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Inicial Fórum Discussão Geral Discussão Geral sobre Shakespeare Resenha de Livro: Shakespeare and Text

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    Shakespeare and TextTítulo: Shakespeare and Text
    Autor: John Jowett
    Série: Oxford Shakespeare Topics
    Ano: 2012 (1ª edição: 2007)

     

     

     

     


    Sobre o autor

    John Jowett é vice-diretor do Shakespeare Institute da University of Birmingham, localizada em Stratford-Upon-Avon, Inglaterra. Editou a peça Richard III (2000) e Timon of Athens (2004) pela Oxford. É editor da peça recentemente incorporada ao cânone shakespereano Sir Thomas More (2011), em uma cuidadosa edição assinada pela Arden Shakespeare Third Series. Possui vasta obra relacionada às práticas textuais do período, entre performance e texto escrito, entre elas, ao lado de Gary Taylor, Shakespeare Reshaped 1606-1623(1993;1997). Preparou as edições completas de Shakespeare pela Oxford ao lado de Gary Taylor e Stanley Wells. Também editou as obras de Thomas Middleton. É editor geral da coleção Arden Eraly Modern Drama, que publica, com a mesma qualidade das edições dedicadas a Shakespeare, dramas do período Tudor e Stuart e membro de comissões de revistas distintas dentro da crítica shakespereana. [Veja mais sobre o autor]

    Sobre a série
    A série Oxford Shakespeare Topics possui diversos livros que relacionam Shakespeare a algum assunto específico. O tratamento dado à temática é uma boa opção para aqueles que não têm tanta familiaridade com a especificidade do tema como também àqueles que desejam uma introdução naquele assunto na obra shakespereana. [Conheça mais sobre a série]

    Shakespeare and Text trata, com um avançar gradativo, das dificuldades e questões complexas acerca do texto dramático produzido, encenado e impresso na Inglaterra do período em que Shakespeare viveu. Na verdade, o problema se coloca ao leitor moderno que recebe o texto shakespereano, na maior parte das vezes, em edições modernizadas e atualizadas. O percurso passa a ser, então, o caminho que o texto percorreu desde que fora escrito para os palcos até o momento em que chegou às nossas prateleiras, não por uma ordem de como cada século e época tratou e cuidou do texto shakespereano. Não é necessário ir tão longe, pois o próprio processo de “editoração” do início da Idade Moderna já coloca diversas questões sobre a “estabilidade do texto”. Este ponto acaba por se tornar a reflexão central durante a leitura do livro de Jowett.
    O livro se divide em oito capítulos. No primeiro deles é tratado o assunto do “colaborador e o autor” reforçando qual o papel do autor – se é que se pode pensar em um – no caso das peças produzidas durante a época de Shakespeare. Não se trata, portanto, para leitores que sustentam a ilusão romântica e anacrônica da ideia de William Shakespeare como o autor solitário e integral de todas as palavras, responsável pela formação de versos e a divisão de cenas e atos. Por meio de exemplos, que são abundantes e bem colocados ao longo de todo o livro, Jowett situa a obra de Shakespeare e as práticas de seu tempo no cuidado (ou falta dele) com o texto. A colaboração é vista como algo extremamente comum, e a lista de obras de provável colaboração envolve diversas peças, algumas delas incorporadas ao cânone recentemente, como PériclesSir Thomas More,Eduardo IIIDois Nobres Primos e Cardênio; entre outras peças mais conhecidas como Henrique VI Parte I,Timão de Atenas, e Titus Andronicus; e algumas identificadas com coautoria com Thomas Middleton, nas conhecidas peças, Medida por Medida e Macbeth. Este conjunto e as 16 peças que nunca foram publicadas antes do Folio, colocam absolutamente em revisão a ideia de “sole author”.
    Algumas comparações são apresentadas e discutidas, como, por exemplo, as duas versões de Rei Lear, na qual a morte do protagonista se dá com poucos versos de diferença, mas altera a percepção do velho rei se Cordélia está ou não viva. A publicação dos Quartos e o aparecimento do nome de Shakespeare – e seu desaparecimento dos frontispícios após 1604 por motivos não muitos claros – são tratados e interpretados pelo interesse comercial que existia pela publicação da peça.
    A peça Sir Thomas More, editada por Jowett em 2011 na Arden Shakespeare, aparece frequentemente ao longo do livro, pois é um dos poucos documentos dramáticos no qual é possível observar diversas práticas relacionadas à produção e manutenção de uma peça. Assim como nesta peça, o problema de atribuição de autorias é sempre um assunto muito especulativo pois sua metodologia é sempre colocada em cheque, em um cenário no qual as opiniões divergem muito, em especial pela expectativa daquilo que se procura encontrar. Em síntese a este ponto que desejo destacar aqui, diz Jowett:

    What presents itself as the dispassionate philological project of attribution study turns out, within this view, to support a conservatively romantic notion of the author that is inappropriate to early modern playwriting. Yet it is only through seeking to describe the artistic, cultural, and material aspects of authorship and collaboration with respect to particular texts that any notion of the author can be founded, whether romantic or post-dating Michel Foucault’s metamorphosis of authorship from the act of writing to the construction of the authorial figure through acts of publication and reception. (p. 22-3)

     

    No capítulo 2 é tratada a prática teatral. Os manuscritos, a relação com a censura, as revisões, alterações, cópias, anotações ocupam as preocupações do autor em descrever nesse mundo sem muitas práticas estritamente regulares no qual as peças foram produzidas e alteradas de acordo com as circunstâncias – como leis de censura ou aos grupos que condenavam as práticas artísticas – aos quais os dramaturgos e companhias teatrais estavam sujeitos. O exemplo da cena de deposição em Ricardo II, na qual entrega a coroa a Bolingbroke (futuro Henrique IV) e que jamais fora impressa nas primeiras versões da cena é exemplar, além, claro, da representação desta peça costumeiramente levantar questões sensíveis sobre a legitimidade do poder. Destaco aqui o cuidado do autor em tratar de peças que foram montadas após a morte de Shakespeare ou após o Act of Restraint (que visava limpar as peças de traços de profanidade), apontando alterações e adaptações significativas que, por consequência, acabaram sendo incorporadas ao Primeiro Folio e fazem parte do que lemos hoje em Medida por Medida e Macbeth, para citar exemplos de peças de maior impacto.
    No capítulo 3 e 4 o livro como objeto físico passa a ser o centro das atenções. Jowett expõe detalhadamente o processo de composição física do livro em quarto e em Folio, como os textos foram selecionados, reunidos e publicados. O livro, dessa forma, pode ser visto em um sentido materialista, no qual o arriscado projeto de se publicar uma coleção de Obras Completas tem sua receptividade e retorno financeiro como uma preocupação primária. Questões como o direito sobre a obra/performance eram fundamentais para a escolha do texto que iria compor a versão a entrar no Folio e, claro, em um processo manual diversos erros podem ser localizados. É neste momento de preparação de um Folio que se definia aquilo que se desejava entender por Shakespeare, em especial marcando-o como um autor único, dividindo por gênero e alterando os títulos de algumas de sua obras. Nas palavras de Jowett “the Folio misrepresents Shakespeare as a dramatist by isolating him from the theatre” (p.88-9) e que este “is not in all respects accurate, or truthful, or objective in its presentation of Shakespeare” (p. 92).
    O estabelecimento do texto passa a ser a preocupação dos próximos capítulos, pois é neste processo que o texto chega aos leitores de hoje. Noções como good e bad quarto são discutidas colocando em questão o quanto a recuperação por memória, por mais distinta que seja, de um texto escrito está mais próxima daquilo que fora representado. Também é colocada em questão a pirataria dos textos e sua associação ao texto reconstruído pela memória. Jowett coloca essas noções, defendidas pela “New Bibliography” no início do século XX, como um argumento fraco, pois uma redução do texto da peça – baseada em um julgamento estético particularizado e datado – pode muito bem indicar uma adaptação e não uma memória fraca. A hipótese da memória acaba por se tornar o ponto mais fraco das teorias que desvalorizavam os textos Quartos e, consequentemente, são esses textos que vem ganhando atenção como adaptações e não como frutos de corrupção textual. Nesse sentido, para Jowett, todo texto em Quarto é um texto potencialmente preparado para performance e aberto ao estudo.
    A relação Quarto e Folio traz consigo a questão da preparação dos textos, o que engloba a edição e seleção de versos de diversas edições das peças. Tanto para um como para o outro há casos em que o mais autoral (teria menos traços de adaptações) pode ser um ou outro. A tarefa do editor, a escolha, a “conflação” – reunião de diversas versões – acaba por se tornar a prática mais comum durante a edição, o que é, em outras palavras, a intervenção do editor no estabelecimento do texto. Nesse processo as opções estilísticas são datadas, pois podem ser belas a um período e não a outro além de diferirem nas interposições teatrais entre a época em que fora escrita e aquela que a edita. Para completar, há ainda no texto o processo de modernização das palavras, a inserção de direções de palco e a versificação. Neste último é curiosa, em alguns textos, a falta de uma marcação padrão para se determinar quebra de versos, ou casos em que o espaço e o custo do papel colocaram longas sequências de versos decassílabos em formato de prosa. Pode-se concluir que o editor pode ser visto como um autor e que as várias versões do texto reforçam a falta de estabilidade deste.
    Por fim, o estudo de Jowett coloca o texto como o problema central e ainda não superado na crítica shakespereana. Nenhuma edição, por mais rigorosa e cheia de notas atenderá as inúmeras particularidades suscitadas pelo processo de edição às quais esses textos estavam sujeitos. Poré, o texto eletrônico, por sua característica de ser facilmente manipulável pode vir a se tornar uma ferramenta para a visualização de todas as variações daquilo que compõe o “texto”.
    O livro é complementado por muitas notas localizadas no final do volume, onde também se encontram um glossário dos termos técnicos empregados pelo autor, apêndices que ilustram alguns casos significativos de diferenças textuais e sugestões de leitura divididas por assunto.

    Shakespeare and Text
     é um belíssimo trabalho sobre texto, pois tem como preocupação o processo cultural de editoração e publicação e não somente questões textuais que eventualmente, em algumas introduções, são extremamente técnicas e detidas apenas no texto da peça em questão. O tratamento de Jowett com os exemplos é muito bem feito, trazendo para o leitor casos relevantes no qual as leituras e as interpretações são/seriam impactadas de acordo com a forma que o texto é editado para o leitor moderno. Após a leitura e o processo de “desmistificação textual”, certamente o leitor não olhará mais para os textos desse período como objetos intocáveis. Um trabalho primoroso, cuidadoso e extremamente respeitoso a todo tipo de leitor que venha a ter contato com o livro. Tanto para os interessados em problemas textuais como para aqueles que desejam compreender a relação drama/literatura, na qual o texto e o livro ocupam lugares centrais, é uma leitura essencial e imperdível.

    Instituto Shakespeare Brasil, Setembro de 2012

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