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Inicial Fórum Discussão Geral Discussão Geral sobre Shakespeare Resenha de Livro: Cardenio entre Cervantes e Shakespeare: História de uma peça perdida

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    Título: Cardenio entre Cervantes e Shakespeare: História de uma peça perdida
    Autor: Roger Chartier
    Tradutor: Edmir Missio
    Tradução de: Cardenio entre Cervantes et Shakespeare (Paris: Gallimard, 2011)
    Editora: Civilização Brasileira
    Cidade: Rio de Janeiro
    Ano: 2012 (1ª edição: 2011)

     

    Cardenio entre Cervantes e Shakespeare: História de uma peça perdida

    O historiador francês Roger Chartier é conhecido por sua intensa pesquisa acerca da História da leitura e dos livros na época moderna. Diretor de estudos e investigações históricas da École des Hautes Études en Sciences Sociales, professor de uma cadeira que parece ter sido feita para ele no Colége de France – “Escrita e Cultura na Europa Moderna”. Em seu mais novo livro, Cardenio entre Cervantes et Shakespeare (Paris: Gallimard, 2011), traduzido no Brasil, pouco tempo após seu lançamento, como Cardenio entre Cervantes e Shakespeare: História de uma peça perdida, Chartier busca investigar a produção, apresentação, desaparecimento e ressurreição de uma peça que tem provavelmente Shakespeare como um de seus autores, The History of Cardenio. O nome mostra inapelavelmente que o dramaturgo usou como fonte uma das “novelas” que compõe a primeira parte deDom Quixote (1605) de Cervantes, cujo protagonista também se chama Cardenio.

    A primeira parte do romance de Cervantes foi traduzida na Inglaterra por Thomas Shelton e publicada em 1612. No início de 1613 uma peça chamada Cardenna ou Cardenno foi apresentada na Corte pelos atores da The King’s Men, companhia de Shakespeare. Em 1653, muitos anos após a morte de Shakespeare e 30 anos após oPrimeiro Folio, é registrado o “right in copy” de uma peça chamada The History of Cardenio,  indicando o nome de Shakespeare após o de John Fletcher como autores. A semelhança dos títulos assevera que estes registros de épocas diferentes se referem à mesma peça. Não existe uma cópia manuscrita ou publicação do texto original que tenha sobrevivido até nós, nem qualquer menção a alguma outra apresentação.

    Em 1727, o teatrólogo londrino Lewis Theobald anunciou a encenação de um texto desaparecido de Shakespeare, “revisado” e “adaptado” por ele. A peça chamada de Double Falshood or The Distres et Loversestre ou no Teatro Real alcançando certo sucesso. Muitos críticos duvidaram da autenticidade da obra, mas mesmo assim o texto foi publicado logo em seguida com uma licença real antecedida das armas reais, fato incomum na época. Através dos exemplares desta publicação pode-se ver que a peça foi inspirada na mesma trama particular de amor e amizade que envolve o personagem Cardenio na obra de Cervantes. Ao notar que Theobald dificilmente conheceria os únicos registros que atestavam a existência da peça Cardenio, Chartier conclui que Double Falshood é provavelmente uma adaptação do texto escrito por Shakespeare e Fletcher por volta de 1613. Partindo destes fatos e escassos registros, o historiador empreende uma busca quase arqueológica pelos vestígios que o texto original pode ter deixado na versão possivelmente bastante modificada de Theobald.

    O pesquisador estuda o momento desta primeira adaptação da trama de Cardenio feita durante o reinado de Jaime Stuart I pela companhia de Shakespeare. Inglaterra e Espanha haviam saído poucos anos antes de uma guerra impactante, época em que o teatro inglês virara-se contra o inimigo ibérico, depreciando-o. Mesmo com a ascensão de Jaime I ao trono inglês em 1603, e a paz firmada em 1604, as referências ao universo espanhol continuaram rondando a mente dos dramaturgos ingleses. Para entender como se deu a adaptação para os palcos ingleses da história presente em Dom Quixote, Chartier estudou outras obras que se deram na Espanha e na França na mesma época. Em uma análise meticulosa, o historiador busca as diferenças e semelhanças entre estas adaptações.

    A fim de entender as modificações que o texto original pode ter sofrido, Chartier observa o caminho que os manuscritos da peça podem ter percorrido desde a encen ação em 1613 até a publicação por Theobald em 1727. Através da trajetória da peça, o autor nos mostra como textos importantes se perderam em meio ao mercado nascente das publicações de obras escritas para o teatro, como estes eram adulterados, adaptados e editados antes dos fechamentos dos teatros na revolução de 1642. O pesquisador também procura entender como as companhias teatrais da época da Restauração monárquica inglesa – período em que a República nascida na revolução dá lugar novamente ao Rei – recuperavam estes textos, os adulteravam novamente, e como os primeiros críticos shakespereanos intervinham nas publicações cortando trechos inteiros quando os julgavam escritos por atores. É na época da adaptação de Theobald, justamente com ele em uma das frentes, e Alexander Pope em outra, que nascem diferentes movimentos que buscavam a recuperação dos textos originais de Shakespeare . O livro é a descrição da t entativa do próprio Chartier em recuperar, como historiador, um destes textos .

    Importantes elementos são levados em conta nesta pesquisa, como a análise filológica de frases na versão de Theobald, onde aparecem ecos não apenas do estilo de Shakespeare, mas também de Fletcher. A própria parceria dos dois dramaturgos em outras peças, como em Henrique VIII (c. 1613) e em The Two Noble Kinsmen (c. 1613), lhe fornece material para comparações com o texto de Double Falshood. A conjuntura política de cada encenação também não escapa a Chartier, como n o estudo da relação política que França e Inglaterra tinham com a Espanha na época de suas primeiras adaptações para os palcos londrinos e parisienses. As análises das festas que contavam com a figura do cavalheiro errante, das gravuras e páginas de rosto das edições do romance em seu primeiro século de existência, auxiliaram Chartier a descrever a monumentalização das imagens do protagonista e de seu criador. Para ele, a história de Dom QuixoteCardenioDouble Falshood – de 1605 até os dias de hoje – é exemplar para mostrar a plasticidade que as obras literárias e teatrais têm.

    Entretanto, apesar da profundidade histórica de sua análise, duas outras ferramentas metodológicas poderiam ter contribuído para iluminar alguns pontos que ainda ficaram obscuros no estudo. Embora os resultados que alcançou nesta aventura arqueológica sejam exemplares, podemos perceber que Chartier não levou em conta as outras peças escritas por Shakespeare ou Fletcher antes ou depois (no caso de Fletcher) de seus texto s co-autorados . Tal análise seria de grande ajuda para o entendimento das fórmulas provavelmente utilizadas e repetidas por eles em Cardenio. Embora a trama da peça seja inspirada no romance de Cervantes, nela encontramos diversos pontos convergentes com outras escritas separadamente por Shakespeare e Fletcher. EmDouble Falshood encontramos variações de situações já exploradas por Shakespeare, como a cena do balcão emRomeu e Julieta (c. 1595 ); a rivalidade entre dois grandes amigos pelo amor de uma mulher em Os Dois Cavalheiros de Verona (c. 1594) ; e o desmaio de uma noiva injustiçada em seu próprio casamento em Muito Barulho por Nada (c. 1598). Chartier chama a atenção para a questão da importância dos juramentos e contratos de casamento nas adaptações da trama de Cardenio, mas deixou de registrar que a mesma questão compõe, não por acaso, o cerne de The Spanish Curate escrita por Fletcher e Philip Massinger (c. 1622), outra peça desenvolvida dentro do universo espanhol.

    O último ato do texto adaptado por Theobald seria um bom terreno para o uso deste recurso metodológico. Toda a sequência factual de Double Falshood segue o romance de Cervantes. No entanto, nesta o autor introduz criativamente no último ato diferentes novos elementos : uma das heroínas aparece vestida de pajem sem ser reconhecida pelo parceiro amoroso; este entra em conflito com as autoridades ; e o jubiloso reencontro do protagonista com seu pai que o acreditava morto.  O problema aqui seria o de descobrir quem seria o autor destas invenções, se Shakespeare e Fletcher, se os autores da época da restauração, ou se o próprio Theobald. Chartier coloca a favor da autoria por Theobald o argumento de que o acento no conflito e reunião entre pais e filhos era um dos temas do teatro inglês depois da restauração. No entanto, encontramos vertentes desta situação, assim como o reencontro entre pais e filhos que eles acreditavam mortos, exploradas exponencialmente nas quatro últimas peças que Shakespeare escreveu antes da parceria com Fletcher, a saber:Péricles (c. 1609), Cimbeline (c. 1610), Conto do Inverno (c. 1611) e A Tempestade (1612). A introdução de uma heroína vestida de rapaz sem ser reconhecida pelos outros personagens, inclusive pelo parceiro amoroso, é outra fórmula consagrada em muitas peças de Shakespeare, como em O Mercador de Veneza (1597) e Como Gostais (c. 1600). Em Os Dois Cavalheiros de Verona o recurso converge ainda mais com o de Double Falshood, pois nela a heroína não só aparece como rapaz, mas também como pajem, outra semelhança que aproxima as duas peças. Embora Chartier pareça acreditar  que foram os autores de 1613 que introduziram estes novos elementos na trama adaptada de Cervantes, a comparação com outras peças de Shakespeare de alguma forma redefiniria sua conclusão.

    Outra ferramenta metodológica que poderia contribuir ao seu estudo seria a de entender como Shakespeare e Fletcher adaptaram obras de diferentes autores em seus outros textos. Entender o trabalho dos dois na seleção do farto material dramático que a obra de Cervantes oferece é uma das preocupações centrais de Chartier , principalmente em referência à inclusão ou não do personagem do próprio Dom Quixote na trama. A pergunta do historiador que aparece ao longo do livro é a de se os autores teriam adaptado uma parte de Dom Quixotesem incluir o próprio personagem Dom Quixote. Se avaliarmos as adaptações anteriores feitas por Shakespeare, sabemos que ele muitas vezes seccionou tramas menores de obras maiores, apartando-as da história central e dispensando o resto, como em Muito Barulho por Nada, onde apenas o episódio da janela é adaptado deOrlando Furioso (c. 1516) de Ariosto.

    O livro de Chartier nos sugere repensar a monumentalização não apenas de Cervantes, mas também de Shakespeare. Com sua erudição e clareza, em uma narrativa cheia de saltos, retornos e peripécias, à moda do teatro elizabetano e romances ibéricos, o autor evidencia um tipo de processo que circunda a obra do bardo desde as primeiras edições Quarto: o hibridismo que caracteriza o que hoje chamamos “peças de Shakespeare”, desenvolvido em diferentes tipos de colaboração, revisão, apropriação, adaptação, erros de impressão, etc. Em sua própria “história”, a peça Cardenio nos prega outra peça e mostra que a maior parte das “obras do passado não são necessariamente aquilo que, muito espontaneamente, acreditamos que são” (p. 270). 

    Chartier nos mostra que Shakespeare, assim como Cervantes, Fletcher, e todos os outros autores só podem ser compreendidos se o situarmos em sua época, lugar e função dentro de uma comunidade. A experiência de Cardenio é salutar para mostrar a plasticidade da literatura e do teatro em diferentes contextos, suas adaptações podem ser vistas como avatares particulares de uma mesma “obra” que o público, seja qual for, encontra cada vez que a revisita. Chartier é enfático quando encerra seu livro ao modo dos epílogos das peças da época de Cardenio, momento dramático em que as companhias esclareciam a intenção de suas montagens e avaliavam seu alcance: “Um paradoxo fundamental associa assim a permanência das obras e a pluralidade de seus textos. Mais do que tentar, de uma maneira ou de outra, apagar essa tensão, este livro quis identificar algumas de suas figuras históricas ao cruzar, em sua investigação, as errâncias de Dom Quixote com o mistério de uma peça sem texto, mas não sem autor” (p. 272).

    Maio de 2013

    Ricardo Cardoso é bacharel em História pela Universidade de São Paulo, autor da pesquisa “O Império Espanhol na Pena de Shakespeare: diplomacia e dramaturgia na virada do século XVI para o XVII”, financiada pela FAPESP entre 2011 e 2012. Atualmente prepara um projeto de pesquisa acerca da relação entre a obra de Shakespeare e os conflitos entre Inglaterra e Espanha, no final do século XVI.

    Para ler mais sobre Cardenio, consulte (livros em inglês):

    The Quest for Cardenio, Gary Taylor

    Double Falsehood, editado por Brean Hammond (Arden Shakespeare Third Series)

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