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Inicial Fórum Sinopse e Crítica

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    Tradução de The Shakespeare Cambridge Guide

     

              Adônis está caçando quando é abordado por Vênus, que o arranca de seu cavalo e, apesar dos protestos do rapaz, beija-o com veemência. Adônis fica indiferente em relação à atitude e à sedução retórica, porém, quando, depois de algumas horas, tenta escapar e Vênus, o cavalo dispara atrás de uma égua, deixando-o preso ali. Vênus continua com suas tentativas de persuasão; Adônis é impassível, mas, quando ela desmaia, tenta revivê-la com seus beijos. Enfim consegue partir, dizendo que não pode encontrar-se com ela no dia seguinte porque estará caçando um javali. No dia seguinte, Vênus encontra o javali ensanguentado e descobre que Adônis foi morto pelo bicho. Ela usa toda sua eloquência para enaltecer a beleza do cadáver, que então se transforma em uma flor roxa que ela jura valorizar para sempre. A deusa retorna ao Chipre para chorar o seu amor.

              Escrito e impresso pela primeira vez em 1593, Vênus e Adônis foi um tremendo sucesso popular. Foi amplamente republicado e citado com aprovação no início da cultura moderna. Ele encaixa no gênero do epyllion (epopeia em miniatura), que estava na moda no período – poemas com personagens eróticos inspirados pelas Metamorfoses de Ovídio, destinados a um público leitor composto de moços inteligentes e cáusticos, que também contavam com Hero e Leandro, de Christopher Marlowe, e Scilla´s Metamorphosis, de Thomas Lodge. Uma peça de estudantes de Cambridge em 1598 cita o poema com frequência, e, em outras ocasiões, é mencionado por moralistas e outros escritores.

                Shakespeare dedicou as “mal traçadas linhas” para o Conde de Southampton, Henry Wriothesley, chamando o poema de “o primeiro herdeiro de minha invenção” e prometendo “um trabalho mais aprimorado” (presumivelmente o poema trágico O Estupro de Lucrécia, dedicado a Southampton quando foi publicado no ano seguinte) caso fosse um sucesso. Como no poema posterior, a fonte foi Ovídio: Shakespeare consultou tanto o original em latim quanto a influente tradução de Arthur Golding (1567). Não apenas expandiu enormemente a história – levando quase 1200 versos para dar tratamento a uma narrativa que oferecia apenas 75 em Ovídio -, mas também mudou o foco de forma significativa. Apenas o Adônis de Shakespeare é um objeto adolescente relutante ao desejo de Vênus: em Ovídio, a paixão de Vênus, causada por um equívoco de Cupido, é retribuída pelo jovem amante. A comédia desta paixão não correspondida é, portanto, shakespeariana. O parente mais próximo do poema é seu mais pesado e famoso revés, O Estupro de Lucrécia, em que a perseguição erótica não tem nada de comédia, mas, no teatro, é possível que outra poderosa heroína erótica, Cleópatra, beba um pouco da fonte da energia de Vênus (Enobarbo, em Antônio e Cleópatra, descreve a rainha do Egito como “mais linda que uma imagem de Vênus” [Ato 2, CenaII]).

              O poema consiste em 199 estrofes de seis linhas, que se organizam segundo o esquema de rimas a-b-a-b-c-c.

              É evidente que Vênus e Adônis é um poema escrito por um dramaturgo – e um dramaturgo cômico que aprecia diálogos, solilóquios e insinuações. Vênus e Adônis brigam e têm problemas de comunicação como personagens dramáticos. A retórica é um dos grandes prazeres dilatórios do poema, já que as palavras e figuras de linguagem se proliferam de maneira a retardar a passagem do tempo da mesma forma que um galanteio erótico. Alegorias de contradição e paradoxo capturam a simultaneidade do desejo erótico e do desdém. O encontro de Vênus e Adônis tem como pano de fundo um universo rural que é tão distante da audiência urbana a que foi destinado e contém tantos detalhes realísticos do mundo natural que alguns críticos acharam que este é o trabalho no qual o jovem escritor de Warwickshire está mais próximo de suas raízes. Por outro lado, o cenário do poema é, como no melodrama, apenas uma amplificação ou externalização dos estados emocionais febris de seus protagonistas. O que por vezes é classificado como uma falácia patética – a atribuição de emoções humanas empáticas à natureza – é um artifício bem comum no poema. O cadáver de Adônis sangra na relva “sem nenhuma flor por perto, nem grama, folha, erva boa ou daninha”, mas estas “roubavam-lhe o sangue, e pareciam com ele sangrar”.

              A seção – inventada por Shakespeare – na qual o garanhão de Adônis persegue com entusiasmo uma égua é um bom exemplo. Onze estrofes são utilizadas na descrição do cavalo de Adônis, e, ao fim do excurso retórico, o animal tem tanta determinação erótica quanto seu cavaleiro. Uma série de observações de duplo sentido, como “de orelha em pé” (271) e “rabo grosso, largas ancas e couro macio” (298), deixa claro que o cavalo, assim como seu amo, é um objeto de desejo, até quando descreve a perseguição empreendida pelo garanhão atrás da égua, “orgulhosas como todas as fêmeas” (309), como uma corte mais ortodoxa do que aquela empreendida por Vênus a seu namorado relutante. Aqui é Adônis quem assume o papel de objeto de amor inatingível, tradicionalmente atribuído à mulher na poesia amorosa (vide Os Sonetos). O cavalo libidinoso, como a natureza exuberante descrita no bosque, é uma crítica cômica a Adônis por seu orgulho carrancudo, da mesma forma como se inspira na associação metafórica do cavalo montado com as paixões humanas. Arrastado de sua montaria, Adônis é de uma passividade cômica – nem controla seus desejos, nem se sujeita a eles, mas aparenta ser-lhes indiferente. Quando Vênus tenta seduzir o rapaz, mais interessado na caçado do que em deusas do amor, ela exclama: “Serei um parque e serás meu gamo: / Coma onde quiseres, nas montanhas ou nos vales estreitos”. A paisagem torna-se o corpo erotizado: a fixação de Adônis com a caçada funciona tanto como versão quanto deslocamento da perseguição de Vênus.

              O lado mais sombrio da analogia entre caça e caçador torna-se claro na morte de Adônis. As presas do javali perfuraram Adônis em uma paródia grotesca de uma penetração sexual fatal: “aninhado em seu flanco, o afetuoso suíno / embainhou, sem perceber, a presa em sua doce virilha”. A passividade erótica de Adônis e a sedução transgressora e ativa de Vênus encontraram sua manifestação física, e Vênus admite que é o seu desejo que em última análise é letal: “Fosse eu dentada como ele, devo confessar / beijando-o, o teria matado primeiro”.

              Nas últimas estrofes do poema, a mudança de forma associada a Ovídio reemerge. “Uma flor roxa… matizada de branco” (1168) substitui o amado corpo de Adônis – uma flor que, inevitavelmente, Vênus “colhe” (1175) para poder levar consigo até Paphos. A objetificação de Adônis está completa.

     

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