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Inicial Fórum Sonetos e Poemas de Shakespeare Vênus e Adonis VÊNUS E ADÔNIS (Português)

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    por Alípio Correia de Franca Neto

     

    Even as the sun with purple-coloured face

    Had ta’en his last leave of the weeping morn,

    Rose-cheeked Adonis hied him to the chase;

    Hunting he loved, but love he laughed to scorn.

      Sick-thoughted Venus makes amain unto him,      

      And like a bold-faced suitor ‘gins to woo him.

    Como o sol, faces púrpuras[ii], desponta

    Com o adeus final da aurora se carpindo,

    À caça, Adônis, rosto em cor, se apronta;

    Se ama caçar, caçoa do amor, se rindo.

    Doente de amar, Vênus se lança atrás,

    Corteja-o feito um pretendente audaz[iii].

    Thrice-fairer than myself,’ thus she began,

    ‘ The field’s chief flower, sweet above compare,

    Stain to all nymphs, more lovely than a man,

    More white and red than doves or roses are;  

      Nature that made thee with herself at strife

      Saith that the world hath ending with thy life.

    “Três vezes mais formoso que eu”, diz ela,

    “Frescor sem par, do prado a flor preciosa,

    Mais dócil que homens[iv], nódoa[v] à ninfa bela,

    Mais branco e róseo do que pomba e rosa;

    A Natureza, com ela mesma em guerra,

    Proclama que, ao morreres, morre a terra.

    ‘ Vouchsafe, thou wonder, to alight thy steed,

    And rein his proud head to the saddle-bow;

    If thou wilt deign this favour, for thy meed               

    A thousand honey secrets shalt thou know.

      Here come and sit, where never serpent hisses,

      And being set, I’ll smother thee with kisses;

     

    “Te  digna apeares do corcel, portento,

    E prende a arção a fronte altiva; aliás,

    Pelo favor a mim, em pagamento,

    Mil segredos de mel conhecerás;

    Vem, senta, onde não silva a serpe[vi], e assim,

    Sentado, em beijos te sufoco[vii], enfim.

    ‘ And yet not cloy thy lips with loathed satiety,

    But rather famish them amid their plenty,                  

    Making them red and pale with fresh variety;

    Ten kisses short as one, one long as twenty.

      A summer’s day will seem an hour but short,

      Being wasted in such time-beguiling sport.’

    “O lábio não sacies no que é sobejo –

    Na sua abundância atiça-lhe o apetite,

    Faz que varie, rubro e sem cor; dez beijos,

    Curtos como um, um longo como vinte[viii];

    Um dia de estio parecerá breve hora[1]

    Haurida num prazer que ao tempo ignora.”

     

    With this she seizeth on his sweating palm,                  

    The precedent of pith and livelihood,

    And, trembling in her passion, calls it balm,

    Earth’s sovereign salve to do a goddess good.

      Being so enraged, desire doth lend her force

      Courageously to pluck him from his horse.                  

    E com isso toma-lhe da úmida palma[ix],

    Vestígio de tutano e juventude;

    Treme de amor, diz, “bálsamo que acalma,

    Régio remédio[x] dando à deusa saúde”.

    E esse desejo, tal é o seu abalo,

    Dá a força pra puxá-lo do cavalo[xi].

    Over one arm the lusty courser’s rein,

    Under her other was the tender boy,

    Who blushed and pouted in a dull disdain,

    With leaden appetite, unapt to toy;

      She red and hot as coals of glowing fire,                   

      He red for shame, but frosty in desire.

     

     

    Num braço as rédeas do corcel potente[xii]

    E no outro, o jovem meigo, que só faz

    Corar, se amuar, distante e indiferente,

    Plúmbeo[xiii] o apetite, inapto em jogos tais;

    Quente e rubra, ela – a brasa num chamejo –

    E gélido, ele – rubro, mas de pejo.

    The studded bridle on a ragged bough

    Nimbly she fastens – O, how quick is love!

    The steed is stalled up, and even now

    To tie the rider she begins to prove.                         

      Backward she pushed him, as she would be thrust,

      And governed him in strength, though not in lust.

     

    O arreio tachonado ela o ata à pressa

    A um ramo tosco – Ah, amor é tão ligeiro! –

    Cavalo já cativo, ela começa

    A tentar enlaçar o cavaleiro.

    Empurra-o, assim como quis ser, captura

    Apenas pela força, não luxúria.

    So soon was she along as he was down,

    Each leaning on their elbows and their hips;

    Now doth she stroke his cheek, now doth he frown,      

    And ‘gins to chide, but soon she stops his lips,

      And kissing speaks, with lustful language broken,

      ‘ If thou wilt chide, thy lips shall never open.’

    Ei-la a seu lado assim que ele se deita,

    Quadris e cotovelos sobre a terra:

    Lhe afaga as faces, ele faz careta,

    Vai repreendê-la, a boca ela lhe cerra:

    E beijos, fala em fogo, entrecortada,

    “Se é ralho, a boca vai ficar fechada.”

    He burns with bashful shame; she with her tears

    Doth quench the maiden burning of his cheeks;           

    Then with her windy sighs and golden hairs

    To fan and blow them dry again she seeks.

      He saith she is immodest, blames her miss;

      What follows more she murders with a kiss.

     

    Vexado, ele vermelha; ela com o choro

    Lhe apaga a chama virgem[xiv] do semblante;

    Com ais que arfam sopra e com o cabelo louro

    Tenta abaná-lo até secar como antes:

    Ele a incrimina, chama-a intimorata

    E o que se escuta ela com um beijo mata[xv].

    Even as an empty eagle, sharp by fast,                        

    Tires with her beak on feathers, flesh and bone,

    Shaking her wings, devouring all in haste,

    Till either gorge be stuffed or prey be gone;

      Even so she kissed his brow, his cheek, his chin,

      And where she ends she doth anew begin.            

     

     

    Como a águia inane, com o aguilhão da fome,

    Trincha com o bico penas, carnes e ossos,

    Dando com as asas, rápido os consome

    Até empachar-se ou a presa ser destroços –

    Assim, lhe beija fronte, faces, queixo

    E de onde acaba recomeça o trecho.

     

    Forced to content, but never to obey,

    Panting he lies and breatheth in her face;

    She feedeth on the steam as on a prey,

    And calls it heavenly moisture, air of grace,

      Wishing her cheeks were gardens full of flowers,           

      So they were dewed with such distilling showers.

     

    Tendo de contentar, sem que obedeça,

    Arfa jacente e lhe bafeja a face;

    Ela se nutre do ar, como de presa[xvi],

    Chama-o rocio do céu, o ar da graça,

    Queria jardins nas faces, com floradas[xvii]

    Pro orvalho dessas chuvas destiladas.

    Look how a bird lies tangled in a net,

    So fastened in her arms Adonis lies;

    Pure shame and awed resistance made him fret,

    Which bred more beauty in his angry eyes.              

      Rain added to a river that is rank

      Perforce will force it overflow the bank.

    Vê, como[xviii] um pássaro jaz preso em laço,

    Assim, nos braços dela, Adônis jaz;

    Puro ultraje[xix] o ira, e o tímido rechaço

    Que mais beleza à ira dos olhos traz.

    Chuvas que aumentam o caudal dos rios

    Por força os fazem transbordar baixios.

     

    Still she entreats, and prettily entreats,

    For to a pretty ear she tunes her tale:

    Still is he sullen, still he lours and frets,               

    ‘Twixt crimson shame and anger ashy-pale.

      Being red, she loves him best, and being white,

      Her best is bettered with a more delight.

     

    Só solicita, terna solicita,

    A um terno ouvido afina a fala; e sério,

    Ainda, o cenho, e ainda se amua, se irrita,

    Entre pudor carmim e ódio cinéreo[xx].

    Vermelho, ela o ama ainda mais; sem cor,

    Seu mais aumenta com prazer maior[xxi].

    Look how he can, she cannot choose but love;

    And by her fair immortal hand she swears                  

    From his soft bosom never to remove

    Till he take truce with her contending tears,

      Which long have rained, making her cheeks all wet;

      And one sweet kiss shall pay this countless debt.

    Vê como agir[xxii], ele, e a ela, amor comanda;

    Jura com a bela mão[xxiii] dos imortais

    Que do seu terno peito só debanda[xxiv]

    Com a trégua entre ele e as lágrimas rivais,

    Chuvas caindo e lhe molhando as faces;

    Só um beijo o imenso débito o ressarce.

     

    Upon this promise did he raise his chin,                    

    Like a dive-dapper peering through a wave,

    Who, being looked on, ducks as quickly in;

    So offers he to give what she did crave;

      But when her lips were ready for his pay,

      He winks, and turns his lips another way.

    O queixo ele o levanta a essa promessa;

    Tal como um mergulhão tenteia a vaga

    E, sendo visto, afunda o mais depressa,

    Ele oferece dar-lhe a ansiada paga;

    Mas, lábios prontos para o que a ela cabe, os

    Olhos ele fecha, e afasta os lábios.

     

    Never did passenger in summer’s heat

    More thirst for drink than she for this good turn.  

    Her help she sees, but help she cannot get;

    She bathes in water, yet her fire must burn.

       ‘ O, pity,’ ‘gan she cry, ‘ flint-hearted boy!              

      ‘Tis but a kiss I beg; why art thou coy?

    No ardor do estio, jamais teve o andarilho

    Mais sede de água que ela desse dote[xxv].

    Vê seu auxílio, mas não logra auxílio;

    Se banha na água, e o fogo queima forte[xxvi].

    “Peito de pedra”, grita, “tem piedade!

    Só peço um beijo; então, por que te evades?

    ‘I have been wooed, as I entreat thee now,

    Even by the stern and direful god of war,

    Whose sinewy neck in battle ne’er did bow,

    Who conquers where he comes in every jar;              

      Yet hath he been my captive and my slave,

      And begged for that which thou unasked shalt have.

    “Já tive a corte, como a faço agora,

    Do deus da guerra[xxvii] cruel, de fúria horrenda,

    Cuja cerviz jamais vergou outrora

    E que conquista sempre na contenda;

    Foi meu cativo e escravo, e era mendigo

    Do que, sem me pedires, tens comigo.


     

    [1] V. 23: “Um dia de estio parecerá breve hora”. Na Inglaterra, o “dia de estio”consiste em longas horas diurnas e breves horas noturnas.

     

     


     

      V. 1: “Como o sol”. O original “Even as” significa ao mesmo tempo “assim que” e “assim como”. Esta segunda acepção gera uma possibilidade de leitura poeticamente mais rica, visto que, ao iniciar a estrofe com um símile, ele se completa simetricamente no v. 3,  aproximando o sol de “faces púrpuras” da figura de Adônis de “rosto em cor”,  prestes a sair para caçar. Um exemplo de “poesia da gramática”, muito comum a Shakespeare e a toda sua época, que a tradução procura recriar ao lançar mão dos valores da conjunção “como”, aqui podendo ser interpretada simultaneamente em seus valores circunstanciais de “causa”, “conformidade” e “proporção”.

     

    [ii] V.1: “ …púrpuras” [purple]. A palavra inglesa, derivada do latim purpureus(com o significado original de “esplendor” ou “caráter vívido da cor”, não necessariamente  “vermelho vivo”) à época era usada com frequência, embora com variação do tom emocional, para a descrição da cor do sangue, em tragédias e poemas épicos; do vinho, em poemas líricos e eróticos — caso em que também se associava às idéias da paixão e  lascívia próprias de Baco –, além de designar a cor de roupagens reais. Em paralelismo com o “rosto em cor” de Adônis, aqui as “faces púrpuras” personificam o Sol, na mitologia natural idiossincrática de Shakespeare, em geral com variações em torno do folclore pagão, em que a Aurora, por exemplo, tem por amante Titono,  não o Sol. Em todo caso, a palavra aqui dá início ao simbolismo cromático comum em Shakespeare, com as mesmas variações semânticas em torno às cores vermelha e branca do começo ao fim do poema, as emoções das personagens sendo expressas de maneira contínua na mudança desses tons cromáticos e variando da vergonha à volúpia.

     

    [iii] Vs 1-6: “Como o sol… audaz”. Fiel à recomendação de Horácio, constante de sua Arte poética, segundo a qual a força e a graça da ordenação dos elementos narrativos estão em introduzir o leitor rapidamente no centro dos acontecimentos, Shakespeare, a exemplo do que faz em suas peças, caracteriza os protagonistas já na primeira estrofe, por meio dos epítetos que lhes definem as atitudes e desejos.

     

    [iv] V. 9: “Mais dócil que homens”. Em diversos passos do poema, é ressaltado o elemento feminino na beleza de Adônis.

     

    [v] V. 9: “Nódoa à ninfa…”. Acreditava-se que as formas superiores da beleza deitassem “sombra”, ou fossem a causa de “deslustro” àquilo que ultrapassavam.

     

    [vi] V.17: “… onde não silva a serpe”. No verso anterior, Vênus se refere à partilha do “conhecimento” de seus segredos, e a alusão à serpente aqui, como observa Roe, a coloca virtualmente no papel da própria serpente ou tentadora em meio ao cenário paradisíaco. Não é possível, porém, ir muito longe com essa ironia, já que no poema Vênus é bem mais do que uma tentadora.  O mesmo Roe propõe que  Vênus aqui talvez esteja mais próxima de Cleópatra, a qual emAntônio e Cleópatra, I.5.25 imagina que o amante a vê como sua “serpente do Nilo”.

     

    [vii] V.18 “… te sufoco”.  No presente contexto, a idéia de “sufocar Adônis com beijos” visa a ser atrativa, embora ao mesmo tempo traia a passionalidade negativa da deusa, justamente o elemento causador de aversão de Adônis.

     

    [viii] Vs. 19-22. A se seguir os conselhos de Vênus em sua “arte amatória”, os lábios de Adônis ficarão vermelhos à força de “dez beijos,/ Curtos como um”, e haverão de descorar, pela perda de fôlego, no esforço de um beijo “ longo como vinte”.

     

    [ix] V.25: “… úmida palma”. “Palmas úmidas” eram reconhecidas como um sinal de disposição sensual ou fertilidade. Por outro lado, esse “vestígio de tutano”  em Adônis pode ser perturbador a Vênus, por sugerir a marca de um amante ardoroso, já que à época também o tutano era associado à energia sexual.

     

    [x] V. 28: “Régio remédio”. A expressão é típica de Edmund Spenser, e seu sentido está mais próximo de “panacéia”.

     

    [xi] V. 30: “Dá a força pra puxá-lo do cavalo”. Em contraste com o elemento feminino na caracterização de Adônis, aqui Vênus é investida de força masculina.

     

    [xii] V.31: “…potente”.  À época, a palavra inglesa “lusty” significava “vigoroso”, mas o contexto a reveste de conotação sexual.

     

    [xiii] V.34: “… Plúmbeo o apetite”.  À época se associava o chumbo à melancolia, daí a “inaptidão” de Adônis aos jogos amorosos.

     

    [xiv] V.50: “… chama virgem”.  O paradoxo, que une inocência e paixão, enfatiza a juventude andrógina de Adônis, e a ideia de que essa “chama” (de cor vermelha) “se apaga” é sugestiva da cor branca, aqui implicada, e coincidindo com a perda da cor de seu rosto em virtude das lágrimas (frias) de Vênus.

     

    [xv]Vs. 55-60: “Como a águia inane… trecho”. O paradoxo das imagens na estrofe, conjugando violência predatória e efusão afetiva, é recorrente no poema, e, como lembra Roe, levanta a questão sobre a impossibilidade de atribuirmos motivações únicas às personagens, marcadas que são por essa contínua ambivalência de sua representação, no caso, a rapacidade de Vênus sendo seguida de aspirações mais líricas, por vezes “maternais”, em vários passos do poema.

     

    [xvi] V.63: “… presa”. A pronúncia da palavra inglesa prey (presa) à época pode ter sugerido a Shakespeare um trocadilho com prayer (prece), ideia que ensejaria as imagens no verso seguinte e ao mesmo tempo daria continuidade à ambivalência da representação.

     

    [xvii] V.65: “… jardins nas faces”. Feições humanas retratadas como paisagens são comuns na poesia elizabetana.

     

    [xviii] V.67: “Vê, como…”. No original, “Lookhow”funcionava à época como uma fórmula narrativa com o valor aproximado de just as (assim como), introduzindo cenas e ao mesmo tempo convidando à comparação, expediente que condiz com um poema que prima por sua ênfase na representação visual. comparazindo cenas ou convidando eo seguinte, ao mesmoo violade negativa da deusa, que cto

     

    [xix] V. 69: “Puro ultraje”. A expressão é paradoxal, conjugando uma vez mais noções de pureza e mácula, com um efeito de ambivalência semelhante ao que se vê em “tímido rechaço”.

     

    [xx] V. 76: “Entre pudor carmim e ódio cinéreo”. Adônis enrubesce de vergonha e empalidece de raiva. Cinzas eram proverbialmente pálidas.

     

    [xxi] Vs 77-8: “Vermelho… maior”. O “conceito” (do italiano concetto, termo de sentido retórico preciso, designando a figura de estilo que compara coisas aparentemente díspares)  serve ao propósito humorístico (e ao efeito ambivalente) de sugerir que as emoções negativas de Adônis têm o efeito de atrativos a Vênus.

     

    [xxii] V.79: “Vê como agir”. Aqui, “Lookhow” tem certo efeito de eco irônico da fórmula no v. 67, de vez que  na passagem em questão é Adônis que “vê como agir” livremente, sem ser “comandado” por amor, a exemplo de Vênus.

     

    [xxiii] V. 80: “Jura com a bela mão”. Votos eram tradicionalmente feitos com a mão em confirmação à boa fé.

     

    [xxiv] V. 81: “… debanda”. No original, remove é palavra com sentido militar, e compõe com o verso seguinte uma das tantas metáforas bélicas presentes no poema e muito comuns na poesia elizabetana.

     

    [xxv] V. 92: “… desse dote”. No original, Good turn conjuga as noções de: 1) “boa ação” (no caso, a que concederia alívio a Vênus; 2) “capacidade de se esquivar habilmente”; e 3) “ necessidade”, neste último sentido, com conotações sexuais, do modo pelo qual a palavra recorre em Antônio e Cleópatra, 2.5.58-9: “Messenger : He’s bound unto Octavia. Cleopatra: For what good turn?Messenger: For the best turn i’th’bed” [Mensageiro: Ele está preso a Otávia.Cleópatra: Por qual necessidade? Mensageiro: Pela maior das necessidades – a  da cama”].

     

    [xxvi] V. 94: “Se banha na água, e o fogo queima forte”. O “conceito” aqui se baseia no conhecido paradoxo de Petrarca, segundo o qual paixão e lágrimas são descritos como fogo e água: Vênus “se banha na água” porque chora, ao mesmo tempo que é consumida por seu amor. Há também uma ligeira sugestão do mito de Tântalo, aludido adiante no poema, e que foi abordado por Spenser em seuFaerie Queene [A Rainha das Fadas].

     

    [xxvii] V. 98: “… deus da guerra”.  Segundo a mitologia, Vênus esposara Vulcano, mas se tornou amante de Marte. Em Sobre a natureza das coisas, I.29-40, Lucrécio narra a história da submissão do deus a ela, desenvolvida por Shakespeare nas duas estrofes seguintes, ambos por meio de imagens em torno da intrepidez masculina capitulando diante da lascívia., aliás,  um tema predominante em Antônio e Cleópatra. Essa seqüência de versos, contudo, é mais um exemplo da combinação de linguagem amorosa e bélica, identificando o “combate amoroso” aos do mundo guerreiro, além de se constituir numa “tática retórica” emprega por Vênus em seu “cerco” a Adônis.   Burrow lembra que, aqui, Vênus omite significativamente o pormenor de que tanto ela como Marte posteriormente foram desmascarados por Vulcano.

     

     

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