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Inicial Fórum Sonetos e Poemas de Shakespeare Os Sonetos Personas dos Sonetos: O Jovem Homem

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    Tradução por Rafael Antonio Blanco.

    O Jovem Homem é provavelmente o destinatário da maioria – ou ao menos vários, senão todos – dos sonetos 1-126. A maioria endereça a um “tu” (thou), na segunda pessoa, mas alguns outros poemas narrativos na terceira pessoa podem aludir à mesma pessoa ou personagem, mesmo que de uma outra perspectiva poética simplesmente. Associado a isso, alguns críticos escrupulosos apontam que a divisão clássica dos endereçados – o Jovem Homem nos sonetos 1-126 e a Dama Negra nos 127-154 –  é assumida no caso de vários sonetos em cada série, sem pistas de nenhuma forma nos pronomes de gênero. Um leitor cético pode também notar que não há distinção, uma característica identificável que torna o “jovem”, ou “meu amor” ou “justa beleza” e assim por diante, endereçados ao longo desses sonetos à mesma pessoa ou o mesmo personagem. Nós não sabemos, ainda que haja um tratamento excepcionalmente caloroso e intensidade da situação dramatizada nesses sonetos, essas qualidades fizeram a maioria dos leitores por quatro séculos assumir, senão um atual, um destinatário histórico por trás do Sonetos (pois a maioria dos leitores de fato assumiram isso), então, ao menos uma presença cuidadosamente criada, sustentada e fictícia, a qual o falante declara-se, essa persona lírica e discutivelmente dramática ficou conhecida como o Jovem Homem.

    É ele a quem o falante apela nos primeiros 17 sonetos de “Procriação”, e alguns críticos levantaram a hipótese que Shakespeare pode ter sido encarregado por pais preocupados a escrever esses poemas para convencer seu filho a casar-se e ter filhos. Nós ouvimos desse jovem já no soneto 2, e ele é “mais rico em juventude” e goza dos seus “dias de juventude’ no soneto 15. O soneto 22 declara que “juventude e tu são da mesma data.” Os poemas posteriores, apresentando um relacionamento mais exaltado ou tenso entre o falante e o Jovem Homem, referem à juventude dele como uma causa do comportamento que machuca o falante ou ao menos tornar-se uma desculpa conveniente para as ações do mais jovem. O soneto 41 fala de uma repreensão à beleza do Jovem Homem e a “juventude extraviada”, enquanto o soneto 96, abrindo com o inócuo “Alguns dizem”, incomoda-se com a juventude do homem por esta ser a fonte de suas faltas e descontroles, assim como de sua beleza. Frequentemente a juventude do Jovem Homem é emparelhada com sua beleza, como na frase do soneto 54 “bela e linda juventude.” Por contraste, o falante no soneto 73 permanece “nas cinzas da juventude dele”, apesar de às vezes as graças do jovem ou o desejo do falante serem suficientes para dá-los uma identidade mútua: “nossos amores indivisíveis são um” (soneto 36), “meu amigo e Eu somos um” (41), “tu meu, eu teu, amor eterno” (108, e veja também os sonetos 31, 36 e 39). A famosa defesa do soneto 116 do “casamento de mentes verdadeiras” parece pelo contexto ser endereçada ao Jovem Homem. Às vezes o reconhecimento do falante da idade do Jovem Homem soa totalmente carinhosa – “garoto doce” (108), “meu querido garoto” (126) – e no incomparável soneto 20, “Uma face de mulher pintada com as mãos da Natureza,” o falante alegremente sugere que o jovem tem característica femininas muito atraentes, e ele lamenta que a Natureza tenha ido tão longe e dado ao Jovem Homem uma “coisa”, ou pênis, porque de outra forma ele seria um amante perfeito. Alguns leitores pensaram que nesse soneto sobre o “mestre-amante da minha paixão” (master-mistress of my passion) seria chocante, a mais explícita expressão do falante do seu relacionamento sexual com o Jovem Homem. Outros, entretanto, inferiram o exato oposto: aqui temos o falante dizendo simplesmente que o jovem, sendo um homem, é a única razão porque eles não são completamente amantes. Eles compartilham um amor, mas “seu uso do amor” (isto é, sua atividade sexual) é feita para mulheres.

    Como podemos definir o relacionamento do falante com o Jovem Homem exatamente? Eles são meros amigos, mesmo que a linguagem da amizade da Renascença seja mais forte e aparentemente mais íntima do que é comum hoje? A linguagem de lado, os rapazes hoje são capazes de serem tão dedicados, tão elogiosos aos seus melhores amigos? Ou o falante e o Jovem Homem estão romanticamente envolvidos, e se sim, há ali algum signo que o romance deles foi consumado e é fisicamente ativo? Um poema como o soneto 20 acima lança luz sobre esses mistérios? Essas questões atraíram (ou distraíram) eruditos e críticos por séculos. O relacionamento parece ter sido intenso o bastante pois o “doce amor” do Jovem Homem sustenta o falante durante tempos difíceis (29), e, mais problematicamente, o falante pode sentir-se traído, ou antes em conflito, quando os triângulos ocorrem entre ele mesmo, o Jovem Homem e outros. Assim, os sonetos 40-42 dramatizam um escândalo social que muitos tomam como sendo a traição do Jovem Homem com uma mulher conhecida por ambos, que pode ser a Dama Negra da última série de sonetos. A emergência de um Poeta Rival, da mesma forma, empurra o falante até o desespero, pois ele contempla um mundo no qual as afeições ou a mera atenção do Jovem Homem são perdidas. É importante notar que mesmo aqui, quando o relacionamento deles é mais tenso, o falante não é avaro nos elogios ao amado amigo: Ele continua falando da beleza do jovem no soneto 41 com o tipo de repetição que beira a obsessão ou o descontrole emocional, e no soneto 144, onde o falante estrutura a si mesmo como se instigado por dois amantes, é o jovem quem é o amor do conforto. Ele é descrito em termos quentes: “o melhor anjo é um homem muito belo,” que aponta para a abertura da sequência, quando o falante explica geralmente como desejamos “aumento” das “criaturas mais belas.” (1.1.).

    Momentos de elogio ao Homem Jovem ocorrem frequentemente, dos “olhos brilhantes” ao exagero, “o ornamento fresco do mundo” no mesmo poema de abertura, aos múltiplos usos de “belo” (fair) em praticamente todos os sonetos de Procriação. Similarmente, o falante pede ao Tempo não “escavar a bela face do meu amor” no soneto 19, e o “amigo belo” (soneto 104), ou o amor do falante por ele, é descrito nesses termos em outros lugares (sonetos 21, 43, 46, 69, 82, 83, 105 e 108). A “beleza” do Jovem Homem é lembrada frequentemente, apesar de, às vezes, em contextos comprometedores. Por exemplo, o falante toma as dores de discutir a beleza do Jovem Homem nos primeiros sonetos porque ele procura avisá-lo que sua beleza não irá durar para sempre, e então ele deve ter um herdeiro que continuará sua bela forma. Ou, em outro lugar, ele traz a beleza do jovem para contrastá-la com a falsidade feia (vejo o soneto 41 mais explicitamente). No soneto 95, a “beleza de teu nome germinante” é percebida com vergonha, e o soneto anterior, 94, é igualmente comprometedor. Ainda muito mais comum, o falante compõe e opera no reino do elogio comemorativo: o falante protegerá “a beleza doce do meu amor” do esquecimento da Idade pois “Sua beleza deve ser vista nessas linhas negras” (soneto 63).

    A propensão do falante a idealizar o Jovem Homem é uma das características chave que distingue seu papel na sequência do papel da Dama Negra, onde há quase sempre um senso de ambivalência (para colocá-lo moderadamente). Às vezes o Homem Jovem parece a forma platônica para tipos mais baixo e artificiais de beleza, como quando o soneto 68 promete que a beleza do jovem é feita “Para mostrar para a falsa arte o que a beleza era outrora,” ou a longa “exibição” (ou catálogo) do soneto 106 do “melhor da doce beleza,” que ultimamente é discriminada somente para sugerir ao Homem Jovem “Mesmo essa beleza que é sua agora”. Adicionalmente, o jovem torna-se o tesouro da Natureza e serve como medida para indicar a abundância da natureza. Mais abstratamente, encontramos “a beleza da tua mente” elogiada no soneto 69, enquanto o soneto 101 ousadamente anuncia, “Ambas verdade e beleza de meu amor depende,” como o faz a Musa do poeta, ainda outro gesto idealizante comum na poesia lírica cortesã dedicada ao amor exaltado. Shakespeare apresenta de maneira mais autoconsciente o elemento idealizante e possivelmente enganoso de sua arte quando, no soneto 95, ele endereça “a ti, Onde o véu da beleza cobre cada borrão / E todas as coisas tornam-se belas para os olhos verem!” Esse véu dos borrões não os apaga da memória do falante machucado, nem os remove; ele meramente parece belo aqueles olhos que “podem ver.” Mas há aqueles que sabem, como o falante sabe, que esse relacionamento é muito mais complexo, e o Jovem Homem bem menos ideal, sem mencionar menos leal e confiável. Mesmo um discurso aparentemente transparente – “Senhor do meu amor” (soneto 26) – pode soar efusivo no amor ou um sinal escuro do sentimento do falante de dependência ou escravidão ao amado (57, 75), até materialmente, em termos do relacionamento de patronagem entre o nobre e o poeta, ou emocionalmente, conforme o falante debate-se nas redes de um amor perscrutado que sente-se inseguro ou não retribuído.

    Essa insegurança pode ter muito a ver com a aparente posição social do Jovem Homem, algo que muito já foi escrito e ainda mais inferido dos próprios sonetos. Claramente o falante admira o jovem para além da beleza física. O soneto 37 diz da “beleza, nascimento ou riqueza, ou argúcia” sendo “Conferidas às tuas partes,” e depois ele fala da “tua glória.” (Sonetos 80 e 87 também parecem assumir a boa reputação do jovem aos olhos do mundo.) Alguns críticos enfatizaram a construção hipotética aqui, “Se a beleza” e assim por diante, mas aquela qualificação parece intencional, e a lista ficaria fora do lugar se essas qualidades não fossem aplicadas ao Jovem Homem. Ademais, a palavra “Conferida” (Intitled) é escolhida precisamente se o endereçado é da aristocracia proprietária de terras. O falante castiga o jovem ao adicionar uma maldição a suas “belas bênçãos” no soneto 84, pois ele está agindo rudemente em “Ser encontrado nos elogios” ou preocupando-se muito com sua reputação entre as classes gerais. Certos sonetos indicam que o Jovem Homem detém alta posição pública. O falante diz que o jovem não precisa “me honrar com a gentileza pública / A menos que tu tomes aquela honra de teu nome” (soneto 36), enquanto o soneto 96 pode dizer “todos os tipos de pessoas” quando diz das graças e faltas do jovem “são amadas mais e menos.” Esse poema também encoraja-o a “usar a força de todo seu estado!” que provavelmente refere-se aos privilégios do status. (Os sonetos 69 e 95 também implicam o jovem que gasta tempo sobre os olhos públicos.) O falante soa defensivo no soneto 124 – “Se meu caro amor fosse apenas a criança do estado” – e ele provavelmente não tem necessidade de desdenhar “a pompa sorridente” e a “política”, ao menos que estivesse em perigo de ser visto como um oportunista ou bajulador, deleitando-se no brilho da boa fortuna do jovem. A argúcia do poema, de fato, é elevada por essa hipótese de posição social ou política, pois eventualmente o falante gaba-se que seu amor “permanece somente extremamente político.” Ele quer dizer “político” não no sentido que seus acusadores o fazem, como um favorito ou protegido politicamente envolvido, mas antes “político” no sentido de prudente ou sábio, pois as adversidades dos dias não influenciarão seu amor.

    Com essas ideias em mente, não surpreende que as duas figuras históricas mais consistentes propostas como modelos para o Jovem Homem tenham sido dois jovens nobres ativos na Inglaterra elisabetana e jacobina, o conde de Southampton e o conde de Pembroke. Os argumentos sobre as candidaturas deles, e de muitos outros, serão encontrados nos ensaios seguintes sobre a recepção crítica dos Sonetos, especialmente na introdução ao século dezenove.

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