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Inicial Fórum Peças Henrique IV (Parte II) O sábio conselho de Lorde Bardolfo

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    por Mário Amora Ramos

    Os adversários do Rei em Henrique IV, Parte II, como se sabe, foram derrotados. Não deram ouvidos ao sábio conselho de Lorde Bardolfo (Lord Bardolph), traduzido abaixo em prosa:

    “Quando queremos construir, estudamos primeiro o terreno, depois, traçamos o plano; e quando vemos o desenho do edifício, calculamos então as despesas com a construção. E se descobrimos que ultrapassam nossos meios, que fazemos então? Refazemos nosso plano em menores proporções ou, enfim, renunciamos a construir. Por mais forte razão, nesta grande empresa, onde quase se trata de derrubar uma realeza e de levantar uma outra, devemos estudar o terreno, fazer o plano, escolher seguros alicerces, consultar os técnicos, examinar nossos próprios recursos, para sabermos se trabalho semelhante está, sim ou não, acima de nossos meios. De outro modo, nossas forças só existem no papel, em algarismo e, em lugar de homens, só alinharemos nomes de homens. Seríamos semelhantes a alguém que traçasse o plano de uma casa dispendiosíssima para si e que, depois que tivesse a metade construída, a ela renunciasse, deixando a custosa parte construída nua, exposta às lágrimas das nuvens, condenada a suportar a brutal tirania do inverno.”

    (William Shakespeare, Obra Completa, Volume III, Nova Aguilar, 1988, nova versão, anotada, de F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros e Oscar Mendes)

    O texto original, em versos, segue abaixo:

    (…) When we mean to build,
    We first survey the plot, then draw the model;
    And when we see the figure of the house,
    Then we must rate the cost of the erection;
    Which if we find outweighs ability,
    What do we then but draw anew the model
    In fewer offices, or at least desist
    To build at all? Much more, in this great work –
    Which is almost to pluck a kingdom down
    And set another up – should we survey
    The plot of situation and the model,
    Consent upon a sure foundation,
    Question surveyors, know our own estate
    How able such a work to undergo –
    To weigh against his opposite; or else
    We fortify in paper and in figures,
    Using the names of men instead of men;
    Like one that draws the model of a house
    Beyond his power to build it; who, half through,
    Gives o’er and leaves his part-created cost
    A naked subject to the weeping clouds
    And waste for churlish winter’s tyranny)

    (Henrique IV, Parte II, Ato I, Cena III, linhas 41 a 62).

    O conselho de Lorde Bardolfo, por sua vez, espelhou-se nestas palavras de Jesus aos seus seguidores, no Evangelho segundo São Lucas, que certamente Shakespeare conhecia:

    “Quem de vós, com efeito, querendo construir uma torre, primeiro não se senta para calcular as despesas e ponderar se tem com que terminar? Não aconteça que, tendo colocado o alicerce e não sendo capaz de acabar, todos os que virem comecem a caçoar dele, dizendo: “Esse homem começou a construir e não pôde acabar!” Ou ainda, qual é o rei que, partindo para guerrear com outro rei, primeiro não se senta para examinar se, com dez mil homens, poderá confrontar-se com aquele que vem contra ele com vinte mil? Do contrário, enquanto o outro ainda está longe, envia uma embaixada para perguntar as condições de paz. Igualmente, portanto, qualquer de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo.”

    (Bíblia de Jerusalém, tradução da edição de 1973, Edições Paulinas, 1885, Lucas 14, 28-33).

    Este sábio conselho aplica-se hoje a todos nós, para que não nos lancemos às cegas num empreendimento, qualquer que seja ele, sem um mínimo de trabalho preparatório.

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