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Inicial Fórum Discussão Geral Discussão Geral sobre Shakespeare A Liberdade de Shakespeare

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    por Rafael Antonio Blanco

    Propomo-nos a buscar em que sentido William Shakespeare alcançou à liberdade, apesar de ter vivido num momento histórico em que vigoravam as noções absolutas. Para tal, escolhemos como marco teórico a obra de Stephen Greenblatt e da escola conhecida como Novo Historicismo para mapear as diversas variáveis em jogo. É importante, então, delinearmos as características principais dessa escola (I) o  que nos fornecerá maior clareza de análise. Em um segundo momento, após algumas considerações sobre a Inglaterra de seu tempo, veremos em que sentido Shakespeare buscou se ver livre das principais ideias sobre o belo então vigentes (II). Veremos também brevemente como a questão da autoridade foi pensada por Shakespeare e em que sentido livrar-se ou submeter-se à autoridade pode dar azo a uma vida autônoma (III). Então nos voltaremos mais profundamente para a questão da autonomia e do status da liberdade artística (IV), em Shakespeare. À guisa de conclusão analisaremos à noção grega de daemon (V) que pode lançar luz aos caráteres inspirados e prosaicos da produção de Shakespeare.

    I) Marco Teórico: O Novo Historicismo

     

    O Novo Historicismo é uma escola de teoria literária nascida nos EUA no final da década de 80, que busca compreender uma obra de arte literária através do contexto peculiar da cultura e tempo em que a obra surgiu. Para isso, assume-se a interdisciplinaridade como fundamental. As fronteiras entre arte, filosofia, política, antropologia, literatura e economia tornam-se incertas, e o teórico deve manter-se aberto para diversos vieses distintos. A grande influência do Novo Historicismo reside no que ficou conhecido como Teoria Crítica, ou Escola de Frankfurt, que teve no texto de Max Horkheimer, Teoria Tradicional e Teoria Crítica (1937) a sua certidão de nascimento como uma das mais influentes escolas de pensamento do Séc. XX.

    Apesar de ter no marxismo a inspiração para embasar suas interpretações políticas, o Novo Historicismo se distancia desse ao negar-se a ver à literatura como manifestação da superestrutura econômica de um determinado tempo. Assim, destilam-se às influências de um determinado texto e autor para todas as áreas do conhecimento. A literatura detém, incrustada em si, os elementos das Instituições e convenções sociais que estão disponíveis ao autor em sua época. Os textos “sub-literários” e os textos históricos tornam-se importantes chaves de leitura para as grandes obras, pois dão a ver as diferentes influências culturais disponíveis ao autor. Ao intuir essa rede de influências enraizada na cultura de um determinado momento histórico, sem que um conjunto de obras ou apenas uma obra se sobressaia e torne-se um cânon, pairando totalmente acima das demais obras, o Novo Historicismo também recebe influência decisiva do pós-modernismo.

    Outra influência decisiva do Novo Historicismo é a escola inglesa conhecida como Materialismo Cultural. A principal divergência ideológica, talvez, é que o Novo Historicismo privilegiará a análise dos dominantes de uma determinada época histórica, por exemplo, os monarcas, a igreja, as classes altas, enquanto que o Materialismo Cultural baseia-se, em geral, na estrutura mais baixa da sociedade: pessoas e grupos marginalizados, a classe mais pobre, etc.

    A última das influências facilmente mapeável dentro do Novo Historicismo é a influência de Michel Foucault. Este teórico francês interessou-se, sobretudo, por questões de poder e epistemologia, subjetividade e ideologia, que são preocupações fundamentais para a escola estadunidense. A noção de episteme de Foucault também exerceu influência. Episteme, palavra grega para Ciência ou Conhecimento, torna-se, no vocabulário de Foucault o “inconsciente epistemológico” de uma época, ou seja, são as ideias fundamentais que norteiam tacitamente o pensamento científico de uma época. Podemos fazer um paralelo da episteme de Foucault com a noção de paradigma de Thomas Kuhn, porém, em vez daquela se manter restrita a uma determinada ciência, busca englobar todas as ciências de uma época.

     

    II) A Inglaterra absolutista de Shakespeare e as Ideias do Belo

     

    A Inglaterra dos dias de Shakespeare viveu um momento de consolidação de ideias absolutistas que pareciam antigas, mas que, de fato, receberam roupagens novas. A mudança de eixo da autoridade do Papa para a autoridade do texto bíblico e da fé impôs-se como fator alterador de toda a vida social do país. Inspirados por Calvino, os teólogos anglicanos asseveravam que os mortais não podiam de qualquer forma negociar com Deus, e Suas decisões eram irrevogáveis, não submetidas a nenhuma lei, etc. A doutrina que via no Rei ou Rainha o próprio desígnio de Deus e a autoridade absoluta buscava-se desesperadamente se fortalecer, mesmo que essa autoridade absoluta de fato não existisse, já que o parlamento limitava frequentemente a soberania monárquica. À ideia de um Deus absoluto soma-se à ideia de um monarca absoluto e assim vários outros tipos de absolutos ganham força: amor, fé, graça, redenção, etc. Shakespeare com certeza cresceu ouvindo sobre Deus Todo Poderoso, danação eterna, fé solitária, etc. porém, em geral, podemos dizer que sua obra dá mostras de um acentuado ceticismo em relação à qualquer espécie de noção de absoluto. Podemos ver nitidamente que quando os personagens shakespearianos acreditam em algo de ilimitado, inevitavelmente eles são levados ao erro e à angústia, porque a todo o momento os limites devem ser reconhecidos.

    Vamos explorar alguns dos dispositivos utilizados por Shakespeare para alcançar a individualização de seus personagens. Individualização, nesse caso, é a característica de se manter avesso aos padrões culturais vigentes num determinado momento histórico. Veremos em que extensão Shakespeare criou a individualidade partindo das normas culturais partilhadas pelo seu tempo.

    Um dos mais influentes juízos sobre o belo em voga no tempo de Shakespeare era o ilustrado pelas palavras de Leon Battista Alberti que, em A Arte de Construir diz: “é a harmonia de todas as partes dentro de um corpo, tanto que nada pode ser adicionado, nada retirado, ou alterado, exceto para o pior”. Em vez da peculiaridade e da especificidade, a harmonia e a inter-relação de todas as partes de um todo. Quaisquer adições supérfluas são consideradas ornamentos: “A Beleza é uma propriedade inerente, encontrada em toda extensão do corpo que pode ser chamado de bonito; enquanto o ornamento, em vez de ser inerente, tem o caráter de alguma coisa anexada ou adicional.” As frases de Alberti ajudam-nos a ilustrar muito do pensamento predominante da época do Renascimento em relação ao objeto artístico e suas concepções do belo. Podemos rastrear a busca pela harmonia interna na obra de arte até, pelo menos, Santo Tomás de Aquino que propôs que as qualidades necessárias para se atingir o ideal de beleza são três: integritas, consonantia e claritas. Conceitos que os Renascentistas estavam ainda profundamente atrelados.

    As celebrações da beleza, em Shakespeare, quase sempre violam a falta de especificidades e ornamentos como predizia o ideal cultural de sua época. Com isso, Shakespeare alcança à identidade, a distinção, o único. Shakespeare fez deliberado uso de marcas como verrugas, cicatrizes, sinais de nascença, etc. para distinguir seus personagens do ideal e assim assumir o risco de tocar o âmbito do tabu que emerge do que é feio. Assim como o feio, todos os aspectos que decorrem de uma beleza “marcada” são explorados: algo de estranho, idiossincrático, imperfeito que de forma alguma se adequam às expectativas. Adicionando e retirando ornamentos à revelia de suas peças e sonetos, Shakespeare pairou acima dos limites convencionais do belo. A beleza dos seus personagens advém exatamente da individualização e por conseguinte da violação das regras que o ideal estético em voga estipulava. Notemos, por exemplo, o Soneto 22:

     

    “My glass shall not persuade me I am old

    So long as youth and thou are of one date;

    But when in thee time´s furrows I behold,

    Then look I death my days should expiate.

     

    (“Meu espelho não me dirá que envelheço,

    Enquanto tenhas a mesma idade e juventude;

    Mas quando em ti vejo o sulco do tempo,

    Sinto que a morte expiará meus dias.”)

     

    Aqui as marcas no rosto do amigo representam à própria mortalidade, nos dando indicativos que Shakespeare adotava como padrão de beleza e juventude o não marcado, porém, fez uso ostensivo das marcas para indicar um desvio perante a norma.

    Ao reconhecer sua mulher Hermione, tida como morta, Leontes, em O Conto de Inverno diz:

     

    “Hermione was not so much wrinkled, nothing

    So agèd as this seems” (5.3.27-29)

     

    (“Hermíone não tinha tantas rugas;

    não tinha a idade que aparenta agora”)

     

    Mais uma vez, as marcas são características fundamentais de individualização. Nada mais avesso ao ideal Renascentista do belo.

     

    III) Shakespeare e a Autoridade

     

    Ao contrário da tomada de posição empreendida, por exemplo, por seu amigo pessoal Christopher Marlowe contra a violência monárquica à serviço da tomada do poder, Shakespeare sem dúvida compreendeu que a violência era um dos principais mecanismos da troca de regime político. Apesar de tratar a questão do suposto poder supra terreno dos governantes com aguda ironia, Shakespeare não endossou nenhum princípio geral de resistência. Assimilando uma ideia defendida por exemplo por Thomas Starkey, que propunha que só é possível assegurar o bem estar, dignidade e liberdades dos cidadãos em cidades e estados que escolhessem seus governantes através do voto, Shakespeare buscou capturar à experiência democrática da Roma antiga e da Veneza de seus tempos.

    Outra característica que salta aos olhos quando analisamos as peças de Shakespeare, é que os personagens que demandam poder quase ilimitado, que têm a vontade determinada em alcançar o controle sobre um grande números de outros indivíduos acabam por serem, digamos, amaldiçoados por esta ambição. Pensemos por um instante em Macbeth, que mesmo confrontado com fortes dilemas morais, como, por exemplo:

     

    “Who should against his murderer shut the door,

    Not bear the knife myself” (1.7.15-16)

     

    (“que devera fechar a porta a seus assaltadores,

    não levantar contra ele a minha faca”)

     

    Macbeth leva, mesmo assim, a cabo seu intento mas é condenado à viver miseravelmente seus últimos dias, assistindo à sua mulher tornar-se louca e seu império convulsionar-se em rebeliões que selarão seus dias.

    Mas o tema que parece ter fascinado Shakespeare quando se trata de autoridade foi o da tentativa de alguém já investido no poder tentar livrar-se de suas amarras. Tanto Ricardo III quanto Antônio e Cleópatra, Coriolano e Rei Lear debruçam-se minuciosamente no desastre da abdicação de poder por quem o detém. Em todos os casos, também, quem busca empreender tal disparate parece receber uma maldição inconteste. Qualquer personagem que lida diretamente com a esfera do poder, em Shakespeare, é constantemente assombrado por insônias e tormentos que mostram a natureza no mínimo ambígua da pretensão por poder e à ânsia de se livrar de seus constrangimentos. Para termos uma clara visão disso, recorremos mais uma vez à peça Macbeth, que parece ter absoluta consciência que o assassinato do Rei Duncan trará poderes que dificilmente não levarão à própria destruição de Macbeth:

     

    “We still have judgement here, that we but teach

    Bloody instructions which, being taught, return

    To plague th´inventor” (1.7.8-10)

     

    (“Mas é aqui mesmo nosso julgamento

    em semelhantes casos; só fazemos

    ensinar as sentenças sanguinárias,

    que, uma vez aprendidas, em tormento

    se viram do inventor”)

     

    Em vez de imaginar um além-mundo onde as consequências pelos atos terrenos seriam julgados, o mundo de Shakespeare é o do ato e consequência direto e têm implicações no agora da história. O que fica claro é que Shakespeare se mantém profundamente cético perante qualquer formulação de uma lei moral que estivesse livre da realpolitik de cada momento, lugar e psicologia. Não há nenhuma superestrutura moral na mente humana que constranja toda as ações, o que torna impossível delimitar todas as variáveis em jogo na responsabilidade advinda do exercício do poder. A estabilidade que separa ações morais das não-morais fica totalmente enublada pela psicologia às vezes profundamente complexa de cada um dos agentes numa peça. Em vez de deixar de lado as questões morais, os personagens de Shakespeare detém uma vida moral intensa porém, não autônoma, porque, para alcançar esta autonomia eles teriam que abdicar de qualquer relação com o poder e, no limite, com qualquer relação com os outros personagens que constantemente os constrangem. Portanto, em geral, a individualidade, apesar de marcada, única, não consegue total independência de seu grupo político, de sua comunidade.

    O contexto político da era elisabetana, na qual Shakespeare viveu, com sua monarquia hereditária com pretensões absolutistas não deixava qualquer espaço para ideias democráticas seculares. Porém, ao empregar a eleição em algumas de suas peças Shakespeare se mantém cético de sua eficácia em garantir que os desígnios do povo sejam ouvidos pois, muitas vezes manipulados pela riqueza e por políticos cínicos, são induzidos a agir contra suas próprias demandas.

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