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Inicial Fórum Sonetos e Poemas de Shakespeare Os Sonetos Estética da Recepção: Os Sonetos nos Séculos Dezesseis e Dezessete

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    Tradução por Rafael Antonio Blanco.

    O primeiro comentário escrito sobre William Shakespeare e seus sonetos apareceram um pouco antes do século dezessete e muito provavelmente foram contemporâneos com a escritura de ao menos alguns dos 154 poemas líricos da sequência longa e diversa que em breve seria conhecida como Sonetos. Francis Meres, em seu livro de lugares-comuns literários, Palladis Tamia ou Wit´s Treasury tem um grande e aparentemente exaustivo prazer em elogiar os autores ingleses contemporâneos. Ele argumentou orgulhosamente que seus compatriotas realizaram, na língua Inglesa e numa variedade de gêneros, a mesma façanha que seus predecessores na antiga Grécia e Roma. O método de Meres de catalogar por pares antigos/modernos marcou o livro como um produto da Renascença Inglesa. Para muitos de seus gêneros e seu sentido de gosto literário, esse período da literatura inglesa regressava aos autores clássicos e suas realizações estéticas. Há também um apelo patriótico em Meres, que se sentia certo que a Inglaterra Elisabetana tardia, experienciava uma Época de Ouro literária, do tipo que não se via desde os tempos de Péricles em Atenas ou Augusto em Roma. Os elogios de Meres em relação a Shakespeare, tanto como poeta quanto dramaturgo, são curtos porém justamente famosos. Levantando uma história sobre metempsicose (ou transferência da alma) relacionada com o antigo filósofo Pitágoras, Meres declara que de maneira similar, a “espirituosa doce alma” do poeta Romano do amor, Ovídio, agora vive na “melíflua língua-de-mel” (“mellifluos and honey-tongued) de Shakespeare. Meres oferece como prova dois poemas narrativos de Shakespeare, Vênus e Adônis e O Estupro de Lucrécia, mas também menciona “seus Sonetos açucarados entre seus amigos privados.” Ele continua a elogiar Shakespeare como escritor de ambas tragédias e comédias, e as subsequentes listas das peças de Meres têm sido um presente para estudiosos do teatro por séculos.

    O mencionar dos dois outros poemas de Shakespeare pode parecer surpreendente à primeira vista, porém, para o tempo de Meres, faz perfeito sentido: Essas eram as obras mais populares, mais frequentemente reimpressas, de Shakespeare, durante sua vida. Cópias desses poemas narrativos vendiam mais rapidamente do que qualquer cópia de suas peças, e Shakespeare ele mesmo, de maneira muito extraordinária, incluiu uma dedicatória lisonjeira do autor na frente de cada texto. As dedicatórias eram endereçadas a Henry Wriothesley, conde de Southampton, que também é um dos maiores candidatos para o “Jovem Homem” endereçado em muitos dos sonetos de Shakespeare. Mais importante, as dedicatórias de Shakespeare testemunham uma vontade de ter esses poemas publicados e associados com o autor – exatamente o tipo de associação que é frustrantemente ausente quando nos voltamos aos Sonetos. Meres pode, de fato, apontar para as intenções muito diferentes de Shakespeare em relação aos sonetos quando especifica que eles circulavam não impressos, mas “entre seus amigos privados” (ênfase minha), isto é, passando de mão em mão num círculo de conhecidos (que provavelmente conheciam o autor e talvez algumas das versões reais dos personagens e situações dos sonetos) em manuscritos, cópias.

    O que significa para Meres que o autor dos Sonetos tinha uma “suave língua-de-mel”? Ter uma adocicada língua de mel certamente soa como um alto elogio para um poeta, mas também é uma frase comumente conectada com poetas líricos durante a era de Shakespeare. “Melífluo” tem paralelos clássicos, que agradava a Meres, e o escritor popular medieval Boécio também usou essa palavra. Shakespeare ele mesmo inclui a frase “língua-de-mel” em sua peça da metade da década de 1590, Trabalhos de Amor Perdidos. Em pouco tempo ele usaria a mesma linguagem – “boca de mel” ou “sugando o mel” – em peças subsequentes, Hamlet e O Conto de Inverno, mas ali implica lisonja, duplicidade, e algo de saciedade; de fato, Meres pode ter tido alguma dessas conotações complementares na mente, ou ao menos esses adjetivos podem adequadamente reconhecer a qualidade artificial e de elevado ornamento da primeira poesia de Shakespeare, especialmente o popular Vênus e Adônis. Artifício e doçura também marcam muitos poemas dos Sonetos, mas a maioria dos críticos diriam agora que muito mais – retoricamente, psicologicamente – está, também, operante nessa extraordinária sequência. Há algo de novo e complexo entre as virtudes formais dos primeiros textos de Shakespeare. De qualquer forma, é também importante compreender que Meres não estava sozinho na sua avaliação das características poéticas de Shakespeare. John Weever chama Shakespeare de “língua de mel”, Richard Barnfield fala do “hony-flowing Vaine,” Thomas Heywood reusa o “melífluo,” e um dramaturgo anônimo endereça “Ó doce Mr. S,” um adjetivo também usado pelo jovem John Milton. Os comentários do século dezessete aos Sonetos são raros, mas ocasionalmente há evidência de leitura ativa. Sir John Suckling ecoa ao menos seis dos sonetos na sua tragédia Brennoralt (1640), e 30 anos depois, outro autor refere-se a eles num prefácio à sua própria obra em prosa.

    É claro que não há nenhuma evidência conclusiva que Meres refere-se aos poemas que eventualmente apareceram na sequência de Shakespeare como a conhecemos. Entretanto, no próximo ano, cinco dos sonetos de Shakespeare apareceram no Peregrino Apaixonado (The Passionate Pilgrim), uma antologia impressa três vezes por William Jaggard. A segunda edição atribui a coleção inteira a “W. Shakespeare,” apesar de 15 outros poemas na coleção não terem nada a ver com nosso poeta. Jaggard parece ter tido acesso a dois dos sonetos que circulavam privadamente (número 138 e 144), o qual ele adicionou três outros sonetos cortados do quarto ato de Trabalhos de Amor Perdidos, mais esses outros poemas falsamente atribuídos. Como um todo, ele pode ter esperado enganar o público a pensar que sua coleção impressa de fato contivesse os “Sonetos” de Shakespeare que alguns estavam lendo em manuscrito e outros ouviam sobre. Os dois poemas dos Sonetos são reimpressos aqui conforme o Peregrino Apaixonado: os estudantes podem agora facilmente comparar essas versões com aquelas versões criticamente aceitas em seus livros didáticos. As variações frequentes entre as versões emprestam um suporte adicional à hipótese que Jaggard os adquiriu antes que Shakespeare concluísse a revisão, e que Shakespeare não teve envolvimento na impressão da antologia de Jaggard. Ademais, quando Jaggard novamente atribui o Peregrino Apaixonado a “W. Shakespeare” quando uma terceira edição aparece (1612), um dramaturgo chamado Thomas Heywood no seu Apologia aos Atores (1612 também) advertiu que Shakespeare “ficou muito ofendido com M[estre]. Jaggard (sem conhecimento dele) presume ser muito audacioso com seu nome.” Jaggard, como ficará claro, seria o primeiro de muitos a fazer isso.

    Alguns poucos sonetos adicionais de Shakespeare merecem uma breve menção aqui também, apesar deles não serem identificados assim por uma boa razão – o dramaturgo situou linhas poéticas na forma de soneto dentro do horizonte mais amplo do verso branco de suas peças. Mais obviamente, três personagens em Trabalhos de Amor Perdidos recitam sonetos, os quais, como vimos, mesmo o impressor William Jaggard pôde reconhecer e, assim, apropriar-se para sua própria antologia. Mais sutilmente, Shakespeare inclue dois sonetos em sua tragédia precoce sobre jovens amantes, Romeu e Julieta. Um serve como prólogo que anuncia o cenário, as disputas de famílias e as “duas horas de tráfego do nosso palco,” enquanto o outro compreende um flerte espirituoso e um delicioso diálogo entre Romeu e Julieta sobre votos de peregrinos e beijos afetuosos. Em algum outro lugar de sua obra dramática Shakespeare dramatiza – e parodia – os tempos passados emotivos dos cavalheiros elisabetanos e a escrita de sonetos, como quando Proteus em Dois Cavalheiros de Verona aconselha o Duke a escrever “triste sonetos, os quais as rimas compostas / Devem ser totalmente atormentadas com votos serviçais.” Ele também emprega a imagética encontrada nos Sonetos para expressões de amor e seus caprichos em seus personagens; Proteus inicia a mesma peça descrevendo sua paixão extravagante a seu amigo Valentine:

    Ainda que escritores digam, como no mais doce botão

    O cancro ao comer reside, assim o amor faminto

    Habita a maior argúcia de tudo.

    O discurso de Proteu traz à mente o soneto 94, entre outros, e também é interessante a própria consciência de Proteu em relação à sua linguagem como ainda convencional dos escritores de sonetos – “escritores digam,” ele começa. Os eruditos continuam a explorar esse intercâmbio entre os sonetos mais conhecidos e o que Helen Vendler chamou de “experimentos extra-sequenciais” do dramaturgo, com a forma e a imagética dos sonetos encontradas nas peças.

    O mais importante texto único dos Sonetos de Shakespeare – de fato, o livro que deu uma identidade coletiva e permanece os 154 poemas individuais – apareceu impresso em 1609. O Stationers’ Register, um registro das intenções dos editores em publicarem novos livros, apresenta essa entrada para aquele ano: “20 maio. Registro de Thomas Thorpe para sua cópia sob as mãos do mestre Wilson e mestre diretor Lownes, um Livro chamado Sonnettes de Shakespeare.” A primeira edição foi impressa logo depois. Edward Alleyn, um dos mais famosos atores da Inglaterra da Renascença, detinha uma cópia: Atrás de uma carta de Junho de 1609, ele escreveu um inventário que incluía “um livro de Sonetos de Shakespeare – 5d.” Dois diferentes vendedores de livros são mencionados em diferentes cópias, mas Thomas Thorpe foi claramente uma figura central ao trazer os poemas de Shakespeare para impressão. Ele é o “T.T.” que assina a dedicatória incrivelmente enigmática ao volume, a qual, apesar da sua brevidade, fascina e confunde os pesquisadores por séculos com insinuações e (estratégicas? não intencionais?) evasões. Thorpe endereça, na ortografia moderna, “à única causa desses subsequentes sonetos.” Muitos leitores tomaram “causa” (begetter) como “inspirador,” assim referindo-se ao Jovem Homem, e assim quase reflexivamente identificado com o indivíduo que aparece próximo no texto de Thorpe – um “Mr. W. H.” (veja a entrada “Jovem Homem” na seção de “Lista de Personas” para uma discussão dos candidatos mais populares para essa misteriosa identificação.) Shakespeare ele mesmo é presumivelmente o “poeta eterno,” e Thorpe é o investidor ou “aventureiro do bem-querer” que está se “expressando” com a publicação desse livro visando lucro. Em 1799 George Chalmers turvou ainda mais essas turvas águas ao argumentar que “begetter” de fato quer dizer “procurador,” (“procurer”) e assim “Mr. W.H.” não era um homem central misterioso, e possivelmente um amante homem de Shakespeare, mas meramente um amigo ganancioso de Thorpe.  Shakespeare ele próprio foi sugerido, e da mesma forma o “aventureiro do bem-querer”, tomado objetivamente, foi identificado como o leitor prestes a “seguir” na leitura dos poemas.

    Mais ao ponto, o texto de 1609, frequentemente referido como o primeiro quarto, ou “Q”, coletou 154 sonetos e apresentou-os como Os Sonetos. Isso também é mais complicado do que parece à primeira vista. Não há provas que Shakespeare autorizou a publicação dos seus poemas, determinou a forma final que eles tomaram (existem de fato muitos erros de grafia nesse volume), ou arranjou-os na ordem presente. Somente 13 cópias desse importante livro existem, um número relativamente raro que levou alguns a argumentar que Shakespeare ativamente buscou retirar e destruir o volume. É difícil dizer, mas Heather Dubrow e Arthur Marotti estão entre os mais eloquentes céticos da autoridade de fato de “Q” e da forma que ele estrutura nossas hipóteses críticas. Por outro lado, Katherine Duncan-Jones, a editora na última edição Arden dos Sonetos, corajosamente sustenta que Shakespeare provavelmente autorizou a publicação de Thorpe. Um dos argumentos dela envolve o livro como um todo: a sequência de sonetos é seguida por um poema narrativo chamado A Queixa de um Amante, que estudiosos como John Kerrigan, Katherine Rowe e Ilona Bell acharam valioso para um estudo crítico estendido. O volume como um todo, como Duncan-Jones argumenta, não é uma junção aleatória de um impressor oportunista mas antes disso, é conforme os padrões para livros poéticos – contendo uma sequência de sonetos, seguido por um interlúdio (possivelmente os sonetos marcantemente diferentes 153 e 154, no caso de Shakespeare) e uma narrativa reclamatória mais longa.

    Infelizmente, aquela junção aleatória por um editor oportunista ocorreu três décadas depois, na forma da edição ”miscelânea” pirateada por John Benson dos Poemas de Shakespeare. Ainda mais infeliz, os leitores dos próximos dois séculos serão enganados por essa coleção de misturas, cheia de títulos “rótulos” (“Tempo Injurioso,” “A Glória da Beleza,” “A Crueldade do Amor,” etc.), sonetos reordenados e combinados indiscriminadamente para formarem poemas líricos (e alguns sonetos deixados de fora), mudanças estratégicas de pronúncia, que torna o Jovem Homem de Shakespeare parecer uma amante mulher mais tradicional. Numa entrada de 1640 no Stationers’ Register lê-se, “Registrado para sua Cópia sob as mãos do doutor Wykes e o diretor Mestre Fetherson Uma Adição de alguns excelentes Poemas a os Poemas de Shakespeare por outro cavalheiro.” Essa nota provê uma dica para outro estratagema prejudicial de Benson: ele incluiu, entre as versões estraçalhadas dos sonetos de Shakespeare, A Queixa de um Amante (que foi incluído na versão de 1609) e “A Fênix e a Pomba,” e outros poemas de Ben Jonson, Francis Beaumont, Thomas Carew e Robert Herrick. Ademais, ele intercalou poemas adicionais da edição de 1612 do Peregrino Apaixonado falsamente atribuído a Shakespeare, ao ponto de, séculos depois, o grande poeta romântico William Blake ter cotado linhas de um poema não-shakespeariano da sua antologia e erroneamente listá-lo como de “Shakespeare”.

    Como uma teoria propõe, Benson pode ter adicionado esses poemas para promover seu livro (erroneamente) como a primeira publicação dos sonetos de Shakespeare. Eles não tiveram a felicidade, ele assegura no seu prefácio, de receber a “glória proporcional” das suas “obras” mais conhecidas – isto é, suas peças. Da mesma forma, ele pode ter combinado vários poemas para fazê-los menos reconhecíveis dessa forma, pois a moda dos sonetos de 1590 havia a muito passado no tempo de Benson. Um “antigo” argumento similar, aplica-se sobre o quarto de 1609, mas os críticos como Stephen Orgel e Peter Hyland, ao mostrarem que várias sequências de sonetos foram publicadas nos anos 1600, amenizaram esse argumento. (Para mais informações sobre essas edições dos Sonetos, veja B. Roland Lewis, Os Documentos de Shakespeare, vol. 2.) Por mais suspeitas as motivações e decisões de Benson, seu livro foi a edição primordial para o resto do século.

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