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Inicial Fórum Sonetos e Poemas de Shakespeare Os Sonetos Sumário aos Sonetos – Série Shakespeare Através das Eras

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    Tradução de Rafael Antonio Blanco.

    O poeta irlandês Louis MacNeice, no século XX, escreveu em seu poema “Snow”: “O mundo é mais repentino que o imaginamos. // O mundo é mais louco e mais do que pensamos, / Incorrigivelmente plural.” Descascando uma tangerina, o falante sente a “embriaguez das coisas serem várias.” Repentino. Plural. Vários. Essas são palavras excelentes para preparar o leitor para as maravilhas da divisão e diversificação que desfilam entre os Sonetos de William Shakespeare. Tomados como um todo, esses poemas mostram um surpreendente escopo de voz, imagem, situação, crise, meditação e resignação. Duas breves clarificações devem ser feitas. Primeira, Os Sonetos é o título coletivo, e tem sido assim desde que os sonetos apareceram pela primeira vez impressos em 1609, para dizer dos 154 poemas líricos de Shakespeare de 14 linhas. Em segundo lugar, a palavra “divisão” é usada acima em ao menos dois sentidos: o poético ou musical, como quando Shakespeare escreve “divisão arrebatadora” em 1 Henrique IV, e a psicológica, como em auto-divisão, aquela bravura examinadora, introspectiva, que coloca os poemas de Shakespeare à parte de quase todos seus correspondentes. Por quatro séculos leitores admiraram (mas nem sempre admiraram, como veremos em breve) as realizações técnicas e retóricas desses poemas condensados e memoráveis. E eles também se empenharam em localizar a originalidade lírica mais profunda nos Sonetos – uma originalidade da voz, de pensamento reconhecível e sentimento, de alguma forma executado em todas as suas complexidades na antiga linguagem do Inglês moderno e na estrutura formal do soneto. Alguns argumentaram que Shakespeare, nesses sonetos, inventou uma nova forma de subjetividade, um novo caminho no qual o “Eu” que fala na poesia lírica pode avaliar a si mesmo e vir até nós, como se se elevasse vivo e tridimensional da tinta preta do texto.

    Apesar de suas inovações, Shakespeare não foi de forma alguma o primeiro escritor a produzir uma longa sequência de sonetos. Pelo contrário, ele compôs perto do final de mais de dois séculos de produção de sonetos na Europa, e também durante um forte modismo literário por sonetos em Inglês, na Inglaterra elisabetana nos anos 1590. Francesco Petrarca, um humanista florentino, diplomata e poeta, elevou o soneto para uma forma literária influente com sua sequência conhecida como o Canzoniere ou Rime sparse. A forma poética preferida por Petrarca nessa coleção foi o soneto, um poema lírico de 14 linhas que frequentemente expressava estágios de meditação ou de raciocínio argumentativo. A forma era apropriada para essas atividades mentais e emocionais pois permitia “viradas” em pontos diferentes do poema, que avançavam, rejeitavam, repetiam ou complicavam o ponto presente. Os predecessores literários de Petrarca em Florença, incluindo o grande poeta épico Dante Alighieri, frequentemente escreviam sonetos, assim como os poetas sicilianos o faziam na corte imperial. Muitos desses poetas eram também advogados na corte, e isso pode explicar por que o soneto foi sempre sagaz, um movimento argumentativo. Os sonetos de Petrarca na Rime eram predominantemente poemas de amor ou poemas que ruminavam exaltações e preocupações de amor. Sua amada visada e tema principal era Laura, uma distante, casta e justa mulher. O falante celebra Laura, ele chora por perdão, e está geralmente obcecado por sua beleza, sua virtude, e às vezes o que ele percebe ser sua crueldade. Em parte inspirado pela grande heroína de Dante, Beatriz, Laura provou ser a mais influente personagem da poesia lírica europeia.

    O soneto não foi importado para a escrita em Inglês até o começo do século XVI, menos de 50 anos antes do nascimento de Shakespeare. Os poetas da corte, servindo o primeiro grande monarca da Inglaterra na Renascença, Henrique VIII, adotaram a escrita de sonetos como um entre vários hábitos italianos sofisticados. Esses inovadores não eram escritores profissionais, mas aristocratas, cortesãos ou diplomatas, os quais as atividades literárias forneciam uma “graça civil” a suas várias realizações nas linguagens, música, caça e esporte. Thomas Wyatt foi o mais importante escritor de sonetos Henriciano, e ele traduziu vários sonetos de Petrarca encontrados em Rime. Também manteve a forma “Petrarquiana” ou italiana do soneto, contendo uma oitava, ou oito linhas num esquema de rima abbaabba, seguida por uma “virada” para um sexteto, as seis linhas finais que rimavam cdecde, ou apresentando alguma variação desse padrão. Cada linha tinha 10 sílabas, frequentemente em pentâmetro iâmbico (cinco pares de sílabas em uma ordem não-acentuada-acentuada), e esse tipo de linha permaneceu uma característica chave dos sonetos até nossos dias. Henry Howard, conde de Surrey, foi um simpatizante dos sonetos durante o reinado de Henrique VIII, e sua escolha frequente de uma forma de soneto diferente iria influenciar os hábitos de Shakespeare mais obviamente.

    Howard reorientou a forma dos sonetos de Petrarca em um esquema mais simétrico, repetitivo, um no qual era possível acomodar as poucas rimas da linguagem inglesa: abab cdcd efef gg. Às vezes os poetas podem repetir as mesmas duas rimas no segundo ou terceiro quarteto (ou stanzas de quatro linhas), mas o uso possível de mais rimas deu a eles mais flexibilidade. A alteração de Howard também introduziu duas outras surpreendentes diferenças formais: não há mais uma “virada” principal, como no movimento petrarquiano da oitava para o sexteto, e o final era agora acentuado por um dístico conclusivo, ou par de linhas conectados por uma rima. Howard pôde ecoar o modelo petrarquiano e redirecionar o soneto depois de sua oitava linha ou no final do segundo quarteto. Mas, de repente, mais opções estruturais estavam disponíveis: a mesma ideia pode ser repetida, com variações ou diferentes ênfases, em cada um dos três quartetos e então no dístico ser concluída…ou completamente renunciada. Shakespeare quase sempre usa essa forma mais flexível de soneto, provavelmente porque ela o dava mais oportunidades para mudança de voz ou desenvolvimento dramático. Essa forma, compreendendo três quartetos e um dístico, tornou-se conhecida como o soneto “Inglês”, ou, em homenagem a seu maior praticante, o soneto “Shakespeariano”. Dos 154 sonetos de Shakespeare, os únicos que divergem do modelo Inglês são o soneto 99, que tem uma linha a mais; o soneto 126, que tem apenas 12 linhas, em dísticos; e o soneto 145, os quais as linhas têm apenas oito sílabas.

    Os sonetos de Wyatt e Howard eram lidos principalmente na corte e circulavam em manuscrito. Eles foram impressos pela primeira vez e estruturados de uma forma mais geral, que o leitor comum poderia apreciar, em 1557, quando apareceram numa antologia poética chamada Songs and Sonnetts, conhecida hoje como Tottel´s Miscellany. O único grande escritor de sonetos entre esses poetas Henricianos e Shakespeare é Philip Sidney, um cortesão elisabetano, soldado, o autor da sequência de sonetos Astrophil and Stella. Tomando de empréstimo uma linha do Hamlet, Sidney era o “espelho da moda” (glass of fashion) nos anos 1580. Seus escritos inspiraram seus círculos de amigos, e sua morte prematura no campo de batalha na Holanda tornou-o um herói nacional. Os mais de 100 sonetos da sua sequência foram populares por causa da reputação do seu criador mas também por causa das intrigas de amor cortesãs que eles reservadamente semi-ocultavam. Alguns leitores deviam saber que o relacionamento secreto dramatizado em Astrophil and Stella na realidade envolvia Sidney e Penelope Rich, uma proeminente dama da corte. Sidney faz trocadilhos com o nome “Rich” na sequência, e com uma piscadela que também esconde seu próprio nome, Philip, no personagem do título “Astrophil”. Confiando em seus aprendizados de Grego e Latim para os trocadilhos trilíngues, Sidney deu a seus protagonistas nomes que querem dizer “o amante da estrela” e “estrela”.

    Pelo fato desses poemas servirem como “projeções” de atividades amorosas possivelmente reais na corte, e da mesma forma que outros escritores da corte, ele preferiu distribuir seus poemas em manuscrito, nem Sidney nem sua família planejaram publicar Astrophil e Stella. Porém um impressor pirata estava feliz em fazê-lo, e uma aparição não autorizada da sequência de sonetos de Sidney apareceu em 1591, criando uma mania literária que durou por mais de uma década, e isso levou a incontáveis outras sequências de sonetos por poetas de vários talentos. Muitos poemas de Shakespeare estavam entre eles. Paul Innes, em Shakespeare and the English Renaissance Sonnet, admiravelmente preenche esse amplo movimento de atividade dos sonetos na Inglaterra da Renascença, assim como os relacionamentos de Shakespeare com seus predecessores. E haviam muitos, incluindo poetas significantes como Thomas Watson, Michael Drayton e Edmund Spenser. A atividade deles e a popularidade de seus sonetos são refletidos nas longas listas de sequências do soneto Inglês nas obras de Peter Hyland e Katherine Duncan-Jones. Os Sonetos de Shakespeare, tão divergentes, ambíguos e memoráveis, sustentam-se proeminentemente acima dos seus pares. “Ele é nosso melhor escritor de sonetos”, declara diretamente John Masefield, e mais críticos ao menos desde o século dezenove concordam.

    Quando Shakespeare começou a composição dos seus sonetos? As opiniões dos eruditos diferem largamente sobre essa matéria. Em 1971 Andrew Gurr argumentou que o soneto 145 foi o primeiro dos muitos poemas de Shakespeare, porque ele contém na linha “Eu odeio a partir do ódio que ela lançou” (“I hate´ from hate away she threw”) um trocadilho sobre a eventual esposa de Shakespeare, Anne Hathaway. Gurr pensava que Shakespeare, ainda nos seus anos de adolescência, pode ter escrito isso no começo dos anos 1580. O esquema mais curto do poema, com uma batida de quatro linhas (diferentemente de todos os outros poemas da sequência) e sua falta de qualquer habilidade particular eram outras razões pode suportar a teoria da sua composição primitiva.

    Tradicionalmente, entretanto, os eruditos acreditam que Shakespeare escreveu a maioria dos seus sonetos na primeira parte da década de 1590. Ele estava em Londres nesse momento, escrevendo para os teatros públicos, e muitos encontram como evidência para essa data vários paralelos de linguagem e imagem entre Os Sonetos e as primeiras peças de Shakespeare. Nós também sabemos que Shakespeare estava escrevendo dois poemas narrativos em 1593 e 1594, provavelmente por causa do fechamento dos teatros em Londres pela praga. Esses dois poemas, Vênus e Adônis e O Rapto de Lucrécia, foram rapidamente impressos e foram muito populares durante o tempo de Shakespeare, especialmente se comparado com os primeiras recepções mornas dos seus sonetos no começo do século dezessete. Mais intrigante, Shakespeare escreveu prefácios adulatórios para ambos os poemas narrativos, os quais dedicou a Henry Wriothesley, o conde de Southampton. Essas dedicatórias sugerem que o jovem conde era um provável patrono de Shakespeare, isto é, um nobre que empresta seu bom nome e seus recursos financeiros para poetas desacreditados e sem condições, assim como para companhias. Outros argumentaram a favor de datas posteriores para, pelo menos, alguns dos sonetos, porque há referências históricas inferidas de certos poemas ou por causa de temas mais obscuros, momentos mais cerebrais de certos sonetos convidam à comparação com peças do período de maturidade ou das últimas fases da carreira de Shakespeare como dramaturgo. De qualquer forma, a mais antiga data de composição dos sonetos é 1609, quando Thomas Thorpe publica um quarto, ou pequeno livro, de Os Sonetos. A edição não contém um prefácio de Shakespeare, e os críticos desde então debatem se essa publicação foi ou não autorizada por Shakespeare. Qualquer que tenha sido o caso, foi um momento incrivelmente importante na história e na recepção dos Sonetos, e a edição de Thorpe continua sendo o texto base para editores modernos hoje.

    Nós não podemos nos esquecer que esses sonetos foram escritos pelo mesmo autor que estava escrevendo, Sonho de uma Noite de Verão, Romeu e Julieta e Hamlet, e ser capaz de imaginar Os Sonetos como uma série de declarações dramáticas, ou mini-monólogos, é um hábito crítico valioso. Como você verá nos ensaios a seguir, os argumentos sempre viraram em torno de quão autobiográficos os poemas de Shakespeare são – esses sentimentos de amor, expressados tão passionalmente, são do próprio Shakespeare, ou esses poemas são ditos por somente mais uma criação dramática de um grande escritor? O falante aqui não é nomeado Benedict, ou Otelo ou Lear, mas o “Eu” que fala nos poemas líricos pode ser enganoso e pode muito bem ser somente uma ficção como qualquer criação para o palco. A força emocional desviante do falante ou persona dos Os Sonetos levou muitos a acreditar que esses poemas gravam as expressões mais profundas de Shakespeare. Por exemplo, Ralph Waldo Emerson acreditava que Shakespeare revelou (como as “projeções” de Sidney perante a si) “sob máscaras que não há máscaras para a inteligência, a crença da amizade e do amor”. Ainda muitos outros questionaram essa simples identificação histórica um-a-um. Pelo contrário, o “Eu” no poema lírico pode tornar-se uma criação fictícia ainda mais sofisticada, pois o gênero lírico provê uma projeção muito mais sutil de que qualquer ator desfruta quando interpreta um personagem no palco. Vamos assumir por conveniência, nesse sumário e nas próximas seções, que o “falante” desses sonetos é repetidamente identificável dessa forma. Assumir que ele é uma figura única sobre quem nós podemos falar certas coisas, com alguma expectativa que nossos comentários aplicar-se-ão consistentemente de um soneto para o próximo. Mas se mesmo isso é uma suposição, finalmente, é uma muito maior pensar que no uso de “Eu” de Os Sonetos, nós estamos ouvindo o genuíno e biográfico Shakespeare.

    Para complicar essa matéria ainda mais, o poeta e crítico John Hollander aponta-nos para a auto-consciência e as qualidades literárias do falante dos Sonetos e da sequência como um todo. “Nos Sonetos”, Hollander explica, “há um sentido de ambivalência total ao falar como um escritor de sonetos, ao ter que dizê-los na primeira pessoa….” Então, como resultado, o modo lírico mais sutil e complexo não é complexo o bastante; Shakespeare pode ainda ter se sentido limitado pelo “Eu” lírico, pelo o que ele poderia tipicamente dizer no final de uma tradição de escrever sonetos que fez uso de clichês e pela representação literária em geral. Por essas razões, Hollander e outros críticos encontraram confiança e eficácia de representação – simbolizada por imagens de espelhos, sombras, retratos, cosméticos, atuação e teatro, sonhos, livros – em ser uma das principais preocupações recorrentes ao longo de todos os Sonetos de Shakespeare. Assim esses sonetos tornam-se, entre muitas outras coisas, grande arte que medita em como se fazer arte, em ambas suas limitações que até mesmo os maiores poetas não podem superar e na capacidade de conceder imortalidade a esses grandes poetas e aqueles a quem eles favorecem.

    Nós não devíamos nos surpreender, por isso, em ver Shakespeare forçando contra, complicando ou subvertendo outras convenções de sequências de sonetos, convenções que se voltam para Petrarca. Por exemplo, uma das alterações mais ousadas de Shakespeare é endereçar a maioria dos seus sonetos não a uma virtuosa amante, como Laura, mas a um jovem homem. Essa mudança pede todo tipo de questões: São os dois homens apenas amigos, ou envolvidos romanticamente, ou comprometidos a um amor sublimado? Frequentemente o falante elogia o Jovem Homem em termos não distintos das idealizadas reverências de Petrarca à sua virtuosa amada, mas em outros momentos o Homem Jovem parece principalmente caprichoso e infiel. A amargura em certo ponto expressada nos Sonetos surpreende alguns leitores, mas aquele tom pode também ser encontrado em Petrarca, porém tipicamente com mais compaixão de si e delicadeza. (Philip Sidney debochava dos “longos-falecidos desgostos de Petrarca.”) O tom mais duro do falante de Shakespeare são mais claramente ouvidos nos lamentos de amor do seu precursor Inglês Thomas Wyatt. As várias diferenças entre o falante e o Jovem Homem, entretanto, são mais originais – o antigo falante versus o jovem endereçado, as provas e os infortúnios do falante versus os privilégios do jovem e a boa estima, a baixa classe social do falante comparada com o provável status de nobre do jovem homem, e, relativamente, a relação profissional explícita de patrono-poeta entre os dois homens, que às vezes fomenta ansiedade econômica e artística às tensões imediatas de um romance ou amizade.

    Se esses contrastes não fossem suficientemente inovativos, Shakespeare introduz também uma esperada mulher nos sonetos, mas ela é muito diferente da Laura de Petrarca e suas insossas sequências derivativas. A mulher de Shakespeare, ou “amante” (mistress), tradicionalmente conhecida como a Dama Negra, possivelmente entra na sequência nos sonetos 40-42, mas ela torna-se o centro obsessivo da subsequência que conclui os Sonetos. Diferentemente da Laura de Petrarca, essa amante é “negra como o inferno, escura como a noite”, e essa escuridão não é apenas física mas também um significante de seus atos e caráter moral. Qualquer coisa exceto um modelo de virtude, nós aprendemos que o relacionamento do falante com a Dama Negra foi consumado, e ele também revela que o relacionamento deles é extraconjugal. O mundo de desejo dos Sonetos é muito mais complexo comparado com as sequências anteriores, pois apresenta resolutamente traição, desespero romântico e satisfação sexual, desilusão e compulsão. Nós também encontramos relações mistas e competidoras. Os sonetos de Shakespeare diferenciam-se das sequências anteriores ao dramatizar não relacionamentos simples entre duas pessoas mas em vez disso, triângulos de personas e as raivas, ciúmes, competições e humilhações que se sucedem. Entre as aparições desestabilizantes da Dama Negra (ou duas amantes diferentes), Shakespeare cria outro triângulo, agora causando angústia profissional e artística, entre seu poeta-falante e um Poeta Rival, que compete por, e parece ganhar, os favores do Jovem Homem às custas do falante mais velho, poeticamente menos elegante.

    Essas, então, são as principais personagens e seus relacionamentos básicos mostrados pelos Sonetos de Shakespeare. A sequência abre com uma nota de apelo, pois o falante encoraja o Jovem Homem a casar-se e ter uma criança como uma forma de passar sua beleza antes que o Tempo (um inimigo alegórico em vários poemas) devore sua juventude, ou, pior, tome sua vida. Os primeiros 17 sonetos, todos aproximando-se do mesmo tópico, são frequentemente chamados de sonetos da Procriação, ainda que exista algum debate sobre quantos poemas precisamente constituem essa sequência de abertura. Essa falta cabal de certeza sobre esses agrupamentos de poemas, ou a exata história por eles narrada, deve levar-nos a uma pausa. Devemos nos prevenir de olhar tão certamente e simplistamente para a “história” nos Sonetos, como fazemos num romance de Tolstoy ou num conto de Raymond Carver. Se não podemos finalmente identificar o “Eu” como a mesma voz em cada soneto, então é menos provável que encontremos ao longo dos sonetos uma narrativa coesa, consistente e cronológica. E. A. J. Honigmann aponta que o arranjo final dos sonetos, e a história percebida ali, era provavelmente inconcebível para os primeiros leitores, que devem ter encontrados os poemas num manuscrito “isoladamente ou em pequenos grupos.” Honigmann postula que o jovem particular, dramatizado nos poemas como o Jovem Homem, teria lido os sonetos na forma incompleta, provisória. A reação dele aos poucos que encontrou deve ter influenciado consideravelmente o tom dos esforços posteriores de Shakespeare. Philip J. Martin fornece uma avaliação notavelmente equilibrada dos poemas tomados individualmente e como um arranjo coletivo, com diversas camadas de coesão narrativa:

    “Falando geralmente podemos dizer que cada soneto na sequência é final e ainda não final, que alguns sonetos (como em “Não me permita que o casamento de mentes verdadeiras”) podem ser lidos à parte do resto com nenhum ganho ou perda, e que um grande número, como se provisoriamente auto-suficientes, são modificados ou elevados por outros, próximos ou não, e talvez pela sequência como um todo.”

    Em outras palavras, Martin está aberto para a criação de sentido em todos os níveis: dentro do poema individual, lido em isolamento; no grupo próximo de poemas; e através da sequência inteira também, conforme palavras ou imagens recorrem e retrospectivamente reestrutura momentos anteriores. Essa generosidade interpretativa é possivelmente a melhor aproximação à sequência composta por William Shakespeare.

    Certamente existem grupos de poemas – amplamente definidos, como os sonetos de Procriação, ou em pares menores, como os sonetos 64-65 ou 67-68 – eles parecem compartilhar uma consistência de pensamento, um caráter formal, ou uma situação dramática, um exemplo proeminente do último tipo é o grupo do Poeta Rival (sonetos 78-86). Paul Edmondson e Stanley Wells, na excelente introdução aos Sonetos na série Oxford Shakespeare Topics, identificam múltiplos poemas conectados por tema ou por uma única palavra, e seus grupos menores de dois sonetos somente até seis ou oito poemas numa subsequência definível. Leitores em busca de um maior senso de continuidade entre esses muitos sonetos devem consultar a tabela de Edmondson e Wells desses agrupamentos (33); Dympha Callaghan, em sua recente introdução aos Sonetos, inclui um apêndix similarmente útil sobre a “matéria” dos Sonetos, consistindo de breves paráfrases da informação ou argumento que cada poema expressa ou estabelece. Mais uma vez, os leitores são desencorajados em formular facilmente uma narrativa estrita ou muito avidamente identificar as personas da sequência com seus presumidos duplos históricos. Ler dessa forma é simplificar as ricas ambivalências e multiplicidades de sentido e eventos que a poesia lírica torna possível. Ensaios recentes por James Schiffer e Georgio Brown dão aos leitores uma ampla apreciação das complexidades do gênero e da identidade literária com respeito aos padrões dos Sonetos, narrativas, e amostras de tempo e movimento. Ambos os autores mantêm os leitores longe da maior tentação colocada pelos poemas de Shakespeare – o tipo de leitura redutiva descrita acima, que compromete a diversidade do efeito pelo qual esses sonetos são mais elogiados. Por exemplo, considere esse comentário de George Rylands, elogiando os poemas líricos de Shakespeare e John Donne:

    “Esses dois poetas antes de todos os outros expressaram os muito diferentes tons do sentimento, as experiências variadas e complexas, e as atitudes do amante; o idealismo e realismo, o Odi et Amo, a constância e o ciúme, os devaneios e as desilusões, a dedicação altruísta e os tormentos da luxúria.”

    Se os Sonetos por si só são “variados e complexos” em seus sentimentos, experiências e atitudes, então, por conseguinte, as grandes peças de poesia lírica magistrais de Shakespeare encontrarão reações críticas diversas e apropriações criativas, durante os últimos quatro séculos. Os ensaios e leituras que se seguem, todos atestam essa lógica e provêm o leitor de um panorama total da amplitude inexpressível e da riqueza dessas reações.

    Apesar dessas reações tenderem para os desenvolvimentos editoriais e crítico-literário através dos séculos, os leitores podem estar certos que até mesmo hoje a promessa do falante ao Jovem Homem do soneto 55 – “Você vive nisso, e habita nos olhos do amante” – está repetidamente sendo levado a vários contextos criativos, em muitos continentes, e através de muitas mídias. Os mistérios dos Sonetos são explorados de formas diferentes e mais especulativas nos frequentes romances que buscam reconfigurar as situações originais e os personagens que as habitavam. Emprestando o seu título do Soneto 130, Nada Como o Sol (1964) de Anthony Burgess é o exemplo supremo, mas no novo século obras similares foram publicadas por Lennard J. Davis e Samuel Park. A versão da história dos Sonetos por Christopher Rush, Will, provou-se sensual o bastante para ser o finalista do prêmio Literary Review´s 2007 Bad Sex na categoria ficção. Mais canonicamente, Virginia Woolf referiu-se aos sonetos de Shakespeare em dois de seus mais famosos romances, Ao Farol e Mrs. Dalloway, enquanto outro gigante modernista, Marcel Proust, será sempre associado com Shakespeare, pelo menos para seus leitores ingleses. C. K. Scott-Montcrieff escolheu uma frase do soneto 30 “Relembranças de coisas do passado” como título para sua tradução do grande romance de Proust, A la recherché du temps perdu.

    Os poetas, também, continuam a buscar inspiração na realização lírica de Shakespeare. A poeta inglesa Wendy Cope escreveu uma sequência satírica chamada “Sonetos Strugnell” que caprichosamente esvazia as convenções dos sonetos de seu predecessor da Renascença – “Não somente o mármore / mas os brinquedos de plástico / E até as embalagens de cereais vão sobreviver a essa rima.” Nos últimos poucos anos, Peter Cummings publicou “Sonetos sobre os Sonetos de Shakespeare”, um título no qual o efeito espelho impressionaria seu inspirador, e William Bracy publicou sonetos “de um modo shakespeariano” que servem como crítica poética à sua sequência modelo. Mais curiosamente, Thomas Rangdale é o autor de “Sonetos Indecentes Decaídos de Shakespeare”, que é descrito como uma “série de sonetos politicamente incorretos, literariamente deficientes e agradavelmente desagradáveis”, inspirados por Shakespeare. Talvez o poeta original, o maior escritor de comédia de sua época também, ficaria menos ofendido por essa sequência de poesia indecente do que podemos imaginar. Mais digno de menção aqui é Um Bom Frenesi: Poetas Respondem a Shakespeare, uma excelente antologia de poemas contemporâneos em resposta a todos os aspectos de Shakespeare e sua obra, incluindo uma dúzia de poemas diretamente relacionados com os Sonetos. É claro que a influência poética de Shakespeare alcança muito além da língua inglesa. Nos últimos anos apareceram traduções dos Sonetos em Bengali e Siciliano, e no último século alguns dos maiores poetas da Europa elevaram a sua própria arte ao encarar o desafio de traduzir os poemas de Shakespeare. “Como é possível para um tradutor encontrar equivalentes que podem capturar os efeitos maravilhosos de certos modos de expressão particularmente notáveis pela sua absoluta simplicidade?” pergunta o grande poeta italiano Giuseppe Ungaretti. “Como posso fazer justiça à outras expressões que esforçam-se para revelar uma nova e liberta mensagem de uma única e inimitável natureza, ao recair nas formas tradicionais e nos temas desgastados?” Ungaretti, por seu crédito, reconheceu a árdua tarefa de seu trabalho, e relembra como ele “torturou a página por meses para terminar sem uma pitada de progresso.” Mais recentemente, o poeta francês Yves Bonnefoy escreveu com sensibilidade similar sobre a grande tarefa de traduzir Shakespeare.

    Os Sonetos de Shakespeare mantêm-se, mesmo no limite das tecnologias mais vivas e modernas. A peça do dramaturgo americano Tony Kushner, “Terminating” ou “Sonet LXXV” ou “Lass meine Schmerzen nicht verloren sein” ou Ambivalence toma sua epígrafe do soneto 75, “Assim você é para meu pensamento como alimento para a vida”, e um dos personagens principais da peça, Billygoat, recita linhas do poema para seu amante, Hendryk, que responde com irritação memorável: “Cala a boca! Odeio os sonetos. Chato chato chato.” Na terapia, a posterior descrição de Billygoat por Hendrik – “Ele é bonito e não tem alma” – torna-o suspeitosamente parecido com um Jovem Homem, mas é a Billygoat que é permitido expressar mais completamente o espírito dos dramas de desejo de Shakespeare: “Não me deixe deixá-lo. Posso não ter uma alma mas sou bonito, então faça um favor à sua alma, apegue-se a mim firmemente.” Os filmes, também, animaram os Sonetos, de Catorze Sonetos por uma Epidemia, de Derek Jarman, que escolhe poemas eróticos e interconexões estéticas, para uma recente produção da BBC, A Waste of Shame: The Mystery of Shakespeare and his Sonnets, apresentando Rupert Graves como Shakespeare e Zoë Wanamaker como a condessa de Pembroke. O exército de donos de iPod pode encontrar gravações dos Sonetos interessantes, e especialmente recomendável é a leitura de Alex Jennings de todos os 154 poemas, produzido por Naxos Audiobooks. E, é claro, a Internet torna disponível uma vasta quantidade de recursos sobre os Sonetos, com vários graus de qualidade e precisão. Os sites essenciais incluem O Incrível Site dos Sonetos de Shakespeare (http://shakespeares-sonnets.com) e Mr. William Shakespeare e a Internet (http://shakespeare.palomar.edu) – o último na guia “Obras” e “A Poesia e os Sonetos.” Manuscritos, livros, CDs, DVDs, MP3s, URLs – Shakespeare parece ter previsto que esses sonetos assumiriam novas formas, sons, interações e identidades da mídia. “E mais, muito mais, que meu verso pode conter”, seu falante diz no soneto 103, “Seu próprio vidro mostrará a você” (querendo dizer “espelho” então, mas hoje talvez a TV ou a tela do computador?) “quando você olhar nele.”

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