei, uma amálgama de Hamlet e Macbeth, foi uma crítica a determinados militares que desejavam derrubar a república do país.[167] No rescaldo do colapso dos protestos de 1989 na Praça da Paz Celestial, Lin Zhaohua encenou um Hamlet em 1990 onde o príncipe era um indivíduo ordinário torturado por uma perda de sentido. Nesta produção, os atores encenaram Hamlet, Cláudio e Polônio mudando os papéis nos momentos cruciais da performance, incluindo o momento da morte de Cláudio, ponto onde o ator associado a Hamlet havia caído no chão.[167]
    Notáveis encenações em Londres e em Nova Iorque incluem a produção de Barrymore de 1925: ela influenciou as performances de John Gielgud e Laurence Olivier.[168][169] Gielgud atuou no papel principal durante um bom tempo: sua produção de 1936 em Nova Iorque levou-o a realizar 136 performances, fazendo com que fosse considerado o melhor intérprete do papel desde Barrymore.[170] A produção de 1937 no Old Vic Theatre, com Olivier no elenco, foi aclamada pelo público mas não pelos críticos: um crítico teatral do The Sunday Times escreveu certa vez: “Mr. Olivier não fala poesia de forma ruim. Ele não fala nada sobre ela.”[171] Em 1963, foi a vez de Olivier dirigir Hamlet, e trabalhou com Peter O’Toole (que era o príncipe).
    Com efeito, Hamlet é a peça mais produzida de Shakespeare: somente em Nova Iorque, ela possui sessenta e quatro produções encenadas na Broadway e um número incontável na Off-Broadway.[172] No século XIX, esses números aumentam cada vez mais. No Brasil, uma recente produção de Wagner Moura — que já vinha fazendo sucesso com o personagem Capitão Nascimento em Tropa de Elite —, dirigida por Aderbal Freire Filho, destacou o lado cômico da peça[173] e realizou uma versão menos poética e mais apropriada para a fala do atores em cena.[174]

    Desempenhos no cinema

    A primeira adaptação de Hamlet que fez sucesso na tela foi o filme produzido em 1900 de cinco minutos de Sarah Bernhardt, que apresentava a cena da competição.[175] A música do filme e as falas foram gravadas em gravações fonográficas para serem encenadas ao longo das cenas.[176] Versões mudas foram realizadas em 1907, 1908, 1910, 1913 e em 1917.[176] Em 1920, Asta Nielsen encenou Hamlet como uma mulher que gasta sua vida disfarçada de homem.[176] O film noir Hamlet (1948), de Laurence Olivier, ganhou o Oscar de melhor fotografia e de melhor ator. Gamlet (Russo: ??????), de 1964, é um filme russo, baseado na tradução de Boris Pasternak e estrelando Innokenty Smoktunovsky no papel do príncipe.[177] Por sua performance, Smoktunovsky ganhou um elogio de Laurence Olivier. John Gielgud e Kenneth Branagh, dois experts de Shakespeare, consideram esse trabalho como a rendição definitiva do conto trágico de Shakespeare.[178] Gielgud dirigiu Richard Burton no Lunt-Fontanne Theater em 1964-5 e essa performance acabou inspirando uma obra cinematográfica.[179] Tony Richardson dirigiu Marianne Faithfull como Ofélia em sua versão de 1969.
    Posteriormente, outros atores como Kenneth Branagh e Mel Gibson também dirigiram ou atuaram adaptações cinematográficas de Hamlet. Branagh adaptou, dirigiu e estrelou uma extensa versão de 1996, que continha todas as palavras da peça shakesperiana, combinando o material dos textos do F1 e do Q2, e o resultado foi quatro horas de filme.[180] Em 2000, Michael Almereyda adaptou a história para os tempos contemporâneos, onde ela se passa em Manhattan, e Ethan Hawke encena um Hamlet que estuda cinema.[181]

    Edições

    A língua portuguesa conta com uma ampla bibliografia de Hamlet. Mesmo nos dias atuais ainda se fazem traduções da tragédia shakesperiana, como é o caso de Hamlet (2003) em tradução do brasileiro Elvio Funck. As versões mais antigas, contudo, são importantes para se verificar como as traduções de Shakespeare em português às vezes não seguem o texto-fonte e, adquirindo um estilo peculiar, substituem freqüentemente seus versos por prosa: isso ocorre com o primeiro conjunto de publicações de Shakespeare para o português, traduzidas por Luís I de Portugal que, além de assinar Hamlet (1877),[ii] também trabalhou em cima de O Mercador de Veneza (1879), Ricardo III (1880) e Otelo, o Mouro de Veneza (1885).[182]
    Recentemente, a tradição estabelecida por Luís I é aproveitada, desde 2001, na série Shakespeare para o século XXI, do Departamento de Estudos Anglo Americanos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que possui associação com a editora Campo das Letras, onde acadêmicos especializados traduzem as obras sob o parâmetro do registro em prosa.[183] Antes da edição de Luís I, porém, a Fundação Biblioteca Nacional data uma versão em português de 1871, sob o título de Hamleto, principe da Dinamarca, tragedia em cinco actos, embora não informe o tradutor, deixando apenas o conhecimento de que foi impressa e lançada no Rio de Janeiro.[184] A partir das traduções do Rei e a do Rio, muitas outras se seguiram. De acordo com a Biblioteca Nacional de Portugal, existiu uma edição de 1887 com um estudo crítico da peça, assinada por José António de Freitas.[iii]
    De fato, a tradução versificada dos versos dramáticos de Shakespeare encontram poucos adeptos em Portugal: certos pesquisadores encontram apenas dois títulos relevantes fora desse costume, como é o caso de Sonho d’uma noite de São João (1874), traduzida por Visconde António Feliciano de Castilho, e Júlio César (1925), por Luís Cardim.[183] Ainda na estratégia formal da prosa, o Brasil conta com tradutores de Shakespeare que são importantes nomes das letras nacionais, como Millôr Fernandes (que fez uma tradução em 1984),[vi] Geraldo Carneiro e Paulo Mendes Campos.[183] Fora da estratégia prosaica, há alguns tradutores brasileiros que seguem os versos shakesperianos, como é o caso de Artur de Sales, Geir Campos e também Péricles Eugênio da Silva Ramos (sendo esse verbete baseado em sua tradução de 1976).[183]

     

    Lista de edições em português

    Abaixo podemos encontrar uma lista de edições em língua portuguesa de Hamlet, realizada por tradutores de Portugal e do Brasil, abrangendo tanto trabalhos recentes como trabalhos antigos. A lista abaixo se baseia em dados da Biblioteca Nacional de Portugal e da Fundação Biblioteca Nacional. Se quiser analisar uma relação mais completa, pode se dirigir à página virtual dessas duas instituições.[185]

      • Ramos, Péricles (trad.), Hamlet, ed. 1976. Abril S.A Cultural e Industrial, São Paulo.

     

      • Shakespeare, William, 1564-1616; Pato, Bulhão, 1829-1912, trad., Hamlet. Lisboa : Typ. da Academia Real das Sciências, 1879

     

      • SHAKESPEARE, W. Hamlet, tradução de Millôr Fernandes. São Paulo, Editora Peixoto Neto, 2004.

     

      • — (trad.), Hamlet, ed. 2007 Editora Universo dos Livros. ISBN 978-85-99187-45-6

     

      • A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca/ Shakespeare; trad. e pref. José Blanc de Portugal, [Lisboa : Editorial Presença, 1967] ( Porto : — Tip. Nunes)

     

      • Shakespeare, William, 1564-1616; Freitas, José António de, 1849-1931, trad., Hamlet, Lisboa : J. Rodrigues, 1912

     

      • Funck, Élvio Antônio (trad.), Hamlet, São Leopoldo, RS : Ed. UNISINOS, 2003. ISBN 85-7431-164-2

     

      • Luís I de Portugal (trad.), Hamlet, Drama em cinco actos, Lisboa: Imprensa Nacional, 1877

     

      • Shakespeare, William, 1564-1616; Freitas, José António de, 1849-1931, trad., Lisboa : J. Rodrigues, 1912

     

      • Fernandes, Millôr (trad.), Hamlet, 1984. Pocket Editora. ISBN 85-254-0611-2

     

     

    Referências

    Comentários

    a. ^ Quarto: é um termo (usado na idade moderna) na impressão, que se refere ao tamanho de um livro, geralmente impresso sobre duas faces de grandes folhas de papel, medindo 23 cm por 30 cm, aproximadamente o tamanho da maioria das revistas de hoje em dia.

    b. ^ Repare como em Q1 está escrito To be, or not to be, I there’s the point, enquanto que no F1 podemos encontrar: To be, or not to be: That’s the question. Isso apenas comprova como o texto do Q1 não é inteiramente parecido com o do F1 e nem com o dos outros.

    c. ^ Tomando em consideração que Sófocles é de uma época muito anterior da de Shakespeare, Freud pretendia representar suas concepções acerca do Complexo de Édipo dando esse nome em homenagem à peça deste dramaturgo grego antigo, como meio de registrar a consciência mais antiga da humanidade a respeito do complexo. Fora isso, contudo,

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