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    Apesar dos ataques do radicalismo acadêmico, Shakespeare reina solitário no centro do cânone da literatura universal.

    por Fernando da Mota Lima (30/03/2012)
    em Literatura, Livros

     

    “Como Shakespeare se tornou Shakespeare”, de Stephen Greenblatt

     

    Como convém ao espírito do tempo, a supremacia de Shakespeare também se manifesta no mercado. Em Stratford-upon-Avon, sua cidade natal, o nome Shakespeare serve para vender tudo: canetas, camisetas, citações da sua obra impressas em toalhas, diários, agendas, lojas e livros. Uma poderosa rede de instituições culturais acentua essa glória para além do consumo estrito de mercadorias. Além de uma companhia teatral exclusivamente consagrada à montagem da sua obra, a Stratford Shakespeare Company (também a Royal Shakespeare Company, sediada em Londres), existem o Stratford Shakespeare Institute e o Stratford Shakespeare Centre. Importaria salientar que, diferentemente de instituições similares no Brasil, estas concorrem, através de incessantes pesquisas e estudos, para ampliar o conhecimento e a difusão da obra e vida de Shakespeare. As brasileiras, que não têm nenhuma relação com Shakespeare, friso, servem no geral como fonte de prestígio social, parasitismo cultural e ação entre amigos.

    Apesar dos ataques procedentes do radicalismo acadêmico, Shakespeare reina solitário no centro do cânone da literatura universal. O mercado editorial, assim como o conjunto da produção acadêmica, ratificam esse juízo. Também o teatro, seu domínio primário e supremo, e o cinema. Mesmo no Brasil, onde é tão pouco estudado e encenado, são lançadas novas biografias que se somam às muitas escritas ao longo de séculos. Recentemente resenhei neste site As guerras de Shakespeare, de Ron Rosenbaum. A esta obra poderia acrescentar, sem intenção de proceder a um levantamento que o leitor pode facilmente fazer acessando os sites especializados, Frank Kermode, em A linguagem de Shakespeare, Celeste Davidson, em Quem foi William Shakespeare?, Claude Mourthe, em Shakespeare. Por fim, encurtando a lista e chegando ao que mais importa para esta resenha, Stephen Greenblatt, Como Shakespeare se tornou Shakespeare.

    Stephen Greenblatt é o grande representante do Novo Historicismo, corrente teórica baseada na subordinação da obra e do autor às condições históricas. Objetiva assim interpretar ambos, a obra e o autor, no contexto cultural dentro da qual se situam. Greenblatt tornou-se a grande referência desta teoria ao propor sua formulação inicial em The forms of power and the power of forms in the Renaissance (1980). Essa teoria nega autonomia aos agentes sociais, portanto também ao autor, que acaba reduzido a expressão do sistema ideológico vigente. Isso explica a hostilidade observável entre Greenblatt e Harold Bloom, outro celebrado crítico de Shakespeare. Suas perspectivas críticas são tão antagônicas que acabam transpostas para o plano da hostilidade pessoal. Isso me parece explicar o fato de que um não cita o outro, a não ser indiretamente como objeto de ataque.

    Mas importa já de início ressaltar que Greenblatt, diferentemente de tantos teóricos ininteligíveis, escreve uma biografia legível, de leitura muito fluente, cujo estilo expositivo prende de imediato o leitor. Como os muitos biógrafos que já se debruçaram sobre Shakespeare e seu tempo, ele reconstitui a vida do grande dramaturgo retomando as fontes documentais no geral já bem estudadas e combinando-as com largos voos especulativos.

    A vida e a obra de Shakespeare têm muito de obscuro, já que no seu tempo não se documentavam as vidas, mesmo de pessoas famosas. Aliás, diga-se que a Inglaterra do tempo era relativamente avançada nesse sentido. Foi isso o que tornou possível a sobrevivência de certo volume documental relativo a Shakespeare e sua obra. Mas o mito de tal forma se sobrepôs ao homem real através da história que seria um exercício detetivesco, algo à maneira de Sherlock Holmes, retraçar as muitas fraudes e supostas descobertas do autor real escondido sob a obra. Basta que se lembre que a obra de Shakespeare já foi atribuída a Francis Bacon, e a Edward de Vere, conde de Oxford. Os autores dessas façanhas, aliás admiravelmente estudados numa das mais importantes obras dedicadas a Shakespeare e sua vida (The genius of Shakespeare, de Jonathan Bate), são conjuntamente identificados como os anti-stratfordianos, isto é, os que negam a Shakespeare, nativo de Stratford-upon-Avon, a autoria da obra que o colocou no centro do cânone literário.

    Imaginem que até Freud foi enredado num desses contos de vigário ou recriação mítica do autor depois de tomar conhecimento da obra de Thomas Looney, que sintomaticamente significa doido. Este senhor, um obscuro professor inglês, trabalhou obsessivamente durante muitos anos para afinal publicar uma obra na qual intenta provar que o verdadeiro autor das obras de Shakespeare seria o conde de Oxford. Freud engoliu essa invenção com tanta intransigência que morreu acreditando nela. Hoje ninguém mais leva a sério as interpretações delirantes de Looney e outros “reinventores” de Shakespeare. A propósito, Harold Bloom expõe uma interpretação engenhosa para a credulidade de Freud em O cânone ocidental. O leitor curioso pode cotejá-la com o ensaio de Peter Gay, “Freud e o homem de Stratford”, incluído em Lendo Freud.

    Borges sintetiza a complexidade da obra de Shakespeare, já revestida dessas recriações míticas, ao afirmar que ele é todo mundo e ninguém. Devido a estas e muitas outras razões, Shakespeare continua a inspirar paixões, a dar emprego, pesquisa e fortuna a muitos acadêmicos. Um dos mais ilustres e devotados, o já citado Harold Bloom, sustenta a tese de que ele inventou nossa humanidade. Depois de Jesus Cristo, insiste Bloom, não há personagem mais seminal do que Hamlet. Ser ficcional, produto da imaginação transfundida em palavra, Hamlet traduz a complexidade da condição humana de forma absolutamente original, ou a inventa e dissemina no alvorecer da cultura moderna. É por essas e outras que críticos como Ron Rosenbaum atacam Bloom afirmando que ele pretende deificar Shakespeare. De fato, Bloom levou a bardolatria, o culto a Shakespeare, a um extremo tal que, como escreve textualmente, converteu a obra de Shakespeare em escritura secular, ou correspondente secular da Bíblia.

    O que é bem curioso nessa indústria que continua produzindo biografias de Shakespeare é a opacidade dessa figura que os biógrafos perseguem. Repisando uma obviedade que alguns leitores ignoram ou desconsideram, Shakespeare viveu numa época isenta do culto da celebridade que hoje converte qualquer jogador de futebol ou arranhador de guitarra em Deus da mídia. Melhor dizendo, o status do ator e do autor de teatro no seu tempo era equivalente ao de vagabundos, de seres socialmente subordinados e portanto dependentes de patrocínio da nobreza ou do clero, expostos aos caprichos e variações da lei que a qualquer momento, por força de doenças contagiosas ou de pressões puritanas, poderiam ter as portas do teatro fechadas.

    — O autor —

     

    Stephen Greenblatt e muitos outros biógrafos demonstram o quanto Shakespeare também se singularizou ao converter sua condição socialmente subordinada em uma extraordinária experiência de ascensão social. Sabendo astutamente tirar proveito dos meios de patrocínio disponíveis à época, além das relações de competição impostas à atividade teatral, sua vida, até onde está irrefutavelmente documentada, foi um triunfo social. À diferença de outros grandes dramaturgos contemporâneos (bastaria pensarmos na trajetória atribulada e no desfecho chocante de vidas como as de Christopher Marlowe e Robert Greene), ele acumulou bens e prestígio sociais excepcionais para homens de sua condição.

    Pondo sua teoria em prática, Greenblatt empenha-se em reconstituir as condições sociais do tempo para explicar Shakespeare, inclusive as muitas zonas obscuras de sua vida. Fiel a esse propósito, levanta documentação e hipóteses interpretativas relativas à escolaridade de Shakespeare, ao clima religioso dentro do qual se formou, dilacerado pelas lutas religiosas entre o catolicismo e a religião imposta por Henrique VIII e posteriormente por Elizabeth I. Shakespeare viveu em meio à ferocidade da guerra religiosa: conspirações, lutas pela sucessão no poder político, torturas e supressão impiedosa da tradição católica que durante séculos esteve no centro da tradição inglesa. Greenblatt também ressalta a influência que as festas populares e religiosas exerceram sobre a formação de Shakespeare e sua obra. Essa tradição popular de procedência medieval, tão viva na obra de Shakespeare que resiste aos princípios oriundos do teatro grego clássico, sobreviveu durante décadas aos controles rigorosos impostos pela Reforma.

    Um dos problemas que salientaria na biografia escrita por Stephen Greenblatt prende-se à recorrência das especulações com que visa preencher os claros da vida de Shakespeare. Enquanto outros biógrafos, é o caso de Jonathan Bate, conferem franca prioridade à obra, Greenblatt subordina a vida à obra, na medida em que intenta explicar aquela de acordo com elementos selecionados desta. Fiel ao espírito da sua teoria, subordina ambas, vida e obra, às condições sociais do tempo. Acrescentaria que essas condições sociais do tempo, recompostas dentro do espírito da teoria que adota, são frequentemente hipotéticas. Ademais, quando documentalmente comprovadas, é no mínimo duvidoso que sejam suficientes para explicar indivíduos excepcionais como Shakespeare.

    Concluo com uma citação relativamente extensa visando ilustrar o que anotei no parágrafo precedente. O leitor decerto observará que ele especula, especula e por fim sensatamente repõe Shakespeare de volta a seu lugar supremo, o teatro, único que o explica na medida em que podemos explicá-lo:

    Ele recorreu, sem dúvida, a conceitos e termos legais, mas também era notavelmente receptivo a conceitos teológicos, médicos e militares. Teria ele se envolvido também, diretamente, com algumas dessas profissões? Como jovem sem muitas perspectivas, poderia ter se alistado no exército, para lutar uma guerra suja nos Países Baixos – ou isso é o que alguns foram levados a pensar, impressionados com o domínio de Shakespeare sobre o jargão militar. A partir do evidente fascínio que sentia por viagens marítimas, ele bem poderia ter arrumado um lugar num navio para a América – “Buscar novos mundos”, como disse Sir Walter Ralegh, “pelo ouro, pelo prazer, pela glória”. Mas a probabilidade estatística de retornar de aventuras desse porte era mínima. E nenhuma dessas possíveis profissões explicaria a trajetória que o teria levado de Stratford a Londres. Com efeito, todas elas parecem apenas distanciá-lo do lugar que mais importa em sua vida: o teatro.

     

    Qual afinal o sentido de tanta especulação através de profissões hipotéticas e viagens fantasiosas? Shakespeare acaso precisaria exercer a profissão de militar ou viajar pelos mares para justificar seu domínio do jargão próprio a essas profissões e formas de experiência social? Confesso preferir o livro de Jonathan Bate acima citado e infelizmente inédito no Brasil. Tecido com erudição impressionante e exemplar clareza crítica e expositiva, ele encontra na própria obra o que Greenblatt e outros estudiosos buscam sem sucesso fora do autor e da obra.

    ::: Como Shakespeare se tornou Shakespeare :::
    ::: Stephen Greenblatt (trad. D. Garschagen e R. Guerra) :::
    ::: Companhia das Letras2011456 páginas :::

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