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Inicial Fórum Sonetos e Poemas de Shakespeare Os Sonetos Estética da Recepção: Os Sonetos no Século Dezoito

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    Os Sonetos de Shakespeare foram reimpressos várias vezes durante o século dezoito, mas foi apenas no final desse século que um pesquisador heroico e pouco valorizado, Edmund Malone, restaurou a sanidade editorial para um dos textos mais famosos em Inglês. Entretanto, antes de tratarmos dessa edição impressa, é essencial que não ignoremos as primeiras formas de transmissão – a tradição manuscrita, ou circulação “privada” mencionada por Meres – que continuou através do século dezessete e no próximo. A perversa edição de Benson, em 1640, pode ter dominado o campo editorial até as correções do final do século dezoito de Malone, mas sonetos individuais de Shakespeare continuaram a ser recopiados e circularam em livros de anotações e manuscritos de miscelâneas.

    Avaliando as versões manuscritas dos sonetos, John Kerrigan observa que a maioria deriva dos reinados de James I e Carlos I, isto é, a primeira metade do século dezessete. Dito isso, muitos são claramente copiados das edições impressas dos sonetos, incluindo a edição errônea de Benson de 1640. Assim, a transmissão típica – do autor ou outra fonte manuscrita à edição impressa – pode ser reversa. Um dos mais famosos sonetos de Shakespeare, soneto 116, circulou amplamente em manuscrito e foi também arranjado em música pelo compositor Henry Lawes, no século dezessete. O efeito criou um eco fascinante:

    Self-blinding error seizeth all those minds

    Who with false appellations call that ‘love’

    Which alters when it alteration finds

    Or with the mover hath a power to movo – (1-4)

    O erro que cega a si mesmo toma todas as mentes

    Quem com falsas denominações chama aquele ‘amor”

    Que altera quando encontra alteração

    Ou com o que se move tem um poder de mover – (1-4)

    O mais frequente poema gravado, o soneto 2, é da mesma forma rotulado num manuscrito como “Música,” e conectando os sonetos que têm a música como tópico também apareceram em manuscrito (sonetos 8 e 128 especialmente). O soneto 2 é mais comumente intitulado “Spes Altera” (ou “Esperança Alterada”), apesar que em certos momentos aparece com os títulos – “A aquela que morrerá uma donzela,” “De um Amante para sua Amada,” “O Benefício do Casamento” – que são designados para identificar a destinatária como uma mulher, assim transformando o relacionamento lírico em algo mais normativo socialmente, nomeadamente, o que caracteriza um amante masculino e uma amada feminina. Como vimos, Benson, ao alterar vários pronomes, não teve receio de fazer isso na edição impressa.

    Tendo reconhecido a presença contínua dos manuscritos dos sonetos de Shakespeare, vamos retornar a seu destino na impressão no começo do século dezoito. Em 1709, Nicholas Rowe alcançou um divisor de água na crítica de Shakespeare, ao completar The Works of Mr. William Shakespear, ao longo com o primeiro esforço de uma biografia, em seis volumes. No próximo ano, Charles Gildon lança um sétimo volume suplementar, expressamente com a intenção de mover a poesia obscura de Shakespeare para a luz quente das suas peças mais conhecidas e prestigiadas. Os Sonetos, de qualquer forma, eram realmente obscuros. Rowe não faz menção a eles em sua biografia, apesar de se referir a Vênus e Adônis e O Estupro de Lucrécia, “a única Parte da sua Poesia que ele próprio publicou.” Apesar da sua história sobre o jovem Shakespeare caçador de cervos numa propriedade em Stratford ser possivelmente lendária, é interessante que a poesia tenha um papel. Nós ouvimos que Shakespeare foi condenado “de uma maneira muito Severa,” então que “fizemos uma Balada sobre” o nobre homem, uma “muito amarga” e que ela depois agravou a condenação. O jovem poeta estava soando como aquelas notas amargas, vencidas e enojadas que caracterizam alguns dos sonetos de traição, ou repulsão sexual, ou insatisfação romântica? Nós nunca saberemos, mas Rowe chama a primeira balada de vingança de Shakespeare o “primeiro Ensaio de sua Poesia,” e ela foi a causa da sua fuga de Stratford para seu famoso e imortal futuro em Londres.

    Sem surpresas, então, Gildon gasta muito tempo do sétimo volume suplementar das Obras de Rowe de um modo defensivo: argumenta no sentido de uma autoria genuína dessas “Obras de Shakespeare menos conhecidas,” as quais admitidamente não “todas de igual Excelência,” são bem parecidas com as peças em sua autenticidade. Ademais, ele defende a autoria de Shakespeare dos poemas, contra os céticos que podiam especular muito no fato de eles estarem de fora da impressão. Editores e livreiros mercenários, Gildon argumentou, não sentiam escrúpulos em atribuir peças que não eram de Shakespeare ao dramaturgo popular. Excluindo os poemas, então, era impossível o perfeccionismo editorial. Cada um dos poemas nesse volume, Gildon argumenta, carrega “a Marca de seu Autor, e um Selo sobre eles,” apesar de o volume, dependente da versão de Benson, conter vários poemas que não eram de Shakespeare. Gildon também levanta a bandeira biográfica que seria brandida tão vigorosamente no final do século e daí por diante. Contra os céticos dos sonetos, ele ofereceu a tese que alguma “Amante” pensou que os sonetos seriam um registro muito pessoal dela e do seu relacionamento com Shakespeare, e assim os manteve fora de impressão e dos olhos públicos.

    Um ano depois, Bernard Lintott publicou uma edição do quarto de Thorpe de 1609, provavelmente menos por razões editoriais nobres e mais porque ele tinha acesso mais seguro a esse volume anterior e esquecido e pôde assim driblar as restrições de direitos autorais. Ele apresentou seu volume como contendo “Cento e Cinquenta e Quatro Sonetos, todos em Elogio à sua Amante.” Como Gildon, Lintott foi erroneamente induzido pelas trocas de pronome de Benson, que eliminou a presença do Jovem Homem em muitos sonetos, ou simplesmente não podia conceber o receptor de tantos poemas românticos como um homem. É claro, em ambos os casos isso podia ser uma astuta ênfase do editor; ambos esperavam vender suas edições da poesia menos famosa de Shakespeare, e talvez eles temiam uma queda na leitura se esses sonetos não fossem vistos como escritos para uma amante. Lintott também declarou que os dois poemas narrativos de Shakespeare, Vênus e Adônis e O Estupro de Lucrécia, eram “universalmente reconhecidos” como sendo escritos por Shakespeare: “Eu imprimi de Edições muito antigas, as quais procurei, como o Leitor verá, me manter próximo à Ortografia dele.”

    George Sewell, pouco tempo depois, seguiu os passos editoriais de Gildon, quando em 1725 ele proveu um volume suplementar da poesia de Shakespeare para um editor (dessa vez Alexander Pope) que tinha novamente deixado passar os versos ao reunir sua edição das Obras de Shakespeare. Sewell referiu-se aos Sonetos de Shakespeare como poemas “Ocasionais”, escritos no começo da carreira do escritor e claramente inspirados por uma amante. Novamente vemos a inclinação para o caráter heterossexual e biográfico dos sonetos. Ao convidar essa influência, Sewell coloca Shakespeare numa linha tradicional de poetas Ingleses, incluindo Abraham Cowley e supremamente, Edmund Spenser. Lewis Theobald, um editor bem sucedido do século dezoito de Shakespeare, falha em não mencionar os sonetos em seu prefácio de 1734 à sua edição, apesar de um pouco antes, num jornal devotado para correções textuais, ele condignamente ter feito alterações em linhas problemáticas dos poemas. Por exemplo, a impressão de “gasto Negro” (waste Blacks) no soneto 77 parecia a ele um erro de “gastos Brancos,” (waster Blanks) que se encaixa melhor na metáfora em curso no livro (“vagas folhas” [vacant leaves] anteriormente no poema). Essa mudança é geralmente aceita pelos editores modernos.

    Num espírito taciturno similar, dois grandes editores de Shakespeare da segunda metade do século, George Steevens e Samuel Johnson, têm pouco ou nada para dizer sobre os sonetos, ou, se pouco, nada bom para falar. Steevens reimprimiu o quarto de 1609 dos Sonetos em 1766 mas não incluiu nenhum comentário, como se estivesse totalmente embaraçado em revisitar esses poemas. Como veremos, ele realmente poderia estar. E assim como Johnson, talvez o maior crítico de Shakespeare de todos os tempos, leitores buscando entre os vários volumes modernos de “Johnson sobre Shakespeare” que ainda estão disponíveis sentiram-se estupefatos em não encontrar qualquer reconhecimento dos poemas entre os vários insights eternos às peças. Esse tipo de descuido sugere quão criticamente periférica era a poesia de Shakespeare nesse momento. Stephen Orgel legitimamente diz que o crescimento da reputação dos Sonetos é inversamente proporcional a reputação decrescente dos poemas narrativos, que foram as obras mais populares durante a vida de Shakespeare, mas são suas obras menos lidas hoje. No século dezoito, os poemas narrativos eram ainda enublados pelas grandes obras dramáticas tais como Hamlet, Rei Lear, Macbeth e similares, mas os Sonetos ainda não tinham sido tomados seriamente. D. Nichols Smith deixa isso claro na sua coleção de Ensaios do Século Dezoito sobre Shakespeare, na qual “Sonetos” não figura nem mesmo no índice do livro.

                Um grande herói esquecido dos Sonetos, Edmund Malone começou a mudar tudo isso em 1780 quando publicou um Suplemento à Edição das Peças de Shakespeare publicada em 1778 por Dr. Samuel Johnson e George Steevens. Malone foi um defensor da forma legítima dos sonetos e assim rejeitava a edição miscelânea de Benson em favor da melhor edição textual predecessora disponível, que era o quarto de 1609. Adicionando sua considerável sensibilidade linguística e senso comum para essa judiciosa escolha da fonte, ele estabeleceu a primeira edição crítica dos Sonetos, a qual continua a influenciar editores modernos. Ele também defendeu as verdades sociais dos poemas de Shakespeare, mesmo que elas parecessem repulsivas a seus oponentes críticos como Steevens. Esse senso de oposição aumentou ao se apresentar opiniões, na forma de diálogo entre os dois editores, num Suplemento e edições posteriores. Uma das maiores realizações críticas de Malone foi fazer uma distinção que ainda é aceita pela maioria dos estudiosos (Heather Dubrow é uma notável e convincente exceção) – que os primeiros 126 sonetos são endereçados a um Jovem Homem, enquanto que os sonetos 127 a 154 giram em torno da Dama Negra. Steevens não discordava dessa análise mas ficou desconfortável ao reconhecer que Shakespeare escreveu “uma pequena proporção entre tantos” a uma mulher. Malone também estendeu o interesse biográfico dos seus predecessores editoriais imediatos e, mais importante, ele retratou o influente contexto generalizante e impessoal de Benson para com os Sonetos e concentrou-o no “Eu” da poesia, que para Malone era um e o mesmo com Shakespeare o poeta e a pessoa histórica. Assim Malone ponderou sobre os possíveis candidatos para o Jovem Homem para essa primeira, longa série de poemas. Ele rejeitou a sugestão de seu colega estudioso Richard Farmer que o “Mr. W.H.” do prefácio de Thomas Thorpe era o sobrinho de Shakespeare, William Harte (Esse candidato teria apenas 12 anos em 1598, quando alguns sonetos foram pela primeira vez ouvidos.) Muito mais convincente, ou pelo menos “não improvável”, a sugestão de seu amigo Thomas Tyrwhitt de W. Hughes, o qual ele acreditava ser celebrado com trocadilhos no soneto 20: “Uma cor masculina, a guardar todos os seus tons” (A man in hew all Hews in his controlling). O jogo de palavras similar de Shakespeare com seu próprio nome, “Will”, nos sonetos 135 e 136 provê uma útil colaboração para ambos estudiosos.

                Steevens expressou sua desaprovação aos Sonetos em termos formais e morais. Infelizmente para Shakespeare e sua sequência, muitos leitores no final do século dezoito encontravam no soneto geralmente uma forma poética totalmente desacreditada. Steevens pensava o soneto como principalmente uma “ninharia” cheia de “esquisitice, obscuridade e tautologia.” Essa “espécie de composição” prejudicial reduziu mesmo “os mais exaltados poetas ao mesmo nível dos rimadores mais inferiores.” Ademais, ele e seu contemporâneo John Monck Mason (que também via os Sonetos similarmente como “miseráveis” e “insípidos”) revelaram um parcialidade anti-italiana em suas condenações dos sonetos; o soneto, eles insistiam, deveria ter permanecido na Itália, e mesmo o editor antigo de Shakespeare, Gildon, arrependia-se que o espírito de Petrarca tivesse “infectado” a nativa argúcia e paixão de Shakespeare. A essa acusação, Malone foi brando na defesa, admitindo que os Sonetos sofreram de uma falta de variedade e, em muitas palavras, a falta de mulher endereçada em muitos poemas. Ainda assim são valiosos para estudo, mesmo que por nenhuma outra razão para além de “ilustrar passagens obscuras nas peças.” Felizmente Malone fez menos defesas dependentes também, elogiando a energia dos sonetos e as “muitas linhas belas” dispersas ao longo da sequência. As “expressões reluzentes” do soneto 29 (“Quando em desgraça com o fado e os olhos humanos”) sozinho foi suficiente para proteger os sonetos do esquecimento ou mesmo da “censura indiscriminada” de Steevens, e ele adicionalmente sugeriu, em sua maneira tipicamente composta, que os gostos dos críticos mais duros fossem talvez excessivamente estreitos, muito apegados “ao verso branco ou dísticos heroicos.” Malone desenvolveu mais seu suporte aos Sonetos em 1790 dentro da sua própria edição de Shakespeare, mas isso também estimulou uma ainda mais cáustica avaliação por Steevens (inclusa aqui) em 1793.

                Steevens reconheceu a divisão conscienciosa de Malone entre os destinatários, o Jovem Homem e a Dama Negra, mas ele não podia tolerar as implicações homossociais e homossexuais. O soneto 20, apresentando um “mestre-amante das minhas paixões” (master-mistress of my passions) deixava-o com um “igual mistura de desgosto e indignação,” a qual Malone ofereceu suas melhores justificações: Essa linguagem entre dois homens era costume no tempo de Shakespeare e não era “considerada indecorosa,” e talvez aquela frase angustiante do soneto 20 queria dizer meramente uma amante soberana. Malone às vezes reclama da natureza sobrecarregada dos sonetos mais densos, mas aqui, no seu esforço de apaziguar Steevens, ele consegue remover qualquer culpa de uma das frases mais provocativas da sequência. A ofensa podia parecer muito grande para Steevens e outros, porque a nova ênfase de Malone em associações biográficas entre o autor e seus poemas ameaçava desmantelar o pedestal sobre o qual Shakespeare era cada vez mais colocado. Naquele momento já considerado o grande poeta “nacional” da Inglaterra, e para muitos um árbitro moral também. Um ensaio anônimo de 1748 argumenta que quando ele escrevia “máximas de prudência, ou preceitos morais,” Shakespeare “parecia permanecer sem iguais.” Muito parecido com nossos próprios relacionamentos com celebridades, atletas ou candidatos políticos, os leitores de Shakespeare no século dezoito estavam curiosos em saber mais sobre seu herói literário mas, às vezes, ficavam apreensivos ou alarmados pelo que eles aparentemente encontravam.

          Cabe terminar com uma nota de elogio à honra de Malone. Verdadeiramente seu trabalho sobre os Sonetos, e sua importância duradoura para as próximas gerações de estudiosos e leitores comuns, não pode ser exagerada. Por um tempo Malone foi suspeito de ter emprestado, e falhado em atribuir, vários insights sobre Shakespeare e seus poemas de uma edição não publicada dos Sonetos por um contemporâneo, o estudioso de Shakespeare Edward Capell. Entretanto, entre outros, Samuel Butler, no final do século dezenove consultou com os editores da edição de Cambridge de Shakespeare, e o julgamento deles exonerou Malone e renovou a apreciação de sua realização. E vamos deixar claro que suas realizações foram reconhecidas quase imediatamente, e pelos seus adversários críticos. Por exemplo, Steevens elogia seu colega estudioso, não importando sua questionável admiração pelos Sonetos, pela sua “atenção, diligência e espírito de investigação,” que por “muito longe excedeu aquelas falanges unidas de predecessores.”

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