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    Entrevista com John Milton, especialista na vida e na obra de William Shakespeare, o Bardo

    Texto Marion Frank

    William Shakespeare – o Bardo, como é comumente chamado – nasceu em abril de 1564, em Stratford-upon-Avon, na Inglaterra, e morreu pouco antes de completar 52 anos (1616). Casou cedo, teve três filhos e uma vida recheada de mistérios. Sabe-se ao certo que jamais passou apertos financeiros e que adorava se divertir, infernizando homens e mulheres com o humor afiado. No Brasil, um dos grandes especialistas da vida e obra do mestre da língua inglesa é John Milton, professor da Universidade de São Paulo e especialista em tradução literária, com vários livros publicados. Natural de Birmingham, Inglaterra, ele vive no País desde 1984 e acumula experiência no trato com as dificuldades que um soneto de Shakespeare provoca, por exemplo, ao ser traduzido para o português.

    “O verso shakespeariano tem dez sílabas, ao contrário do alexandrinho, de doze sílabas, que é tradicional da língua portuguesa”, aponta. “Esse é o dilema do tradutor: se optar em usar as dez sílabas, terá de cortar alguma palavra, perdendo o significado do autor.”

    Outras “armadilhas” saltam aos olhos nos sonetos – John dá pistas importantes e, com elas, consegue aproximar vida e poética de Shakespeare do leitor brasileiro. Confira.

    Para entender uma personagem, nada como conhecer o lugar e a época onde ela viveu… Como era a Inglaterra de Shakespeare no século 16?

    John Milton: Shakespeare viveu nos reinados de Elizabeth I e de Jaime I, época em que a Inglaterra já estava unida, tinha uma Marinha muito forte e começava a se tornar um império naval – é no final do século 16 que se iniciam as viagens às colônias, particularmente ao que hoje são os Estados Unidos. O reino de Elizabeth I (ou elisabetano) foi um período de grande efervescência cultural, com consequências inclusive no uso da própria língua. O idioma inglês era híbrido, mistura de anglo-saxão, francês e latim. A partir de Shakespeare, no entanto, isso muda – surgem novos vocábulos introduzidos nos seus trabalhos, ele ficava inventando palavras o tempo inteiro…

    É por isso que sempre se exalta a dificuldade de ler um texto de Shakespeare?

    John Milton: Ele é muito difícil de ser entendido – e não apenas do ponto de vista do vocabulário, mas sim da sintaxe, da densidade das ideias, da riqueza de imagens e dos trocadilhos. Entenda: quem compara o inglês de Shakespeare com o francês de Racine e de Corneille, que viveram praticamente na mesma época, vai perceber que os dramaturgos franceses se serviram de um vocabulário restrito, algo em torno de duas mil palavras, ao passo que o Bardo usou um total de 100 mil palavras em suas obras. Em qualquer tradução, Shakespeare sempre causa problema… E nem é o caso de saber bem o inglês – o leitor médio, seja ele nascido na Inglaterra seja nos Estados Unidos, não consegue ler Shakespeare.

    E naquela Inglaterra dos séculos 16 e 17, o que ele levava a público tinha sucesso imediato?

    John Milton: Shakespeare era apenas um dos dramaturgos ingleses de renome daquele tempo. Ele próprio era fã de Cristopher Marlowe, esse sim o de maior fama – outros nomes importantes foram Ben Johnson e John Webster. Todo o endeusamento de Shakespeare aconteceu depois de sua morte e o responsável foi David Garrick, empresário teatral que criou um festival de Shakespeare em 1769, em Stratford-upon-Avon, comemorando o bicentenário do seu nascimento (apesar de cinco anos depois da data exata!). Foi então que Shakespeare começou a ser tratado como o poeta por excelência da Inglaterra. Mesmo assim, suas peças foram pouco encenadas durante anos, apenas se montavam adaptações…

    Em que o teatro de Shakespeare diferia do habitual?

    John Milton: Suas peças teatrais não obedeciam às normas clássicas do teatro, as referências chulas que elas continham eram sinal de mau gosto e acabavam censuradas… Se Shakespeare foi o que hoje se chama de politicamente incorreto? Depende do ponto de vista. Mas é bom lembrar que, no seu teatro, todas as camadas sociais eram atingidas, o povo fazia questão de assistir… Era um teatro que permitia a comunicação entre o público e os atores, os lugares mais baratos permitiam aos espectadores ficar de pé, próximos do palco, o que estimulava o contato… Um conceito de teatro que ajuda a entender a linguagem utilizada por Shakespeare, de um lado, com trocadilhos grosseiros, que tinham relação direta com o sexo e, de outro, com vocábulos formais, um estilo de se expressar muito requintado.

    Shakespeare passou necessidade em algum momento de sua trajetória?

    John Milton: Nunca. O pai fabricava luvas – da mãe, nada se sabe. Shakespeare casou, aos 18 anos, com Anne Hathaway e teve três filhos, Suzanna, e os gêmeos Hamnet e Judith. Com o dinheiro que ganhava do seu trabalho, comprou propriedades em Stratford-upon-Avon. Era ótimo negociante e nada tinha de “romântico”…

    E a respeito dos sonetos, o que se sabe sobre a sua produção?

    John Milton: Tudo indica que eles não foram produzidos para serem divulgados… Os sonetos foram escritos, quando Shakespeare tinha entre 18 e 28 anos, período em que ele simplesmente sumiu de circulação, voltando a aparecer em Londres, quase aos 30 anos, no momento em que suas peças começavam a serem montadas… Os sonetos foram publicados em 1609 e, neles, há uma dedicatória que dá pistas sobre a quem se destinavam – o livro é dedicado a Mr. W. H., possivelmente as iniciais do Sr. Henry WriotHesley, Conde de Southampton, que deve ter sido o protetor de Shakespeare, quem encomendou o trabalho quando o Bardo esteve empregado naquela corte como poeta. Porém, nada existe de concreto para provar essa dedução, sim, sabe-se muito pouco sobre a vida de Shakespeare, o que o torna uma figura ainda mais fascinante.

    Pode-se falar em temas preferidos de um Shakespeare que escreve poesia?

    John Milton: A maioria dos sonetos descreve a beleza de um jovem, de como ele pode manter-se belo apesar da passagem do tempo. Esse jovem é chamado muitas vezes de “fair youth” ou “jovem belo (ou claro)”. Shakespeare também faz referência à “dark lady” (“senhora escura”) , senhora, de cabelos escuros, que compõe um triângulo amoroso ao lado do jovem e do poeta. Por celebrar a beleza de um rapaz, houve quem chamasse Shakespeare de homossexual… Mas, novamente, nada se sabe ao certo sobre a sexualidade dele, sabe-se apenas que ele era irônico, brincalhão. De fato, Shakespeare permitia várias leituras do seu trabalho, algo que o poeta romântico John Keats definiu de “negative capability” (“capacidade negativa”), ou seja, a possibilidade de um artista gerar vários pontos de vista sem chegar a um consenso.

    Quais são as características principais dos sonetos?

    John Milton: Os sonetos de Shakespeare quase sempre se dividem em três grupos de quatro versos com dístico final (a chamada “chave de ouro”). Ele escreveu segundo a técnica do iâmbico pentâmetro, ou seja, a repetição em cinco vezes do pé iâmbico (vocábulo de duas sílabas, uma breve e outra longa). Às vezes, ocorrem mudanças – e nelas, por exemplo, o poeta se serviu do pé trocaico, quando a tônica recai na terceira sílaba, ou o pé espondáico, quando a tônica atinge as duas sílabas do vocábulo. Essas técnicas foram apropriadas pelo Bardo do trabalho dos poetas Wyatt e Surrey que, 20 anos antes, haviam adaptado para o inglês os sonetos italianos – ou seja, os de Petrarca. Eles se tornaram moda na Inglaterra e foi Shakespeare quem os explorou de modo a atingir o auge.

    As rimas desse tipo de sonetos seguem regras específicas?

    John Milton: O fato de ser montado em três grupos de quatro versos mais o dístico final permitia certa flexibilidade na formação de rimas. Na maioria das vezes, elas seguiam o modelo ABAB/CDCD/EFEF/GG, ou seja, no primeiro quarteto, o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo, com o quarto, o mesmo acontecendo com os outros dois quartetos; por fim, os dois últimos versos (a “chave de ouro”) rimam um com o outro. Outra possibilidade de rima acontecia, seguindo o modelo ABBA/CDDC/EFFE/ GG.

    O que entende ser excepcional nos sonetos shakespearianos?

    John Milton: Em minha opinião, é o seu leque de referências, de temas utilizados para montar uma poética. Porque Shakespeare também celebrou a amizade, o dinheiro, a morte, a natureza e, claro, todas as formas de amor, além de sempre transmitir uma pitada de humor. Eu o considero o escritor mais versátil da língua inglesa, capaz de ter influenciado com seu trabalho toda a literatura mundial. Na Alemanha, por exemplo, Goethe e Schiller usavam Shakespeare como referência, eles chegavam a dizer que “Shakespeare is deutsch” (“Shakespeare é alemão”). Em Shakespeare, os alemães encontravam as qualidades ideais da literatura.

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