Please consider donate. | Por favor, considere doar qualquer quantia para mantermos o site.

Inicial Fórum Discussão Geral Discussão Geral sobre Shakespeare Variações de Shakespeare

Visualizando 1 post (de 1 do total)
  • Autor
    Posts
  • #10849

    por Daniel Piza

    William Shakespeare (1564-1616) não veio ao mundo a passeio. Na boca de Cassius, na peça Júlio César, pôs os seguintes versos: “How many ages hence/ Shall this our lofty scene/ In states unborn and accents yet unknown!” (Quantas épocas por vir/ Será esta nossa elevada cena de novo encenada/ Em estados ainda não nascidos e sotaques ainda desconhecidos!). Mais de 400 anos depois de essas palavras terem sido escritas, Shakespeare continua a ser encenado em todos os sotaques. Ele escrevia suas obras com um olho no público e outro na posteridade. E sabia que sua permanência estava associada aos seus poderes de linguagem, antes e depois de tudo. Seus cenários podem ser datados; seus enredos, furados; mas a riqueza de seu estilo é inesgotável.

    Daí a importância de um livro como A Linguagem de Shakespeare, de Frank Kermode, lançado pela Record com tradução – da prosa de Kermode e dos versos de Shakespeare – feita por Bárbara Heliodora. Kermode, nascido em 1919, é o decano da crítica inglesa, autor de livros como The Sense of an Ending e da coletânea Pieces of my Mind (1958-2002) e um dos primeiros a reconhecer, por exemplo, o talento de Salman Rushdie, o de Crianças da Meia-Noite. Deste livro sobre Shakespeare, publicado originalmente em 2001, não espere discussões lingüísticas, exames estatísticos, nada parecido com as chatices da escola da “intertextualidade”, etc. Espere análises sobre as grandes peças, espere o contato com um leitor qualificadíssimo da música shakespereana. E que aos 82 anos um crítico ainda tenha exibido tanto vigor intelectual é outro motivo de admiração.

    Afinal, ninguém é Shakespeare. A partir de 1599, entre seus 35 e 42 anos, o gênio inglês começou a escrever uma série de peças magistrais, entre as quais se incluem quatro obras-primas: HamletOteloRei Lear e Macbeth. Todos os temas da natureza humana parecem contidos nessas histórias, nesses personagens que agem, reagem, dialogam e meditam com uma intensidade única, sem desperdiçar nenhuma frase banal. Foi como se Shakespeare tivesse feito da rapidez sua aliada, enquanto os outros mortais precisam de muito mais tempo e muito mais páginas para dizer o mesmo, ou melhor, para dizer menos. E ele escrevia tudo isso enquanto trabalhava na produção das peças, ora atuando como homem de negócios, ora até mesmo como ator – sem falar nos poemas que também o ocupavam e no casal de filhos que criava.

    Kermode analisa as obras anteriores àqueles milagrosos anos na primeira parte, em conjunto, e vai anotando as transformações da linguagem do dramaturgo. Na segunda parte, que forma o corpo do livro, ele se detém em cada uma das 16 peças posteriores a Júlio César, com destaque para aquelas quatro. Na introdução, observa que um dos grandes rivais de Shakespeare naquela idade de ouro teatral que foi o período elisabetano, Ben Jonson (Marlowe e Webster são outros mestres desses palcos), se queixou do excesso de “fluência” e “naturalidade” de Shakespeare. Isso soa inacreditável para o cidadão atual: a linguagem de Shakespeare nos parece rebuscada, afetada, em algumas passagens obscura. Mas, para aquela época, o estilo de Shakespeare parecia insuficientemente “artístico”, ou seja, pouco elaborado, pouco artificial – e esta artificialidade era o maior elogio que se podia fazer a um autor. Como diz Kermode, aquele era um público acostumado a ouvir sermões escritos por John Donne, e para o qual ter espírito ou espirituosidade era a maior virtude.

    É nesse contexto lingüístico, então, que se deve analisar a evolução da obra de Shakespeare. Em contraste com a linguagem mais “nobre” de seus contemporâneos, ele a mesclou com notas de coloquialidade e “impureza”. Mas, nesse processo, não reduziu a densidade, a complexidade da obra. Ao contrário: ele a expandiu. Sua combinação de sofisticação com objetividade é um salto estético, e sua maior diferença não é o fato de que apelou a recursos de toda sorte, mas a maneira como os arranjou sem preconceito nem monotonia. Sua eloqüência, em suma, não é menor, é maior. E é sua própria consciência de que a eloqüência não é um fim, mas um meio, que permite que ele dê a ela tamanho poder. Kermode lembra que o solilóquio ou monólogo – marca estilística das peças de Shakespeare – é uma ilha de verbo num mar de silêncio, um breve contra o nada, um jorro de palavras que se deixa enriquecer pelo que não pode explicar ou catalogar. Há um casamento entre discurso e sugestão; o desencontro entre ação e reflexão torna ambas mais interessantes.

    Eis por que Shakespeare revolucionou a linguagem: ele jamais deixa de tratar da própria linguagem, de seus limites e flexibilidades. Referências ao tema estão em cada uma de suas peças, bastando lembrar o desabafo de Hamlet: “Words, words, words”. Seus personagens passam as peças todas tentando um acordo entre suas palavras e seus atos. Sobre Hamlet, Kermode diz ser “a peça que se pode dizer oferece a mais ampla exibição da capacidade de Shakespeare”, em sua fusão de estilos, “poema ilimitado” (na expressão de Polonius) que mistura o trágico, o cômico, o histórico, o pastoral e o lírico. Não há a bitola do gênero e tampouco a do registro de linguagem, pois esta pode ir do chulo ao chique. Numa única cena cabem a prosa, a elegia, o verso com rima ou sem rima. Em Shakespeare a arte de unir palavras ganha uma abrangência seminal, uma vastidão fértil. Ele rompeu a fronteira entre as classes, entre as disciplinas, entre as vozes. Daí sua modernidade e eternidade.

    A observação central de Kermode é sobre “o registro constantemente cambiante não só da ação, mas da linguagem”, sobre “a variação ilimitada”, a “prosódia elástica” dos versos dramáticos de Shakespeare. É por essas características que o desenvolvimento de uma peça como Hamlet pode ser também peculiar. Shakespeare é oblíquo, e suas “lufadas de associações” ora aceleram ora atrasam a informação sobre os fatos. O objetivo de Shakespeare não é apenas “fazer caminhar a ação”; ele interfere em suas durações, lançando pontes para o futuro e o passado, engravidando o presente de implicações diversas, de “duplos” misteriosos. O autor se permite, assim, passagens mais retóricas e passagens mais cruas na mesma cena. Desse modo, pode descrever “a manhã vestida com manto avermelhado” (um som intraduzível: “the morn in russet mantle clad”) e dar a essa imagem um caráter sugestivo.

    Shakespeare usa todas as figuras de linguagem de que se tem notícia: metáfora, metonímia, antítese, anacoluto, arcaísmo, etc. E todos os ritmos, todas as métricas da versificação, com desvios para prosa que em nada afetam a temperatura poética do texto. Mas não faz nada disso por virtuosismo, por exibicionismo, e sim com funções específicas dentro do significado da peça. Mesmo as extravagâncias e as repetições têm sua razão de ser. Shakespeare trabalha as camadas, as ênfases; como nota Kermode, ele pode informar muitas vezes que está frio: “O ar corta friamente, está muito frio/ É um ar que belisca e corta”. Em outros momentos, pode lançar mão de uma síntese perfeita: “By indirections find directions out” (“Por via indireta encontramos a direção”), uma autodefinição do gênio.

    Kermode sabe que os solilóquios de Hamlet não são como parênteses confessionais, mas estruturas da própria peça. “Hamlet está relacionando sua visão pessoal a uma visão mais geral da condição humana” – o que, em duas palavras, significa grande arte. O jogo de imagens, as mudanças de foco, tudo está a serviço de “representar um homem pensando, sob a pressão da culpa e do medo”. Shakespeare conhece a melodia do tempo, diz Kermode, e “Hamlet é o maior bazar da natureza: tudo está acessível, tudo garantido, tudo com marca registrada”. Uma nova forma de arte literária foi inventada com essa peça, “uma mestria do ambíguo, do inesperado, de evidências conflitantes e audácia semântica”. O leitor é desafiado a encontrar o sentido e, tal como na vida, ele parece sempre se esquivar de nós.

    As múltiplas interpretações dos versos de Otelo também são resumidas por Kermode de forma precisa. Ele mostra como, na linguagem preconceituosa e grosseira de Iago, está uma visão do amor: “Para ele, fazer amor, em qualquer circunstância, é mera submissão da vontade às mais baixas paixões do corpo”, daí seu desprezo ao intelecto do “mouro sensual”, Otelo. Como sempre em Shakespeare, há um paradoxo irônico nesse conflito: Otelo é de fato manipulado por Iago, por sua linguagem hábil e ardilosa, e acredita ter sido traído por Desdêmona – embora Iago não deixe de ser uma alma invejosa e travada, não uma cabeça mais poderosa. Os dois, herói e vilão, se equivalem em suas fraquezas. E para isso trabalham os diálogos, como duos operísticos a revelar paixões cruas, raivas “além das palavras” e aquilo que o poeta T.S. Eliot definiu como “a vontade humana de ver as coisas como elas não são”, frase que Machado de Assis assinaria embaixo.

    O ceticismo de Shakespeare aparece como nunca em Rei Lear, a outra obra-prima que nasce do berço de Hamlet. Nossos reinos estão divididos; a justiça divina não é mais que uma esperança que suprime as demais esperanças; um pai não pode sonhar com a gratidão de um filho. Yeats, Joyce, Flaubert, O’Neill, Nelson Rodrigues – estão todos aqui. Os modos de falar definem os personagens, e Shakespeare consegue isso de forma mais econômica do que nunca. O choque entre o que nascemos e o que nos tornamos é crucial, insolúvel; e é como se Shakespeare dissesse que a grandeza está em nos tornar aquilo que já éramos, o que é um conceito irretocável de genialidade. Sombra e substância, como o rei e o bobo, se confundem, e a Lear resta acima (ou abaixo) de tudo a consciência do fim próximo. Ele é um bobo nas mãos da sorte. “Há uma crueldade na escritura que ecoa a crueldade da história”, escreve Kermode. E para Lear não há a redenção que há para Jô.

    No entanto, Shakespeare ainda faz Macbeth, provavelmente por volta de 1606. E explora novas possibilidades da linguagem nessa outra tragédia fantasmagórica. “A peça tem lugar em um mundo de dúvida e decisão, que tem muito de um pesadelo”, resume Kermode. Mais adiante: “Macbeth é uma peça de profecia focalizada, com imensa concentração, no desejo de sentir o futuro no momento, de ser transportado ‘para além do presente ignorante’. (…) O presente é o longo ínterim entre o pensamento e o ato”. A tragédia de Macbeth se inicia quando ele pensa que pode fabricar o futuro de sua própria cabeça – e cai no abismo “entre o pensamento e o ato”, o que é a suma da obra shakespereana.

    “Os instrumentos da escuridão nos dizem verdades”, exclama Banquo, e Macbeth percebe que as contradições fazem parte da própria natureza humana. Animais sociais, não podemos optar entre natureza e cultura, pois a natureza nos jogou (literalmente) de cabeça na cultura, de cujo amparo necessitamos e padecemos. O homem, dotado de inteligência e carência no mesmo movimento (“Thus conscience make cowards of us all”, assim a consciência faz covardes de todos nós, como diz Hamlet), é um ser em crise, constantemente rompido entre seus desejos e a realidade. Kermode mostra a função das repetições e duplicações no famoso solilóquio de Macbeth (“Se ficasse feito, quando feito, seria bom/ Que fosse feito logo”), do ziguezague de conceitos (o tempo deve ser parado, mas nunca será a não ser pela morte) e da mistura de metáforas em diversos trechos da peça.

    O livro de Kermode faz parte de uma onda de lançamentos de alta qualidade que têm saído sobre Shakespeare nos últimos anos. Como a biografia de Stephen Greenblatt, Will in the World, ou as análises dos sonetos por Helen Vendler, além dos livros de Harold Bloom, a interpretação shakespereana segue em alta. No caso de Kermode, podemos sentir falta da questão do uso de termos latinos em combinação com os saxônicos; mas em que livro sobre Shakespeare não sentimos falta de alguma coisa? O que ele faz é acrescentar sotaques a um discurso que, como seus personagens, nunca reduzirá Shakespeare a si. Como ele mesmo diria, é estranho que nossos atos mais persistentes sejam os que mais lamentamos.

Visualizando 1 post (de 1 do total)

Você deve fazer login para responder a este tópico.

Fechar Menu