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Inicial Fórum Discussão Geral Discussão Geral sobre Shakespeare Entrevista com Beatriz Viégas-Faria, tradutora de quinze peças de Shakespeare

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    Por L&PM Editores

    Beatriz Viégas-Faria, tradutora de quinze peças de William Shakespeare, que recebeu várias premiações nacionais, conversou com a L&PM Editores sobre as armadilhas e as dificuldades no processo de tradução das obras shakespearianas. Tudo começou com Romeu e Julieta e depois vieram A Tempestade, Noite de Reis, Antônio e Cleópatra, A comédia dos erros, Bem está o que bem acaba, Júlio César, Henrique V, Macbeth, Muito barulho por nada, Otelo, Ricardo III, Sonho de uma noite de verão, Tito Andrônico e Trabalhos de amor perdido.

    L&PM – Quando você começou a traduzir Shakespeare?
    Beatriz Viégas-Faria – Comecei a traduzir Shakespeare em 1997, a convite da L&PM Editores. O primeiro livro foi Romeu e Julieta. A princípio, não levei o convite a sério – traduzir Shakespeare é missão para estudiosos do autor, os shakespearianos. De qualquer modo, minha resposta foi dizer que acredito que tradução é trabalho de pesquisa. Depois, quando vi que o negócio era sério mesmo, e a proposta era pra valer, me atirei nos livros – edições anotadas em língua inglesa, outras traduções da peça para a língua portuguesa, livros sobre Shakespeare e sobre o teatro elisabetano. Por uma incrível coincidência, 1997 foi o ano em que comecei a cursar o programa de Mestrado em Lingüística Aplicada da PUCRS. Meu projeto de estudos e pesquisa incluía a aplicação, sempre que possível, de todas as grades teóricas da lingüística para as questões da tradução literária. Uma vez que minha inquietação principal como tradutora residia nas dificuldades do subtexto (as entrelinhas, os não-ditos, os pressupostos, os subentendidos), foi especialmente nos estudos de semântica e pragmática que encontrei algumas respostas teóricas às questões antes irrespondidas da prática tradutória. Comuniquei à L&PM minha primeira decisão: não traduziria Romeu e Julieta em verso (tanto que a primeira tiragem daquela tradução saiu com a seguinte frase na folha de rosto: “tradução em prosa”). Eu não queria ficar “engessada” na métrica, uma vez que desejava aprofundar na prática um estudo das armadilhas do significado; desejava espaço para lidar a meu modo, por exemplo, com trocadilhos (me “espalhando” na página). Romeu e Julieta apresenta falas que, na superfície textual (o dito), são absolutamente ingênuas (como, por exemplo, o ponteiro de um relógio de sol) e simultaneamente, dado o contexto, comunicam uma obscenidade (o não-dito, quando então o ponteiro do relógio significa o pênis). Costumo dizer que, como boa gaúcha, as minhas traduções são “de bombacha” – livre das restrições de versificação, uso de todos os recursos possíveis para tentar fazer rir quando o original em inglês é cômico, para tentar manter no português de hoje o máximo possível das várias camadas de significação encontradas nos versos da dramaturgia de Shakespeare (conforme as vou identificando, graças aos estudos dos shakespearianos).

    L&PM – Você concorda com Millôr Fernandes, que afirma que a “tradução é a mais difícil das empreitadas intelectuais”?
    Beatriz – Eu diria que a tradução de diálogos é uma das mais difíceis empreitadas intelectuais, sim. A tradução literária (também chamada de tradução criativa) é empreitada difícil porque o tradutor é um escritor (mesmo que não tenha textos seus publicados, ele precisa ter domínio do fazer literário). Sendo um escritor, ele tem seu estilo próprio de escrever, suas preferências e idiossincrasias – e precisa colocá-las de lado para atender ao estilo do autor do original e, no caso das traduções diacrônicas, para atender, além disso, à estética dos fazeres literários de outros tempos. Tradicional e convencionalmente, diz-se que a tradução da poesia é a mais difícil de todas. Contudo, eis a grande conclusão de meus estudos de doutoramento (sobre tradução teatral): traduzir diálogos é infinitamente mais difícil. Isso porque o diálogo ficcional é um texto escrito para ser falado. Não é a transcrição de uma conversa, pois seus objetivos incluem o efeito estético sobre o leitor/espectador. É um texto escrito com marcas de oralidade. Não sendo um monólogo, é um texto que envolve dois ou mais falantes – as personagens. Cada personagem tem seu próprio jeito de falar, seu idioleto (do contrário, elas não seriam verossímeis). O tradutor não pode homogeneizar as falas, pois isso seria assassinar o texto. No caso de Henrique V, Shakespeare criou personagens que são soldados de diferentes grupos étnicos, e cada um deles tem um sotaque, ou seja, fala um determinado dialeto do inglês. Como obter esse efeito lingüístico/fonológico em português brasileiro? Além disso, a tradução teatral é produtora de textos que rapidamente entram em obsolescência. Em média, uma peça teatral vai precisar ser retraduzida a cada dez anos, pois a cada dez anos temos uma nova geração de espectadores nas salas de espetáculo.

    L&PM – Quais são as principais dificuldades e armadilhas encontradas ao traduzir as obras de Shakespeare? Alguma obra apresenta mais dificuldade?
    Beatriz – As dificuldades são inúmeras na superfície textual: os trocadilhos e as obscenidades implícitas, por exemplo; o pronome you do inglês, que no português do Brasil tanto pode significar você (ou tu) e vocês como o senhor, a senhora, os senhores, as senhoras e ainda vós – dependendo do contexto conversacional. Contudo, vou me ater à discussão de uma outra espécie de dificuldade, inerente esta à prática da tradução diacrônica – quando os textos original e traduzido estão a séculos de distância um do outro. Todo texto que entra para o cânone (passa a ser considerado um clássico da literatura) é texto que resiste ao tempo, por seus muitos méritos. Entretanto, esse “resistir ao tempo” não é indolor – a cada década saem novas edições da obra em sua língua original. Como as peças de Shakespeare foram pela primeira vez reunidas e publicadas em 1623, é de se imaginar quantas e quantas edições desses textos já foram produzidas desde então. A cada nova edição, há o trabalho dos editores em cima do texto, e assim ele se vai modificando. Para uma leitura mais clara do texto dramatúrgico, apareceram rubricas (stage directions) onde não havia rubrica alguma nos manuscritos de Shakespeare ou nas cópias dos textos que se usavam para os ensaios. Para uma leitura mais de acordo com os novos tempos, no século 18 apareceram alterações feitas em função de certas censuras: não era de bom-tom uma senhorita ter uma fala muito ríspida – então uma fala de Miranda em A tempestade foi atribuída a seu pai, Próspero, e assim o texto permaneceu sendo editado (tanto em língua inglesa quanto em traduções ao redor do mundo) até meados do século 20. Num caso assim, as pesquisas que vêm sendo feitas em historiografia dos textos shakespearianos vêm aos poucos sanando essas alterações dos editores ao longo dos tempos. Outra questão de tradução diacrônica que afeta em particular o trabalho com os textos de Shakespeare relaciona-se com o vocabulário: o Bardo foi profícuo inventor de palavras e de expressões. “Coração de pedra” é termo que não existia antes de Shakespeare na língua inglesa, e é expressão hoje conhecida em várias línguas. O tradutor vai respeitar as escolhas lexicais do primeiro autor – neste caso, o que vem a ser essa escolha lexical? Inventar em português, como Shakespeare inventou em inglês? Ou repetir a expressão por ele cunhada, mas que hoje é na verdade um lugar-comum? Complicado, não? O discurso amoroso que era tido como lindo dentro da estética do teatro elisabetano muito facilmente pode escorregar para o brega em tradução nos dias de hoje. Outro problema: expressões que já estão hoje cristalizadas em língua portuguesa, dadas as traduções de séculos ou décadas anteriores – um bom exemplo é “brave new world” (expressão usada por Miranda em A tempestade). No momento em que o livro de Aldous Huxley, Brave New World, recebeu o título Admirável mundo novo em português, eu quero, como tradutora, que o leitor da minha tradução de A tempestade possa reconhecer o intertexto em Huxley – isso quer dizer que, quando me deparei com “brave new world” no texto shakespeariano, a expressão já estava necessariamente traduzida a priori, e ali não caberia minha interferência ou gosto pessoal em questões de léxico, dada a tradição do texto shakespeariano via traduções brasileiras. Ainda outra questão que problematiza a tradução diacrônica em dramaturgia é separar o que é “da época” e o que é “do palco”. Dois exemplos em Ricardo III: Lady Anne cospe na cara de Ricardo. Cuspir na cara não é jogo de cena para fins de efeito dramático, não é mera teatralidade. Cuspir na cara era um costume da época de Shakespeare, como gesto demonstrativo de máximo desprezo ao outro. No segundo exemplo, temos uma rainha sentando-se no chão. Como ela está chorando a perda de seus dois filhos pequenos, pode-se imaginar que, dada a enormidade da dor, as pernas fraquejam e ela não sustenta o corpo em pé. Contudo, mostra-nos a história da Inglaterra que, quando alguém da realeza sentava-se no chão (em vez de cadeira), esse gesto simboliza extrema dor. Como oferecer ao leitor da tradução o significado desse gesto se ele não está nas palavras? Nunca abri tantas notas de rodapé (Notas do Tradutor) como em Ricardo III, dada a importância de dados da história da Inglaterra para o entendimento da trama.

    L&PM – Quais os títulos que você mais apreciou traduzir? Por quê?
    Beatriz – Quase todos são meus preferidos, cada um por uma razão diferente. Romeu e Julieta foi o primeiro, e o primeiro a gente nunca esquece. Também porque foi encenado em São Paulo, no Teatro do SESI, numa temporada muito bem-sucedida, casa cheia todas as sessões, de julho a dezembro de 2002, com direção de William Pereira. Pela tradução de Otelo, ganhei o meu primeiro prêmio Açorianos de Literatura. Traduzir as falas de Iago foi um desafio, pois o tradutor/leitor depara-se com a maldade em estado bruto: consistente, coerente, maquiavélica, de uma lógica interna impecável – e isso assusta. Tenho particular preferência pelo texto de A tempestade (é um gosto pessoal). Ricardo III é um texto impressionante, e Ricardo é personagem inesquecível, pois acreditava-se pessoa amoral e, no entanto, um dia depara-se com um lado seu que lhe vem cobrir todas as crueldades de uma vida inteira. Ricardo então divide-se num diálogo consigo mesmo, e nessa cena eu enxergo a tragédia humana em estado bruto. Trabalhos de amor perdidos foi um desafio; a peça tem incontáveis trocadilhos, e por isso foi a tradução mais demorada de fazer, e precisei ser malabarista das palavras. Com essa tradução, ganhei o prêmio Açorianos 2007. Bem está o que bem acaba me fascina porque, ao final, temos reconciliações e casamentos (conforme a fórmula de estrutura das comédias elisabetanas), mas a peça acaba e nada está bem. Interessantíssima história, e a única peça de Shakespeare cuja heroína não é da nobreza. Finalmente, posso dizer que os meus diálogos preferidos estão em O mercador de Veneza – adoro histórias de tribunal e argumentações que dependem de Lógica. O mercador é um prato cheio. E os sofrimentos e as solidões de Antônio (o mercador) e de Shylock (o judeu) são de cortar o coração.

    L&PM – Existem muitas traduções das obras de Shakespeare para o português. Por que tantas traduções de um mesmo texto?
    Beatriz – Porque, cada geração de leitores/espectadores, é preciso retraduzir os textos teatrais. Os textos em sua língua original permanecem em sua forma original – estuda-se Shakespeare no Ensino Médio de países de língua inglesa assim como estuda-se Camões e Gil Vicente no Ensino Médio dos países de língua portuguesa. Não precisamos ler Camões em tradução, mas precisamos fazer um curso para fazermos a leitura de Camões no original. Além disso, por serem os grandes clássicos obras de domínio público (editá-las não requer contratos de direitos autorais), isso significa que a obra shakespeariana está aberta para receber tantas e quantas traduções as editoras quiserem publicar, no mundo inteiro. Como toda tradução de texto literário é também um texto criativo, não há duas traduções iguais de um mesmo texto – o que traz à tona justamente a riqueza poética do original (cada tradutor vai dar o seu tratamento às muitas dificuldades do texto, atendo-se mais ou menos à superfície textual, mais ou menos às entrelinhas, mais ou menos ao estudo da genética do texto). E cada tradutor tem sua “voz” no texto – seja num texto introdutório à tradução, seja em notas de rodapé, seja nas escolhas vocabulares ou de estruturas frasais. Concluo essa questão citando Márcia Martins, professora pesquisadora da PUC-Rio, em artigo sobre as traduções brasileiras de Shakespeare: “há versões para quase todo tipo de expectativa ou preferência: em prosa e verso, somente em prosa com dicção erudita, em linguagem coloquial, com maior ou menor ênfase nos trocadilhos, acentuando, mantendo ou suavizando a linguagem chula, com ou sem notas explicativas – enfim, uma ampla gama de ‘Shakespeares’ em português do Brasil que vêm sendo produzidos há mais de 70 anos por poetas e estudiosos. Novas traduções serão sempre muito bem-vindas, não para substituir as anteriores, mas para somar-se a elas, oferecendo novos olhares que ampliam as possibilidades de leitura de uma obra tão instigante e permanente. Os leitores agradecem”. (EntreLivros. Revista EntreClássicos, n.2. São Paulo: Duetto, 2006. p.98).

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