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Inicial Fórum Discussão Geral Discussão Geral sobre Shakespeare ENTREVISTA COM A TRADUTORA BÁRBARA HELIODORA

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    Barbara Heliodora é a única crítica literária corajosa o suficiente para, quando preciso, dizer: O rei está nu! Sem papas na língua, ela destoa do restante da crítica teatral brasileira e é capaz de tirar do sério os figurões do teatro nacional, acostumados à bajulação da imprensa. Ela já foi atriz, diretora e professora de teatro. Hoje, é tradutora e especialista na obra do velho Guilherme, “o meu amigo Shakespeare”, como costuma dizer. Lançando dois livros nessa virada de ano, uma tradução de Romeu e Julieta e Falando de Shakespeare [Perspectiva, 306 p., R$ 25,00], uma introdução magistral ao universo shakespeariano, ela fala em entrevista à CULT da relação entre cinema e teatro, de suas traduções e, é claro, explica por que Shakespeare é um gênio.

    CULT – Como você começou a se interessar por teatro e, depois, por Shakespeare especificamente?
    Barbara Heliadara Acho que o interesse por teatro é dessas coisas que toda criança sente, já que sempre representa e tem um mundo imaginativo muito fértil. Só que algumas continuam a gostar. Desde que sem confundir a realidade com a imaginação, isso não tem mal nenhum! (risos) Comecei ainda criança a gostar de teatro, como todo mundo. Mas daí em diante não sei explicar o que houve. Sei que, no Colégio Andrews, onde estudei, bem cedo a gente começava a aprender inglês. Então, aos doze anos, eu já sabia um pouco. Foi quando minha mãe me deu o volume das Obras completas de Shakespeare que ela tinha, no original. Comecei a ler meio aos trancos, claro, só conseguia ler uns pedacinhos, ia nos trechos mais famosos, esse tipo de coisa. Depois, mais velha, entrei na faculdade, em anglogermânicas, e comecei a estudar inglês mais a sério. Tirei uma bolsa e fui para os Estados Unidos. Lá me graduei como english major, especialista em literatura inglesa, e me voltei basicamente para os cursos de teatro. Estudei história do teatro, teatro contemporâneo, etc. E fiz um ano inteiro só de Shakespeare, de maneira que fui conhecendo um pouco mais, me envolvendo naquele universo maravilhoso.

    CULT – Você começou a carreira de crítica logo depois disso?
    B.H. Não. Depois da faculdade voltei para o Brasil e fiz aquela coisa bem de mulher brasileira daquela época: casei e tive filhos. Tempos depois, descasei, tornei a casar, tornei a descasar, e fui parar no Tablado, a escola de teatro da Maria Clara Machado.

    Eu sempre havia me interessado por teatro, mas nunca tinha passado por essa experiência que é o ensaio. Isso é que me fascina, a transformação de um texto escrito em espetáculo. Minha passagem por lá foi muito rica, apesar de ser teatro infantil, porque a Maria Clara é muito boa diretora e, pelo menos, eu estava vendo o teatro por dentro.

    CULT – Isso foi quando?
    B.H. Em 58. Lembro porque, enquanto estava lá, por alguma razão vagou o cargo de crítica de teatro no jornal Tribuna da Imprensa. Eu não tive peito de falar com o Carlos Lacerda, dono do jornal, embora o conhecesse desde os sete anos de idade, ou talvez por isso mesmo. Mas um amigo comum falou com ele, me indicando, e deu certo. Virei crítica profissional. Então o Shakespeare ficou assim uma coisa paralela, quer dizer, eu não fiz nada com ele durante muito tempo, a não ser gostar e estudar em casa. Em 64, fui ser diretora do Serviço Nacional do Teatro e comecei a me interessar pela reorganização do conservatório que havia. Feito isso, comecei a lecionar história do teatro, levei anos ensinando. Só saí de lá quando já era decana do Centro de Letras e Artes. É claro que Shakespeare estava incluído no currículo, mas eu não trabalhava só com isso.

    CULT – Quando foi, então, que Shakespeare ganhou maior peso na sua atividade intelectual e profissional?
    B.H. Meu primeiro artigo publicado sobre o assunto saiu na Inglaterra, em 1963. Nessa mesma época, enquanto eu lecionava história do teatro, decidi ensinar um Shakespeare que fosse o mais próximo possível do original. Encomendei uma tradução do Hamlet à minha mãe, que ela sim era poeta e fez uma tradução lindíssima. Passei a usá-la em classe. Minha mãe ainda traduziria para mim o Ricardo III, mas morreu cedo, e eu fiquei num mato sem cachorro.

    CULT – Quando você traduziu sua primeira peça?
    B.H. Há uns vinte anos. Foi a Comédia dos erros. Eu ia dirigir o espetáculo no teatro Gláucio Gil, e decidi traduzir pessoalmente. Queria uma linguagem muito coloquial, sobretudo nos escravos. É minha única tradução na qual entra gíria, porque era isso que correspondia à intenção de Shakespeare. De lá para cá comecei a traduzir, traduzir, Deus sabe por quê.

    CULT – Quantas traduções você já fez?
    B.H. Sem ser de Shakespeare, nem sei mais. Já traduzi de tudo. De Shakespeare, além das obras publicadas, estão prontas, esperando na fila, Júlio César, A tempestade, A megera domada e Otelo. O Rei Lear ainda estou acabando, mas já está em português, com os decassílabos, tudo direitinho.

    CULT – O que, no seu entender, faz a diferença entre as suas traduções e as outras existentes no Brasil?
    B.H. Tenho sempre o cuidado de preservar a forma, porque eu acho que quando a gente diz “Eu gosto da peça de Shakespeare” significa que gostamos da forma e do conteúdo. Então, traduzir o conteúdo em prosa é só metade do caminho. Traduzir em versos livres é só metade do caminho. Procuro traduzir na forma correta porque ela também é parte do que ele escreveu. Várias traduções feitas há mais tempo são um tanto quanto empoladas. Eu acho que Shakespeare basicamente não é assim. Ele é um autor popular, que constrói imagens até muito complexas, mas com uma linguagem simples. A maneira com que ele junta essas palavras é muito bonita. Ele não tinha sapato alto, não é um Samuel Beckett. Tanto que Ben Jonson (poeta e dramaturgo inglês, 1572-1637) dizia que Shakespeare era um autor de concessão, que se rebaixava ao escrever para o público em geral.

    CULT – Quando você traduz, você pensa no texto sendo encenado?
    B.H. Essa é a minha maior preocupação. Eu quero escrever um texto que não destronque o queixo do ator. Porque só o ator podendo dizer aquilo com aparente naturalidade é que ele vai conseguir transmitir o conteúdo para o público. É preciso haver fluência na relação entre ator e platéia.

    CULT – Muitos têm de você a imagem de uma especialista inflexível no que se refere às interpretações que a obra shakespeariana permite. O que você acha disso?
    B.H. Existem duas coisas: uma é a intenção do autor ao escrever; outra é o que ele pensa sobre o que escreveu. Seguir exclusivamente o que o autor pensa sobre seu trabalho iria inclusive contra o conceito de obra aberta, segundo o qual, uma vez escrita, a obra permite uma infinidade de interpretações possíveis. No caso de Shakespeare, então, seria impossível fazê-lo, visto que nós simplesmente não sabemos o que ele pensava sobre seus trabalhos. Agora, a intenção dele ao escrever determinada fala, cena, estrutura dramática, isso acho que dá para saber sim.

    CULT – Contradizendo isso, mesmo pontos teoricamente claros e explicitados por Shakespeare são, muitas vezes, origem de grandes polêmicas. Por exemplo: Hamlet estava ou não forjando uma loucura?
    B.H. Nesse caso acho que existe uma grande vontade de complicar o que é simples. Há uma indicação do autor muito precisa, tanto para o espectador quanto para o leitor ou estudioso. Se você sabe que, de acordo com as convenções do teatro elizabetano, o verso é a fala do pensamento harmônico, e se todos os monólogos são em verso, mesmo quando todos o consideram louco, é porque ele sozinho sabe mais, e só fala em prosa quando deseja que os outros o vejam como tal. A maioria dessas polêmicas é falsa. Eu continuo acreditando que a palavra comunique e, enquanto as pessoas continuarem usando a palavra para me explicar que a palavra não comunica, eu não acredito.

    CULT – O que é esse seu novo livro, Falando de Shakespeare?
    B.H. É uma apresentação de Shakespeare para iniciantes. Muita gente fica assustada porque, no Brasil, tradicionalmente, ele é visto como um autor dificílimo, que é preciso ser um inspirado dos deuses ou um privilegiado dessa ou daquela maneira para entender. Isso não é verdade. De maneira que as primeiras oito conferências reproduzidas no livro compõem uma série que eu fiz com o título “A trajetória de Shakespeare”. É um panorama geral, com muitas citações, para que as pessoas percam o medo. Depois vêm conferências sobre peças específicas e, finalmente, algumas sobre aspectos do trabalho dele, como a condução do público, por exemplo.

    CULT – No livro, você muitas vezes se refere ao Shakespeare como gênio. O que é um gênio?
    B.H. Definir gênio é impossível. É a história do Mozart, que recebeu uma carta de um garoto perguntando como é que se compunha uma sinfonia. Mozart respondeu que era melhor ele tentar uma coisa mais fácil. O menino respondeu que ele, Mozart, tinha composto sinfonias até com menos idade. E aí Mozart respondeu que sim, mas que nunca tinha perguntado o segredo para ninguém! (risos) Gênio é isso. Ser gênio é um defeito de fabricação, a pessoa nasce com um talento específico. Para você ser autor teatral, você precisa saber dizer alguma coisa a respeito do homem, sua atividade, sua relação com o Estado, o universo, etc., por meio de uma ação. Para isso você tem que ter a cabeça certa. Shakespeare era um gênio dramático, pois em todas as suas peças a estrutura da ação é uma metáfora do significado.

    CULT – As comédias de Shakespeare são inferiores às tragédias?
    B.H. A forma da comédia é uma forma menos sofisticada que a da tragédia. Quantas peças, que realmente mereçam o título de tragédias, já foram escritas no mundo? Relativamente poucas. Tragédia não é só acontecer uma desgraça no fim. Shakespeare, primeiro, faz tudo que é gênero, depois passa por essa fase na qual escreve várias comédias, porque aquilo ele já dominou. Mas está amadurecendo como pessoa, está conhecendo melhor o mundo à sua volta. Para chegar à tragédia, ele precisou de uma carga de treinamento maior. Agora, tanto a comédia não é uma bobagem, que as comédias shakespearianas chamadas “de ouro” são contemporâneas ao período das grandes tragédias.

    CULT – É comum, ao se montar Shakespeare, fazer as chamadas atualizações, deslocando a peça no tempo e no espaço.
    B.H. Você tem dois tipos de atualização. Uma coisa é, por exemplo, o que o Peter Brook (diretor de teatro e cinema britânico) faz. O famoso Lear de 1962, extremamente violento e brutal, Sonhos de uma noite de verão de 1970, radicalmente vanguardista, a maravilhosa A Tempestade, que montou em Paris com tradução do Jean Claude Carriere, tudo isso vale. Mas para ele o texto é intocável. É uma leitura contemporânea no sentido de que é um espetáculo visualmente moderno, de interpretação moderna, mas é uma coisa pensada. Se ele diz que quer fazer aquela peça, ele faz aquela peça. Mas quando as pessoas dizem que querem fazer aquela peça e fazem outra coisa, aí não vale. Pode até ser um bom espetáculo, mas não é Shakespeare.

    CULT – O que você achou do manuscrito recentemente encontrado na Inglaterra, que seria um inédito de Shakespeare?
    B.H. O manuscrito é uma elegia fúnebre a um jovem aristocrata, escrita em 1612. Estava assinado WS e pertenceu ao mesmo tipógrafo que publicou os Sonetos de Shakespeare. Daí o boato que o manuscrito seria de Shakespeare. Mas quando você vai ler, os versos não têm nada a ver com todo o resto que ele fez na vida. Os versos são mais curtos, menos inspirados, uma chatice. Não acredito que, mesmo na hipótese de ser de Shakespeare, a Elegia fúnebre tenha maior importância na análise do conjunto de sua obra.

    REVISTA: CULT. Nº. 8
    DATA: março de 1998
    PÁGINA: 9- 13

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