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Inicial Fórum Sonetos e Poemas de Shakespeare Os Sonetos Introdução aos Sonetos de Harold Bloom à Série – Shakespeare Através das Eras

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    Tradução por Rafael Antonio Blanco

    A mais notável qualidade dos surpreendentes Sonetos de Shakespeare é o misterioso distanciamento da voz que os fala. Essa voz efetua suas declarações como um poeta e como um ator, mas não como um interior dramático ou personagem numa peça. Shakespeare, ao contrário de seus protagonistas, recusa o auto-entreouvir (self-overhearing). Assim como o Belo Homem Jovem, a Dama Negra e o Poeta Rival, ele é outra ficção consciente.

    Hamlet e Falstaff são ficções mais ricas, pois seus interiores são aparentemente infinitos, mas o falante dos Sonetos é meramente uma voz. Como uma voz é infinitamente flexível e não tem rival entre as vozes líricas na língua. Mas Shakespeare mantém sua curiosa impessoalidade, como se todas as humilhações, desapontamentos e traições fossem sofridas por outrem.

    John Hollander aponta a diferença entre as sequências tradicionais de sonetos, endereçadas a mulheres idealizadas, as Musas, e a de Shakespeare, que invoca um jovem homem não nomeado e uma mulher fatal, que podem ser ou não personagens reais. Eu adicionaria que nem o homem nem a mulher são idealizados, colocando à parte a beleza do homem e a perigosa sedução da mulher. De fato, o homem amado é algo de autocentrado, um monstro narcisista, enquanto a mulher parece ser puro decadentismo moral. Nenhum é apresentado em termos de julgamento, nem o falante condena a si mesmo moralmente, apesar de ele parecer aceitar a visão social que ser um ator-dramaturgo é um tipo de degradação.

    Foi G. K. Chesterton que observou que as ironias de Chaucer eram muito amplas para serem vistas. As ironias dos Sonetos são ambas, palpáveis e invisíveis, um paradoxo que eu não posso resolver. Shakespeare sabe tudo o que está fazendo, mas nós não. Nossa ótica é impedida por sua transparência. Nós não somos apresentados a nenhum perspectivismo, trágico ou cômico, como somos nas peças. Saberíamos nós necessariamente que o autor dos Sonetos escreveu as melhores tragédias e comédias já escritas se lêssemos apenas os Sonetos? Sim e não, não e sim, dependendo de como nós lêssemos.

    Os Sonetos foram feitos no começo da década de 1590 até 1609, ainda que não dê a impressão de um tempo tão longo de composição. Ninguém esperaria que 154 poemas atingissem tamanha façanha, ainda que apenas um punhado ou dois sejam descartáveis como artefatos estéticos. Dante, Petrarca, Sidney e Spenser – todos grandes poetas – não mantém um nível tão alto, talvez por desígnio. Aqui está o número 122 dos Sonetos de Shakespeare, um dos menos renomados, mas um poema que não posso esquecer:

    Thy gift, thy tables, are within my brain

    Full character’d with lasting memory,

    Which shall above that idle rank remain

    Beyond all date, even to eternity;

    Or at the least, so long as brain and heart

    Have faculty by nature to subsist;

    Till each to razed oblivion yield his part

    Of thee, thy record never can be miss’d.

    That poor retention could not so much hold,

    Nor need I tallies thy dear love to score;

    Therefore to give them from me was I bold,

    To trust those tables that receive thee more:

           To keep an adjunct to remember thee

           Were to import forgetfulness in me.

    Teus dons, tuas palavras, estão em minha mente

    Com todas as letras, em eterna lembrança,

    Que permanecerá acima da escória ociosa

    Além de todos os dados, mesmo na eternidade;

    Ou, ao menos, enquanto a mente e o coração

    Possam por sua natureza subsistir;

    Até que todo o esquecimento liberte sua parte

    De ti, teu registro não se perderá.

    Esses pobres dados não podem reter tudo,

    Nem preciso de números para medir o teu amor;

    Assim fui corajoso para dar de mim a eles,

    Para confiar nesses dados que sobram em ti.

           Manter um objeto para lembrar-te

           Seria aceitar o esquecimento em mim.

    O sujeito ostensível está dando um livro de anotações na qual sonetos estão escritos, mas a linha crucial aqui é: “Nem preciso de números (tallies) para medir o teu amor,” que pode ter sugerido o uso de “tally” por Whitman como o auge de sua imagem para a voz. O contraste do soneto 122 entre inscrições internas e externas é simplista, e pode ser irônica. É o poema uma apologia ao proclamar o amor de alguém ao ceder um livro de anotações? “Bold” sugere a repreensão de um amante pelo tornar público. Ademais ouço uma auto-repreensão na sequência “idle rank”, “razed”, “missed”, “tallies”, “score”, “bold”, “trust”. Entretanto os sonetos legíveis são subordinados às suas memórias, eles retém uma valor além da lembrança. Quão felizes nós estaríamos em possuir um desses livros de anotações agora!

    A ordem dos Sonetos é arbitrária mas às vezes revelatória. O soneto anterior é uma obra de arte selvagem, número 121:

    ‘Tis better to be vile than vile esteem’d,

    When not to be receives reproach of being,

    And the just pleasure lost which is so deem’d

    Not by our feeling but by others’ seeing:

    For why should others false adulterate eyes

    Give salutation to my sportive blood?

    Or on my frailties why are frailer spies,

    Which in their wills count bad what I think good?

    No, I am that I am, and they that level

    At my abuses reckon up their own:

    I may be straight, though they themselves be bevel;

    By their rank thoughts my deeds must not be shown;

           Unless this general evil they maintain,

           All men are bad, and in their badness reign.

    É melhor ser vil do que vil considerado,

    Quando não se é, e ser repreendido por sê-lo,

    E o prazer justo perdido, que é tão caro

    Não por nós, mas pela opinião alheia.

    Por que a visão falsa e adulterada dos outros

    Deve julgar o meu sangue ardente?

    Ou minhas fraquezas, enquanto o mais fraco espia,

    Que por eles seja mau o que acredito bom?

    Não, eu sou quem sou, e eles que julgam

    Meus erros reconhecem em mim apenas os deles;

    Posso ser reto, embora eles sejam tortos;

    Diante desses pensamentos, meus atos se ocultam,

           A menos que esse mal geral que eles mantém:

           Todos são maus e em sua maldade reinam.

    O choque peculiar disso é sua audaciosa cotação de Javé nomeando a si mesmo para Moisés do livro da queimação: ehyeh asher ehyer, “I am that I am”, fazendo trocadilho com as quatro letras YHWH. Como Deus, Shakespeare afirma a presença mas nega a culpa. “Posso ser reto, embora eles sejam tortos”: isso pode ser lido incorretamente (talvez) como uma das muitas antecipações de Shakespeare de um uso posterior de “straight”? (reto, heterossexual) Numa apreensão errônea, um leitor atual pode perguntar-se se “sangue ardente” insinua o homoerotismo que Shakespeare ironicamente nega.

    O Soneto 121 distancia-se da sua própria selvageria de tom, e Shakespeare sutilmente mantém distância mesmo onde é acusado. Eu dificilmente sei como a postura geral dos Sonetos pode ser chamada: “Distanciamento” não é suficiente preciso. O Soneto 94 é um dos mais sutis no que se refere a aparentes distanciamentos:

    They that have power to hurt and will do none,

    That do not do the thing they most do show,

    Who, moving others, are themselves as stone,

    Unmoved, cold, and to temptation slow,

    They rightly do inherit heaven’s graces

    And husband nature’s riches from expense;

    They are the lords and owners of their faces,

    Others but stewards of their excellence.

    The summer’s flower is to the summer sweet,

    Though to itself it only live and die,

    But if that flower with base infection meet,

    The basest weed outbraves his dignity:

           For sweetest things turn sourest by their deeds;

           Lilies that fester smell far worse than weeds.

    Aqueles que têm o poder de ferir e nada farão,

    Que não fazem o que demonstram,

    Que ao impelir outros, são como pedra,

    Imóveis, frios, e imunes à tentação –

    Eles por direito herdam às graças celestes,

    E preservam as riquezas da natureza de desgastarem-se;

    Eles são os senhores e donos de si mesmos,

    Os outros, apenas os servos de sua excelência.

    A flor do verão é doce para a estação,

    Embora para si mesma apenas viva e feneça;

    Mas se essa flor for ferida em sua essência,

    A erva daninha mais singela arrancará a sua honra;

           Pois o mais doce se torna amargo por seus feitos;

           Lírios mais fétidos do que as ervas daninhas.

    Esse retrato inquietante do Belo Homem Jovem termina com uma linha proverbial que apareceu em Eduardo III (1596), uma peça histórica que Shakespeare pode ter escrito (Eu duvido disso). O patrão-amigo de Shakespeare presumivelmente leu esse soneto e talvez foi ele era sua audiência pretendida. A sofisticação mútua dificilmente pode superar ambos o Soneto 94 ou sua provável situação. Ao ensinar o poema, peço aos estudantes cismarem com a palavra “rightly” na linha 5, porque ela contém o que seria um universo de amargura em qualquer poeta ou pessoa exceto Shakespeare. Contudo, como devemos interpretar “rightly” aqui? Ela transcende a ironia e intima uma realidade na qual o que não é dado não obstante torna faminto o provável receptor. Aqui o narcisismo do jovem nobre está à beira do abismo do sadomasoquismo.

    Ser o administrador da excelência alheia é ser não mais que um servo mais alto de uma vontade que não é própria. Qual o tom de Shakespeare aqui? Acho essa questão ainda mais irrespondível que a anterior. A distância encontra-se no limiar de uma proximidade íntima que não permite nenhuma intimidade. Se esse é o Conde de Southampton ou Pembroke, ele é no mínimo um personagem vicioso, com uma decadência profética de uma esquisitice wildeana de três século à frente.

    O contraste com o Soneto 94 é, para mim, a mais forte da sequência, o grande clamor de uma temporada erótica no inferno que é o Soneto 129, um atordoante tributo negativo a Dama Negra:

    The expense of spirit in a waste of shame

    Is lust in action; and till action, lust

    Is perjured, murderous, bloody, full of blame,

    Savage, extreme, rude, cruel, not to trust,

    Enjoy’d no sooner but despised straight,

    Past reason hunted, and no sooner had

    Past reason hated, as a swallow’d bait

    On purpose laid to make the taker mad;

    Mad in pursuit and in possession so;

    Had, having, and in quest to have, extreme;

    A bliss in proof, and proved, a very woe;

    Before, a joy proposed; behind, a dream.

           All this the world well knows; yet none knows well

           To shun the heaven that leads men to this hell.

    O desgaste do espírito quando se envergonha

    É obra da luxúria; e, até a ação, a luxúria

    É perjura, assassina, sanguinária, culpada,

    Selvagem, extrema, rude, cruel, desleal,

    Logo desfrutada, porém, em seguida, desprezada,

    Perdida a razão, e logo esquecida,

    Odiada razão, como isca lançada

    De propósito para enlouquecer a presa;

    Insano ao ser perseguido, e possuído;

    Tido, tendo, e na busca por ter, extremo;

    Felicidade ao provar, e uma vez provado, a tristeza;

    Antes, uma ansiada alegria; por trás, um sonho;

           O mundo bem sabe, embora ninguém se lembre

           De descartar o céu que a este inferno os conduz.

    A antítese entre a economia do Belo Homem Jovem em “as riquezas da natureza de desgastarem-se” no Soneto 94 e a explosiva abertura do 129: “O desgaste do espírito quando se envergonha / É obra da luxúria”. Tão poderoso é esse redobre lírico que eu não encontrei essa energia cinética de libertação em nenhum outro poema, em qualquer linguagem que conheço. “Spirit” aqui é o sêmen de Shakespeare, e seu dispêndio é julgado uma perda da vitalidade. “Hell” na gíria elisabetana era a vagina, e uma repugnância é expressada muito mais complexamente que os similares recuos de Lear ou de Edgar perante a sexualidade feminina. Nenhum dos Sonetos claramente homoeróticos têm qualquer coisa do ímpeto do Soneto 129. Shakespeare, conforme devemos saber das peças, foi tão ferozmente heterossexual quanto Robert Browning ou W. B. Yeats. O que necessitamos saber mais (e nunca iremos) é o poder erótico da Dama Negra. Meu velho amigo Anthony Burgess persuadiu-me que essa mulher excitante era Lucy Negro, a principal prostituta das Índias Orientais de Londres. Recomendo fortemente o romance de Burgess sobre Shakespeare, Nada Como o Sol.

    Depois do 129, qualquer outro soneto pode parecer anticlimático, mas eu gostaria de concluir aqui com dois maravilhosos poemas, 86 e 87. Aqui no Soneto 86, a invocação hiperbólica do Poeta Rival, que parece a mim Cristopher Marlowe em vez de George Chapman:

    Was it the proud full sail of his great verse,

    Bound for the prize of all too precious you,

    That did my ripe thoughts in my brain inhearse,

    Making their tomb the womb wherein they grew?

    Was it his spirit, by spirits taught to write

    Above a mortal pitch, that struck me dead?

    No, neither he, nor his compeers by night

    Giving him aid, my verse astonished.

    He, nor that affable familiar ghost

    Which nightly gulls him with intelligence

    As victors of my silence cannot boast;

    I was not sick of any fear from thence:

           But when your countenance fill’d up his line,

           Then lack’d I matter; that enfeebled mine.

    Foi a vela enfunada de seu grande verso,

    Destinado a receber o prêmio de tua preciosidade,

    Que meus pensamentos maduros conjuraram,

    Matando-os no ventre onde cresceram?

    Foi seu espírito, ensinado pelos ares a escrever

    Acima de ditames mortais o que me aniquilou?

    Não, nem ele, nem seus noturnos confrades

    Ao ajudá-lo atormentaram o meu poema.

    Nem ele, nem aquele amável fantasma familiar,

    Que noturnamente instiga-lhe a inteligência,

    Vitoriosos, não podem gabar-se de meu silêncio;

    Não adoeci por medo de nada disso.

           Mas quando te ergueste para dizer seu verso,

           Então perdi o senso – o pouco que eu já tinha.

    Novamente altamente sofisticado e certamente irônico, essa visão agonística do fantasma de Marlowe, ou um composto Marlowe-Chapman, é expressado com um sorriso bem amplo. Assim como o Faustus de Marlowe, o Poeta Rival canaliza espíritos e demônios em ordem de alcançar “seu grande verso”. Mas Marlowe é enganado ou confundido com noções falsas, e Shakespeare graciosamente indica sua própria falta de medo. Em vez disso, ele charmosamente sugere uma inibição através do ciúmes, não de poderes poéticos superiores, mas de encontrar o retrato do Belo Homem Jovem nos versos do rival.

    O Soneto 87 é uma obra de imensa riqueza em compasso breve:

    Farewell! thou art too dear for my possessing,

    And like enough thou know’st thy estimate:

    The charter of thy worth gives thee releasing;

    My bonds in thee are all determinate.

    For how do I hold thee but by thy granting?

    And for that riches where is my deserving?

    The cause of this fair gift in me is wanting,

    And so my patent back again is swerving.

    Thyself thou gavest, thy own worth then not knowing,

    Or me, to whom thou gavest it, else mistaking;

    So thy great gift, upon misprision growing,

    Comes home again, on better judgment making.

           Thus have I had thee, as a dream doth flatter,

           In sleep a king, but waking no such matter.

    Adeus! És muito caro para que eu te tenha,

    E bem conheces o teu próprio valor:

    O privilégio de teu peso te liberta;

    Minha devoção a ti é toda determinada.

    Como posso ter-te, senão por teu favor?

    E, diante de tanta riqueza, que fiz por merecê-lo?

    A causa do presente que me é dado é meu desejo,

    E, assim, meu direito me é subtraído.

    Tu mesmo marcaste teu valor sem o saber,

    Ou a mim, a quem o deste, por engano;

    Pois tua grande dádiva, de mim arrancada,

    Retorna à tua casa, melhor considerada.

           Assim, tive a ti, como um sonho demasiado:

           Um rei ao dormir e, ao despertar, um exilado.

    Na Introdução à Segunda Edição do meu tratado, A Ansiedade da Influência, confessei em débito com a versão shakespeariana do processo de influência, tanto no amor quanto na literatura. “Swerving”, “mistaking”, “misprision” são três emblemas cruciais, todos os quais roubei para minha própria teoria da influência. A linguagem legalista do Soneto 87 emana fortes ironias que dão a este poema diversas tonalidades, combinando alienação e desejo perdido: “too dear”, “possessing”, “estimate”, “charter of thy worth”, “releasing”, “bounds”, “granting”, “gift”, “patent”. A entrega tornou faminto o receptor, mas Shakespeare permanece Shakespeare, intensamente cônscio da grande luz da realidade escurecendo o sonho de Eros.  

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