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Inicial Fórum Peças Hamlet Por que amamos tanto o Hamlet?

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    por Carmen Vasconcelos

    Por que amamos tanto o Hamlet? Porque nos extasiamos tanto com um texto e um personagem? É uma coisa para ser entendida olhando espelhos. Estou convencida de que nós, leitores apaixonados pela peça mais completa de Shakespeare, que se quedam de fascínio à pura menção de qualquer coisa relativa a ela, embora não sendo escritores, podemos dizer, à maneira de Flaubert (que disse ser Madame Bovary): Hamlet sou eu.

    Por quê? Hamlet é o ser humano, desnudado perante si mesmo. O que somos senão eternos seres pendentes, oscilantes entre o destino e a consciência? Nada. Ser e não ser: é essa a questão, respondida pelo próprio Hamlet, quando diz que o homem, obra-prima, maravilha do mundo, significa não mais que a quintessência do pó. Mas não é uma questão totalmente respondida, jamais o será. Põe-nos a pensar e, por isso, nos encanta.

    Nascera Hamlet sob o signo de gêmeos, o signo da indecisão? Edmundo, o vilão do “Rei Lear”, do mesmo Shakespeare, não concordaria. Para ele, é “admirável escapatória do homem essa de colocar suas veleidades lúbricas sob a responsabilidade de uma estrela!” Edmundo desdenha: “seria o que sou, mesmo se a estrela mais virginal aparecesse no céu quando nasci.” Aarão, outro vilão de Shakespeare (do “Tito Andrônico”) também exalta a consciência (no seu caso, maligna) como determinante do comportamento quando, à hora da morte, arrepende-se apenas dos males que não fez. O Hamlet, porém, é mil vezes mais complexo do que os dois. Enquanto as consciências de Edmundo e Aarão afirmam o mal e, portanto, contentam-se em afirmar, a consciência de Hamlet não afirma, nem nega. É uma pergunta (Clarice Lispector mergulhou nessa pergunta): há mais coisas entre terra e céu, além das estrelas? Sim, há ela mesma, a consciência humana. Mas a consciência produz o pensamento e induz ao vacilo. Não estamos destinados somente a cumprir cegamente as ordens do destino. Cabe-nos a escolha, porém, “se seguia o sulco de um caminho, o oposto me tentava o coração e talvez me faltasse a lâmina que corta, a mente que decide e se resolve” (Montale). No entanto, temos apego ao vacilo: “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo” (Paulo Coelho/Raul Seixas).

    Hamlet usa a razão para subverter a própria razão. Contraria Descartes (“Penso, logo, existo”): Existo? Pensar é duvidar da existência. Existência é ser muito, é ser tudo, e não ser nada, tudo ao mesmo tempo agora (o depois da morte é uma incógnita). Tudo e nada é o pensamento, que é tanto, mas é invisível, inatingível, como a inexistência.

    O pensamento é inatingível, até quando surgem as “palavras, palavras, palavras”. Ou as imagens, que também são linguagem. Mas é na matéria das palavras que o Hamlet se concretiza para nós, os que existimos à sua imagem e semelhança e à luz dos seus pensamentos e palavras, atos e omissões.

    E na matéria das palavras, na matéria da nossa vã filosofia, nós o amamos. Amamos o Hamlet porque ele nos incita ao amor do saber. De onde viemos e e para onde vamos? Das palavras de Shakespeare, nos descobrimos. Ou, como diz o Harold Bloom, nos inventamos. Somos, enfim, invenção de nós mesmos para dar gosto ao desconhecido. À morte? Não, à vida.

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