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Inicial Fórum Peças Hamlet HAMLET por Rogério Skylab

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    HAMLET

    1- A troca das espadas durante o duelo final entre o Príncipe Hamlet e Laertes, seria um mero golpe do acaso, não fosse a tragédia escrita por Shakespeare ser toda ela tecida, do início ao fim, por elementos de trocas, alguns propositais, outros fortuitos, outros ainda, fortuitos e propositais ao mesmo tempo. Se a troca das espadas foi fortuita, já o veneno foi deliberado, o que dá ao duelo final entre o príncipe Hamlet e Laertes, uma estranha duplicidade: imagem da imagem, deliberação e acaso, repetição e diferença.
    A tragédia fundamenta-se num fratricídio, a partir do qual põe-se a máquina em movimento. Mas esse ato original, o assassinato do Rei Hamlet por seu irmão Claudios, é o primeiro movimento de troca, usurpação de um lugar, contra o qual, o príncipe herdeiro vai empreender todos os esforços para corrigir. Até à morte do usurpador, momento em que finalmente se faz a correção e se conclui a tragédia, teremos sob nossas vistas um desfile contínuo de tramas, pondo em movimento a tragédia. Essas tramas poderiam ser pensadas como perversões, trocas, farsas, sem as quais o teatro perderia seu sentido.

    2- O olho secreto, modernamente representado pelas micro-câmeras, e que nos remete necessariamente ao panóptico, é o que fundamenta a troca. O estado de natureza, onde originariamente estaríamos inseridos, tal e qual o “nada” a que se refere o dramaturgo, não se coaduna ao olho secreto. Este só adquire sentido no momento em que o Homem se insurge contra um estado de coisas e inicia uma sucessão de tramas que é a própria história do Homem. Nesse sentido, o estado de reflexão, oposto às tramas, e que leva ao dilema “ser ou não ser” pela ausência da ação, estaria ligado necessariamente à melancolia.
    Walter Benjamin em seu livro “A Origem do Drama Barroco Alemão” faz um importante estudo sobre a melancolia, relacionando-a ao trágico e ao destino. Estaria também relacionada ao luteranismo no tocante à “negação das boas obras”, não havendo distinção entre as diversas ações humanas, bastando o abandono da alma às graças da fé. A questão é que, segundo Benjamin, o luto, que emerge inequivocamente desse mundo vazio, como contrapartida da teoria da tragédia, vai dar plenitude aos objetos, via meditação. Sob essa perspectiva, a melancolia se dissolve, confrontado-se consigo mesma. Esse é o caminho do drama barroco alemão ao drama barroco inglês: de Durer à Shakespeare, da Melancolia Alada à Hamlet, da despersonalização melancólica (a alienação do próprio corpo) até a produção do ser interior, Benjamin vai nos mostrar o desenvolvimento histórico do trágico, agora enquanto drama.

    3- Vemos, então, que Hamlet, a peça, será perpassada por tramas ou imagens, às quais, poderíamos dar o nome de “duplos”. A verdade só será possível indiretamente, através do duplo – só assim ela se manifesta. A obsessão em produzir duplos, começa no próprio fantasma do rei usurpado. A partir daí, vamos estar diante de uma sucessão contínua de imagens, como se a função da peça fosse justamente essa: a produção de duplos ( a troca das espadas, a morte do rei Hamlet e de Claudius, a morte de Laertes e do príncipe, numa cadeia infinita ). Ao invés da reflexão (cujo correlato é a melancolia, e os seus objetos, o livro ou a biblioteca), a produção de duplos, cujo correlato é a ação política e seu objeto o teatro.
    A própria definição de teatro dada pelo príncipe ao corpo de atores, está ligada à imagem: “O objetivo do teatro, tanto a princípio como agora, era e é, por assim dizer, servir de espelho à natureza, mostrar à virtude os seus traços, ao escárnio a sua própria imagem, à idade e corpo da época a sua verdadeira forma e imagem”. O que faz desta tragédia a mais encenada na história do teatro, é que nenhuma como ela foi tão à fundo na essência do teatro, enquanto produção de imagens.
    O próprio sentido de “troca de espadas” serve como metáfora à produção de imagens: Laertes e o príncipe são ambos feridos pela mesma espada envenenada; mas até que sejam simétricos, como o são as mortes do Rei Hamlet e de Claudius, um longo esforço é empreendido. E isso porque, no caso do príncipe e Laertes, se um era a imagem do outro, o era através de uma imagem distorcida: se a morte de Polônio, leva Laertes imediatamente a uma atitude de reparação, a morte do rei não leva o Príncipe ao mesmo movimento. É o que ele próprio constata a seu amigo Horácio: “vejo a imagem da minha causa no retrato da causa que move Laertes” (pág.181). Corrigir essas más imagens, não é outro o sentido da estória. Da mesma forma em relação à Fortimbrás, quando este se dirige com suas tropas, a fim de anexar um território que não valeria as vidas perdidas: “Como é fico eu pois, eu, cujo pai foi morto e conspurcada a mãe, estímulos grandes para a razão e o sangue, e deixo tudo em paz, ao passo que distinguo, para envergonhar-me, a morte de vinte mil soldados, os quais por fantasia e fábula de glória… lutam por uma nesga onde sequer não cabem os numerosos combatentes…” (pág 144).
    Os próprios irmãos, a nos sugerir uma cópia mal feita, é o que o príncipe nos indica em seu diálogo com a mãe: “Olhai aqui nesta pintura e nesta outra, a representação cabal de dois irmãos. Vede que graça reside neste rosto. Este era vosso esposo. Olhai agora o outro. Aqui está vosso esposo, espiga em ferrugem infeccionando o irmão sadio. Tendes vista?” (pág. 129). É curiosa essa passagem, porque será através de uma imagem (fotografia) que sua mãe chegará com o olhar ao interior de sua própria alma, isto é, tal como acontece no teatro representado no Castelo de Elsinor, a cópia de uma má imagem (um rei de trapos e retalhos), restabelece, se não a verdade, ao menos sua boa imagem.
    É em favor dessa eficácia ou mesmo,dessa terapêutica, que vai ser superado o suicídio (Ofélia, mais uma imagem distorcida do príncipe, no que se refere a loucura, opta pela morte consentida). Temos aqui a loucura sob duas perspecticas: a da melancolia e a da ação política.

    4- A traição, outro elemento recorrente na tragédia de Shakespeare, é o que constitui a imagem. A própria imagem é traição, seja ela boa ou má. A traição de Claudius, quando se decide a viagem do príncipe Hamlet, para que o seja, deverá conter a surpresa e, conseqüentemente, uma falsa aparência. Daí a relação direta entre traição e imagem.
    Por mais que a idéia de espelho (o teatro como espelho da natureza) esteja também presente, não podemos nos iludir: a imagem, para que tenha sua eficácia, deverá conter algum grau de perversão. Vamos pensar na traição de Claudius ao príncipe, quando lhe obriga a ser o portador de uma encomenda ao rei da Inglaterra. A traição se expressa em ato: a viagem deveria ter uma falsa aparência. Desvendado por Hamlet o real motivo da viagem, este responde com uma outra traição, acarretando na morte de Rosencrantz e Guildenstein, cúmplices de Claudius. Não será diferente a representação do teatro no Castelo de Elsenor. Ao texto original, por si só uma representação do real, o príncipe introduz sorrateiramente um texto seu, a fim de produzir o efeito desejado. Daí porque o discurso de Hamlet sobre o teatro e contra o exagero do cômico, deva ser entendido no sentido de se produzir uma falsa aparência – o cômico por si só deixaria às claras o efeito falso, o que o afasta de um teatro como o de Shakespeare, cuja pretensão seria justamente esconder sua perversidade.
    A traição, diferentemente do que possamos pensar, ela não é exclusiva de uma mente diabólica (também ocorre fortuitamente). Daí porque, tanto na deliberação quanto no acaso, a traição pode estar presente, o que sugere, ao menos na peça, que um possa ser a imagem refletida do outro. A morte de Polônio desencadeia uma série de acontecimentos – mas o que ela tem de exemplar será justamente o fato ser duplamente fortuita e deliberada. É como se o príncipe o matasse com uma venda nos olhos. Esse acontecimento será de fundamental importância porque precipita o enredo (sem ele, talvez o príncipe não cumprisse seu plano de vingança). E sua estranha estrutura é justamente esta: o príncipe arremete contra o intruso, escondido no quarto da mãe, sem saber sua identidade. Nesse simples ato, um misto de deliberação e desconhecimento. E ele o faz enquanto ataque e defesa ao mesmo tempo. Deliberação e acaso.
    Se pensarmos que a primeira imagem, quando a peça começa, está desfocada, ou seja, é uma imagem deliberadamente falsa e que esconde um fraticídio e um incesto, o duelo final corrigirá tal imagem, ainda que o seja pelas mãos do príncipe, imagem do rei. Esse duelo, carregado de elementos deliberados e fortuitos, é uma cópia de cabeça pra baixo, da primeira, porque, não somente traz à superfície o crime que sustentava a primeira imagem, como o inverte simetricamente (Claudius e sua cúmplice provam do veneno que mataram o rei: Claudius, de maneira deliberada pelo príncipe; a rainha, de maneira fortuita).
    De qualquer maneira, estamos longe do real, o crime, do qual só entramos em contato via relato, a peça dentro da peça, ou, via imagem que o traz invertido (o duelo final). Estamos irreversivelmente longe do real, o que significa dizer que só o teremos via imagem e consequentemente pervertido, pela natureza de toda imagem.

    5- Conforme Frank Kermode, em seu livro “A Linguagem de Shakespeare”, a linguagem de “Hamlet” é obcecada por duplos de toda espécie e, mais notadamente, por seu uso de figura conhecida como “hendíase”, isto é, quando queremos expressar uma palavra ou idéia por meio de duas: “lei e ordem”, “casa e lar”. De qualquer maneira, não é possível estabelecer que as duas palavras expressem efetivamente uma única idéia. Kermode, acha inclusive, que a mais ligeira discrepância entre elas, aumenta a possibilidade de se atingir o todo da idéia, o que corrobora a nossa idéia de que o todo do real, ao qual chegamos via imagem, deverá conter a deliberação e o acaso (somente assim corrigimos a falsa imagem do real). Kermode vai tirar do texto de “Hamlet” a seguinte frase: “ Poupa então, oh Deus, os que confessaram suas faltas, restaura os que se penitenciam”. O “os” não poderia ser identificado de forma absoluta, porém, qualquer discrepância emprestaria força ao que é pedido, dando lugar à impressão de se cobrir todos os casos.
    A idéia de loucura que o príncipe passa em suas falas, o que muitas vezes produz um efeito cômico, seria em função justamente da pura repetição. Mas se pensarmos que esses duplos guardam uma diferença entre si, por menor que ela seja, a sensação de desvairio desaparece. É o caso por sinal do diálogo entre o príncipe e sua mãe:
    Rainha: Tu ofendestes, muito, Hamlet, o teu pai.
    Hamlet: Oh minha mãe, muito ofendestes o meu pai
    Rainha: Vamos, vamos, com língua absurda respondeis.
    Aqui, o elemento de repetição /pai/ produz uma falsa idéia de paradoxo, quando bem sabemos que a repetição, o duplo, guarda em si um elemento de perversão que o faz ser outro. A idéia de perversão é justamente essa: a mesma aparência externa e um conteúdo diferente.
    Segundo Kermode, um estudo dessa duplicidade, a “hendíase”, poderia nos levar ao âmago da peça. De qualquer maneira, para ele, a duplicidade não seria a única característica da peça. Muito mais célebre seria o adiamento: “ … embora Hamlet seja uma peça muito ativa, ela avança devagar… é uma peça fértil em protelações”.

    6- Essa idéia de tempo, duração, adiamento, protelação, que o enredo de “Hamlet” sugere, talvez possamos pensar como campo propício às duplicidades. Diferentemente do que Kermode parece nos sugerir, protelação e duplicidade talvez estejam mais próximos do que imaginamos:
    Harold Bloom enfatiza bem essa idéia de passagem do tempo, em seu livro “Shakespeare – A Inveção do Humano”, Cap II, pág 490: “… O Hamlet dos quatro primeiros atos é um jovem de cerca de vinte anos, aluno da Universidade de Wittemberg, para onde deseja regressar, e onde convive com Horácio, nome amigo, e os malfadados colegas Rosencrantz e Guildenstern. Laertes, da mesma geração que Hamlet, pelo que consta, deseja regressar à Universidade de Paris. Mas o Hamlet do quinto ato (após um intervalo de apenas poucas semanas) tem trinta anos (segundo o coveiro) e aparenta, pelo menos, os trinta e sete anos que o próprio Shakespeare tinha à época. Supõe-se que, recorrendo à versão antiga, o autor tenha iniciado a peça com um Hamlet menor de idade (conforme em Bellforest e no Ur-Hamlet shakesperiano) e que o processo de revisão tenha gerado o Hamlet maduro que encontramos no quinto ato. Comprometido, até certo ponto, com a concepção de Hamlet delineada na primeira versão, Shakespeare, com confiança, deixa a contradição perdurar. Shakespeare desejava duas coisas ao mesmo tempo: salientar a noção de um Hamlet jovem e, no final, mostrar um Hamlet amadurecido”.
    Protelar um certo desfecho, na verdade, é dar tempo ao tempo, amadurecer e duplicar. O processo de duplicação das imagens só se dá, portanto, sob as condições de tempo e espaço.

    7- É interessante também acompanharmos o percurso do “olho”, já que a peça expressa o desenvolvimento de uma visão. Esse “olho”, expressão do poder, não vê fantasmas, tal como acontece ao Príncipe, despojado do trono. No primeiro momento, Marcelo e Horácio ficam impossibilitados de testemunharem o diálogo entre o Príncipe e o fantasma de seu pai. Mas já no segundo momento, o “olho” (Rei Cláudio e Polônio) fica à espreita, a fim de confirmar se a loucura do príncipe teria como causa o amor não correspondido de Ofélia. No terceiro momento, o olho do Rei Cláudio, durante a encenação no Castelo de Elsenor, estará sob estrita vigilância (olhar o olhar). No quarto momento, Polônio estará encondido, a prescrutar a conversa entre a rainha e o filho, e será ferido mortalmente pelo príncipe, que se o faz, não será lucidamente – ele o fere como um ato reflexo (mata-se o olhar enredado nas sombras). No quinto momento, já existe uma trama, lucidamente arquitetada pelo Príncipe, a fim de que os espiões (os olhos do rei) caiam numa emboscada. Ainda assim, não é uma ação plena, executada pelas suas próprias mãos. De qualquer maneira, estamos na direção do último ato, como se para isso, fosse preciso uma longa preparação. O duelo final, assistido por uma platéia, faz-se às claras, sob os olhares de todos. Não existe mais um espião, uma sombra que tramasse nas sombras. A estória de Hamlet, portanto, é a de uma abertura de perspectiva, um desvelamento que se fará progressivamente até ao ato final, franqueado aos olhares de todos (abertura essa, à qual o Príncipe exigirá que Horácio transmita para as gerações futuras).
    Sob essa perspectiva, Horácio é o duplo de Polônio, de quem, muito se diferenciava por sinal: enquanto Polônio estava ligado à intrigas e à fala propriamente dita, Horácio é a testemunha que acompanha o Príncipe com o objetivo de transmitir pela escrita, às próximas gerações, a saga de Hamlet: se um estava ligado ao presente com suas intrigas e consequentemente a uma espécie de fracionamento da visão, o outro funcionaria como a memória para as futuras gerações, na completude de uma visão.

    8- O ato final é uma conjunção de acaso e intencionalidade, duplos em seus reflexos invertidos. A introdução do veneno na espada por Laertes, tinha como contrapartida, a troca das espadas, flor do acaso. A introdução do veneno no vinho, visando a morte do Príncipe, arquitetado pelo rei Claudius, teve como contrapartida a sua ingestão pela rainha. À cada intenção, um acidente, sua imagem invertida, seu duplo. E finalmente, a ingestão acidental do vinho envenado pela rainha, levaria a acão intencional do príncipe de envenenar o rei despótico, como uma imagem simétrica a que deu origem à tragédia. O que dá a esta a seguinte estrutura: +/-/+. A verdade só se restabelece através de um segundo desvio, cópia da cópia, o que requer tempo.

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