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Inicial Fórum Sonetos e Poemas de Shakespeare Os Sonetos Personas dos Sonetos: A Dama Negra

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    Tradução por Rafael Antonio Blanco.

    A Dama Negra é a mulher (presumivelmente somente uma, mas ninguém pode dizer isso com certeza) a qual o falante de Shakespeare se volta após os sonetos do Jovem Homem. Esse novo destinatário emerge no soneto 127 e permanece até o final da sequência (de novo, presumivelmente) ou ao menos até o soneto 152 se os sonetos 153 e 154, menos pessoais, são julgados separados – ou como epílogos seguindo os poemas da Dama Negra ou como estrofes que desvia dos sonetos como um todo para A Queixa de um Amante, o longo poema de conclusão da versão in quarto dos Sonetos em 1609. Apesar de Shakespeare não prover pistas explícitas, é possível que a Dama Negra entre na sequência nos sonetos 40-42, que dramatiza a crise no relacionamento do falante e do Jovem Homem por causa do caso do último com uma mulher. É a Dama Negra o objeto do “furto’ pelo “ladrão cortês” que é o Homem Jovem? Essa mulher mais agressivamente “corteja” no soneto 41, e alguns editores emendaram o pronome em “ele prevaleceu” para “ela” – isto é, a mulher torna-se a sedutora da “juventude extraviada” do Jovem Homem, um papel tornado explícito na linha 13. O soneto 42 resolve esse triângulo ou, mais precisamente, o dissolve. O falante admite que ele amou uma mulher afetuosamente mas também admite lamentar a traição do Jovem Homem muito mais. Ele acusa ambos de abusarem dele. Num final mais astuto que satisfatório, declara que seu amigo e ele são um só, e assim, apesar do caso, ainda “ela ama apenas a mim.”

    Quando mais formalmente a Dama Negra aparece ou reaparece, já no fim da sequência, o falante rapidamente fornece alguns detalhes físicos e outras características que faltaram anteriormente. Atingindo um certo encerramento com “meu amado garoto” no soneto 126, o falante chega ao soneto 127 a uma meditação sobre as medidas variantes da beleza. Uma vez que as coisas “belas” ou claras são consideradas belas, “Mas agora é a beleza negra a herdeira sucessiva / E a beleza caluniada com uma vergonha bastarda.” Ouvimos que a amante tem olhos que são “negros como o corvo,” e os sonetos subsequentes falam de seus seios “pardos”, os “fios negros” de seu cabelo, e a beleza negra dela em geral. Os críticos usualmente tomaram esses detalhes como sinais da aspecto negro da Dama Negra. Note que no soneto 127 o falante não admite que a negritude seja bela, mas que somente o tempo presente apresenta-a assim e por isso difama a beleza verdadeira. É o primeiro sinal de uma crescente misoginia em relação à amante, e A. D. Cousins aponta habilmente que o relacionamento do falante com o Jovem Homem às vezes celebra a continuidade entre o passado e o presente (veja o soneto 106), mas aqui a Dama Negra preside sobre um mundo em declínio. O falante pode condenar os cosméticos, que previne os outros de saber se uma mulher era branca ou negra, e ele equaciona aquela duplicidade com as falsas aparências dos olhos da amante – “eles parecem enlutados” (uma comparação revisitada no soneto 132). Os sonetos 128-130 mostram um escopo incansável de tom e expressão no espaço de três sonetos curtos. O primeiro é um poema encantador sobre o desejo físico, baseado num quadro popular da Renascença de uma mulher atuando como virginal, com um instrumento parecido com um piano, que no contexto da Dama Negra, conota provavelmente forte ironia. O soneto 129, um dos mais famosos da sequência, reage à jovialidade corporal do poema anterior com uma feroz repulsão contra a escravidão irracional do apetite sexual. O falante atormentado enquadra as atrações sexuais da mulher paradoxalmente, como um “céu que leva os homens a esse inferno.” Essa linguagem dura, e o amargo encantamento por trás dela, aparecerá num crescendo nos sonetos restantes à Dama Negra. Mesmo que a paródia petrarquiana do soneto 130, “Os olhos da minha amada não são como o sol,” restaura algo do ar revigorante que o soneto 129 havia frustrado. Muitos tomaram o dístico, que distingue “meu amor” de “ela se contradisse com falsas comparações,” mas essa frase final reintroduz o tema da duplicidade, do desejo enganoso, e a representação falsa (ou por cosméticos ou pela imagem petrarquiana nos sonetos) que assombrou o falante nessa subsequência.

    Na próxima série de sonetos, o falante explora mais a fundo seu desejo ambivalente pela Dama Negra e revela a extensão da divisão dentro de si mesmo. “Tua negritude é a mais clara do meu lugar de julgamento,” ele confessa no soneto 31, mas somente depois de considerar clinicamente como os outros não considerariam a face da Dama Negra valiosa, tornando-a a amante cruel e orgulhosa da convenção poética. O falante, entretanto, sente outra coisa, mas mesmo ele, quando só e falando consigo mesmo, está terrivelmente cônscio da “difamação” que é sua “idolatria” a essa mulher, como se ela fosse sua amante ideal. Tendo delineada a sua própria inconsistência e desejo contraditório, o falante introduz o “amigo” no soneto 133 e assim reintroduz o triângulo dos personagens. Ele e o Jovem Homem são problematicamente similares – ambos, parece, estão romanticamente fascinados pela Dama Negra. O falante, ao ver os efeitos do seu desejo em outro, fica com raiva dessa mulher prejudicial e seu “âmago de aço.” Ademais, o falante identifica-se próximo do Jovem Homem nos sonetos, que é “meu próximo ser” e “aquele outro meu” e assim por diante. O falante procura ser um dublê sacrificial para seu amigo no soneto 133 mas é manipulado no 134 – ele se fascina pela Dama Negra, mas ela não libertou o Jovem Homem de sua paixão, ou vice-versa, por isso: “Eu o perdi, tu tens a ambos ele e eu; / Ele paga inteiro, e assim não sou livre.” A mulher é acusada de trair os amantes, causando sofrimento a ambos. Os Sonetos 135-137 são os mais indecentes dos Sonetos, e, ao empregar tão livremente o significado de gíria para “querer” (will) (Significando a genitália masculina ou feminina, assim como o desejo carnal geralmente), o falante coloca a Dama Negra e a si mesmo num discurso altamente sexualizado flagrantemente analítico. Aparentemente a mulher pode ter qualquer homem que ela quiser, e assim “Vontade em excesso,” que talvez não seja uma grande surpresa pois nos é dito que a “vontade (dela) é larga e espaçosa.” Considerando quão promíscua ela é, porque o falante não pode esconder suas “vontades” nela também? O soneto 136 torna clara a fundação última do relacionamento do falante e da Dama Negra e o que é mais desejado. Não é o coração nem a alma de amantes ideais, mas a “Vontade irá preencher o tesouro do seu amor, / Sim, enchê-lo de vontades,” adiciona o falante grosseiramente. O soneto 137 continua esse tom, falando do sexo da mulher como a “baía onde todos os homens passeiam,” e ainda assim o falante admite que isso o fascina, falsifica seus olhos, e, através deles, fisga seu julgamento. Esse senso de hipocrisia frustrado é mais analisado nos sonetos 139-142, onde o falante justifica e denuncia a indelicadeza da Dama Negra e trata de seus olhos e coração. O auge do descontentamento dele, entretanto, é encontrado no soneto 138, “Quando meu amor jura que ela é feita de verdade.” As listas de mentiras e a gratidão mútuas por essas mentiras, foi descrito como “tão feliz quanto viciosa,” mas um sentimento todo diferente parece principal aqui – a profunda resignação à ilusão sexual do casal e a compartilhada necessidade dessa própria ilusão.

    Levado por um símile estendido entre mãe e filho, o soneto 143 implica uma situação na qual a Dama Negra está agora interessada em outro, que não está tão interessado nela, situação que leva o falante, “teu bebê”, a buscar a mulher e implorar a ela que volte e o receba novamente. O soneto 144 claramente reestabelece o triângulo que o falante se encontrava com a Dama Negra e o Jovem Homem. Sem ambiguidade ele mostra sua preferência ao amigo, o amor do conforto que é o “melhor anjo”, enquanto a mulher, “um espírito pior” que é “colorida na doença,” é o amor do desespero, tentando o Jovem Homem sexualmente e assim o falante ao inferno. Acreditando que o “sujo orgulho” dela irá vencer a “pureza” do Jovem Homem, o falante termina o poema num tom derrotado e um talvez sugestivo de doença venérea. O soneto 146, um excepcional na sequência, é um raro exemplo de Shakespeare escrevendo no viés da poesia religiosa. Aqui ele deseja mover-se além dos confins do corpo e seus desejos e olha no sentido da paz eterna da alma, para além da Morte. Ainda que esse anseio espiritual seja transitório. Os próximos quatro sonetos tratam da servidão e inconsistência enfurecedora cada vez maior do falante. O soneto 147 retorna ao tema “irracional” do soneto 129 com uma urgência renovada, enquanto os outros voltam-se ao motivo familiar dos sonetos do “amante cego”. Ele acusa seu “astuto amor” de mantê-lo em lágrimas, pois previne seus olhos de serem “bem vistos” e encontra as “faltas sujas” dela. O soneto 149 é um poema doloroso, porque reconhece ambos a rejeição da Dama Negra pelo falante e seu contínuo amor por ela, apesar de doentio e imerecido – “todo meu melhor venera teu defeito,” o falante diz. Ele emite um amargo convite em seu estado de cegueira: “amor, odeie” quando chega a ele, e ame em vez disso aqueles que veem bem. O soneto 150 explora intensamente um paradoxo terrível: por que o falante está cada vez mais devotado a uma mulher que “quanto mais ouço e vejo somente causa ódio?” É como se a escala de afecção tenha sido completamente invertida no falante emocionalmente iludido, que infelizmente mantém uma espantosa claridade clínica da sua própria situação ridícula. O soneto 151 retorna às preocupações entre corpo-mente do soneto 146, mas de uma maneira apática, murcha. Aqui o falante admite sua escravidão à sua carne – “Eu traí / Minha parte mais nobre a traição do meu rude corpo” – mas rapidamente o soneto transfere-se para uma série de piadas sobre ereção. O próprio nome da Dama Negra leva o falante para “altos e baixos,” como se ao menos uma parte do corpo fosse serva ou tenente do capitão sexual que é a mulher. O último dos poemas à Dama Negra, soneto 152, nos informa que a Dama Negra é de fato uma adúltera. Ao amar e então rejeitar o falante, ela quebra um “voto-de-cama,” querendo dizer seu juramento de casamento, e ela também quebra o juramento de amar o falante ao “jurar novo ódio” a ele. Porém a subsequência termina numa nota de auto-recriminação. Ele quebrou vinte juramentos por ela, que quebrou dois, pois repetidamente ele perjurou seus olhos (e sua própria pessoa, seu “Eu” nesses sonetos atormentados) porque “Eu havia jurado à tua justiça.” A imagem que conclui enquadra o falante como vítima do cego Cupido, e assim adequadamente, os dois últimos sonetos, os mais impessoais de toda a sequência são poemas emblemáticos sobre o “pequeno deus-Amor.”

    Por séculos os eruditos tentaram identificar a Dama Negra dos sonetos finais de Shakespeare com sua contraparte histórica. Os críticos antigos, que defendiam a honra de Shakespeare (assumindo completamente que o “Eu” dos Sonetos era sempre ele) foram rápidos ao associar a mulher com a esposa do poeta, Anne Hathaway. Imaginar a mulher como uma esposa na sequência – atormentada com escravização sexual, traição, e ódio corruptor do amor – dificilmente fornece a respeitabilidade social tão cara a esses críticos, e, além disso, o comentário do falante sobre a quebra de um “juramento de cama” torna inteiramente claro que seu relacionamento com a Dama Negra era extraconjugal. Outras candidatas históricas propostas incluem Elizabeth Vernon, a noiva do conde de Southampton, frequentemente pensado como o histórico Jovem Homem; A dama de honra de Elizabeth I, Mary Fitton, que foi uma candidata popular no final do século dezenove, até que retratos dela apareceram e a mostraram muito clara em aspecto, sem os olhos “negros como corvos” da amante dos Sonetos; A Rainha Elizabeth ela própria (!); Jane Davenant, a qual o filho William (provavelmente num caso de profunda emulação literária patológica) de fato insinua-se que ele tenha sido um filho ilegítimo de Shakespeare; uma prostituta africana chamada Lucy Morgan; e Emilia Lanier, uma escritora e amante do Lord Chamberlain, que patrocinava a companhia de Shakespeare. Como um crítico honesto e raramente humilde coloca, “Houve muitas conjecturas, mas ninguém realmente sabe quem ela foi.”

    Apesar de muito velha para ser mesmo uma remota candidata, Penelope Rich também foi mencionada – a inspiração por trás da sequência de sonetos de Philip Sidney em 1580 Astrophil e Stella, uma fonte influente para Shakespeare. Rich levanta outro ponto importante: a convenção literária também influenciou a escolha de Shakespeare das características da sua amante. Por exemplo, Sidney descreve Stella no soneto 70 da sua sequência em termos visivelmente similares:

    Quando a Natureza fez sua obra principal, os olhos de Stella,

    De cores negras, por que ela embrulhou os raios de luz tão brilhantes?

    Lá onde o negro parece ser o contrário da Beleza,

    Ela mesmo em negro faz todas as belezas fluírem?

    A presença dessa tradição literária deveria pausar todos os detetives históricos inclinados em identificar os personagens dos Sonetos. O interesse na presença da Dama Negra na poesia de Shakespeare e as várias realidades dela – histórica, cultural ou lírica – tem frequentemente se alterado conforme altera-se a abordagem da crítica literária. Assim os esforços para identificar a fonte histórica dela decresceram, enquanto os críticos interessados nos mais recentes tópicos do Novo Historicismo procuram diferentes tipos de evidência na representação da amante dos Sonetos. O que Shakespeare e seus primeiros leitores anteviam quando imaginavam a negritude da Dama Negra? Ela era Africana, Mediterrânea? Não-Inglesa no sentido geral, ou totalmente Inglesa e simplesmente com aspecto negro? Quais qualidades morais essa negritude pressupõe? Estudos de raça e teorias climáticas durante a Renascença indiretamente mostraram aos eruditos dos Sonetos que a mera escolha de Shakespeare da cor para identificar sua amante introduz na sua sequência assuntos complexos sobre cultura, nacionalidade, e outros. Eruditos recentes como Marvin Hunt e Ilona Bell alteraram suas avaliações da Dama Negra de um modo mais conscientemente literário, teórico, preocupando-se pouco com questões de história e raça, e considerando, em vez disso, o papel dela, nas palavras de Hunt, “como um sinal literário o qual os sinais de cor estão inevitavelmente anexados.”

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