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Inicial Fórum Discussão Geral Discussão Geral sobre Shakespeare Entrevista: José Roberto O´Shea, tradutor e professor de literatura inglesa e norte-americana da UFSC

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    por HELENA CARNIERI

    Mesmo os mais esforçados estudantes de inglês mantêm distância dos textos originais de Shakespeare por acreditar que a complexidade e a antiguidade da língua só seriam acessíveis aos de nível avançado. O tradutor e professor de Literatura Inglesa e Norte-americana da Universidade de Santa Catarina José Roberto O’Shea, discorda dessa concepção. Para ele, com uma boa edição anotada, um dicionário e boa vontade, “degustar” o bardo no original é possível.

    Para quem não ousa, uma boa dica são as traduções que O’Shea faz desde 1992, quando começou com Antônio e Cleópatra (Mandarim, 1997). Até o fim do ano saem, pela Iluminuras, editora com quem ele trabalha desde 2002, Péricles, Príncipe de Tiro e Hamlet (primeiro quarto). As versões são sempre acompanhadas por ensaios e mantêm a estrutura em verso e prosa do original.

    Saiba um pouco do processo criativo do professor, que falou à Gazeta do Povo quando esteve em Curitiba para o Abril de Shakespeare, semana de palestras sobre o dramaturgo inglês:

    Quais são as etapas de suas traduções de Shakespeare?

    O meu projeto inclui a tradução da peça na íntegra, em verso, e anotação de questões de texto, contexto, tradução e encenação. Em média escrevo 200 notas para cada peça. Além disso, sai um ensaio meu a respeito da tradução e outro da professora Marlene Soares dos Santos a respeito da peça, e uma bibliografia selecionada. Leva em média 24 meses.

    Como o senhor trabalha o jogo de palavras de duplo sentido, tão usadas pelo bardo?

    É muito difícil. Em algumas situações raras. é possível reproduzi-lo no local onde ocorre. Quando isso não é possível, por questões semânticas, a próxima solução é compensar, tentando recriar o jogo de palavras com seu significado geral na voz do mesmo personagem, no trecho mais próximo possível. A pior situação é ignorá-lo.

    Que outros aspectos foram importantes para manter a riqueza da linguagem das obras que o senhor traduziu, como Cimbeline (2002) e O Conto do Inverno (2008)?

    A métrica é muito difícil, já que traduzo em verso, que impõe a restrição do decassílabo. Mas é também uma vantagem, porque falta espaço físico para desenvolver a tradução e você é obrigado a ser parcimonioso, econômico nas palavras. Não pode ser prolixo, sair explicando… a métrica é uma aliada do tradutor, ajuda a não ser desnecessariamente prolixo.

    E em que momentos o senhor mantém a prosa?

    O verso é utilizado para falar de amor, de questões nobres, mais elevadas, filosóficas, poéticas; e a prosa, de modo geral, é usada para conteúdos informais, picantes, às vezes obscenos.

    Que nível de inglês é necessário para encarar a leitura de Shakespeare no original?

    O estudante de inglês, com uma edição anotada e boa vontade, vai conseguir entender. No início terá um pouco de dificuldade, mas logo ele supera isso e vai ter o prazer de ler Shakespeare no original. Além disso, 95% das edições têm glossários, no pé da página ou no final, explicando em inglês o significado de palavras antigas ou que sofreram inversão semântica. E o inglês de Shakespeare é o início do inglês moderno, não é medieval. A armadilha não são as palavras totalmente desconhecidas. O problema são as palavras exatamente iguais, mas que sofreram inversões semânticas ao longo de 400 anos. Você lê, acha que entende, e não percebe que o significado muitas vezes é o oposto.

    Traduzir James Joyce foi um preparo para Shakespeare?

    Dublinenses (Siciliano, 1993) tem uma aparência de simplicidade se comparado com Ulisses e Finnegans Wake. Mas é extremamente complexo. Diria que foi um desafio tão complexo quanto Shakespeare, por incrível que pareça, já que este último é antigo e em verso. A sensação comum que tive com os dois autores foi que em nenhum momento eu seria capaz de melhorar o texto. Se eu conseguisse tão somente retextualizar aquilo com o grau de sofisticação, complexidade e valor artístico, já estava bom.

    Em que casos é possível melhorar o texto?

    Depende do gênero literário. Se for literário estético, o tradutor precisa resistir muito à tentação de esclarecer, eliminar ambiguidades… Em outros casos, como livros técnicos, história, talvez um best seller (risos) acho que o tradutor pode e deve tentar melhorar.

    Como o senhor avalia a tradução no Brasil hoje?

    Trabalho com tradução literária no Brasil há 30 anos. Traduzi mais de 40 livros, e estou convicto de que, de modo geral, o nível de qualidade subiu sensivelmente nesse período. A relação entre tradutores e editores também se tornou mais profissional. Acompanhamos com preocupação o problema do plágio, mas o mercado está mais atento.

    Que obra gostaria de traduzir?

    Estou muito satisfeito com meu projeto de dramaturgia shakespeariana. Começo em agosto a tradução da comédia Os Dois Nobres Parentes para a língua portuguesa, texto tardio de Shakespeare baseado num episódio de Cantebury Tales, de Chaucer.

     

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