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Inicial Fórum Ensinar Shakespeare Conteúdo para professores Shakespeare: o poeta ilimitado

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    Objetivos
    – Refletir sobre o legado de William Shakespeare e sobre sua importância para a literatura;
    – Ler e analisar trechos de Hamlet (ATO I e II).

    Conteúdos
    – Literatura; Shakespeare e sua obra.

    Tempo estimado
    Três aulas.

    Introdução
    Passados mais de 400 anos da data comemorativa do nascimento de William Shakespeare (1564-1616), ainda é notória a relevância do poeta inglês para os estudos literários. Um exemplo dessa importância se expressa pelo grande número de estudos sobre o poeta e dramaturgo. Por meio de sua extensa obra, podemos verificar a complexidade humana segundo o arquétipo do homem no mundo moderno.

    VEJA desta semana comenta o lançamento de mais uma obra sobre o autor. Trata-se do premiado livro de James Shapiro, 1599: Um ano na vida de William Shakespeare. Aproveite a discussão sobre a influência shakespeariana ainda nos dias atuais para convidar os alunos a conhecer o maior poeta inglês de todos os tempos através da reportagem 1599: O ano que mudou a história, de Jerônimo Teixeira, publicada em VEJA.

    Desenvolvimento

    Preparação
    Devido à grande popularidade de Shakespeare, peça antecipadamente que os alunos tragam de casa ou da biblioteca obras do poeta inglês (também vale estudos sobre ele ou adaptações cinematográficas de suas obras). Você também poderá contribuir para a ampliação do material por meio de pesquisas em bibliotecas públicas e na internet. Isso irá reforçar a relevância de Shakespeare frente à turma.

    1ª aula
    Organize uma exposição em sala dos materiais trazidos pelos alunos. Fale sobre a influência de Shakespeare ainda hoje. Pergunte o que a turma conhece sobre o autor de Romeu e Julieta, Sonho de uma Noite de Verão, A Tempestade, Otelo, Rei Lear, Macbeth, Hamlet, entre outras. Dê um tempo para o debate e esclareça dúvidas surgidas. A turma pode lembrar, por exemplo, o filme Hamlet, de Franco Zeffirelli. Produzido em 1990 e com participação de Mel Gibson (no papel do príncipe da Dinamarca) e Glenn Close (como a mãe do mesmo príncipe), o filme recebeu duas indicações para o Oscar – Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino. Vale ressaltar que essa marcante peça recebeu outras adaptações cinematográficas como a dirigida por Laurence Olivier em 1948 (premiada com quatro Oscars – Melhor Filme, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino e Melhor Ator – Laurence Olivier). O texto ganhou também adaptações mais ousadas como a realizada por Michael Almereyda em 2000, na qual a trama se passa em plena Nova York do século 21. Destaque a importância shakespeariana inclusive pelas constantes encenações de suas peças em várias partes do mundo, assim como pelos novos estudos acadêmicos que surgem sobre ele a todo o momento.
    Em seguida, apresente à moçada a reportagem 1599: O ano que mudou a história, de Jerônimo Teixeira, publicada em VEJA. Peça que todos façam a leitura do texto, sempre esclarecendo as dúvidas surgidas e procurando contextualizar Shakespeare e suas obras. Pergunte qual é a ênfase do livro abordado na reportagem. A turma deverá perceber que a dica se encontra no próprio título do livro de James Shapiro. Segundo a reportagem, a proeza de Shapiro é trazer Shakespeare “de volta ao chão sujo e contingente da realidade de seu tempo”, e mostrar o gênio em meio aos problemas externos da companhia teatral que deu origem ao Globe, o teatro inglês mais importante da história. Além disso, o escritor americano procura analisar “a complexa rede de alusões que as peças fazem à política”. O ano de 1599, por fim, representa um ano de intensa produção artístico-intelectual de Shakespeare, culminando com a redação de Hamlet.

    2ª aula
    Apresente à turma Hamlet, a consagrada tragédia de Shakespeare. Comente resumidamente suas principais características. Como atividade, proponha a leitura do ATO I. Esclareça as dúvidas dos alunos e faça, com a participação deles, uma análise deste primeiro trecho da peça. Questione, por exemplo, o enredo de Hamlet, seus personagens, a linguagem utilizada.
    Tradicionalmente, o gênero dramático possui uma estrutura comum para as peças teatrais: palco, cenário, personagens e espectadores formam sua base; e sua composição dividida em atos e cenas. Ainda na forma de texto, a peça teatral comporta uma divisão semelhante, porém em palavras: divisão e descrição das cenas (normalmente pela indicação da fonte em itálico) e a representação das falas dos personagens. Lembre aos alunos que, naquela época, para facilitar a memorização das falas dos personagens pelos atores, os dramaturgos procuravam compor suas peças em forma de poesia.
    O enredo do primeiro ato se resume num suspense: após o constante adiamento de que fala Frank Kermode (Cf. bibliografia) sobre as “férteis protelações” da peça, o ATO I termina com a aparição do fantasma do pai de Hamlet fazendo a terrível revelação ao filho de seu assassinato pelas mãos de Cláudio, seu irmão (tio do príncipe Hamlet, futuro rei da Dinamarca e segundo marido de Gertrudes, rainha dinamarquesa e mãe de Hamlet).
    Ressalte que a linguagem da peça é exemplar em duplos de toda espécie. Essas duplicações interferem na estrutura da obra. Há pares de personagens: os embaixadores Cornelius e Voltemand e os amigos traidores Rosencrantz e Guildesntern. Há, dentro da peça a encenação de outras duas as peças – A Ratoeira e O assassinato de Gonzaga. A figura do vingador vivida pelo príncipe dinamarquês é igualmente duplicada tanto em Laertes quanto em Fortinbras, que querem vingar a morte de seus pais. Outro exemplo de duplicação encontra-se no modo de falar de Hamlet:

    Parece, senhora? não, é, não sei de “parece”.
    Não é apenas minha capa preta, boa mãe,
    Nem trajes costumeiros de preto solene,
    Nem suspiros ventosos de respiração forçada,
    Não, nem o frutífero rio dos olhos,
    Nem o comportamento deprimido do rosto,
    Junto com todas as formalidades, climas e formas da dor,
    Que podem expressar-me com verdade. Esses de fato parecem,
    Pois são ações que um homem pode representar,
    Mas eu tenho por dentro o que supera o aspecto,
    Estes são apenas os trapos e os ornamentos da dor.
    (1.2.76-86)

    Nesse trecho, vemos além das repetições de “parece”, as referências ao teatro expressas em “aspecto”, “ações” e “representa”. Esta característica de duplos dominante em Hamlet é reforçada pelo uso da figura de linguagem conhecida como hendíade: seu significado é dizer uma ideia mediante dois substantivos, como, por exemplo, “lei e ordem”. São ideias transmitidas por meio de um par de palavras, conectadas pela conjunção “e”. Segue alguns exemplos de hendíades extraídas da peça:

    • “anjos e ministros da Graça nos defendam” (1.4.39);
    • “os abstratos e breves cronistas do tempo” (2.2.524);
    • “o livro e o volume de meu cérebro” (1.5.103);
    • “estímulos do espírito e do sangue” (4.4.63).

    Outra marca da linguagem em Hamlet é a passagem do verso à prosa e vise-versa. As conversas do príncipe dinamarquês com Rosencrantz e Guildenstern são de uma prosa que inicialmente parece em tom generoso, para logo transformar-se em suspeita. Já nas cenas iniciais em que Bernardo rebate o ceticismo de Horácio, ele começa a descrever a aparição do rei-fantasma na noite anterior em formas poéticas:

    Na última noite,
    Aquela mesma estrela ali a oeste
    Tendo feito o seu curso e iluminado
    Esta parte do céu onde arde agora,
    Marcelo e eu, ao badalar uma hora…
    (1.1.35-39)

    Esclareça à turma que uma das jóias dessa peça são as bruscas mudanças de tom. Somos levados do estado de pura poesia à plena conversação (prosa). Outro exemplo dessa mudança de tom refere-se à sequência da cena do juramento entre o príncipe dinamarquês e seus amigos – Horácio, Marcelo e Bernardo – que é adiada para novamente estarmos diante do clima doméstico, na residência de Polônio. Mostre também aos alunos que a prorrogação por não adentrar logo ao cerne da peça condiz com uma expectativa que Shakespeare pretendeu criar em seu público, deixando-o sempre numa tensão e entregue à complexidade do pensamento e à interiorização dos personagens.

    Além dos duplos e das variações de tons, observamos na linguagem da peça uma forte presença do paralelismo. Veja o exemplo no seguinte diálogo entre Hamlet e sua mãe:

    Rainha: Hamlet, tu ofendeste muito teu pai.
    Hamlet: Mãe, vós ofendeste muito meu pai.
    Rainha: Vamos, vamos, respondeis com língua louca.
    Hamlet: Ide, Ide, vós interrogais com língua má.
    (3.4.9-12)

    Por fim, lembre que por meio da poesia, o príncipe Hamlet está relacionando sua situação particular a uma visão mais ampla da condição humana. Ele não pensa somente em si, mas, sobretudo, na espécie. E devido ao seu forte pessimismo tudo parece estar perdido, um mundo mergulhado em trevas. Ele está transtornado e obcecado com a ideia de traição que culminou com a morte seu pai.

    3ª aula
    Peça à turma que leia o ATO II. Com base na aula anterior, os alunos deverão informar por escrito se o ATO II apresenta as mesmas características. Você poderá elaborar algumas questões para facilitar a atividade, como, por exemplo: Que relação há entre Reinaldo, o criado de Polônio, e os amigos Rosencrantz e Guildenstern? O que o trecho final deste segundo ato pretende dizer? Espera-se que os alunos façam anotações em seus cadernos sobre os seguintes temas:

    • Preocupação de Cláudio (rei) e Gertrudes (rainha) com a profunda melancolia do príncipe Hamlet;
    • a paridade entre os desígnios de Reinaldo e os inseparáveis Rosencrantz e Guildenstern como espiões – o primeiro de Laertes, filho de Polônio, e os outros do príncipe Hamlet;
    • o caráter político da aparição de Voltemand;
    • o conluio de Polônio e Cláudio para descobrir a veracidade da “loucura” do príncipe Hamlet;
    • a desconfiança de Hamlet e a posterior certeza das intenções de Rosencrantz e Guildenstern – reforçando o ódio do príncipe por Cláudio;
    • o caráter crítico teatral presente na conversa entre o príncipe Hamlet e Rosencrantz;
    • o indício da falsa loucura de Hamlet: “Eu só sou louco a Norte-noroeste; quando o vento é do Sul distingo um gavião de um falcão” (1.2.369-370);
    • as discussões em torno da peça a ser encenada;
    • os versos do príncipe finalizando o ATO II. Neste monólogo, Hamlet se mostra diante uma forte tendência cética e, por isso, faz uso de sua sabedoria para descobrir a verdade sobre o suposto assassinato de seu pai. Assim, ele fará uso da peça teatral “pra explodir a consciência do rei” (1.2.605-606);
    • características da linguagem: variação entre prosa e poesia, presença de duplos e hendíades, mudanças repentinas de tom, paralelismos etc.

    Avaliação
    A avaliação deverá levar em consideração tanto a participação efetiva dos alunos durante as aulas, como a análise crítica das respostas apresentadas por eles.
    Espera-se também que os alunos se sintam provocados a finalizarem a leitura da obra.

    Quer saber mais?

    Bibliografia
    – 1599: Um ano na vida de William Shakespeare, James Shapiro, Ed. Planeta, tel.
    – Hamlet, William Shakespeare, L&PM, tel.
    – Hamlet: Poema ilimitado, Harold Bloom, Ed. Objetiva, tel.
    – A linguagem de Shakespeare, Frank Kermode, Ed. Record, tel.

    Filmografia
    – Hamlet, Laurence Olivier, Universal-Internacional, 1948.
    – Hamlet, Franco Zeffirelli, Warner Bros, 1990.
    – Hamlet: Vingança e tragédia, Michael Almereyda, Miramax Films, 2000.

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