Please consider donate. | Por favor, considere doar qualquer quantia para mantermos o site.

Inicial Fórum Peças Macbeth O poder das bruxas – A perigosa previsão

Visualizando 1 post (de 1 do total)
  • Autor
    Posts
  • #10752

    “O mundo é todo um palco.”
    Lema do Globe Theatre, 1599

    Retornando vitorioso de uma batalha recém-travada, acompanhado pelo seu amigo Banquo, Macbeth, um capitão-de-guerra do rei Duncan da Escócia, surpreendeu-se com o que encontrou pelo caminho. Nada menos do que três bruxas estavam reunidas numa charneca na trilha que tomara para voltar ao seu castelo. Impressionou-se com a aparência delas. Eram seres indefiníveis, “esquálidas e estranhas”, e “que não parecem habitantes da Terra”. Assombrou-se ainda mais quando elas, a quem ele jamais vira antes, chamaram-no pelo nome, prevendo que Macbeth, em breve, receberia o baronato de Cawder. E mais. Em bem pouco tempo, profetizaram, ele seria o novo rei da Escócia, apesar do rei Duncan não só estar vivo como gozando de perfeita saúde.

    A ambição de Macbeth

    Mal elas se volatilizaram, sumindo nos ares, chegou um mensageiro para confirmar: Macbeth era de fato o novo senhor de Cawder! O rei Duncan o indicara.
    O vaticínio das bruxas se fizera num piscar de olhos. Foi a perdição de Macbeth. Dali em diante, tomado de furiosa ambição assassina, antes de morrer, carregou muita gente ao túmulo: o rei Duncan (a quem matou quando o hospedava em seu castelo), seu amigo Banquo, a mulher e os filhos de Macduff, e uma série de peixes menores, vítimas do seu desenfreio. Além disso, a demência que se apossou da sua mulher, que antes o incentivara ao crime – uma das mais célebres malfeitoras da literatura mundial, lady Macbeth, ela, depois de um tempo, por mais que limpasse as mãos jamais conseguia se desfazer da sensação que elas estavam sempre manchadas de sangue. Terminado tudo num banho de sangue.

    A real motivação de Shakespeare

    A razão de Shakespeare ter dado proeminência inicial às feiticeiras na tragédia Macbeth, escrita em 1605/6, não se deveu a nenhum ardil cênico para atingir excepcionais efeitos dramáticos, mas sim por motivação ideológica. O bardo esperava agradar James I, o rei que unificara as coroas da Escócia e da Inglaterra, que era convicto da influência perniciosa delas. E o rei ficara assim, um fóbico à bruxas, desde um pouco antes de se casar.

    Em 1589, ainda jovem, ao atravessar o mar da Escócia em direção à Dinamarca para contrair núpcias com a princesa Anna, seu barco foi assolado por uma inesperada tempestade. Os horrores que ele passou a bordo foram de tal ordem que, depois, em terra firme, convenceram-no lá mesmo na corte dinamarquesa de o que sofreu resultara de um enfeitiçamento qualquer. Os vagalhões atendiam a um mau olhado.

    O rei caça-feiticeiras

    Desde então Jaime obcecou-se pelo tema da bruxaria. A tal ponto que até um tratado escreveu sobre o tema: o Demonologia. Jaime I, que estava longe de ser um primitivo, foi um monarca paradoxal. Ao tempo em que, em 1611, mandava imprimir a mais perfeita Bíblia até então traduzida para o inglês, a King James Bible (afirmando definitivamente a estrutura do idioma que ajudou milhares de súditos a melhorarem a escrita e a fala, e fonte referencial de toda a literatura inglesa que se seguiu), foi o responsável pelo clima de caça às bruxas que se instalou na Grã-Bretanha durante o seu reinado (1603-1625).

    As advertências de Shakespeare

    Com a ascensão de Jaime I ao trono da Inglaterra em 1603, Shakespeare, o principal integrante do grupo Homens do Lorde Camarlengo (recém-promovidos e presenteados com uma Carta Patente), deve ter-se sentido na obrigação de agradá-lo. Para tanto imaginou apresentar uma encenação que confirmava as conhecidas suspeitas do novo soberano, isto é, que bruxas existem e que aqueles que teimam em seguir seus “oráculos imperfeitos” tendem a cumprir a trágica sina do traidor e assassino Macbeth.

    Subvencionado com uma libré rubra que lhe dava direito, a ele e a seus companheiros de teatro, de desfilar na cerimônia de entronação do rei como King’s Men, os Homens do Rei, Shakespeare acabou por escrever uma das primeiras peças de terror que se conhece, predecessora dos contos de Poe e de Stevenson.

    Um peça política

    Macbeth celebrizou-se assim como uma sutilíssima obra de propaganda política, se bem que subliminar. Todos os que estavam próximos ao monarca, os cortesãos, os ministros, os capitães da guarda, e os súditos em geral, poderiam considerar suas possíveis intenções conspirativas caso fossem acometidas por elas como possíveis sinais de enfeitiçamento. Deles já se encontrarem de alguma forma possuídos, pois as bruxas, aquelas emissárias do diabo, sabiam perfeitamente conjurar os malignos poderes luciferinos contra o governo legítimo.

    A história dessa peça mostra por fim como duas coisas aparentemente tão distintas, como o teatro e a política, são, por vezes, faces da mesma moeda. Tudo afinal é um palco só.

Visualizando 1 post (de 1 do total)

Você deve fazer login para responder a este tópico.

Fechar Menu