Please consider donate. | Por favor, considere doar qualquer quantia para mantermos o site.

Inicial Fórum Sonetos e Poemas de Shakespeare Os Sonetos Personas dos Sonetos: O Falante

Visualizando 1 post (de 1 do total)
  • Autor
    Posts
  • #10905

    Tradução por Rafael Antonio Blanco.

    O falante é uma persona paradoxal nos Sonetos de Shakespeare. Ele imagina ser o mais transparente – o único que expressa a si mesmo presumivelmente em todos os poemas e às vezes a um grau incrivelmente revelador – então como pode ele ser qualquer outra coisa exceto franco e aberto à avaliação? Ademais ele (podemos falar “ele”?) permanece uma voz incrivelmente complicada e elusiva para se julgar com sensibilidade literária. Muito frequentemente ao longo da história dos Sonetos, o falante foi instantaneamente e simplistamente equacionado com seu criador, William Shakespeare. Por exemplo, em 1962 Edward Hubler declarou que os Sonetos concernem a quatro pessoas, a primeira sendo “Shakespeare, que escreve na primeira pessoa.” Hubler pensava que o gênero lírico presumia que o “Eu” falando nesses poemas “pode ser tomado como autobiográfico num grau no qual as peças não podem.” Em verdade, o falante identifica-se como “Will” num espirituoso par de sonetos (135-36), mas isso basta para presumir essa simples identificação?

    Mesmo se fosse correto (e é problemático na melhor das hipóteses), tratar Shakespeare ele mesmo como um personagem essencial, estático, que permanece sem alterar-se do primeiro soneto ao último, é ainda uma hipótese crítica frequente feita muito rapidamente. O “Eu” na poesia lírica não é nunca tão simples, uma relação um-a-um, nem os maiores objetivos da poesia incluem preencher os registros biográficos que tanto interessam os admiradores de Shakespeare ou aqueles meramente curiosos sobre a história literária. Os amantes da poesia lírica não devem estabelecer-se nesses tipos de simplificações de “informações” ou reconfortos, especialmente numa sequência de poemas que interroga questões de subjetividade e auto-representação e dramatiza meditações interiores sobre o desejo como nenhum outro trabalho criativo já o fizera.

    Uma vez reconhecida a construção habilidosa e sofisticada dos Sonetos, seu criador e falante, e as condições emocionais ou situações que elas verbalmente engendram, seria igualmente errôneo avaliar o falante do outro extremo – completamente impessoal, como o produto conveniente de um exercício literário, como se Shakespeare estivesse mexendo seus polegares quando sua pena não estava rabiscando poemas de 14 linhas. As leituras mais sensíveis e flexíveis desses poemas sugerem alguma combinação de desígnio astuto e história pessoal, pelo qual aquele torna-se mais entendível e permanente. Primeiramente, as qualidades formais e convencionais em torno dos Sonetos não são de forma alguma mutuamente exclusivas com os detalhes biográficos e a emoção genuína refletida pelo autor. Os críticos, ao longo do século vinte, incluindo George Wyndham, G. K. Hunter e C. L. Barber captaram isso bem e frequentemente melhor que os séculos anteriores. Harold Bloom avalia a presença complexa do autor nesses termos: “Se um humano é inventado nos Sonetos, ele não é uma representação de Shakespeare ele mesmo. “Idêntico” com Shakespeare ele não é, ainda que permaneça perto de Shakespeare, e nos fascina por essa proximidade.”

    Com essa posição equilibrada na mente – não “idêntico” ainda que biograficamente próximo – o que propuseram os críticos sobre o falante dos Sonetos, permitindo temporariamente que ele seja o único falante e fale com uma voz razoavelmente consistente ao longo da sequência? Primeiramente, ele é um homem mais velho, pois um amigo é endereçado como “jovem” repetidamente, e dois jovens homens tipicamente não falam entre si dessa forma. Ouvimos no soneto 62 que o falante é “Batido e cortado com curtida antiguidade,” e nos sonetos 71 e 73 ele se incomoda com o “inverno” de sua vida e contempla o mundo depois de sua morte, um mundo no qual o Jovem Homem ainda estará vivo. Isso o torna consideravelmente mais velho, ou ele está usando uma hipérbole poética num poema onde ele recua ante o “Pecado do egoísmo” e torna-se de alguma forma autoconsciente quando contempla no jovem a “beleza dos teus dias”? Está ele lidando, no segundo exemplo, com uma séria doença ou o prospecto iminente da morte, ou ele é principalmente um amante melancólico e possivelmente em luta com a autoindulgência também? Nós é dada a impressão, também, de um homem que resistiu às provações da vida. Podemos apontar o soneto 29 – “Quando em desgraça com a Fortuna e os olhos dos homens” (When in disgrace with Fortune and men´s eyes) – ou ao soneto 66 – “Cansado de tudo isso, por uma morte tranquila clamo” (Tired with all these, for restful death I cry) – ou o soneto 37 – “Como um pai decrépito tem deleite / … / Assim eu, feito fraco pelo rancor mais caro à Fortuna,” (As a decrepit father takes delight / … / So I, made lame by Fortune´s dearest spite,” que parece combinar ambos esses tópicos com velhice e disfortúnio. Ademais, note os “Como” (As) e “Assim” (So), que claramente estrutura a declaração do falante em termos figurativos. Da mesma forma, a frase do soneto 93 “Como um marido enganado” (Like a deceived husband) levou Edmund Malone, um dos grandes editores de Shakespeare, a presumir que a mulher de Shakespeare, Anne Hathaway, teria sido infiel a ele e por isso ele apaixonou-se por um jovem e dormiu com a Dama Negra. Alguns sonetos expressam a dor indignada da traição, como nos sonetos 40-42, ou a recognição resignada da falsidade entre os amantes, como no soneto 138 ou 151, mas a inferência de Malone de uma comparação não é sensata nem editorialmente nem logicamente.

    Ainda mais uma vez, no soneto 23, o falante alude para o que pode possivelmente ser a carreira de Shakespeare como ator (“Como um ator imperfeito no palco”), ou ele pode estar usando uma analogia conveniente para descrever quão língua presa seu amante o torna. Ele se refere a sua carreira dramática mais claramente nos sonetos 110 e 111? Seu ir “aqui e ali” pode representar seu trabalho como um ator viajante, algo que “fez de mim mesmo uma mixórdia a vista” e “por isso minha natureza foi vencida / Pelo que ela trabalha, como a mão do tintureiro.” Mais seguramente, o falante faz repetida, explícita referência à sua identidade como um escritor ou ao menos a seus escritos desses mesmos poemas que no início da sequência ele oferece ao Jovem Homem como um tipo de antídoto contra o encantamento do Tempo. Ele menciona sua “Musa,” sua “pena” e “tinta,” e seus esforços para escrever. Parece existir também uma ansiedade genuína quando o Poeta Rival aparece na sequência, ao longo dos sonetos 76 até o 86. E isso leva a questões sobre um possível relacionamento de patronagem entre um rico homem jovem que suporta um poeta mais velho e mais pobre. O falante se refere a esse relacionamento mais profissional entre patrono-escritor quando chama a si mesmo de “escravo,” ou esta é uma declaração da sua servidão romântica?

    Essas questões de identidade e representação não se tornam menos complicadas na seção final da sequência, envolvendo a Dama Negra. É ela quem encanta o falante no soneto 128 ou meramente uma imagem convencional de uma donzela interpretando uma virgem? (Pense na pintura de Vermeer aqui ou em vários retratos do Cinquecento Italiano.) E o desgosto sexual no soneto seguinte, 129 – atribuímos a Shakespeare também, ou ao falante, que identificamos nesse ponto da sequência, ou é meramente um “amontoado” literário de várias definições e efeitos sobre o tópico da luxúria? Se começarmos a ver quão complicado o gênero da poesia lírica torna a identificação dos personagens, ou mesmos das personas, nesses sonetos, então começamos a apreender as oportunidades de complexidade representacional que o dramaturgo supremo em Shakespeare sem dúvida saboreou.

Visualizando 1 post (de 1 do total)

Você deve fazer login para responder a este tópico.

Fechar Menu