Percentagem de Prosa e Verso em algumas obras de Shakespeare

No entanto a principal inovação em Henrique IV Parte I, naturalmente continuada por sua sucessora, é a grande ampliação de sua dependência na prosa. Segundo Marven Spevack, 45 por cento da peça é em prosa, e o número em Henrique IV Parte 2 é 52 por cento. O contraste é óbvio com as peças de Henrique VI, em que as Partes 1 e 3 contêm praticamente nenhuma prosa, e a maior incidência da prosa na Parte 2 (16 por cento) é integralmente explicada pelas cenas da rebelião de Jack Cade (plebeus criando problemas não falam em verso). Nenhuma peça anterior a Henrique IV Parte 1 contém mais de 32 por cento de prosa. (Trabalhos de Amor Perdidos, que também é notável porque 66 por cento de seus versos são rimados, proporção nem sequer aproximada por qualquer outra peça exceto Sonho de uma Noite de Verão, cujo percentual é 52.)

Shakespeare estava então entrando em um período durante o qual viria a usar muito mais prosa. As Alegres Comadres de Windsor alcançam 87 por cento, Muito Barulho por Nada, 42 por cento; Noite de Reis, 61 por cento; essas são comédias, e razões especiais podem ser encontradas por sua sintonia com a prosa, porém vale a pena notar que enquanto a primeira tragédia, Titus Andronicus, tem pouquíssima prosa (1 por cento), Hamlet tem 27 por cento e Coriolano 22 por cento.

Essas percentagens têm reconhecidamente pouca significação até admitirmos que possa haver necessidades particulares do gênero, ou outras circunstâncias, para o uso da prosa, e não se deve esperar que a proporção da prosa aumente continuamente. (As Alegres Comadres têm mais prosa do que qualquer outra peça, porém é mais ou menos contemporânea das peças Henrique VI; trata-se de comédia doméstica contra história nacional.

A peste dos anos 1592-93 é por vezes chamada de “divisor de águas” e os editores da Oxford supõem que apenas seis peças – a trilogia Henrique VI, A Megera Domada, Titus Andronicus e Os Dois Cavalheiros de Verona – tenham sido escritas antes de a peste forçar o fechamento dos teatros. Destas, três são “históricas”, e uma é tragédia. Não havia distinção genérica muita precisa entre peças históricas e tragédias, de modo que é notável que nesses trabalhos iniciais a prosa tenha sido essencialmente um veículo cômico. Seria difícil conceber Launce, em Os Dois Cavalheiros de Verona, falando em verso. De modo que existem demarcações claras entre essas primeiras peças. Após elas terem sido escritas parece que Shakespeare, então trabalhando em seus poemas longos, não teve qualquer ocasião para usar prosa (Vênus e Adônis e O Rapto de Lucrécia são naturalmente escritos em versos e estrofes), e ele não retomou a prática da prosa até algum tempo mais tarde; Rei João e Ricardo II não têm prosa alguma. De modo que a relativa predominância do verso nas peças de Henrique IV podem precisar de alguma explicação.

A explicação, em resumo, é Falstaff. Vale a pena notar que as extravagâncias de Falstaff, e as do Príncipe Hal respondendo a elas, parodiam antigos modos de escritura dramática. “A fortuna daqueles de nós que somos homens da lua tem cheias e baixas como o mar, sendo governada, como o mar, pela lua” (I.ii.31-33) é uma figura engenhosamente construída, e poderia ser redigida em verso.

[…]

Como Gostais, escrita cerca de um ano mais tarde (1599), perto da data de Júlio César, é a mais tópica das comédias e a mais comprometida com os interesses intelectuais da época. Há muito pouco enredo, o movimento sendo de saída da cidade para o campo e depois a volta; e o veículo novamente é principalmente a prosa. (Pelos cálculos dos editores da Oxford são 52 por cento, em comparação com 72 de Muito Barulho e 87 por cento nas Alegres Comadres; Noite de Reis é 62 por cento, e Henrique IV, 45 por cento em prosa. Depois de 1600, o percentual de prosa cai muito, cerca de 20 por cento ou menos. Macbeth tem 7 por cento, e a parte de autoria de Shakespeare em Henrique VIII apenas 1 por cento. Tal mudança é sem dúvida explicada pela mudança de gêneros, com as peças mais tardias sendo tragédias ou tragicomédias; há um aumento na proporção de verso na época dos romances finais.)

Fonte: A Linguagem de Shakespeare, Frank Kermode