Please consider donate. | Por favor, considere doar qualquer quantia para mantermos o site.

Inicial Fórum Discussão Geral Discussão Geral sobre Shakespeare Shakespeare apaixonante

Visualizando 1 post (de 1 do total)
  • Autor
    Posts
  • #10848

    Mesmo quem nunca assistiu a uma de suas peças saberá dizer pelo menos uma frase de seus eternos personagens. No entanto, quase 400 anos depois de sua morte, permanece a desproporção entre o que sabemos sobre a obra do gênio e a vida do homem

    Jerônimo Teixeira | 01/04/2004 00h00

    Foi um inverno rigoroso. No meio da madrugada, sob uma tempestade de neve, uma carroça cruzava a ponte sobre o rio Tâmisa congelado. O tempo inóspito vinha a calhar: ninguém desejava que aquele imenso – e ilícito – carregamento de madeira fosse visto. O material vinha do Theatre, um dos primeiros teatros de Londres. O proprietário do terreno criava dificuldades para renovar o arrendamento do Theatre para a trupe que atuava ali, os Lord Chamberlain’s Men. Os irmãos Cuthbert e Richard Burgage, atores da companhia, recorreram a um expediente ousado para não ficar sem casa: contrataram carpinteiros para desmontar o Theatre. No fim de 1598, a madeira foi carregada para outro subúrbio londrino, onde em alguns meses seria erguido o novo teatro Globe. A ousadia dos Lord Chamberlain’s Men seguiria adiante: pouco tempo depois, o Globe veria a estréia da mais complexa peça literária já escrita. Hamlet, do poeta e ator William Shakespeare, fez sucesso entre o público londrino.

     

     

    Macbeth, Rei Lear, Otelo, A Tempestade – os grandes textos da maturidade de Shakespeare foram encenados no Globe. O teatro foi destruído por um incêndio em 1613. Provavelmente, depois desse triste incidente, Shakespeare abandonou o palco e voltou para sua vila natal, Stratford-upon-Avon, onde morreu de uma febre indeterminada em 1616. “O resto é silêncio”, diz Hamlet, em sua famosa última fala. A morte de Shakespeare, porém, não o silenciou. Em 1623, era lançada a primeira coletânea de sua obra teatral, o chamado Primeiro Fólio (no formato “infolio”, a folha de papel é dobrada em duas, resultando em um livro de tamanho maior do que o “inquarto”, dobrado em quatro). O livro reuniu todas as peças shakespereanas que hoje conhecemos, menos Péricles, da qual só sobreviveu uma duvidosa edição inquarto. Do total de 36 textos no Fólio, 18 nunca haviam sido publicados. Não será exagero dizer que, se não fosse o esforço dos atores John Heminges e Henry Condell, que tiveram a iniciativa de imprimir a obra do velho companheiro Will, a literatura e o teatro não seriam os mesmos hoje.

    Mesmo quem nunca leu uma peça sua saberá citar alguma frase de um de seus personagens – como a batida (mas sublime, quando recolocada no contexto) “ser ou não ser”, de Hamlet. Shakespeare é o escritor mais citado, aludido, revisado, revisitado que existiu. Também é o nome mais aplaudido nos palcos de todo o mundo. E um favorito do cinema: de Laurence Olivier a Leonardo DiCaprio, atores de várias gerações já encarnaram seus complexos personagens na tela grande. Aliás, são mais de mil personagens em suas peças, incluindo aí os mais difíceis papéis que um ator pode enfrentar – como o rei Lear e, mais uma vez, o príncipe Hamlet (o próprio Shakespeare, aliás, interpretou o espectro do rei Hamlet).

    Em 1709, Nicholas Rowe escreveu um impreciso perfil de 40 páginas como introdução para uma obra completa de Shakespeare. Desde então, os eruditos têm desencavado muitos documentos com referências a Shagspere, Shackspeare ou Shaxspere (a ortografia do inglês ainda não estava estabelecida na época, e os sobrenomes variavam muito). Mas parece haver uma incorrigível desproporção entre o tamanho do gênio e a vida do homem. A lenda diz que Shakespeare teria nascido no mesmo dia em que morreu, 23 de abril. Na verdade, só o que sabemos é que ele foi batizado em 26 de abril de 1564. Foi o primeiro filho do luveiro John Shakespeare e de sua mulher, Mary Arden, a sobreviver à infância – a mortalidade infantil era alta. O menino seguramente freqüentou a escola de latim (ainda que, em um poema em homenagem a Shakespeare incluído no Primeiro Fólio, seu amigo e rival Ben Jonson tenha afirmado que o “cisne de Avon” sabia “pouco latim e menos grego”).

    Em 1582, o futuro poeta casou-se apressadamente com Anne Hathaway – Susanna já se debatia dentro da barriga da mãe quando o casal recebeu a benção da igreja. A nova família vivia sob o teto de John Shakespeare, e não se sabe exatamente como William ajudaria no sustento da casa. Há indícios de que ele tenha sido tutor de meninos, ensinando latim para filhos da nobreza. Em 1585, Anne deu à luz Judith e Hamnet (o menino morreu com 11 anos). Podemos supor que Shakespeare ainda estava em Stratford pela época do nascimento dos gêmeos. Em seguida, abre-se a maior e mais misteriosa lacuna de sua vida. Ninguém sabe exatamente quando Shakespeare foi para Londres. Algumas companhias teatrais da capital apresentavam-se em Stratford, e biógrafos românticos gostam de imaginar o jovem poeta impulsivamente ganhando a estrada com uma trupe itinerante. Até onde se sabe, no entanto, as companhias não recrutavam atores na província.

    No reinado de Elisabeth I, Londres era uma metrópole cosmopolita, o centro de um emergente império naval. A vitória inglesa sobre a poderosa Armada (frota) espanhola, em 1588, havia rompido definitivamente o monopólio ibérico nos mares. A guerra com a Espanha, porém, prolongava-se, agravando a inflação. Surtos de peste eram comuns na cidade insalubre, e os atores sofriam: o poder municipal fechava o teatro sempre que a peste reaparecia. As condições de vida eram duras – o número de mortes era maior do que de nascimentos, mas a cidade seguia crescendo por causa das levas de imigrantes. Por volta de 1600, Londres teria 200 mil habitantes.

    Nem todos os recém-chegados terão tido o sucesso de Shakespeare. Will era ator e autor teatral, o que não era muito comum então. Os poetas de maior sucesso no palco eram os chamados “Gênios Universitários” (University Wits), egressos em sua maioria de Oxford – gente como Thomas Lyly e Cristopher Marlowe. Shakespeare não tinha formação universitária e talvez, por isso, tenha despertado inveja. Em 1592, um panfleto póstumo assinado por Robert Greene – um Gênio Universitário de vida promíscua e morte pobre – acusava Shakespeare de ser um plagiário pretensioso. Em um trocadilho que ficou famoso, Greene dizia que o novo poeta se considerava único Shake-scene (“sacode cenas”) de Londres. Shakespeare não parece ter se abalado com o falecido Greene. Seu grande rival artístico seria mesmo Ben Jonson. Na virada do século 16 para o 17, uma briga dividiu os palcos londrinos. O público divertia-se com os virulentos ataques que os dramaturgos faziam uns aos outros. Os principais envolvidos eram, de um lado, o provocador Jonson, e, de outro, Thomas Dekker e John Marston. Foi Dekker quem batizou o conflito de “Poetomaquia” – a Guerra dos Poetas. Alguns críticos consideram que Shakespeare manteve uma distância olímpica desse quebra-pau cênico. Na verdade, Shakespeare satirizou Jonson na figura do arrogante guerreiro Ajax em Troilus e Créssida.

    Histórias sobre disputas verbais travadas entre Shakespeare e Ben Jonson em esfumaçadas tavernas encantaram gerações de leitores, mas carecem de comprovação. Ninguém sabe que tavernas Shakespeare freqüentava – se é que ele as freqüentava. Há uma anedota, registrada nos diários de um estudante de direito em 1602, na qual Shakespeare aparece passando a perna em Richard Burgage. Em uma noite em que fazia o papel-título de Ricardo III, o ator combinou um encontro amoroso para depois do espetáculo. Shakespeare, que ouvira a conversa entre seu companheiro e a amante, bateu mais cedo à porta da jovem dama – e prontamente recebeu os favores dela. Quando Burbage apareceu, Shakespeare lhe mandou um recado dizendo que Guilherme (William), o Conquistador, chegara antes de Ricardo III. A maior parte dos fatos conhecidos, porém, não reiteram a imagem de artista dissoluto. Enquanto fazia a vida em Londres, Shakespeare, prudente, seguia investindo em Stratford – chegou a comprar a segunda maior casa do lugarejo, chamada New Place.

    Em 1603, após a morte de Elizabeth, Jaime VI, rei da Escócia, subiu ao trono inglês como Jaime I, dando início ao reinado da dinastia Stuart. A antiga Lord Chamberlain’s Men ganhou novo status oficial: com o rei como patrono, tornou-se a King’s Men. Em termos materiais, porém, isso significou pouco: os atores não ganhavam muito mais do que cozinheiros e serviçais da corte. Uma dos mitos persistentes em torno de Shakespeare é a de que sua poesia tenha conquistado a afeição real. Lendas falam de peças que ele teria escrito a pedido da rainha Elizabeth. O próprio Ben Jonson, em sua homenagem póstuma a Shakespeare, fala das peças que “tanto arrebatavam Eliza e Jaime”. Nenhum dos monarcas, porém, deixou qualquer indicação de preferência por algum dramaturgo em particular.

    A lenda de Shakespeare nutriu-se também de seus maravilhosos sonetos. Foram escritos provavelmente ao longo da década de 90 do século 16, quando o soneto era a grande moda literária, mas sua publicação só saiu em 1609. Nesses poemas, Shakespeare fala de dois amantes: um jovem rapaz e uma mulher de pele escura, a chamada “Dama Negra” (Dark Lady). Tais personagens seriam criações exclusivas da imaginação do poeta – ou foram inspirados em pessoas reais? Só podemos especular. O candidato mais cotado para o papel de jovem amante é o conde de Southampton, a quem Shakespeare dedicou os poemas eróticos Vênus e Adonis e A Violação de Lucrécia. Lucy Negro, uma mulher negra que administrava um bordel em Londres, é uma das apontadas como possível Dama Negra.

    Há especulações ainda mais desvairadas sobre o poeta. Um reles ator sem educação universitária poderia ser o maior nome da literatura inglesa? Alguns dizem que não. Shakespeare seria apenas uma fachada, um testa-de-ferro para outro escritor – talvez o filósofo Francis Bacon, ou o conde de Oxford (até Freud apostava neste último). Essas teorias tiveram sua voga, mas hoje estão completamente desacreditadas. Não surpreende que a identidade de Shakespeare tenha sido questionada. Sua obra é tão extraordinária que só podemos concluir que ninguém pode ter sido Shakespeare – a não ser, é claro, Shakespeare.

    Saiba mais

    Livros

    Shakespeare, uma Vida, Park Honan, Companhia das Letras, 2001, Um homem raro emerge desse texto recente que descreve um Shakespeare comum.

    Shakespeare, a Invenção do Humano, Harold Bloom, Objetiva, 2000, Sobre a importância dos personagens shakesperianos na formação dos mitos modernos.

    Shakespeare & the Poets War, James P. Bednarz, Columbia University Press, 2001, Análise focada nos fatos históricos por trás da obras de Shakespeare.

    The Complete Works, William Shakespeare, Oxford University Press, 1992, Coletânea dos textos no inglês original.

    Sites

    http://the-tech.mit.edu/Shakespeare/, Traz a |obra completa de Shakespeare, em inglês.

    http://www.rdg.ac.uk/globe/, Dedicado às pesquisas arqueológicas e históricas sobre o antigo teatro. Há ainda informações sobre a construção do novo Globe.

Visualizando 1 post (de 1 do total)

Você deve fazer login para responder a este tópico.

Fechar Menu