Please consider donate. | Por favor, considere doar qualquer quantia para mantermos o site.

Inicial Fórum Discussão Geral Discussão Geral sobre Shakespeare Justiça a Harold Bloom

Visualizando 1 post (de 1 do total)
  • Autor
    Posts
  • #10792

    POR J. C. GUIMARÃES

    Bloom não tem ilusões quanto ao nosso destino: a morte é universal e contempla a todos. A única maneira de termos algum conforto é nos conhecer melhor com a ajuda de instrutores qualificados. E se eventualmente algum de nós é dotado de talento literário, ler e escrever são meios possíveis de alcançar a imortalidade, ainda que apenas na memória

    Já li toda a espécie de malhação para cima de Harold Bloom. Muitos de seus críticos desconfiam de suas análises e de sua qualidade. O fenômeno, que é também editorial, seria mesmo um simples “modismo”, consoante Fábio Lucas? Pessoalmente, acho que não: podemos até discordar do formalismo do crítico norte-americano, mas não dá pra dizer que o cara seja rasteiro, desinformado ou mal intencionado.

    Esta é a segunda vez que escrevo sobre Harold Bloom, desta vez para fazer-lhe justiça. Pergunto-me quem somos nós para tanta pretensão; de qualquer modo, se um dia publiquei uma crítica parcial, talvez seja honesto corrigi-la, o que não significa necessariamente concordar. Não estou certo de que tenha errado inteiramente da outra vez – quando, num ensaio chamado “A língua canônica”, interpretei “O Cânone Ocidental” como uma espécie de imperialismo cultural por meio de escritores da língua inglesa (por outras palavras, achei justamente que o crítico em questão fosse mal intencionado e servisse aos interesses do “mal”).  Dessa primeira impressão para cá – já se passaram mais de dez anos – reli Bloom e alguns dos escritores que canonizou, e avalio que, se cometi alguma injustiça com ele, foi a de ter julgado seus defeitos e esquecido seus méritos. Com efeito, não retiro muitas das coisas que disse anteriormente, mas acrescento algumas que descobri mais tarde e que permitiram-me compreendê-lo de maneira mais integral e portanto mais justa. Reler é sempre indispensável, e foi fundamental neste processo.

    Minha conclusão é a seguinte: o melhor caminho para se conhecer o ensaísta Harold Bloom não é ir direto à leitura pessoal que faz de cada escritor, onde menos se expõe e mais os outros. Deste último caminho deriva, talvez, o equívoco de só associá-lo ao culto secular, e talvez exagerado, de Shakespeare. Sobre essa influência deve ser dito logo: lidas com atenção, percebe-se nas entrelinhas de Bloom que nem todo mundo foi arrasado pelo dramaturgo, conforme sugere uma primeira leitura de seus livros. O crítico parece concordar que a literatura francesa – a única que talvez rivalize com a inglesa -, é bastante original. Montaigne, Molière e Proust são relativamente alheios ao fenômeno em questão: “Montaigne entreouve-se, como Hamlet e Iago; isso é precisamente o que os protagonistas de Molière não farão.” O primeiro repete na vida o que o Hamlet repetiu na ficção, mas sequer tomou conhecimento da existência do bardo elisabetano, ao passo que o segundo teria sido totalmente infenso à maior invenção shakespeariana. Quanto a Proust, cuja capacidade de representar a “personalidade” e o “amor sexual” rivalizariam com a do poeta inglês, escreveu Bloom: “Proust jamais dá ao ciúme uma ancestralidade literária”, excluindo até mesmo o todo-poderoso Sigmund Freud desse mérito.

    Os escritores analisados por Harold Bloom dividem-se entre os que foram influenciados fortemente pelo poeta ou que têm força quase ou propriamente “shakespeariana”, deixando claro que a originalidade comporta mais gente. Kafka é um desses casos, e provavelmente Goethe. A força de Shakespeare estaria sobretudo na construção de personagens – em particular Falstaf e Hamlet. Ora, como avaliar que Kafka ou Jorge Luis Borges são canônicos a partir desse critério? Simplesmente não faz sentido, em que pese os gêneros de apreciação do crítico, nesses e em muitos casos: contos e aforismos, onde não há espaço para construções dessa ordem. Quem, segundo Harold Bloom, sentiu todo o peso de Shakespeare nas costas foi realmente a própria literatura inglesa: Wordsworth, Becket, Milton, Virgínia Wolf etc. Fora da Grã-Bretanha, alguns nomes teriam sofrido o mesmo impacto: norte-americanos, Freud e Tolstoi principalmente. Daí em diante a influência do dramaturgo, se não acaba, tende a ser minimizada.

    Como dizia, a idiossincrasia bloomiana pode ser melhor apreendido longe de seus estudos particulares: nós o enxergamos melhor nas suas introduções e epílogos, e pode ser que “Uma elegia para o Cânone” ou “Conclusão Elegíaca” sobrevivam como seus textos fundamentais. São panfletos, onde o crítico revela intensamente tudo o que pensa. Serenamente, não há como não concordar com muitas dessas revelações. Harold Bloom é um bravo, e qual o problema em reconhecer isto? É, como se diz, um dos últimos moicanos; um devoto entrincheirado, resistindo ao avanço impiedoso dos inimigos. Seu empenho é muito nobre, indicutivelmente: defender uma deusa (afinal, a literatura tem devotos religiosos) muito digna mas seriamente ameaçada, e a única arma de que dispõe para fazer isso é a crítica. Seu gesto é cativante. Ele acredita em seu propósito e na força da palavra escrita. Pena que, paradoxalmente, não tem muitos motivos para acreditar nos homens nem em sua própria época. Não é um otimista.

    O diagnóstico de Harold Bloom é preocupante, e tem a mácula, já, da nostalgia. O que ele constata de mais importante é o obscurecimento gradativo da arte literária e de seus gênios, com sérias consequências para o desenvolvimento da personalidade individual. O cânone existe porque, parece, a literatura sobreviverá à ignorância, porém seu público está fadado a ser cada vez menor, cada vez mais escasso. O mundo fatalmente descobriu novos prazeres e divertimentos, desviando as pessoas da preocupação essencial com o autoconhecimento, salvo quando se trata de livros de auto-ajuda ou charlatania. Sabemos que a arte é um dos pilares da gnose. Quem discorda que o propósito último da grande literatura de ficção é nos dar a conhecer melhor? Ela é povoada de pessoas cujas paixões e sentimentos – iguais aos nossos -, são dissecados pela sabedoria. Mas, infelizmente, na ótica bloomiana, ninguém quer mais perder tempo com o espelho da alma. Romances sutis e volumosos, poemas clássicos – tenho um Milton de capa dura que mais parece uma joia de museu! – ou dramas escritos perdem adeptos a cada dia, posto que o materialismo tem desfeito o interesse do homem por aquilo que Machado de Assis compara a uma casa: o seu interior. Sócrates e outros luminares parecidos mais do que nunca estão ficando fora de moda, pois além do interesse faltam tempo e paciência a uma sociedade cujo grande ilusão é o dinheiro, seguido, parece, do culto quase religioso mas inútil do corpo.

    Bloom não tem ilusões quanto ao nosso destino: a morte é universal e contempla a todos. A única maneira de termos algum conforto é nos conhecer melhor com a ajuda de instrutores qualificados. E se eventualmente algum de nós é dotado de talento literário, ler e escrever são meios possíveis de alcançar a imortalidade, ainda que apenas na memória. É possível que o que mais importa, em nós mesmos, sejam de fato os nossos pensamentos e opiniões, pois são a única coisa humana potencialmente indestrutível. Tudo o mais, nos termos do “Eclesiastes”, é vaidade e vai desaparecer. Será difícil concordar com o óbvio?

    Em “Como e Por Que Ler” Bloom teme pela perda da ironia. O que talvez muitos não percebam é que Bloom é, ele próprio, um talentoso ironista. Presumo que não seja verdade que ele, evasivo, odeia a política e necessariamente a história, embora toda a sua argumentação constitua um ataque poderoso contra tais questões. Em “Grande Sertão: Veredas” – romance que Bloom deveria ter lido – Riobaldo reflete sobre o Demônio, afirmando que “Quem muito se evita, se convive.” A política pode ser um dos demônios que obsedam o crítico novaiorquino. Suspeito, portanto, que para a sorte comum ele não consegue ser tão emersoniano como se declara e até gostaria de ser. Ao fim e ao cabo, o que sobra de suas alegias e reclames? Um militante fervoroso em favor da literatura, e sua voz desesperada não deixaria necessariamente de ecoar nas instituições de ensino mais sérias, motivando corações e mentes apaixonados como ele por aquilo que o tempo já testou: o poder de um livro bem escrito.

    Embora odeie o culturalismo, Bloom sabe que este poder transcende povos, culturas e gêneros taxonomicamente literários. Em meio a uma nova guerra civilizacional entre ocidentais e muçulmanos, ele surpreende ao defender a leitura do livro sagrado dos antípodas da Casa Branca, o “Alcorão”, obra “verdadeiramente importante para todos nós”, até porque “o islã há de exercer crescente influência sobre nossas vidas, seja nos Estados Unidos ou no resto do mundo.” Não sabemos se é verdade, mas é uma previsão incômoda para o fanatismo calvinista e pertinente do ponto de vista político. Em contrapartida a este elogio, o crítico não cansa de alfinetar o ex-presidente, George W. Bush, fazendo coro à onda mundial contra o neoconservadorismo republicano. Por incrível que pareça, Hussein Obama, o “esquerdista”, teria mais a ver com ele do que o branquelo do Texas.

    Haverá de existirem adeptos dos livros bem escritos, apesar de tudo. Se cremos que a arte é a educação dos sentidos, então em matéria de política cultural Harold Bloom não poderá deixar de ser lembrado, penso eu. Pelo que sei, nas universidades brasileiras a subliteratura é também prestigiada, a exemplo do que acontece em Goiás. Ao invés dos clássicos – Camões, Dante, Proust etc. – dá-se sempre um jeito de meter um autor de segunda ou terceira categoria nos vestibulares, apenas porque trata-se de um “valor regional”. As perguntas que ficam são: ao denunciar esse tipo de coisa, Bloom está errado? Por quê? E o que o vestibulando ganha com um autor de terceira que não ganharia lendo Homero? Talvez o problema seja não a intromissão da política nas academias, mas a renúncia dela por parte daqueles que acreditam na importância dos cânones literários, que natural e forçosamente existem. Não é este um meio de deixar o caminho livre para a ação de seus inimigos?

    Em última análise, a ogeriza de Bloom contra a ideologia procede, embora seja chocante em função dessa renúncia sobrecarregada de niilismo. Estamos de acordo em que não se deve nivelar por baixo, simplificando, e é verdade que os oprimidos não passarão a ler apenas porque algum autor identifica o conteúdo de sua arte com os problemas de determinada classe social. Pode-se duvidar que Brecht, Maiakóvski ou João Cabral de Melo Neto tenham tido maior sucesso entre os oprimidos do que Joyce. Pode-se duvidar, também, que alguém, algum dia, encontrará um meio de tornar a humanidade feliz, ainda que não possamos jamais condenar aqueles que o tentarem ou tentaram, o principal deles um humanista inexcedível, Karl Marx. Oxalá haja muitos Marx, não porque devamos concordar com eles, mas porque têm esperança na humanidade. O que ganhamos em não ser esperançosos, o ânimo ou o desespero? A ataraxia é improvável e seria perturbadora. Só nos resta ter esperança.

    Eu dizia que, depois da primeira crítica contra Bloom, li alguns autores que canonizou e fui obrigado a reconhecer que, se temos autores de primeira plana em paises como o Brasil, certamente não os temos em tamanha profusão como na Europa. Além disso, é preciso ler Montaigne, Proust e o próprio Shakespeare se quisermos ter um parâmetro exato para qualquer julgamento literário menos débil, inclusive em relação aos autores pátrios. Outra vez a história tem o que ensinar, independente de Emerson: é natural que o velho mundo tenha mais em quantidade e qualidade, se comparado à recente constituição, por exemplo, da literatura brasileira, que só adquire autonomia verdadeira com os românticos, passando por José de Alencar e afirmando-se definitivamente apenas com Machado de Assis, há cem anos. Por outras palavras, não temos a tradição histórica de culturas de 500 ou de mil anos, como também não a têm os Estados Unidos. Somos, uns e outros, relativamente novos nesse palco, onde a competição é milenar.

    “Gênio”, uma das últimas obras de Bloom, provou que o crítico de Yale é menos unilateral e estúpido do que supúnhamos. Ali ele faz inteira justiça a grandes nomes da língua portuguesa – a Eça, Camões, Pessoa, Machado de Assis e ao próprio Saramago. Este, segundo ele, só não foi contemplado em seu livro pelo fato de estar vivo, reconhecendo-lhe não obstante a condição de “maior escritor” em atividade. Bloom obviamente desprezaria as infelizes comparações da revista “Time” (cf. revista Veja de 21 de outubro de 1998) sobre a premiação de Saramago com o Nobel, pois é da opinião de que foi um dos poucos laureados que conferiram “dignidade” ao prêmio, ao lado de Octavio Paz. Devemos então ser honestos e reconhecer que Bloom não é ignorante ou autista como muitos de seus compatriotas desinformados. Outra coisa é que hoje compreendemos melhor os critérios de “estranheza e sublimidade”, de que se valeu para escolher seus canonizados, nos anos 90. São critérios de uma disciplina esquecida, a Retórica, e portanto menos subjetivos do que imaginávamos há dez anos, quando não tínhamos essa informação.

    Embora o debate atice as vaidades, Bloom está correto também ao insistir que tenhamos uma lista para ler – um cânone, pessoal que seja -, e seu argumento é inatacável: nem de longe teremos tempo para ler tudo; logo, leiamos o que reconhecidamente presta. Quem negará Tostoi, Machado de Assis, Flaubert, Virgínia Wolf? Estou particularmente convicto de que a leitura árdua que o crítico sugere é a única que realmente funciona. Eu mesmo aprendi a ler e a escrever, em parte, lendo suas leituras, e confesso que tenho, hoje, mais gosto pela literatura e mais respeito por nomes como São Paulo e Emily Brontë. Não duvido, tampouco, que Dom Quixote e Sancho Pança confundem-se com a realidade, embora sejam fantasia.

    Ao contrário de Bloom, discípulo de Walter Pater e Dr. Johnson, sou dos que acreditam que o esteticismo puro e simples não existe, e que o meio social inevitavelmente condiciona a arte. Meu ponto de vista crítico combina mais com o de Alfredo Bosi e Carpeaux. É óbvio, por exemplo, que a língua inglesa e os nobres feudais que caracterizam as peças de Shakespeare estão lá porque esta era a sociedade do poeta, não por causa de suas idiossincrasias. Até que ponto isto é acessório é outra questão. Tampouco esperamos que o pessimismo de Bloom (que é em parte o nosso) cultive adeptos. Termino acreditando que a ação é o antídoto único e inevitável contra as ameaças que nos cercam de todos os lados, inclusive contra o abandono da boa literatura e da suposta extinção dos livros por alternativas virtuais e menos sábias, a médio e longo prazo. A política certamente não escreverá contos, poemas, romances, ensaios e dramas no lugar do indivíduo, mas poderá assegurar que permaneçam em nosso horizonte de interesses. Preservar a literatura é também uma forma de preservar a humanidade, e nesse caso não podemos abdicar da política.

Visualizando 1 post (de 1 do total)

Você deve fazer login para responder a este tópico.

Fechar Menu