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Inicial Fórum Sonetos e Poemas de Shakespeare Os Sonetos Estética da Recepção: Os Sonetos no Século Vinte

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    Tradução por Rafael Antonio Blanco.

    Perto do começo do século vinte, no curto espaço de dois anos, dois sérios leitores dos Sonetos de Shakespeare usaram imagens impressionantemente nefastas – cavernas escuras, labirintos, esqueletos – para expressar sua frustração com o estado dos estudos sobre os sonetos e (para eles) as direções biográficas questionáveis das duas décadas precedentes. Ao revisar uma edição de 1904 dos Sonetos, o biógrafo e homem de letras Lytton Strachey fala sobre um homem corajoso que “que iniciará a jornada em busca da chave” que irá destrancar os mistérios dos sonetos de Shakespeare de uma vez por todas. O caminho é árduo, ele avisa, e sílabas de nomes de homens “seduz o viajante desavisado em cada esquina à caminhos já brancos com os ossos de inumeráveis comentadores.” A fascinação atrai, mas um “esquecimento mais profundo” espera o estudioso que busca explorar os sonetos dessa forma. O erudito Walter Raleigh avaliou seus esforços disciplinados ao entender os Sonetos com um irônico rechaço, e com uma similar imagética letal:

                Há várias pegadas em torno da caverna desse mistério, nenhum deles apontando para a saída. Ninguém tentou uma solução para o problema sem deixar um livro atrás de si; e o santuário de Shakespeare está espessamente fixado com essas oferendas dedicadas, todas murchas e empoeiradas.

                Livros sobre os Sonetos de Shakespeare proliferaram numa taxa ainda maior ao longo do século vinte, mas conforme essas citações mostram, houve esforços regulares em elevar o academicismo para além do trabalho de detecção literária, para reinos mais interessantes, estruturalmente, psicologicamente e historicamente. Uma série de diferentes métodos críticos e interesses tópicos tornaram-se brevemente em voga e então recuaram para o pano de fundo literário, mas em quase todos os casos os sonetos como literatura, e como texto escrito, nunca foram tão obscurecidos como foram no século anterior (dezenove), que preferia identificar os personagens dos poemas e contemplar o gênio nativo de Shakespeare o poeta. Como Hallett Smith memoravelmente nota em homenagem a George Wyndham e sua edição de 1898 dos sonetos, pela primeira vez alguém estava lendo os sonetos como poesia ou, “Melodia Verbal,” para usar a própria frase de Wyndham.

                Sidney Lee mostrou uma possível direção para fora do pântano que o criticismo biográfico se tornou. Ele escolheu ler os Sonetos num tipo de conversação com outras poesias líricas – clássica, a poesia Continental e da Idade Média e Renascença, e com a escrita em Inglês contemporânea a Shakespeare. Ele finalmente descobriu que a “história” contada nos poemas era menos original, pois muitos dos incidentes e expressões da sequência podem ser encontradas em fontes influentes ou na obra dos colegas de Shakespeare, Ingleses, Italianos ou Franceses. Essas analogias fizeram Lee insistir que Shakespeare foi dificilmente pessoal e longe de revelador nos Sonetos mas foi de fato convencional, variando e reformulando um grande número de tópicos familiares da poesia lírica Europeia. Por exemplo, as Metamorfoses de Ovídio, influenciaram o pensamento filosófico dos Sonetos. Lee argumenta, e no ensaio incluído aqui, ele trata as muitas correspondências entre Shakespeare e Ovídio, o poeta Romano a quem nosso homem Inglês pode ter lido na escola de gramática de Stratford. Lee não se silenciou, entretanto, sobre as questões biográficas em torno dos Sonetos, apesar da sua constante mudança de pontos de vista lembrar a reviravolta de Nathan Drake com respeito à poesia de Shakespeare exatamente um século atrás. Em 1889, a obra de Lee no Dicionário da Biografia Nacional deixou claro que ele pensava que o conde de Pembroke era o Jovem Homem dos sonetos. Oito anos depois, e sem explicação, ele completou uma entrada no dicionário sobre Shakespeare que argumentou que o conde de Southampton era a pessoa a qual Shakespeare endereçava-se. No mesmo ano, para as edições Americanas do DNB, Lee alterou sua visão mais uma vez, nesse momento rejeitando que qualquer identificação importasse, pois os Sonetos não eram definitivamente autobiográficos.

                Entretanto seria um erro pensar que o foco de Lee nas convenções poéticas e o lugar de Shakespeare dentro da tradição lírica não exerceram relevância na recepção biográfica do poeta. Lee enfatizou que os gestos de desejo de Shakespeare pareciam, como resultados, serem mais um produto de estudo do que assuntos do coração, e de fato sua aproximação tornou-se o último recurso pelo qual os leitores Ingleses nauseados puderam digerir o conteúdo explicitamente homoerótico dos Sonetos. Quase um século depois, o editor James Boswell exonerou o poeta que ele admirava ao falar da imaginação extravagante visível em qualquer ponto dos poemas. Como Lee posteriormente, Boswell também ofereceu paralelos clássicos convenientes, particularmente alguns (como na Écloga 2 de Virgílio) que fazem a estranha relação homem-homem parecer mais como um exercício literário e menos uma confissão erótica. A estratégia de muitos críticos na segunda metade do século dezenove foi a de reconhecer o relacionamento entre o falante e o Jovem Homem, mas então idealizá-la com termos etéreos, Platônicos, que somente um “semideus” ou “super-humano” ou uma “presença espiritual impressionante” como a de Shakespeare poderia sustentar. O crítico Francês Hippolyte Taine julgava o criador dos Sonetos “umas dessas almas delicadas que, como um instrumento perfeito na música, vibra a si mesmo com o mais leve toque.” Menos delicado, um crítico Alemão pensava que era sua “responsabilidade moral” proteger a reputação de Shakespeare e convencer os leitores que os Sonetos refletiam essa forma de Platonismo Renascentista, essa celebração da verdade e do belo. Da mesma maneira, Lee fez justificações que apontava aos leitores para as convenções poéticas e o discurso social estranho para contemporâneos, mas perfeitamente apropriado em outras épocas. Consequentemente, “nosso” Shakespeare pôde permanecer um rapaz. Leituras mais esotéricas e alegóricas seriam propagadas, nas quais o Jovem Homem era o Messias e a Dama Negra sua igreja, ou no qual o “master-mistress” era o vinho e os Sonetosum registro da luta de Shakespeare contra o alcoolismo. E no final do século, críticos como Leslie Hotson e A. L. Rowse continuariam a realizar mais diretamente o trabalho de detetives biográficos.

                Alguns comentários do início do século vinte serviram como precursores, para aqueles de nós com o benefício do olhar em retrospecto, da reviravolta para o criticismo formal que começou a florescer na atmosfera da Nova Crítica dos anos 1930. Raymond M. Alden anunciou na sua edição Variorum de 1916 dos Sonetos que novas evidências externas eram necessárias antes de críticos adicionarem qualquer coisa de útil na discussão biográfica, e a edição de T.G. Tucker, oito anos depois mostrou o interesse considerável nos elementos formais dos poemas. E, na próxima década, ainda outro editor, George Kittredge, aponta para a forma como uma explicação de todas as especulações biográficas anteriores – “um bom soneto aparece como uma confissão,” ele afirma, mas aquela impressão é meramente suportada por um forte apelo à forma ela própria. O influente dramaturgo George Bernard Shaw menosprezou os caçadores de biografias da sua própria forma inestimável. Ele escreveu uma peça, A Dama Negra dos Sonetos, que apresenta como a amante de Shakespeare Mary Fitton, que, como vimos, foi uma popular candidata do final do século dezenove para a mulher misteriosa. Em seu prefácio, entretanto, Shaw censura o principal proponente do nome dela, sugere outra candidata e geralmente deixa claro que a questão inteira da identidade dela interessa-o bem pouco.

                L. C. Knights e William Empson merecem crédito por inaugurarem uma nova forma de crítica dos Sonetos, uma aproximação mais atenta às qualidades formais dos poemas e os efeitos técnicos (como as formações de grupos retóricos e imagéticos) e mostrando um novo interesse nas tendências estilísticas de Shakespeare e em suas questões temáticas maiores. Em 1934 num ensaio no jornal Escrutínio, Knight declarou que mesmo detalhes biográficos corretos nada fariam para ajudar os leitores em melhor apreciarem os sonetos e os poemas de Shakespeare, e ele direciona os leitores para a experiência criada pela poesia e a linguagem que a articula, pela qual a história pessoal de Shakespeare foi somente uma fonte possível. Novamente, esse foco na prosódia, ou no uso sutil da métrica poética, diferiu enormemente dos antigos interesses nas intrigas dos amantes elisabetanos. Os Sonetos tiveram um papel em dois livros influentes de William Empson, que permanece um dos grandes leitores “próximo ao texto” do século vinte. Na abertura de seu Sete Tipos de Ambiguidade (1930) considerando linhas do soneto 73 de Shakespeare, mas suas investigações mais amplas e mais famosas ocorrem em Algumas Versões do Pastoral, onde ele propõe “4096 possíveis movimentos de pensamento” entre a “grave ironia” do soneto 94, “Aqueles que têm poder para magoar, e não o farão.” Ao escrutinizar as várias conotações das palavras e frase do poema, assim como vários tons diferentes nas falas encontradas nas linhas, Empson como ninguém antes explicou a avaliação profundamente dividida do Jovem Homem e como isso elogia e acusa seu sujeito ao mesmo tempo. Para Empson, a imagética florida enfatizada na conclusão do soneto torna essa união de atitudes extremas possível.

                O poeta Americano e crítico John Crowe Ransom publicou um ensaio controverso três anos depois, e ele permanece uma das avaliações mais negativas do século sobre os Sonetos de Shakespeare. Motivado pelos princípios da Nova Crítica, Ransom criticou Shakespeare por sua escrita “negligente” e seu método de composição imprecisamente “associacionista”, pelo qual a imagética e as metáforas dos sonetos eram “belas” e cheias de sentimento porém com carência de pensamentos sérios e, por conseguinte, vagos. O ataque de Ransom à lógica previsível de Shakespeare e a monotonia da imagem trai as próprias preferências mais fortes dessa crítica – pelo contemporâneo de Shakespeare John Donne e a escola Metafísica de poesia que ele representava, ambos dos quais, nos dias de Ransom, em ascendência crítica. Na luz da crítica de Ransom, Arthur Mizener produziu, em 1940, a mais direta defesa do método de Shakespeare. Mizener afirmava que a demanda de Ransom que Shakespeare escrevesse como um Metafísico era patentemente injusta, pois o poeta dos Sonetos não fazia parte daquela escola, a qual os efeitos artísticos dependiam de valores estéticos diferentes e às vezes até opostos. Shakespeare, Mizener argumentou, valorizava várias camadas de figuração, e então a imprecisão criticada por Ransom, ou “foco difuso” nas palavras de Mizener, era necessária para manter esses significados múltiplos em jogo para os leitores e sobretudo para manter o sentido de satisfação através da complexidade dos poemas. Mizener provou seu ponto com um escrutínio do soneto 124, enquanto outro par de críticos, Roman Jakobsen e L. G. Jones, responderam explicitamente a Ransom e sua negação de o soneto 129 ser chamado de soneto em termos mais estritos.

                O soneto 129 inspirou vários exames críticos bons no século vinte. Esse poema, único em ferocidade e repulsão, trata o tópico do desejo com maestria retórica e intensidade que talvez nunca foi alcançada em qualquer tipo de poema lírico. Ele recebeu larga atenção crítica em um ensaio de 1926 pelos famosos poetas Robert Graves e Laura Riding, um ensaio que foi depois revisado pelos autores e frequentemente reimpresso. O ensaio demonstra quão séria a edição da pontuação e a tipografia no quarto de Thorpe de 1609 pode afetar os diversos sentidos de um poema tão complexo. Thomas M. Greene leu o mesmo soneto com reivindicações hermenêuticas e impasses na mente. A sofisticação de Greene, é um belo produto do modo crítico dos anos 1980 que atribui um novo valor ao colocar textos tradicionais dentro de novos sistemas teóricos.

                As batalhas polêmicas incitadas por Ransom abriram caminho para diferentes abordagens críticas na década de 1950 que puderam aceitar o valor literário dos Sonetos. Em A Chama Mútua, G. Wilson Knight transferiu sua ênfase crítica única geralmente reservada para as peças de Shakespeare para os poemas narrativos e sonetos do escritor. O foco de Knight era o “simbolismo poético”, ao isolar associações universais nos Sonetos, incluindo flores, o sol, joias, ouro e reinado. M. M. Mahood acentuou que os jogos de palavras em Shakespeare e seu papel em criar ironia dramática e regular o pensamento demanda a forma de soneto. Uma abordagem que teve recorrente influência sobre as posteriores gerações de estudiosos foi a de G. K. Hunter. Em “A Técnica Dramática dos Sonetos de Shakespeare” reimpressa aqui, Hunter buscou não desacreditar as várias tentativas anteriores de coletar as verdades biográfica dos poemas, mas entender melhor como os materiais da poesia podem produzir nos leitores “uma reação biográfica irresistível.” Hunter assim argumenta que os críticos frequentemente perdem-se no selvagem quando pretendem avaliar o poeta lírico Shakespeare, ou o contador de histórias, ou o metafísico, ou a progênie do Italiano Petrarca. De fato, os Sonetos são mais ricos poeticamente quando os leitores tratam-os como escritos, de maneira previsível, por um dramaturgo. Edward Hubler mostrou um interesse similar numa conexão de importância que Hubler sugere fortemente – aquela entre as peças de Shakespeare e os poemas. Por exemplo, numa útil argumentação pela evolução do personagem do falante ao longo da sequência de Shakespeare, Hubler compara seu desenvolvimento com o “progresso espiritual de Lear.” Ele continua: “Os sonetos de maior repulsão apresentam uma agonia….Uma percepção que precisa ser alterada pois ela não pode sustentar a si própria.” Aqui Hubler iguala a dor do auto-escrutínio, a qual os Sonetos tão frequentemente expressam e dramatizam, com a claridade violenta tornada possível através do sofrimento dos heróis trágicos de Shakespeare. Esse tipo de interconexões entre as realizações dramáticas e líricas continua nos nossos dias, de comparações com a linguagem dos Sonetos com as primeiras comédias até elementos percebidos que sugerem uma composição simultânea, como entre os poemas e Hamlet, Bem Está o que Bem Acaba ou Cimbelino. Permanece uma profunda fonte na qual os críticos vão continuar a beber no presente século.

                Hubler também produziu uma edição das Canções e Poemas de Shakespeare, e, em 1962, publicou uma influente coleção de novos ensaios intitulados O Enigma dos Sonetos (The Riddle of the Sonnets). Convenientemente reimprimindo “O Retrato de Mr. W.H.,” essa coleção também apresentou ensaios de críticos proeminentes e poetas como R. P. Blackmur, Stephen Spender e Northrop Frye, cuja prática do criticismo arquetípico proveu um caminho de pensamento fresco sobre a longa divisão entre a crítica formal e a biográfica. Ler Os Sonetos como “transcritos da experiência” foi, de forma contra-intuitiva, não lê-los de forma totalmente realística, mas de forma alegórica, como “charadas” que eles não pretendiam ser originalmente. Quando alguém olha para a real pessoa na poesia incomparável de Shakespeare, quer dizer, ao poeta que excedeu alguns dos “maiores sonetos da língua com uma tolice tão indiferente como uma maçaneta e tão egoísta como uma doninha.” O que produz esses sonetos, Frye resume, “não é uma experiência como a nossa, mas uma imaginação criativa muito diferente da nossa.” Se Frye busca um caminho para tornar estranho os poemas de Shakespeare ao leitor que os tomam de forma ordinária e não-literária, outros desenvolvimentos nos anos 1960 e 70 de fato fizeram muito para ajudar os leitores, ambos, gerais e estudiosos. Gerald Willen e Victor B. Reed em Diário sobre os Sonetos de Shakespeare (1964) outra importante coleção de ensaios, tornando amplamente disponível o trabalho já mencionado de Graves e Riding, L. C. Knights, Ransom, Mizener, Hubler e G. Wilson Knight. A próxima década traria uma coleção cumulativa similar, com Shakespeare: The Sonnets de Peter Jones, um volume da série dos Diários Macmillan.

                Duas edições dos Sonetos que definiram geraçõestambém apareceram durante esse período, apesar de ser necessário fazer menção, primeiramente, a edição talvez mais importante na história da publicação dos elusivos poemas de Shakespeare. Em 1944, Hyder Edward Rollins publicou o sólido, em dois volumes Os Sonetos: Um Nova Edição Variorum, que substituía o volume Variorum de Alden de 1916 e tornou acessível pela primeira vez um tesouro de ensaios e comentários sobre poemas individuais por autores famosos e obscuros, eruditos e lunáticos. A edição de W. G. Ingram e Theodore Redpath dos Sonetos, publicado em 1964, logo se tornou a edição essencial para a atual geração de estudiosos. Ela beneficiou-se da abrangência de Rollins mas também alcançou um texto mais completo e manejável. (Edições mais fáceis aos usuários, de Martin Seymour-Smith e Barbara Herrnstein Smith também apareceram durante essa década.) A influência dessa edição duraria mais, e ela seria mais utilizada hoje em dia, se não aparecesse em pouco menos de uma década depois a grande edição de Stephen Booth dos Sonetos, apresentando 400 páginas de “comentários analíticos” compilados no espírito semanticamente exaustivo de William Empson. A resistência de Booth à típica paráfrase editorial dos temas, antecipa as mais recentes sutilezas na leitura de Helen Vendler, e ele, em vez disso, valorizou uma acumulação escrupulosa de significados possíveis e justapostos para quase todas as palavras de cada soneto. Ao mesmo tempo esclarecedor e um pouco cansativa, a edição de Booth permanece essencial para qualquer consulta às possibilidades de significado nos sonetos, mesmo que uma série de edições eruditas tenham aparecido desde sua primeira publicação há mais de 30 anos.  O ensaio do tamanho de um livro de Booth Um Ensaio sobre os Sonetos de Shakespeare (1969) está cheio de ótimas observações feitas por um leitor, que desde então, trabalha duro em sua edição para o magistério, mesmo que seja mais conhecido pelos leitores por “Fatos e Teorias Sobre os Sonetos de Shakespeare,” um dos mais sucintos ensaios que suportaram uma densa edição crítica. Não buscando esconder sua falta de interesse em outras curiosidades biográficas, Booth gracejou, “William Shakespeare foi quase certamente homossexual, bissexual ou heterossexual. Os sonetos não provêm evidência sobre o assunto.”

                A inegável ascensão e múltiplas aplicações da teoria literária, dos tratamentos pós-estruturalistas nos anos 1980 ao crescente interesse na década de 1990 em leituras mais historicamente e culturalmente orientadas, garantiu que vozes frescas, produzindo novas e provocativas leituras, levassem a uma nova fase a recepção crítica dos Sonetos. Primeiro, certos críticos revisitaram áreas antigas de estudo com um novo rigor crítico. Por exemplo, “Shakespeare e Sidney” de Anne Ferry segue os estudos anteriores de Joan Grundy e M. C. Bradbook sobre a influência de Philip Sidney e outros escritores de sonetos elisabetanos perante a escrita dos sonetos de Shakespeare. O que resulta é um longo estudo comparativo que está próximo à palavra final sobre as afinidades entre esses dois gigantes da poesia da Renascença Inglesa. O método de Ferry é tão rigoroso quanto seu gosto como leitora e escritora é primoroso. “O Olho Perjuro de Shakespeare” de Joel Fineman fez à sequência de Shakespeare, em termos de teoria, o que a edição de Booth alcançou editorialmente na década anterior; ele conduziu esses poemas a um novo mundo de discursos acadêmicos complexos, ao mostrar quão capaz era o pensamento e a escrita de Shakespeare ao sustentar as mais sofisticadas das aplicações críticas-teoréticas. Aplicando métodos de desconstrução e as teorias de Jacques Lacan baseadas na psicanálise, Fineman buscou desvelar os esforços de Shakespeare ao construir a “subjetividade poética,” como ela ocorre em vários níveis ao longo dos Sonetos. Fineman tomou seu título do dístico conclusivo do soneto 152 – “Pois Eu te jurei justo: olho perjuro, / Ao jurar contra a verdade uma mentira tão suja.” e o trocadilho do poema com “olho”/”Eu” (“eye”/”I”) ressoa ao longo do estudo intelectualmente denso de Fineman, conforme ele altera das lutas narcisistas do falante (um tópico já tratado com bons resultados por Janette Dillon em 1980), como différance heterossexual, e uma subjetividade angustiada ou “interioridade,” todas forjadas na bigorna do conflito psicológico e sexual. Na versão em forma de ensaio do seu argumento, apresentado aqui, Fineman conclui ao considerar como Shakespeare lutou em seus sonetos com o problema do “atraso” (belatedness). Isto é, Shakespeare estava escrevendo sonetos no final de uma longa tradição, e, como consequência, a linguagem dos sonetos estava quase esgotada. O poeta tinha intensa percepção dessa posição problemática, e seu esforço em resolver esse problema levou, como aponta Fineman, a uma excepcional descoberta: “A resposta de Shakespeare ao atraso introduz, sugeri, uma totalmente nova subjetividade na história da lírica” O ensaio de Fineman é provavelmente o mais citado trabalho acadêmico sobre os Sonetos de Shakespeare hoje em dia. Um único desenvolvimento editorial durante a década de 1980 também merece menção: a edição Penguin de John Kerrigan dos Sonetos, em si mesma nova por causa da insistência de seu editor em ler os Sonetos de Shakespeare juntamente com o poema mais longo A Queixa de um Amante. A edição de Kerrigan provê a obra mais próxima possível que os leitores do século dezessete encontraram ao ler o quarto de 1609 de Thorpe.

                Em 1990, as melhores leituras dos Sonetos de Shakespeare continuaram a evoluir. O trabalho influente de Bruce R. Smith e Margreta de Grazia, por mais diferentes as áreas de interesse, exibiu a emergência do materialismo cultural e do Novo Historicismo como os modos dominantes do criticismo literário nos anos 1990. Esses novos modos reagem contra as aproximações com “vácuo selado” dos estruturalistas e pós-estruturalistas anteriores, que ignoravam as questões autorais e culturais com vistas de favorecer os sistemas verbais auto-referenciais dentro das obras literárias. Os materialistas culturais argumentaram que essas obras não podiam ser verdadeiramente compreendidas como artificialmente separadas, isoladas, das matrizes complexas da formação cultural que fortemente influenciou ambos, autores e textos. De Grazia mostra um novo interesse no papel da cultura na criação da literatura ao apontar nos Sonetos o produto das decisões bibliográficas dos impressores e o gosto da recepção das subsequentes gerações. Arthur Sherbo dedicou muito do seu estudo às apropriações do século dezoito dos textos de Shakespeare e Arthur Marotti fez algo similar ao nível da pré-impressão, do círculo fechado da escrita e da circulação do manuscrito. Marotti está interessado em como as práticas literárias socialmente situadas, sem mencionar as redes de patronagem, ajudaram a criar os sonetos que temos, assim como o significado que atribuímos a eles. “Meu real interesse não é nos erros de fato,” explica de Grazia, depois de considerar rapidamente as questionáveis táticas do impressor John Benson, “mas nos tipos de imperativos culturais que motivaram esses erros.” Em outras palavras, o objeto de estudo de Grazia é mais o “criticismo de Shakespeare” que propriamente Shakespeare.

                Por outro lado, o foco de Smith em seu livro Desejo Homossexual na Inglaterra de Shakespeare representa um modo de crítica comprometida em explorar como os textos da Renascença refletem o desenvolvimento da identidade social da época. Note como o foco no título do livro não é sobre os poemas de Shakespeare, mas antes no país no qual esses poemas foram concebidos e compostos; um de seus predecessores foi Assim É Meu Amor (1985) de Joseph Pequigney, um corajoso estudo que pressupõe um relacionamento homossexual entre o falante e o Jovem Homem. Pequigney foi acusado de retornar entusiasticamente às terras sombrias da crítica biográfica, mas seu estudo já reflete um esboço mais sensível desses últimos críticos da identidade social. Pequigney não buscava responder aquelas questões duradouras sobre o homem Shakespeare ou o alter ego do falante dos sonetos. Pelo contrário, ele estava interessado nos relacionamentos entre os personagens nos Sonetos, e como as influências na representação literária, assim como nos mundos sociais dos autores, tornou-os possíveis e estruturaram o entendimento dos primeiros leitores. Por essa razão, Smith intitula seu estudo como “poética cultural”, e ele é um entre vários críticos fazendo um produtivo trabalho sobre os Sonetos de uma perspectiva de gênero. Outros incluem Eve Kosofsky Sedgwick, a qual o ensaio “Swan apaixonado: O Exemplo dos Sonetos de Shakespeare”, permanece um influente e exploratório trabalho nesse campo crítico, assim como os estudos de Marjorie Garber e Valerie Traub sobre as expressões bissexuais e o desejo homossexual nos poemas de Shakespeare.

    Os dois ensaios finais dessa sessão a concluem de uma maneira satisfatoriamente ampla. A Arte dos Sonetos de Shakespeare (1997) de Helen Vendler tem sido considerado um dos melhores comentários a uma obra clássica de literatura durante o século passado. As sensibilidades retóricas, estruturais e linguísticas evidentes de Vendler nunca permitem que a encantadora admiração pela poesia lírica atinja a periferia, assim como as pessoas habilidosas que emprestam suas vozes em toda sua complexidade dramática. A crítica de Vendler encontra a genialidade de Shakespeare em todo o lugar, como se cada linha de cada soneto fosse uma colmeia esperando pela colheita do mel lírico. O poeta W. H. Auden, por outro lado, pensava que somente uma parcela dos sonetos eram grandes obras, enquanto muitos outros eram esforços prosaicos na melhor das hipóteses. Mas novamente, os Sonetos de Shakespeare são chamados “melífluos” quando pela primeira vez é visto impresso, em 1598, e seu autor foi referido como “língua de mel.” Essa é uma crítica que Vendler, com sua sensível e expansiva estima pela sequência como um todo, facilmente sustentaria. Ocapítulo sobre os Sonetos no aclamado livro de Jonathan Bate, O Gênio de Shakespeare, reflete sobre as várias virtudes dessa crítica. Ele é escrito de uma forma vivaz, movendo-se rapidamente mas sempre claro, e traz uma considerável erudição dos seus estudos passados – sobre a influência de Ovídio em Shakespeare, sobre o relacionamento de Shakespeare com seu contemporâneo Christopher Marlowe e sua posterior influência nos Românticos – para nutrir esse útil panorama dos dramas iniciais e realizações poéticas dos Sonetos,e as muitas visões e revisões desses poemas nos quatro séculos desde sua primeira circulação e publicação.

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