Otello, de Giuseppe Verdi, Mário Amora Ramos

O compositor italiano Giuseppe Verdi (1813-1901) compôs suas principais partituras entre 1847 e 1871. Dentre elas destacam-se Macbeth (1847), baseada na peça homônima de Shakespeare, “Rigoletto” (1851), “O Trovador” (1853), “La Traviata” (1853), “A Força do Destino” (1862), “Don Carlos” (1867) e “Aída” (1871).

Pensava-se que sua carreira estivesse encerrada, em razão da saúde precária, da idade e de sua confortável situação financeira. No entanto Verdi decidiu voltar a compor, por insistência de seu amigo Arrigo Boito (1842-1918), autor dos libreto de “Otello” (1887), considerada sua melhor ópera trágica. Boito também escreveu o texto de “Falstaff” (1893), esta última uma ópera cômica baseada em “As Alegres Comadres de Windsor”. Verdi praticamente inicia e encerra sua carreira baseando-se em peças de Shakespeare. A ópera “Otello” (em italiano perde o “h” do original Othello) estreou no teatro Scala de Milão no dia 5 de fevereiro de 1887, com um sucesso extraordinário.

O libreto é quase sempre menor do que o texto da peça correspondente, uma vez que cantar toma mais tempo do que pronunciar as respectivas palavras, além dos silêncios impostos pela composição apenas instrumental. Por esta razão, o libreto costuma eliminar alguns personagens e situações secundárias. A música, por sua força de expressão, acrescenta uma carga emocional que compensa amplamente eventuais compressões do texto.

A ópera, resumida a seguir, elimina todo o Primeiro Ato da peça original. A ação passa-se inteiramente na ilha de Chipre, em fins do século XV, e dispensa a participação dos personagens que só apareceriam em Veneza, a exemplo do doge, do senador Brabâncio, pai de Desdêmona, e dos demais senadores. O libreto exclui ainda dois outros personagens: Graciano, irmão de Brabâncio, e Bianca, amante de Cássio. Esta última é apenas mencionada por Iago, em duas ocasiões, em conversa com Cássio. Os personagens principais limitam-se portanto aos seguintes, cujos nomes estão acompanhados de seu correspondente em italiano:

Otelo (Otello), o comandante das forças de Veneza Desdêmona (Desdemona), esposa de Otelo Iago (Jago), alferes Cássio (Cassio), capitão Emília (Emilia), esposa de Iago Ludovico (Lodovico), embaixador de Veneza Montano (Montano), antecessor de Otelo no governo da ilha de Chipre Rodrigo (Roderigo), um cavalheiro veneziano e Um arauto (un araldo).

PRIMEIRO ATO

A eliminação das cenas de Veneza permite que a ópera começe em grande estilo, na área externa de um castelo, à noite, em meio a uma tempestade, quando os cidadãos de Chipre distinguem uma vela no mar. Montano reconhece o “leão alado de São Marcos” (l’alato Leon).

A entrada de Otelo em cena, desembarcando em Chipre, é igualmente triunfal, como mostram suas primeiras palavras: “Alegrai-vos! O orgulho muçulmano está/ sepultado no mar!/ Nossa e do céu é a glória!/ Depois das armas/ Venceu-o o furacão!” (Esultate! L’orgoglio musulmano/ sepolto è in mar;/ nostra e del ciel è gloria!/ Dopo l’armi/ lo vinse l’uragano). O impacto desta cena é sem dúvida muito maior do que as discussões iniciais de Otelo numa rua de Veneza e seu despacho burocrático com o doge e os senadores.

O Primeiro Ato prossegue até a cena da bebedeira de Cássio e da perda de seu posto, encerrando-se com um idílico passeio de Otelo e Desdêmona no cais deserto. Enamorados, eles se beijam e retornam ao castelo.

SEGUNDO ATO

Iago está com Cássio no interior do castelo e o encoraja a pedir a ajuda de Desdêmona: “Ouve bem o que te digo./ Deves saber que Desdêmona é o chefe/ de nosso chefe, e ele vive só por ela./ Roga-lhe que interceda por ti,/ e teu perdão estará assegurado” (Attendi a ciò ch’io dico./ Tu dêi saper che Desdemona è il Duce/ del nostro Duce, sol per essa ei vive./ Pregala tu, quell\’anima cortese/ per te interceda e il tuo perdono è certo).

Daí em diante, Iago põe em prática seu plano de instigar o ciúme de Otelo, insinuando a existência de uma suposta afeição entre Cássio e Desdêmona. O general irrita-se com a insistência de Desdêmona para que ele perdoe Cássio e ela perde o lenço na discussão. Mais tarde, Iago diz a Otelo que Cássio, enquanto dormia, advertia Desdêmona quanto à necessidade de manter o caso de ambos em segredo. O alferes acrescenta ainda que viu o tenente com o lenço de Desdêmona. Otelo jura vingança e Iago alia-se a ele neste juramento.

TERCEIRO ATO

Otelo combina com Iago que este deve encontrar-se com Cássio para que Otelo, escondido, possa confirmar a culpa do tenente. Desdêmona entra em cena e Otelo discute com ela e, por três vezes, cada vez mais irritado, pede-lhe em vão: “O lenço!” (Il fazzoletto!). Finalmente, Otelo expulsa a inocente Desdêmona de sua presença.

Iago e Cássio entram em cena e Cássio comenta que alguém deixou um lenço em seu alojamento. Iago pede que ele mostre o lenço, que é visto por Otelo, confirmando suas suspeitas. Cássio sai de cena, Otelo decide que Desdêmona deve morrer e Iago se compromete a cuidar de Cássio.

Com a chegada da delegação de Veneza, chefiada por Ludovico, entram em cena Desdêmona, Emília e Rodrigo. Sabe-se então que, pelas ordens recebidas, Otelo deverá retornar e Cássio assumirá seu lugar. Iago procura Rodrigo e o encoraja a livrar-se de Cássio, para forçar a permanência de Otelo e Desdêmona em Chipre.

Otelo expulsa Desdêmona de sua presença e cai inconsciente. Iago regozija-se com o bom andamento de seus planos.

QUARTO ATO

A cena da armadilha que Iago e Rodrigo preparam para Cássio foi eliminada por Boito de seu libreto. Sabe-se da morte de Rodrigo quando Emília entra em cena, após o assassinato de Desdêmona, tanto na peça original quanto na ópera. Aparentemente nada ocorreu com Cássio, que fica ferido na peça, mas entra em cena na ópera junto com Ludovico e Iago, após o pedido de socorro de Emília. No libreto, Montano só entra em cena um pouco mais tarde, para denunciar Iago, dizendo: “Rodrigo ao morrer/ revelou-me as maquinações diabólicas deste homem” (Roderigo morente/ mi svelò di quest’uom l’arti nefande).

Diferentemente da peça, Iago consegue fugir antes da cena final do suicídio de Otelo, mas alguns homens o perseguem. Otelo, moribundo, despede-se de Desdêmona com “um beijo… mais um beijo… ah! Um outro beijo” (Un bacio… un bacio ancora… ah!… un altro bacio).