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Inicial Fórum Trecho de Por que ler Shakespeare, de Barbara Heliodora

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    A leitura do texto dramático exige alto grau de imaginação do leitor, porque não há interferência de um narrador que esclareça o que este ou aquele personagem possa estar pensando naquele momento; cada personagem fala em sua própria pessoa, e tudo tem de chegar ao público-alvo no bojo do diálogo. No teatro elisabetano o problema era incomparavelmente maior do que hoje em dia; por exemplo, no caso de peças realistas com encenação igualmente realista, que situa em detalhe o local onde se passa a ação. É por isso mesmo que se torna importante mostrar um plano do teatro, na relação palco/platéia, que era bastante íntima, seja para os que ficavam de pé em torno do palco, seja para os que sentavam nas galerias, que jamais ficavam a mais de doze ou treze metros de distância dele.

    A céu aberto, quando se apresentavam espetáculos por volta de uma e meia da tarde, sem recursos para indicar noite e dia, lugar e hora, a não ser os da palavra, o público tinha de ser realmente conivente com o espetáculo, e contribuir com sua imaginação para completar o que o diálogo sugeria.

    Eis, então, a planta baixa do teatro e uma visão frontal do conjunto de áreas que formavam o espaço cênico.

    O palco “exterior”, projetado para o centro do pátio, é neutro e serve para a maior parte das cenas; o “interior” mostra ambientes fechados, isolado por uma cortina que permite o uso de móveis ou acessórios. O palco “superior”, acima do interior, representa as muralhas da cidade, ou qualquer local alto. Essas três áreas, usadas juntas ou separadas, é que permitiam a liberdade formal da dramaturgia da época.

    Em 1642 todos os teatros londrinos foram literalmente destruídos pelo governo republicano e autoritário da puritana Commonwealth de Oliver Cromwell, e, na Restauração da monarquia, em 1660, ninguém se lembrava do antigo palco. Os novos teatros, além de italianos, pela primeira vez contaram com atrizes; a falta delas, aliás, é a explicação para os poucos papéis femininos nas peças de Shakespeare.

    No neoclassicismo imperavam as unidades clássicas e os pequenos teatros italianos de corte, com espaço para poucos atores; Shakespeare – com suas peças que cobrem anos, têm locais variados e até dezenas de personagens – passou então por ignorante literário e criminoso contra as boas maneiras, já que escrevia sobre toda espécie de gente e classes, com vocabulário condizente. Passaram-se três séculos e meio até a forma elisabetana de palco ser redescoberta e a sua dramaturgia realmente compreendida.

    A dramaturgia do “teatro elisabetano” mistura elementos romanos, medievais e dos romances de cavalaria. Sem regras a obedecer, a preocupação do teatro profissional era com a força da ação cênica. As catalisadoras do movimento foram as fascinantes sonoridades da poesia e a confiança na imaginação da platéia. Juntas, permitiram que o real e o fantástico se apresentassem mesclados naquele palco neutro.

    Quando Shakespeare chegou a Londres, por volta de 1588, seus antecessores haviam criado várias formas dramáticas, com formas livres nascidas da mistura de gêneros; e o jovem autor mergulhou naquele excitante universo teatral experimentando todos os gêneros que andavam fazendo sucesso, talvez no simples intuito de dominar o instrumento ideal para seu talento.

    Não há cronologia exata das obras de Shakespeare, e, para fazer notar sua evolução em forma e conteúdo, as peças são aqui divididas em grupos cujas características comuns configuram determinada etapa. Os temas favoritos de Shakespeare aparecem desde o início, mas o tratamento se aprofunda à medida que ele amadurece como pessoa e como artista.

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